Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
A guerrilha não passará!...
quarta-feira, 28 de abril de 2010
O Dragão e o Elefante
Lê-se na introdução: "São três mil e quinhentos milhões: São mais jovens, trabalham e estudam mais do que nós. Têm mais poupanças e mais capital para investir. Inúmeros Prémios Nobel. Os seus salários são muitíssimo mais baixos. Têm arsenais nucleares e exércitos de pobres. A China e a Índia não são apenas as duas nações mais populosas do planeta: são o novo centro do mundo." Palavras que revelam o programa da obra. O autor, Federico Rampini, é correspondente do "La Repubblica" em Pequim. Publicou anteriormente "O Século Chinês", um êxito editorial. Conhece pois muito bem o terreno de que nos fala, combinando o método do jornalista e o entusiasmo do narrador. Aqui, o leitor é conduzido numa visita guiada através dos dois países, sendo analisadas as perspectivas de competição e colaboração das duas economias num futuro próximo e os motivos pelos quais a China e a Índia serão responsáveis por 42% do PIB mundial em 2030, deixando para trás os Estados Unidos com 23% e a Europa com apenas 16%. E por detrás dos números, equaciona a complexa realidade que os suporta, socorrendo-se de uma bem documentada análise política e cultural dos dois países, numa perspectiva dinâmica e aberta. Em suma, Rampini revela por que é que a China e a Índia serão no futuro próximo os pesos-pesados da economia global. Sem deixar, porém, de destacar as contradições do regime ditatorial chinês: uma cleptocracia paternalista, em que uma economia de mercado predatória, sem limites, embora sob a tutela do Partido Comunista (cuja nomenclatura se transformou numa ávida classe de empresários), coexiste com a ausência de regras democráticas, de direitos fundamentais e de qualquer modelo de solidariedade social. Onde os custos da perfomance económica passam pelo números do trabalho infantil, pela deslocalização forçada de populações inteiras, pelo pesadelo ambiental - Xangai, Cantão e Pequim, cada uma com cerca de 20 milhões de habitantes, estão envoltas num permanente fumo tóxico, os principais rios são pouco mais que esgotos a céu aberto, com níveis de poluentes químicos assustadores, as condições sanitárias nas áreas populosas são propícias ao desenvolvimento de novas epidemias, etc -, pelas circunstâncias infra-humanas, de quase escravatura, em que vivem e trabalham grande parte dos operários fabris. Os quais chegam aos milhões todos os anos às grandes metrópoles, vindos das zonas rurais. A exploração é comum tanto às unidades mais pequenas (trabalho ao domicílio no ramo das confecções e sapatos) como àquelas de grande dimensão que as multinacionais subcontratam, da Nike à Timberland, da Walt Disney à Puma. Do outro lado, o enorme teste por que passa a maior democracia do planeta, sobretudo depois do episódio do estado de sítio declarado por Indira Gandhi nos anos 70. Ás voltas com níveis de corrupção altíssimos e uma burocracia paralisante.Algumas curiosidades são relatadas, escolhidas de entre centenas: as autoridades de Nova Deli conseguiram remover as vacas da cidade através de um microchip desenvolvido localmente e implantado nos animais; os números do Instituto Indiano da Ciência, em Bangalore (a Silicon Valey indiana), a mais selectiva das Universidades, de onde saem os investigadores mais procurados pelas multinacionais da informática e da electrónica; porque é que a prevista cotação do iuane - a moeda chinesa, recentemente revalorizada, o que tornou o made in China um pouco mais caro, para alívio da Europa e EUA - pode constituir uma autêntica revolução nos mercados financeiros; as contrapartidas que o Governo chinês impôs à Airbus para firmar o recente contrato de fornecimento de 150 aviões A320; as notas de euro poderão ser impressas na Malásia, porque a empresa holandesa qua ganhou o respectivo concurso aí montou a sua principal unidade de produção. Imprescindível para a compreensão do mundo actual.
