Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Lido

Da pieguice

Não me surpreende a costumeira indignação dos cry babies saudosos do bom velho agit prop, por causa de uma afirmação de Passos Coelho numa conferência académica acerca da congénita pieguice dos portugueses. Alguns desses portugueses, uns por osmose com catecismos de outros tempos, já em fase de morte assistida, outros por obrigação "revolucionária", outros por ressabiamento, outros porque uma ilusão de que l´air du temps ainda é o seu particular l'air du temps, esganiçaram-se num alvoroço de capoeira contra a recomendação da Passos Coelho. Devo dizer que não me surpreendeu a regulamentar halitosis ideológica propalada pelos chefes da esquerda "revolucionária" com assento parlamentar. No entanto, confesso que a má citação de Camões por Zorrinho, líder parlamentar do PS, me deixou boquiaberto. Seja como for, o 1º ministro acertou em cheio. Juntamente com a inveja, a fome social e o medo da cidadania, a pieguice é um dos sintomas mais graves da degenerescência nacional. Uma coisa é a luta individual, anónima, muitas vezes heróica, de milhões de portugueses, por uma vida digna. Isso é sério e intangível. Outra coisa é a sua caricatura: precisamente a pieguice. Ou seja, o hábito da queixinha, da eterna lamentação, da revolta desperdiçada, do papaguear de catecismos exóticos, decalcados do tempo em que a palavra ainda fundava o poder. Ou seja, um colete de forças letal. Tudo isto enquanto as guitarras tangem e se canta o fado...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

O buraco

Uma das características mais irritantes e empobrecedoras dos portugueses é o seu secreto fascínio pelo mando e por quem o exerce. Que cria uma original desigualdade na apreciação de um mesmo comportamento, consoante quem o pratica. Reparem que falo em mando e não em poder. Essa tendência anda de mãos dadas com episódicos actos de barbárie, mais próprios da turbamulta descontrolada. Como exemplo maior, temos o fascínio pelos autos de fé, ou o tristemente célebre massacre de judeus em Lisboa, em 1503, por instigação de um cristianíssimo frade dominicano. Essa bipolaridade, na forma como são encarados os vilões consoante o seu poderio, é só aparente. Ou seja, esse fascínio que mencionei revela-se por vezes das formas mais caricatas. Veja-se o que se passa com a "descoberta" do buraco orçamental da Madeira. É claro que o régulo Jardim se limitou a reproduzir os tiques despesistas e os modelos de desenvolvimeto dos seus émulos políticos do continente. Começando, por exemplo, em Cavaco Silva. Refiro-me, obviamente ao que nos foi vendido de há 25 anos para cá: "desenvolvimento" baseado no betão e na despesa pública descontrolada que o dinheiro fácil da UE tornou possível. Todavia, essa venalidade paga por todos adquiriu aí uma dimensão terceiro-mundista, num território onde não funcionam os mecanismos tipicamente democráticos de controlo, fiscalização e alteridade do poder. Exposta perante a opinião pública esta gestão danosa dos dinheiros públicos, a reacção não se fez esperar: Jardim passou a bode expiatório de todas as trapalhadas onde andamos metidos. Quando na verdade o homem é simplesmente um bom aprendiz de feiticeiro. O mesmo que tirou partido da conjuntura favorável, das lealdades partidárias, dos votos "vendidos" na AR, de ter prosperado numa coutada por si criada, onde a democracia foi "suspensa" ad eternum e, sobretudo, da vista grossa de quem já há muito deveria ter denunciado o regabofe. É isto que é preciso ser dito. Responsabilizando-o politica e, sendo o caso, criminalmente, pela "façanha". Voltemos agora ao início desta reflexão. Perante essa exigência da saúde democrática do regime que é apear Jardim e sua clique, apareceram logo as consciências de aluguer do costume: comentadores avulso (do programa "contraditório" da Antena 1, por exemplo) que não "alinham no coro das críticas" a Jardim, uma "excelente pessoa", acrescentam; políticos menores, que não perdem uma oportunidade de ter um microfone estendido (Morais Sarmento, por exemplo, critica o "linchamento público" do rei do Carnaval madeirense). E a que se deve esta originalidade desculpadora? Em minha opinião, precisamente ao tal fascínio pelo mando e por quem o exerce. Se se descobrisse que um simples cidadão tinha feito umas habilidades com dinheiros públicos, ninguém poria a mão no fogo por ele, nem nenhuma instância ou comentador levantaria o princípio sagrado do in dubio pro reu. É precisamente esse mesmo fascínio que leva, a quem por ele é tomado, a passar por cima de normas básicas de comportamento. A justificar nos outros a afirmação do "triunfo", do "sucesso". A buscar nos outros um poder alucinado, demencial. Apagando em si o que resta da empatia e da vitalidade indispensáveis ao amor. Afinal, o verdadeiro poder. 

