Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Os povos quando s'alevantão

O decano da música Mikis Theodorakis fez-nos chegar recentemente uma mensagem do Além. À primeira vista, poderia ser confundida com um remake do enigma da esfinge.  Ou uma transmissão em código. Ou um mandamento bíblico que ficou esquecido durante uns milénios em alguma caverna do Sinai. Doce engano. O homem falou mesmo a sério. E disse esta coisa impressionante: "Se os povos da Europa não se levantarem, os bancos trarão o fascismo de volta". Ups! De imediato, as redes sociais replicaram a ideia com fervor. As bandeiras agitaram-se. O Doutor Louçã ergueu-se do sofá como um gato pronto para a caçada. O Professor Rosas arrumou os tarecos, alguns livros, incluindo as obras completas de Engels, calçou as botas de caminhada e contra o "façizmo" gritou "presente!". Um frémito percorreu as almas dos humilhados e ofendidos, dos seus amiguinhos irreverentes da melhor extracção burguesa, uns bacanos esquerdalhos muito bem na vida, nunca andaram à procura de trabalho, (alguns com gestor de conta dedicado e tudo, coisa que eu nunca tive). Uma euforia inusitada invadiu os saudosos das massas marchando contra o capital, devidamente pastoreadas, é claro. Ou seja, uma iconografia museológica pintada de vermelho, onde a História se precipita, avassaladora, e acaba nesse preciso momento. Imagino os "povos da Europa", do Atlântico ao Báltico, erguendo-se devagar, empunhar um estandarte, cercar os bancos, capturar os banqueiros, essa "escumalha exploradora", defenestar alguns, lançar outros pela janela (como o bom povo de Lisboa fez com o respectivo bispo, em 1383, empurrando-o do alto da torre da Sé), enxovalhar outros tantos, e por aí adiante. Os "povos" estariam assim vingados, ressarcidos do que lhes foi sempre negado. Uma estranha harmonia ficaria a pairar no céu. Os "façiztas" tiveram o que mereciam! Os "povos", essa mistura de Babel, seriam ungidos pela História. O arauto decerto comporia uma banda sonora para tão épico momento. 10 000 anos de felicidade ao virar da esquina não é todos os dias, verdad?...

Hei, ainda aí estão? Só faltou dizer que o Mikis, um "camarada" dos sete costados, recebeu em 1982 o prémio Lénine da Paz, o qual lhe foi atribuído nesse ano. Perceberam, ou é preciso fazer um desenho?

domingo, 18 de abril de 2010

Debaixo do vulcão



Da Islândia tem-nos vindo boa música e paisagens simpáticas, embora desoladas. Agora chegou-nos esta onda de poeira vulcânica, misturada com o gelo dos glaciares, que não pára de alastrar. Dizem os especialistas que respirá-la é como engolir vidro. Seja como for, o composto é fatal para os reactores dos aviões. Razão por que o espaço aéreo de 3/4 da Europa está fechado desde quinta-feira. Ainda ninguém ousou fazer a contagem real dos prejuízos. Mas que já têm muitos zeros à direita, isso posso garantir-vos. As últimas estimativas apontam para 200 milhões de euros*. A situação atingiu uma dimensão tal que Durão Barroso acabou por convocar um Conselho de Ministros extraordinário da UE. No mapa, repare-se que só praticamente a Península Ibérica, o Sul de Itália e dos Balcãs e a Grécia escapam à nuvem. Até nisto temos sorte. Quanto ao resto, é melhor nem falarmos.

*vendo bem, atá são números modestos... Basta lembrar que há gestores públicos em Portugal que "auferem" 1,5 milhões anualmente...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Foi há 20 anos...

Cartier-Bresson, "O Muro de Berlim", 1963

As efemérides, embora sejam associadas à evocação cerimonial de um acontecimento passado, também designam tábuas astronómicas que indicam, dia a dia, a posição dos planetas no zodíaco. Confuso? Não. Há casos onde aquilo que não se pode mudar co-habita na mesma palavra com o que muda permanentemente. Como aqui. Onde uma palavra raramente tenha um sentido tão abrangente como quando se aplica aos acontecimentos que levaram à queda do Muro de Berlim. Nessa noite de 8 para 9 de Dezembro de 1989, encontrava-me em Estrasburgo. De visita ao Parlamento Europeu, na qualidade de dirigente estudantil. Soube o que se estava a passar através da TV. Percebi imediatamente que o "socialismo real" tinha perdido a guerra e que a Europa voltaria a ser uma unidade política. Acabei agora de assistir a um excelente documentário na RTP 2 sobre a história do Muro. Duas imagens a reter: 1º o efeito em cadeia da visita de Gorbatchev à RDA, convidado de honra do 40º aniversário da fundação do país. Porém, na tribuna era aplaudido por dezenas de milhar de manifestantes, que desfilavam e gritavam por Gorbi, ignorando os dirigentes comunistas alemães. 2º o discurso de Honnecker, nessas cerimónias oficiais, num edifício rodeado por uma maré humana que clamava por liberdade, mas onde aquele afirmava convictamente que "o socialismo na pátria de Marx e Engels estava assente em bases indestrutíveis"... Ocorreu-me também que, daqui a dez anos, o então secretário geral do PCP prestar-se-á de bom grado ao mesmo papel, no seu bunker, rodeado por meia dúzia de indefectíveis...

Publicado no jornal "O Interior"

Nota: Ler aqui outras memórias do Muro, de João Tunes.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A nova UE

Foi hoje acordado o novo tratado constitucional da UE, designado Tratado de Lisboa. A notícia foi divulgada já passava da 1 hora. Que pôs fim à crise política e institucional no interior da UE, depois do chumbo da Constituição nos referendos em França e na Holanda, em 2005. Uma retrospectiva das vicissitudes da reforma das instituições europeias após o Tratado de Amsterdão até a Cimeira de Lisboa pode ser encontrada aqui. Por outro lado, recomenda-se a consulta do projecto original do Tratado, submetido à aprovação na Cimeira, cuja versão final sofreu simples alterações sem significado. Notar-se-á que o texto não pretende substituir os Tratados de Roma e Maastricht, mas sim introduzir as alterações nos textos respectivos, como aliás resulta do próprio cabeçalho. Para uma melhor percepção do que mudou, recomendo este texto. Mesmo assim, o conteúdo do Tratado corresponde em 95% à gorada Constituição. Veja-se aqui porquê.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

A Nostalgia da Europa

Na Idade Média, a unidade europeia repousava na religião comum. Nos Tempos Modernos, ela cedeu o lugar à cultura (à criação cultural) que se tornou na realização dos valores supremos pelos quais os Europeus se reconhecem, se definem, se identificam. Ora, hoje, a cultura cede, por sua vez, o lugar. Mas, a quê e a quem? Qual é o domínio onde se realizaram valores supremos susceptíveis de unir a Europa? As conquistas técnicas? O mercado? A política com o ideal de democracia, com o princípio da tolerância? Mas, essa tolerância, que já não protege nenhuma criação rica nem nenhum pensamento forte, não se tornará oca e inútil? Ou então, será que podemos entender a demissão da cultura como uma espécie de libertação à qual nos devemos abandonar com euforia? Não sei. A única coisa que julgo saber é que a cultura já cedeu o seu lugar. Assim, a imagem da identidade europeia afasta-se do passado. Europeu: aquele que tem a nostalgia da Europa.

Milan Kundera, in "A Arte do Romance"