domingo, 31 de maio de 2009
Esquema de uma nova ideologia política
Há que admitir que o 25 de Abril morreu e, com ele, a ideologia de Esquerda. Por outro lado, a ideologia de Direita serviu apenas de reacção à ideologia de Esquerda. Esta, a da Esquerda, tinha tomado a dianteira com a implantação da República e, provavelmente, já com a Revolução liberal de 1820. Os apelos à Liberdade deram alívio a muita coisa que oprimia a mente dos portugueses mas mostraram-se pouco produtivos em termos concretos. Do Império onde muitas pessoas foram humilhadas na sua dignidade humana básica e cultural, mas também dum Império que foi constituído por obrigação das potências europeias que queriam dividir um mundo onde Portugal estava há cinco séculos sobretudo para fugir das escravaturas da Europa, passou-se para os Fundos comunitários. O projecto português, portanto, foi passando de uma para outra muleta, cada vez mais incapaz. Razões que se perdem na noite dos tempos continuam, todavia, a obrigar-nos à nossa especificidade, muito mais profunda que a dos bascos ou catalães, dos bretões, os dos bósnios. Não é fácil nem viável dissolver Portugal. O reconhecimento da morte do 25 de Abril dispensa-nos igualmente de procurar saber se foi feito por pessoas mal-intencionadas, nomeadamente responsáveis pelas tragédias que constituíram as Guerras civis em várias ex-colónias. O que importa reconhecer é que uma Democracia directamente inspirada no 25 de Abril, quer dizer, uma Democracia baseada fundamentalmente na Ideologia de Esquerda ou de uma Direita que a segue, não é viável. A sociedade portuguesa mostra sinais de grande sofrimento e mesmo de dissolução. A Esquerda tem uma capacidade muito grande de manifestar este sofrimento mas não tem capacidade nem de lhe pôr fim nem de o prevenir. O Estado não faz a sociedade, não produz comida, não gere a família. A Direita é apenas a reacção para endireitar um desvio que se processa há muito tempo e não tem capacidade de endireitar algo que é profundamente torto, acabando por ganhar a forma desta tortura. As soluções extremistas, quer de Direita, quer de Esquerda, apenas aumentariam estes males, provocando, quando muito, uma reacção contra ambas que não se sabe como seria, mas que não seria certamente nem meiga, nem racional. Há que, portanto, ultrapassar a Direita e a Esquerda, nomeadamente limitando um universo de perspectivas em que só a Direita ou a Esquerda podem fornecer soluções. Não se trata esta de uma questão «técnica» de Ciência política, algo em que todos somos cientistas, desde que nascemos. A primeira solução é também a de limitar os efeitos concretos de votações ou eleições desestabilizadoras, nomeadamente começando por refrear e condicionar o fenómeno político. Uma solução que já provou – e durante vários séculos – é a de estabelecer uma Chefia de Estado que não seja elegível, como a de uma Monarquia. E outros órgãos de Estado não deverão ser tão-pouco elegíveis mas apenas mudarem de acordo com outros critérios, uns baseados na tradição, outros no consenso e outros na utilidade e no bom senso. A segunda solução é a de que, sendo certo que proclamar um Rei sobre a República não nos vai resolver problemas sociais profundos que aliás afligem o mundo inteiro, há que procurar uma nova ideologia política, pelo valor de ordenação que esta tem. A busca dessa nova ideologia política não se faz a somar e diminuir, nem a vamos consultar à bruxa, mas é um conjunto de ideais que implicam sacrifício e que se não realizarão facilmente como uma promessa que apenas falta cumprir. Essa ideologia política é necessária, precisará talvez de outras datas que esconjurem o fantasma do 25 de Abril e terá que voltar-se para a resolução urgente dos problemas concretos das pessoas concretas que nos rodeiam, de um modo muitas vezes experimental. O mérito desta etapa das nossas vidas será avaliado – como tantas vezes aconteceu – de um modo que ainda não sabemos.
André
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Tábua de marés (21)
Realização: Jia Zhang-Ke
China/Hong Kong, 2006
Pequeno Auditório do TMG, 3 de dezembro
Testemunhas de um ambiente pré-Tiananmen, grande parte dos novos realizadores chineses só começaram a filmar depois de 1989. Ao contrário do que se chama a 5ª Geração de cinema chinês que, como Zhang Yimou, viveram a Revolução Cultural, o novo grupo, a que já se chamou 6ª Geração, nasceu num país com outros horizontes.
