Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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sexta-feira, 12 de março de 2010

O escravo sorridente


Leiam bem a seguinte oferta de emprego, na parte dos requisitos exigidos. Acreditem que é mesmo real.

Nível de Aptidões Técnicas: 1.Fortes capacidades conceptuais; 2.Excelente capacidade na resolução de problemas.
Nível de Capacidades Profissionais: 1.Excelente capacidade de comunicação escrita e oral; 2.Excelente capacidade de Organização; 3.Capaz de trabalhar eficientemente cruzando diferentes ambientes funcionais; 4.Atitude positiva e um excelente senso de Humor; 5.Capaz de trabalhar sob stress, em tempos de execução de tarefas muito curtos e de forma autónoma; 6.Excelente capacidade de Análise; 7.Capacidade de trabalho excepcional.
Atributos: 1.Paixão; 2.Accountability; 3.Orientação a resultados; 4.Capacidade de adaptação; 5.Atenção ao detalhe; 6.Bom trabalhador em equipa; 7.Excelente capacidade a resolver problemas.

Como porventura se deram conta, trata-se de um emprego para um autêntico Übermensch nietzscheano caricatural. Ou seja, para um verdadeiro apaixonado por accountability (que, em bom português, significa, "pôr-se a jeito"), um cruzador de diferentes ambientes funcionais, acima de qualquer suspeita, capaz de trabalhar sob stress olhando para o relógio, sem sequer praguejar onde um estóico o teria feito, possuidor de um conceptualismo à prova de detalhe, não vá o diabo tecê-las, bom em equipa e em "autonomia", adaptável a tudo, calcinhas sempre em baixo, agradecer sempre, e ainda capaz, ainda pronto para tudo resolver, tudo prever, tudo organizar, tudo remendar, o funcionário modelo que preenche os sonhos mais lúbricos do capital, o que cumpre a hagiografia do produtor* inefável, do executor multiusos, de um émulo de Deus sem Deus, de um semideus sem arte, gravitando em torno da perfeição de um autómato, destilando energia positiva, sempre energia positiva, e humor, muito humor, enquanto o látego sobe e desce, enquanto os dias se estendem como tições em brasa, enquanto a mentira vai sobrando como a única verdade, enquanto lhe é negado o último reduto da sua dignidade, enquanto o sorriso regulamentar vai enganando a submissão.

*Vd. "Vigiar e Punir", Michel Foucault

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Auto de notícia

Uma amiga madeirense contou-me que, numa visita à magnífica e faustosa livraria "Esperança", no Funchal, encontrou um livro meu. No caso, tratou-se de "A Noite Obscura" (um drama nô ibérico). Ou seja, uma pequena peça de teatro, facilmente adaptável como libreto para ópera, a partir de poemas de S. João da Cruz e Bashô, o expoente máximo do haikai japonês. Que escrevi há uns quatro anos atrás. Boas notícias, portanto. E uma secreta satisfação, ora bem.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

A vida minimal e repetitiva - 5

A vidinha regressa, desta vez traz consigo o controlo remoto, impõe a mesmice, dirige a genuflexão, aconselha o gerúndio, a cabeça baixa, a vidinha, a crédito, a prestações, a espasmos, a sacudidelas, a repelões, a vidinha, sempre a vidinha, a que vai andando, a que vai fazendo, a que vai fintando, a que vai enganando, a que vai morrendo, a que nos transforma em suplicantes, a do fato que nunca está à medida, a prestamista das letras por descontar, a vidinha que faz promessas infindáveis, no meio do canto das sereias, a vidinha que empurra para as senhas de racionamento, que dá palmadinhas nas costas, que confunde, que divide, que falseia, que dá a ilusão do movimento, que mercadeia connosco como se nada se passasse, pois somos a sua mercadoria, a única.

Ver anterior

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Notas de Natal

1. Até que nem fica mal agradecer aos 10 visitadores extraordinários deste blogue no dia de Natal. Não sei o que os terá trazido por aqui, mesmo sabendo que as auto-estradas da blogosfera são imprevisíveis. O tédio, a solidão, a irreverência, a curiosidade? Podia ser. Ou não. Quem sabe?
2. Li algures que uma cadeia de hotéis inglesa oferecia a estadia, incluindo ceia de consoada e almoço de Natal, ao casal que se apresentasse no dia 24 e cujos nomes fossem Maria e José. Nem imagino o que aconteceria se uma unidade hoteleira nacional tivesse a mesma ideia...
3. Daqui a pouco, irei finalmente ao CCB ver a colecção berárdica. Afinal, os impostos que pagamos deverão servir para alguma coisa...

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Conversas prá braguilha - 1

- O que perguntas exactamente?
- Não sei…é algo que se situa além das palavras…
- Ao alcance dos gestos…mas são precisamente os gestos que estão fora do meu alcance…
- Isso diz tudo sobre nós…
- Realmente pensas isso?
- Não, sabes que não.
- Eu sei que deveria jurar-te que posso encher de realidade os sonhos, mas não posso.
- Eu sei…
- Devia dizer que quero que sejas feliz…que por isso me afasto…mas esta conversa desmentiria isso…
- E o que queres?
- Um sonho impossível
- Pára de falar assim…

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

A vida minimal e repetitiva - 4

A vidinha acorda. A vidinha irrompe na voz fanhosa do locutor, lembrando as temperaturas. A vidinha coçante, descolhoante. A vidinha que nos segue para todo lado, com palavras grandes e outras pequeninas. A vidinha a puxar para um passado que nunca existirá. A vidinha a chamar-nos, a chamar-nos, despudoradamente, para o habitáculo possível. Gostava de te dizer, de o dizer aos teus olhos para que me acreditasses, que as palavras existem gravadas na pedra contra o esquecimento. Gostava de te dizer só isso. Provavelmente depois nunca mais me verias e os teus olhos saberiam que eu mentira. Esta conversa diáfana terá sempre poucas ou demasiadas palavras. É impossível a urgência, como é impossível remetê-la ao vazio. Só os corpos e as navalhas ousam falar por dentro das coisas. E as palavras, temem, antes de tudo, impor-se no território dos outros. Mas isso foi antes e fora da vidinha. A tal que nos impingem nas escolas, nas cátedras, nos discursos edificantes, nos balcões da burocracia, na Cultura, nos dois minutinhos de publicidade bancária na rádio, prometendo o céu em troca de juros a 40%. No final vai-se ver e o fato nunca nunca está à medida. Então entra a vidinha, refulgente, gloriosa. A tal. A da mentira sufocante. A esdrúxula, a inquietante, a rasticolante. Lembram-se?

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domingo, 9 de julho de 2006

Perdições

Ontem fui dar a uma das aldeias sui generis da serra da Lousã: Catarredor. Resultado: sessão de chill out até às 4 da matina.
Esta povoação e duas outras ( Vaquerinho e Talasnal) - conhecidas por serem, há muito tempo, as «aldeias dos hippies», pelo facto de terem recebido nas décadas anteriores muitos jovens urbanos à procura de modos alternativos de vida - estão a ser palco, neste fim de semana (7, 8 e 9 de Julho), de vários concertos com grupos de música de vários estilos, desde o punk até ao reggae passando por sonoridades mais electrónicas.