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Acerca do ópio para o povo

E pronto, depois do Futebol, já só falta falar de Fado e de Fátima para compor a tríade revivalista, que muitos entendem ter sobrevivido na Democracia. Mas de Fado não me lerão por aqui uma linha que seja. Prefiro ouvi-lo, simplesmente. De preferência, em locais pouco recomendáveis. Sobre Fátima, coloco-me tão só no terreno da História. Outras paragens são escorregadias e invioláveis. Seja como for, não creio que a trilogia signifique hoje o mesmo, ou tenha o mesmo peso que já teve. Para já, importa dizer que, tirando as décadas de 1830 e 40, quando as principais reformas liberais liquidaram o Antigo Regime, nunca o país mudou tanto e tão depressa como nos últimos 30 anos. E essas mudanças abrangem muito mais do que simples grandezas estatísticas... Mas será que esta transformação deixou intocados determinados sistemas de representação colectiva, de que a tríade é o exemplo máximo? A resposta, a meu ver, não é linear. E aqui, socorro-me de um comentário que já deixei noutro local, sobre o mesmo assunto. É que o cerne do problema não está nessas manifestações, mas na forma como são instrumentalizadas. Todos os regimes e sistemas políticos necessitam de signos (uma estética, uma linguagem, uma narrativa, um conjunto de representações simbólicas) que o legitimem. Todos, sem excepção. Até as democracias. E um pouco  forçado apresentar a tríade dos 3F como uma criação exclusiva do Estado Novo. Fátima nasceu antes, como uma reacção do país rural contra os desmandos anti-clericais da 1ª república, a profunda crise económica e política que se deu após a nossa entrada na Grande Guerra e a síncope moral que esta infligiu. O Fado é muito, muito mais do que a canção oficial do Estado Novo. Sobra o Futebol. Trata-se de um fenómeno universal, um ersatz da agressividade e da competição, que assim ganharam um meio pacífico e viável de se expressarem, sob forma lúdica. Também há quem veja em certos momentos de bom futebol a inteligência em movimento. Mas essa análise ficará para depois. Foram instrumentalizados pelo Estado Novo? Sim, mas podia ser de outra maneira? Não conheço nenhum regime - do espectáculo concentrado ou difuso, utilizando a terminologia de Debord, ou noutra perspectiva, pré-industrial ou hedonista, segundo Pasolini - onde esse tipo de apropriação não tenha acontecido. Acabei de ver o magnífico documentário "Fantasia Lusitana", de João Canijo. Através dele, percebi que a gigantesca encenação que o Estado Novo criou de si mesmo, recorrendo à recomposição fantasista dos mitos do passado para serem projectados no presente, não foi sequer original. A originalidade, no contexto delicado e apocalíptico da II Guerra, foi ter transmutado a nossa insignificância numa grandeza oficial tão solene quanto ecuménica. Espectáculo para dois públicos distintos, é bom dizer-se: internamente, capaz de insuflar um orgulho desmedido num país pobre, atrasado e infantilizado. Para o exterior, criando a imagem de um oásis de paz, tolerância e universalismo. Uma neutralidade festiva, um arranjo floral para que as potências beligerantes, julgando-nos loucos simpáticos e exóticos,  nos tomassem tão entretidos com a sua celebração que, por decência, ou talvez por compaixão, não nos interrompessem o desfrute desse delírio. Por falar em tríade, creio que a outra bem conhecida - Deus, Pátria, Autoridade - talvez se aproxime mais da verdade para definir o Estado Novo. 
A máxima dos 3F foi pois uma espécie de adorno omnipresente no cenário do Portugal dos Pequeninos, criado pelo regime para se amparar e justificar. A melodia certa para a canção com que o país foi embalado durante meio século. Mas foi só isso, um instrumento.  Na democracia, por razões óbvias, está muito longe desse desiderato. Aqui, cada um dos vértices tomou caminhos diferentes. A religião transformou-se progressivamente numa questão privada e o laicismo tornou-se uma realidade inquestionável. O Papa movimenta multidões, não enquanto expressão de fé, mas como puro espectáculo. O Fado ganhou merecidamente a condição de género musical nacional (embora não oficial), enriquecido com novas experiências e contributos díspares, que só a liberdade tornou possível. O Futebol, por sua vez,  veio a ser um exemplo de sucesso da indústria do entretenimento, de acordo com um modelo empresarial e com a utilização intensiva dos media. Mas tornou-se também palco para reivindicações políticas locais e regionais. Impôs uma redoma à sua volta, que o protege da fiscalização dos poderes constituídos, criando assim uma espécie de imunidade, onde impera uma lógica de funcionamento diferente do resto da sociedade. Mas se, no caso do futebol, se pode falar com propriedade em instrumentalização pelo poder, ela é mais visível a nível local. Juntando no caldeirão as relações com o sector da construção civil, temos uma  mistura explosiva. Mas onde as diferenças se fazem notar com maior acuidade é nos meios financeiros que o futebol movimenta. Sobretudo nos clubes de topo, passou-se de um modelo associativo para as SAD, onde os activos financeiros, os direitos televisivos e o merchandising são determinantes. Portanto, se no Estado Novo o Futebol foi convenientemente utilizado pelo regime para fins propagandísticos e domesticação da natural conflitualidade, na Democracia aparece como um fenómeno de massas incontornável, um espelho da sociedade, incluindo o seu lado perverso.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Lido