Nos últimos anos, depois da presença em vários festivais, Jia Zhangke começou a poder ver os filmes exibidos no seu país, embora o maior mercado seja o da pirataria, algo que o realizador inclusive usa com ironia num dos seus filmes – “Prazeres Desconhecidos” – onde um personagem pergunta a outro que filmes tem para vender e refere várias das obras de Jia Zhangke. Mas se o filme sobre a Barragem das Três Gargantas – “Natureza Morta” – e outro sobre os trabalhadores de um parque temático de Pequim – “O Mundo” – já entraram no que oficialmente se chama a produção chinesa, Jia Zhangke continua a ter filmes banidos no seu país. “Prazeres Desconhecidos” (2002) é apenas um deles, a que se junta “Pickpocket” (1998) e “Plataforma” (2000). Embora o seu nome seja mais conhecido na China, e o facto de já ter sido premiado duas vezes na Festival de Veneza – primeiro com “Natureza Morta” que recebeu o Leão de Ouro em 2006 e este ano com “Useless”- entre muitas outras distinções, como por exemplo no Indie Lisboa/2004, sejam factores a ajudar à sua divulgação nos meios de comunicação chineses, o realizador não colhe a unanimidade no seu país.. Uma parte do público considera os seus filmes aborrecidos e a falta de marketing leva a que a questão de deslocar milhões de pessoas das Três Gargantas não seja um tema fácil de comercializar no país. Como nos anteriores filmes de Zhang Ke Jia, é mais uma vez a força da brisa sobre a realidade que serve de mote aos eventos. Assistimos a duas histórias diferentes de estranhos que chegam a uma terra desoladora, desconhecedores de que a construção de uma barragem submergiu a cidade e por conseguinte as moradas que vinham visitar. Um mineiro procura a mulher e a filha que não vê há dezasseis anos, e uma jovem esposa vem em busca do marido que não regressa há dois anos. Estas duas histórias fundem-se com o cenário de miséria reinante, cheio de pequenos vigaristas, corrupções, os realojamentos sumários e as diárias demolições dos prédios que serão submersos na fase seguinte da barragem, demolições essas que se fazem à custa de braços e picaretas, sem a ajuda de qualquer maquinaria pesada, a qual é inexistente. As dificuldades são apresentadas com uma poesia desarmante, numa simplicidade igual à da água e uma brutalidade como a do cimento. Há quem consiga o que quer e quem volte de mãos a abanar, mas o cinéfilo sai do cinema com uma visão mais abrangente, de uma China que continua a funcionar a um ritmo diferente, com uma cultura que resiste ao tempo e a inovações. A esperança é abalada, mas pelo menos há uma barragem em construção, sinal de um progresso que tem de começar por algum lado. Sendo o preço a perda de identidade. Aqui o símbolo do confronto é a antiga cidade de Fengjie, prestes a ser erradicada do mapa e submersa pela imensa barragem no vale das Três Gargantas. Esta povoação torna-se então o ponto de encontro de estranhos que vão para lá procurar um lugar nos trabalhos de demolição. Mas os protagonistas do filme, um homem que vai em busca da sua mulher e da filha e uma mulher do seu marido, ambos provenientes de uma província rural da China. Apesar da similitude das suas peregrinações, eles nunca se cruzam. Mas ambos representam o elemento familiar, espelhado no carácter doméstico dos capítulos, de uma cidade quase alienígena, onde até existe lugar para discos voadores. A paisagem desoladora do cimento e vigas expostas contrasta com a honestidade emocional das personagens, que acabam por ser destituídas pelos fantasmas dos edifícios, atrozes transfiguradores da viagem de purificação em que inconscientemente enveredaram. Existe um sentimento próximo de um romantismo auto-destrutivo na maneira como Jia Zhang-Ke filma os cenários devastados da cidade em ruínas, como um prelúdio obrigatório para o que virá a seguir. Em Shijie (O Mundo), o realizador falhou em transmitir no final a mensagem a que se propôs, a de uma China que tenta forçosamente agarrar um lugar no mundo do séc. XXI, mas ignorando a riqueza da sua própria cultura. Aqui fá-lo com a contenção arrebatada de um lamento e de um derradeiro sussurro de socorro.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
As novas oportunidades
segunda-feira, 17 de setembro de 2007
O querido líder

Não obstante, fixemo-nos no exemplo e façamos de Barthes. Olhemos para o mito e esqueçamos o pathos ideológico. Decifremos a mensagem e ignoremos o mensageiro. O que temos? Por um lado, publicidade pura e dura: um conteúdo promocional, necessariamente subjectivo, que por persuasão ou simples sugestão, apela à sua adesão. Se lá constasse "empresa líder do mercado, aconselhada pelas principais marcas, vai fazer uma revolução nos preços", a diferença seria assim tanta? Mas há também a marca inefável de uma inocência quase escandalosa, pueril. Que afasta qualquer suspeita de filiação num programa povoado de sombras e de monstros.