«Sócrates transformou a política numa comédia de enganos, que já não engana ninguém; e que as circunstâncias não encorajam a credulidade do cidadão comum. Ainda por cima, não existe maneira de atribuir a longa estagnação da economia portuguesa, o défice do Estado, a dívida externa e o afastamento da "Europa" ao carácter depressivo e malévolo de uns tantos "descontentes". No Restelo, estão agora economistas com números e bastam esses números para justificar as profecias mais lúgubres. Parece que, afinal, os pessimistas tinham razão. Numa semana (e falta ouvir Medina Carreira), Silva Lopes, Ernâni Lopes, Campos e Cunha e Bagão Félix mostraram bem como o desânimo se tornou irreversível. Ernâni Lopes resumiu o sentimento geral. "Esta década", disse ele, "é uma década sem garra, sem ideias, sem verdade, sem força, sem lucidez, sem substância... (É) uma década de incapacidade na visão estratégica e de fantasia na leitura da realidade económico-financeira... (É uma década de um) permanente esforço exibicionista sem conteúdo e uma expressão sem nobreza... Nunca vi nada assim." Convém lembrar que, nesta década (de facto, quase década e meia), governaram Portugal Guterres, Barroso, Santana e Sócrates. No total, 11 anos de PS, três de PSD. E Sócrates continua.»

Vasco Pulido Valente, no "Público" de 6/11

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Lido

Ontem foram criados muitos empregos: 308 para Presidente de Câmara, 4 260 para Presidente de Junta de Freguesia, 2633 para deputados municipais. Começou a retoma económica.

no "Combustões"

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O pronunciamento

A República foi instaurada há 99 anos. Os anos de violência e demagogia que se seguiram mais parecem um guião para um filme de terror. Não é que eu tenha uma especial simpatia pela causa monárquica, mas cada vez mais sinto que, nesta data, nada encontro que me empurre para o entusiasmo de uma comemoração, ou para a simpatia com um suposto movimento regenerador. Que produziu algumas reformas de vulto e pouco mais. Portanto, exaltem-se os heróis, dignifiquem-se os visionários, aprenda-se com os erros e lembrem-se as vítimas. E é tudo...

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Lido

Recomendo a leitura deste excelente texto no "Combustões", intitulado "Saber viver num país pobre ou temos de voltar aos anos 60". Aqui fica um excerto:
(...) Agora, não há dinheiro fácil, não há empresas portuguesas nem marcas portuguesas, nem investimento português ou estrangeiro que se consigam lobrigar na complexidade crescente da trama económica global. Perdemos em Portugal, perdemos no "espaço económico português", perdemos na corrida à fixação de novas tecnologias, perdemos cérebros e vamos, lenta e inapelavelmente, voltando aos concursos de costureiras, às inaugurações de nada, às visitas de estrelas de cinema "em busca de sol e praia". Não deixa de ser significativo o facto de, a partir de finais da década de 90, Portugal regredir cada ano nas estatísticas da OCDE e do Banco Mundial. Corremos o grave risco de sermos ultrapassados pela totalidade dos Estados do ex-bloco comunista e de, acorrentados à fatalidade espanhola, dependermos das flutuações e ritmos da economia vizinha.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Os novos povoadores

"Em Portugal, 42% da população vive em 5% do território. Apenas 3,5% da população vive em cidades médias: Coimbra e Braga. Isto significa que 42% da população vive imobilizada sobre si e 54,5% da população no "interior profundo". Segundo dados da ONU, em 2015 a situação será ainda mais caótica: 69,2% da população portuguesa viverá nas duas áreas metropolitanas. Em Espanha, 25% da população vive em cidades médias, no total de 32." Estes números, que só não surpreendem quem não assiste a esta realidade, aqui bem no centro do chamado interior profundo, são revelados no blogue "Inovação & Inclusão". O qual funciona como porta-voz de um projecto recente, apoiado pela ANM, chamado "Novos Povoadores". Claro que, no século XXI já não existem as amnistias generalizadas para quem opte por viver nas áreas do "no man's land", nem forais prometendo benefícios e isenções fiscais, "propostas irrecusáveis" com que os reis da 1ª dinastia acenaram aos potenciais pioneiros. E não se pode encarar 2/3 do território nacional como um pacato e remoto "couto de hominizados". A ideia para o projecto surgiu a partir de três licenciados. Tem precisamente como objectivo obstar ao êxodo demográfico e de competências no interior. Promovendo a fixação de famílias constituídas por profissionais qualificados em algumas cidades médias, com boas acessibilidades, e cujas autarquias acolham o programa. Até agora, já houve 100 candidaturas e em Setembro irão ser instaladas as primeiras 25, em Abrantes. As novidades sobre o desenrolar deste projecto vão sendo actualizadas também na respectiva página do Twitter, que sigo. Ora, entre as cidades piloto do programa figuram, por exemplo Castelo Branco e Viseu. Sobre a Guarda, nenhuma menção. E não se julgue que esta afirmação é firmada em algum tipo de regionalismo atávico. As razões são outras. A desertificação é negativa para o país no seu todo e não só para o interior. Contra ela, não bastam as promessas sazonais dos políticos, nem a generosa captação de investimentos. É a proliferação de programas como este, pensados a médio prazo, sustentados e cujo retorno não se mede em cifrões, mas em níveis de qualificação e competitividade, que verdadeiramente pode fazer inverter a sangria demográfica do interior para o litoral. Projectos esses onde o princípio da discriminação positiva é encarado sem preconceitos e onde o apelo ao empreendorismo e à criação de know how são as palavras-chave. Só que, pelos vistos, ao alhear-se da iniciativa, o executivo da autarquia guardense parece continuar a definir como prioridades o betão e as grandes superfícies. Depois admirem-se que "isto", qualquer dia, "é só paisagem".