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
O Dragão e o Elefante
Lê-se na introdução: "São três mil e quinhentos milhões: São mais jovens, trabalham e estudam mais do que nós. Têm mais poupanças e mais capital para investir. Inúmeros Prémios Nobel. Os seus salários são muitíssimo mais baixos. Têm arsenais nucleares e exércitos de pobres. A China e a Índia não são apenas as duas nações mais populosas do planeta: são o novo centro do mundo." Palavras que revelam o programa da obra. O autor, Federico Rampini, é correspondente do "La Repubblica" em Pequim. Publicou anteriormente "O Século Chinês", um êxito editorial. Conhece pois muito bem o terreno de que nos fala, combinando o método do jornalista e o entusiasmo do narrador. Aqui, o leitor é conduzido numa visita guiada através dos dois países, sendo analisadas as perspectivas de competição e colaboração das duas economias num futuro próximo e os motivos pelos quais a China e a Índia serão responsáveis por 42% do PIB mundial em 2030, deixando para trás os Estados Unidos com 23% e a Europa com apenas 16%. E por detrás dos números, equaciona a complexa realidade que os suporta, socorrendo-se de uma bem documentada análise política e cultural dos dois países, numa perspectiva dinâmica e aberta. Em suma, Rampini revela por que é que a China e a Índia serão no futuro próximo os pesos-pesados da economia global. Sem deixar, porém, de destacar as contradições do regime ditatorial chinês: uma cleptocracia paternalista, em que uma economia de mercado predatória, sem limites, embora sob a tutela do Partido Comunista (cuja nomenclatura se transformou numa ávida classe de empresários), coexiste com a ausência de regras democráticas, de direitos fundamentais e de qualquer modelo de solidariedade social. Onde os custos da perfomance económica passam pelo números do trabalho infantil, pela deslocalização forçada de populações inteiras, pelo pesadelo ambiental - Xangai, Cantão e Pequim, cada uma com cerca de 20 milhões de habitantes, estão envoltas num permanente fumo tóxico, os principais rios são pouco mais que esgotos a céu aberto, com níveis de poluentes químicos assustadores, as condições sanitárias nas áreas populosas são propícias ao desenvolvimento de novas epidemias, etc -, pelas circunstâncias infra-humanas, de quase escravatura, em que vivem e trabalham grande parte dos trabalhadores fabris. Os quais chegam aos milhões todos os anos às grandes metrópoles, vindos das zonas rurais. A exploração é comum tanto às unidades mais pequenas (trabalho ao domicílio no ramo das confecções e sapatos) como àquelas de grande dimensão que as multinacionais subcontratam, da Nike à Timberland, da Walt Disney à Puma. Do outro lado, o enorme teste por que passa a maior democracia do planeta, sobretudo depois do episódio do estado de sítio declarado por Indira Gandhi nos anos 70. Ás voltas com níveis de corrupção altíssimos e uma burocracia paralisante.Algumas curiosidades são relatadas, escolhidas de entre centenas: as autoridades de Nova Deli conseguiram remover as vacas da cidade através de um microchip desenvolvido localmente e implantado nos animais; os números do Instituto Indiano da Ciência, em Bangalore (a Silicon Valey indiana), a mais selectiva das Universidades, de onde saem os investigadores mais procurados pelas multinacionais da informática e da electrónica; porque é que a prevista cotação do iuane - a moeda chinesa, recentemente revalorizada, o que tornou o made in China um pouco mais caro, para alívio da Europa e EUA - pode constituir uma autêntica revolução nos mercados financeiros; as contrapartidas que o Governo chinês impôs à Airbus para firmar o recente contrato de fornecimento de 150 aviões A320; as notas de euro poderão ser impressas na Malásia, porque a empresa holandesa qua ganhou o respectivo concurso aí montou a sua principal unidade de produção. Imprescindível para a compreensão do mundo actual.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
A cegueira
Li há pouco o livro de memórias de Maria Filomena Mónica, intitulado "Bilhete de Identidade". Aparte o comentário à obra, que ficará para outra altura, detive-me num episódio relatado na página 325. No início do "Verão quente", em Maio de 1975, Jean-Paul Sartre foi fotografado a empunhar uma G-3 à entrada do Ralis, o celebrizado quartel general dos SUV (Soldados Unidos Vencerão) e onde teve lugar o famoso juramento de bandeira com o punho erguido. O chamado turismo revolucionário estava no auge. Todos os dias desembarcavam em Portugal resmas de artistas e intelectuais franceses com a ressaca do Maio de 68, deslumbrados com uma revolução doce e portátil. Touraine, Cohn-Bendit, Althusser e outros andaram por aí, tentando perceber porque é que um sopro mais forte fez ruir um regime ditatorial. E também comprovar, no convívio com o povo "genuíno" e os seus ainda mais "genuínos" intérpretes, a validade do seu pensamento engagé. Nesta altura, o marxismo era tema obrigatório, mesmo nas Universidade mais conceituadas. Poucos eram os intelectuais "de esquerda" que ousavam criticar o "socialismo real" praticado a Leste, apesar da Hungria e da Primavera checa. A simpatia de alguns iconoclastas ia para... a revolução cultural chinesa. A linhagem de Sartre provem de Breton, Aragon, Éluard, Malraux. Todos eles fascinados com Estaline e as delícias dos planos quinquenais. Nunca se ouviu das suas bocas a mais leve alusão aos kulaks. Que descansem em paz.