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Lido

Diz-se que Medina Carreira terá avaliado em dois mil milhões de contos o montante de dinheiros mal parados recebidos da Europa por Portugal ao longo de vinte e cinco anos; ou seja, mais de setenta milhões de contos desaparecidos, dados, esbanjados, mal aplicados e desviados anualmente pelas curibecas agora finalmente postas a descoberto pelas primeiras [e tremendas] revelações do escândalo que abala o país. Compreende-se, assim, o atraso, a impreparação, a falta de competitividade das empresas e dos trabalhadores portugueses. Se a esta soma quase cósmica aduzirmos os milhões de milhões de contos gastos anualmente com a fulanagem inútil que serve os aparelhos partidários - os eurodeputados, os deputados, os presidentes de câmaras, as assessorias (vulgo boys), as aquisições de serviços a familiares, amigos, primos e protegidos - trememos de espanto e indignação. Portugal não pode sobreviver se continuar entregue a tal camarilha devorista. Temos sido, literalmente, sugados até ao tutano por gente que nem para arrumadores de cinema presta. Tempos houve em que o Estado era rico, pagava mal aos seus servidores e dava o exemplo a um país pobre. Hoje, com o Estado pobre, brincamos impudicamente com a pobreza sem esperança de um país definitivamente encostado à berma da história e pagamos regiamente a funcionários de partidos que ainda têm o supino atrevimento de chamar parasitas aos funcionários do Estado.

Miguel Castelo-Branco, no "Combustões"

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A diferença


«O olhar cosmopolita de [Eduardo] Lourenço fez, desde o princípio, toda a diferença. Não se trata do cosmopolitismo “de aeroporto” hoje tão em voga, mas de uma perspectiva sobre o mundo que combina uma fina atenção à actualidade com uma sólida informação histórica, que já lia o local a partir do global muito antes de se generalizar a globalização. E que, recusando todos os reducionismos, permanentemente valoriza a diversidade, as contradições do mundo e a contingência dos acontecimentos. Foi este olhar cosmopolita que libertou Lourenço do “comentarismo ruminante” que ele tão lucidamente diagnosticou no Portugal de meados do século passado, e que, infelizmente, persiste ainda nalgumas dimensões da vida portuguesa, talvez hoje mais provinciana do que nunca, no seu serôdio deslumbramento de tantas e tão ilusórias “modernidades”!...»

Manuel Maria Carrilho, no "Contingências"

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Vinte é a conta que Deus fez

Segundo o Portugal Diário online, "A marca nacional Portugal é a 20ª mais atractiva entre uma lista de 38 países, elaborada com base num estudo internacional, relativo ao segundo trimestre deste ano, que questionou mais de 25 mil pessoas através da Internet, noticia a Agência Lusa. (...) O estudo foi feito com base em entrevistas a 25,9 mil indivíduos com idades entre os 18 e os 64 anos, oriundos de 35 países e registados na Internet. (...) A percepção de uma marca nacional tem como base seis critérios: população, cultura e património, investimento e imigração, governo, exportações e turismo".
Sempre achei que o principal é ficarmos sempre nos primeiros vinte. Entretanto, pois, vai-se andando, tem que ser. Maravilha das maravilhas seria subornar o 19º, em vez de não nos deixarmos ultrapassar pelo 21º. Além disso, no meio do meio é que está a virtude. Mesmo assim, pode-se sempre acusar os entrevistados de andarem com muito más companhias. As tais que só sabem caluniar as delícias da nossa burocracia e do nosso atavismo. Comprados, é o que foram! Bah!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Check up negativo

O recente debate sobre o Estado da Nação, na A.R., demonstrou as fragilidades dos diversos intervenientes. Sócrates trouxe na cartola umas série de medidas de carácter social inquestionáveis. Viu-se que está em forma naquilo em que alguém formado nos vícios de um aparelho partidário não pode falhar: a resposta pronta e afiada, o timing certo para a intervenção certa. Todavia, viu-se perfeitamente que as qualidades retóricas disfarçam mal as lacunas de um verdadeiro estadista. Os outros foram iguais a eles próprios. Jerónimo e a sua verve sindicalista e demagógica, Louça comportando-se como o tele-evangelista que sempre foi e Portas defendendo a Galp. Nota positiva para o novo líder parlamentar do PSD, Rangel, que soube gerir quanto baste a sua prova de fogo.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Os talibãs de sempre

O "deslize" de Cavaco no 10 de Junho, ao falar em "dia da raça", motivou uma reacção do PCP e BE, exigindo ao P.R. um acto de contrição e 10 avé-marias por tal blasfémia. Para os comunistas, tratou-se de "uma expressão pouco compatível com os valores de Abril e o regime democrático". Os bloquistas falam em "terminologia racista e segregadora do Estado Novo". Há claramente um défice de ocupação por parte destas luminárias. Atarefadas com trivialidades, enquanto o mundo se transforma, cada dia que passa, em direcções que estas mentes ressabiadas nem sequer sonham. Os mesmos que defendem o actual estado de laxismo e facilitismo no ensino, desde que isso envolva a captação de clientelas eleitorais, que albergam grupos terroristas (as FARC na "Festa do Avante"), que se estão nas tintas se os jovens sabem quem foi Gil Vicente, o Padre António Vieira, ou Antero de Quental (que também utilizou por várias vezes a expressão "raça"), que promovem o relativismo ético e a duplicidade em relação aos fundamentalismos. Pois agora, como sempre, querem dar lições de moral, num misto do jesuitismo de Louça, com as práticas inquisitoriais estalinistas do PCP. Estes episódios têm uma virtude impagável: lembram-me quem é quem, reforçam gratuitamente as minhas convicções.

NOTA: sobre o assunto, ler este magnífico texto, no "Cachimbo de Magritte"; do outro lado, no"5 Dias", prossegue a saga deste grupinho politicamente correcto em relação ao lapsus linguae presidencial. Nota-se claramente um défice crónico de tema. É que a silly season está a chegar e estes revolucionários de vão de escada, em vez de irem limpar as armas para uma qualquer Sierra Maestra, estão mortinhos por ir de férias, como os comuns mortais. São os descendentes directos do radicalismo europeu chic, com expressão a partir dos anos 60, que consiste em as ideologias perfilhadas por cada indivíduo nada terem a ver com as suas práticas e modos de vida.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Lido

Extractos do artigo "Apodrecer ao sol", de Vasco Pulido Valente, no "Público" de sábado:

A velha Sedes (com gente nova) veio agora anunciar [...] que Portugal está na iminência de “uma crise social de contornos difíceis de prever”. O prestígio e o peso de quem fala merece, em princípio, que se ignorem as preocupações do dia-a-dia, para ouvir e pensar. Em que funda a Sedes [...] um aviso tão melodramático e severo? Em essência, na “degradação da confiança”. O país deixou de acreditar no “sistema político” e, em particular, nos partidos, de direita ou de esquerda, e esse crescente cepticismo ou, se preferirem, esse quase universal cinismo poderá levar ao rápido fracasso da democracia representativa. Ou, pelos menos, de uma democracia representativa, por assim dizer, “normal”. [...] O remédio da Sedes para este desastre é, como se esperaria, pedir aos partidos que promovam uma “elite de serviço” e se coíbam de interferir abusivamente na vida do país. Nunca com certeza a preveniram que as meninas não reformam o bordel. Como nunca com certeza lhe explicaram que andam por aí há anos “derivas populistas, caciquistas, personalistas”, para qualquer gosto ou vício. No fundo, os senhores da Sedes não percebem que nenhuma “crise social” (que fazem eles senão descrever sem grande originalidade a que neste momento vivemos?) põe em perigo o suave arranjo da política portuguesa, enquanto Portugal pertencer à “Europa”: e os partidos sabem isso muito bem. O destino de Portugal é, como sempre foi, apodrecer ao sol.

O país real

Foi divulgado recentemente o relatório da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES) sobre o estado da nação. Que poderá ser aqui lido na versão integral. O documento teve amplas repercussões ao longo da última semana. É que o diagnóstico não é brilhante. Logo a abrir, é apontado um "difuso mal estar" na sociedade portuguesa, "que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional". Simultaneamente, assiste-se a uma "degradação da confiança no sistema político". Neste ponto, a crítica aos partidos políticos é arrazadora:
" a sua presença não pode ser dominadora a ponto de asfixiar a sociedade e o Estado, coarctando a necessária e vivificante diversidade e o dinamismo criativo; não devem ser um objectivo em si mesmos... É por isso preocupante ver o afunilamento da qualidade dos partidos, seja pela dificuldade em atrair e reter os cidadãos mais qualificados, seja por critérios de selecção, cada vez mais favoráveis à gestão de interesses do que à promoção da qualidade cívica. E é também preocupante assistir à tentacular expansão da influência partidária – quer na ocupação do Estado, quer na articulação com interesses da economia privada – muito para além do que deve ser o seu espaço natural. Estas tendências são factores de empobrecimento do regime político e da qualidade da vida cívica."
Mais à frente, aponta os sectores mais problemáticos do sistema: valores, justiça, comunicação social, criminalidade e insegurança. Sobre o excesso de zelo dos agentes que aplicam a lei e a falta de bom senso do legislador, é demolidor:
"Para se ter uma noção objectiva da desproporção entre os riscos que a sociedade enfrenta e o empenho do Estado para os enfrentar, calculem-se as vítimas da última década originadas por problemas relacionados com bolas de Berlim, colheres de pau, ou similares e os decorrentes da criminalidade violenta ou da circulação rodoviária e confronte-se com o zelo que o Estado visivelmente lhes dedicou. E nesta matéria a responsabilidade pelo desproporcionado zelo utilizado recai, antes de mais, nos legisladores portugueses que transcrevem para o direito português, mecânica e por vezes levianamente, as directivas de Bruxelas."
Neste ponto, o documento veicula um aviso que é preciso tomar a sério:
"O mal-estar e a degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento. E se essa espiral descendente continuar, emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever."
Conclui fazendo um apelo à introdução de correcções no funcionamento do sistema, uma espécie de elenco de boas práticas, a desenvolver com carácter de urgência. Nesta matéria, destaco a seguinte:
"Em geral o Estado, a esfera formal onde se forma a decisão e se gerem os negócios do país, tem de abrir urgentemente canais para escutar a sociedade civil e os cidadãos em geral. Deve fazê-lo de forma clara, transparente e, sobretudo, escrutinável."
Conclusões:
  1. o país real não é, definitivamente, aquele que a propaganda governamental nos quer impingir.
  2. há uma séria crise de representação no interior do sistema político, cuja dimensão aumenta exponencialmente;
  3. o sistema de vigilância mútua entre os vários poderes - os célebres checks and balances, garantia última da democracia efectiva - só muito timidamente funciona.
  4. há sérios problemas sociais e desequilíbrios estruturais, com diferente visibilidade pública, que urge atacar.
  5. o jogo está viciado para que só os partidos pontuem, profissionalizando a mediocridade e ignorando as mais valias e sectores mais dinâmicos da sociedade civil.
  6. continuamos a ser um país "de brandos costumes".

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Os comissários da memória

O Professor Rosas desdobra-se numa inusitada indignação por causa da presença da Fanfarra do Exército na cerimónia oficial da evocação do regicídio e da memória de D. Carlos, no próximo dia 1. O seu partido já apresentou mesmo um protesto em letra de forma no hemiciclo. O que levou o Ministro da Defesa a não autorizar a participação de unidades do Exército no evento. Pelos vistos, certa esquerda ainda se julga dona do regime e da História, sem perceber que se vai sumindo no limbo da insignificância emplumada. Desta vez, nos saldos das causas de ocasião, comprou uma guerra que já teve os seus dias de glória: Monarquia versus República. Para esse sector, repetir o óbvio é simplesmente redundante: a evocação do regicídio tem um significado, digamos, humanitário, antes de qualquer apropriação política. É um tributo público à memória dos que pereceram no atentado. Limpo, sem fantasmas. Quem os quer lá pôr são aqueles que não conseguem viver sem os agitar.
Esta polémica transporta-me para um episódio que hoje vivi. Quando me dirigia para casa, após os afazeres profissionais, sou abordado por uma equipa de reportagem da TVI. Perguntaram-me se estava disposto a responder a algumas questões. Porque não? Ora bem, para começar, adivinhem, se sabia distinguir a República da Monarquia. Depois, qual dos dois regimes preferia. À primeira lá gemi, bem espremidinho, o vulgo de Lineu. Quando à segunda, o caso foi mais complicado. Fiquei com aquela sensação por que todos passaram perante a sacramental pergunta a que nenhuma criança escapou: "então gostas mais do pai ou da mãe?" "Há monarquias onde não me importava de viver e certas repúblicas de que fugiria como um tigre da água e vice-versa. Portanto é só uma questão de fazer contas." Lá consegui dizer à menina. Tenho dúvidas que este "depoimento" seja incluído na reportagem, igual a tantas outras acerca do que pensa a populaça sobre isto e aquilo, a propósito de uma tema da actualidade.
Voltando ao caso da fanfarra, quem andou bem, mais uma vez, foi o historiador Rui Ramos. Eis alguns excertos da sua crónica de hoje no "Público". Chama-se "O nosso outro passado" e está lá o essencial.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Mobbing

O "Combustões" não pára de me surpreender no melhor sentido. Desta vez, o assunto é o mobbing. Sabem o que é? Primeiro fui ver aqui: qualquer comportamento abusivo (assédio moral, violência emocional, bullying) traduzido em palavras, actos - ou sob qualquer outra forma de comunicação individual - que poderão afectar negativamente a dignidade física / mental ou a integridade de uma pessoa, a realização de actividades no contexto de uma função ou um determinado ambiente de trabalho. Como se nota, o conceito é, por si, demasiado impressivo para se circunscrever à esfera das relações laborais. E é nessa abrangência que o texto do blogue se situa:
É uma prática bem portuguesa, ao contrário do que muitos poderão pensar. Aqui não se mata ninguém no Forum; as pessoas são "desaparecidas" por processos mágicos. Deixam de ser convidadas; depois, deixam de ser referidas, não aparecem nas reuniões, corta-se-lhes uma fatia do salário, depois outra e, finalmente, desaparecem. Um dos mais praticados processos de destruição de identidade pública leva, sintomaticamente, um designativo que poucos conseguirão identificar: mobbing. (...) é uma prática complexa, tão complexa que raramente se conseguem reunir provas que confirmem a sua existência; daí que seja um dos expedientes mais usados num país onde a cobardia prevalece. Meias-palavras, uns pós de intriga, uma pitada de difamação, muita invejazinha, medíocres e tolos à mistura e, pronto, uma vítima isolada, denegrida, intimidada e "desaparecida". Este processo campeia nos ministérios, nas universidades, nas câmaras, nas empresas públicas e privadas. Praticam-na, sobretudo, os desclassificados trabalhando em rede, os tolos ciosos das suas quintas e campanários, os descerebrados e incapazes aterrados pela perspectiva de se baterem contra homens (e mulheres) dotados de coluna vertebral, princípios e capacidade de realização.
O termo designa pois o repositório de toda uma série de vícios culturais - a inveja, a "cunha", o compadrio, o favoritismo, a mediocridade como bitola normalizadora - e não só os seus efeitos devastadores para a dignidade pessoal dos lesados, para o bom funcionamento das instituições, a competitividade das empresas e a qualificação do país.