Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Manual de instruções básicas

A realidade tem-me ensinado que, regra geral, só podemos contar connosco para o que realmente interessa. O mesmo é dizer, quando agimos no interior da nossa estranha singularidade e nas respostas sempre precárias ao sagrado, à maneira do capitão Ahab. A empresa de levar a cabo tão exigente tarefa exige algumas precauções. Aqui ficam pois as usanças de um homem prevenido que, assim, talvez valha por dois: 

Para iniciados
Regra nº 1: nunca admitir cegamente que os outros cumprem o que prometeram; 
Regra nº 2: desconfiar de ambiciosos mansos, sonsos e narcísicos; 
Regra nº 3: ter sempre um plano B; 
Rregra nº 4: ter sempre um plano B para o plano B.
Para os mais experimentados:
Regra única: nunca ter um plano.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ambrosivs


Onde pára o Ambrósio da publicidade aos bombons Ferrero Rocher??? Lembram-se? Eis uma questão que me tem atormentado ultimamente. Alguém sabe alguma coisa do paradeiro deste mestre da dissimulação? Se souberem, façam favor de avisar. No meio dos circunlóquios a que esta magna interrogação me obriga, várias hipóteses se materializaram entretanto no meu espírito:
1º foi finalmente viver com a patroa (nunca este termo se aplicou com tanta propriedade);
2º foi comprar tabaco, sendo depois visto a rondar uma escola secundária com uma caixa de bombons;
3º dedicou-se à pesca e usa meias brancas;
4º casou com a criada e corta as unhas à janela, enquanto olha para o decote da vizinha de baixo;
5º tornou-se assessor artístico da patroa e é frequentador de leilões;
6º explora um salão de jogos e tem umas "gaijas" a render.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Autopsicografia

O poeta é um fingidor. Só porque o desencanto nunca é filosófico, mas poético. Porque apenas a poesia é capaz de apresentar as contradições sem as resolver. Compondo-as numa unidade superior, elusiva e musical. Enquanto esse desencanto, ao mesmo tempo que corrige a utopia, moderando o seu pathos profético e finalista, reforça o seu elemento fundamental, a esperança. Pois que a esperança não nasce de uma visão do mundo tranquilizadora e optimista, mas sim da dilaceração da existência, vivida e sofrida sem véus. A que cria uma irreprimível necessidade de resgate perante o mal. O mal que é simplesmente a radical insensatez com que se apresenta o mundo. A mesma que exige que a perscrutemos em profundidade. O poeta é um fingidor, nada mais. Porque não hesita em denunciar uma ferida profunda que lhe coloca dificuldades na realização plena. Tanto mais que "ambicionar viver é coisa de megalómanos", como escreveu Ibsen, querendo com isto talvez dizer que só a consciência do árduo e temerário que é aspirar à vida autêntica pode permitir que nos aproximemos dela. Tão completamente que até parece dor a limalha irisada que nos cobre, nesse momento. Como que numa exclamação incontida de glória...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O fogo

O ofício do poeta não inclui a prova sazonal, em letra de forma, mas a desmesura do resultado, o vigor da errância. É essa a sua prova de vida, "ou o que isso seja", dirão os que não desconhecem a maturação recatada do poema. Mas há ainda outra razão. Que se poderia nomear, à falta de melhor o "amparo do fogo". Porquê o fogo? Mais um recurso de estilo? Mais um ingrediente de um composto inócuo? A razão é simples: deve-se lidar com ele usando de toda a parcimónia. O verdadeiro perigo está em julgar que o dominamos, que lhe adivinhamos os movimentos, as percepções, as serventias, a inteligência móvel e imprevisível. Perigo de morte, portanto. Há momentos em que ele nos convida a arder consigo, participar numa langorosa erupção do ardor. Outras, envolve-nos na vertigem da aniquilação. Todavia, fixemo-nos no que ele desvela. E então, rente à corola do silêncio, à sabedoria do mel, à dor que no caminho revela, às mãos que se acendem, escavando, é aí que saem as palavras furtivas, as palavras que buscam a obscura transparência, as palavras que estão a mais. As que queimam.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sempre a Amante Ultrapassa o Amado

O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A sua dificuldade reside no que é complicado. A própria vida, porém, tem a dificuldade da simplicidade. Só tem algumas coisas de uma dimensão que nos excede. O santo, declinando o destino, escolhe estas coisas por amor a Deus. Mas que a mulher, segundo a sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, isso evoca a fatalidade de todos os laços de amor: decidida e sem destino, como um ser eterno, fica ao lado dele, que se transformará. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. A sua entrega quer ser sem medida: esta é a sua felicidade. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: exigirem-lhe que limitasse essa entrega.

Rilke, in "As Anotações de Malte Laurids Brigge"

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Jogo de cintura

Uma das características principais dos mistificadores, muitas vezes confundidos com os sonhadores, é quererem, à força, ver nas coisas o que lá não está, nem nunca estará. Arrastando os outros nessa vertigem. Muitas vezes o engano só serve para a composição da paz interior, para o sossego da própria mente. As consequências do facto, comprovadas pela História, são devastadoras. Pelo contrário, os verdadeiros sonhadores, um pouco como os piratas, são terrivelmente pragmáticos. Ou seja, distinguem-se por verem nas coisas o que já lá está, mas os outros ainda não viram. "Roubando" descaradamente a percepção aos que os rodeiam, para depois distribuir o saque e repartir a ambição. Todavia, se nessa matéria estamos conversados, noutro desiderato contíguo é mais difícil a arrumação. Refiro-me à tendência para vermos nos outros qualidade e atributos que não têm. Justamente para ilustrar um tese ou rendilhar uma mentira útil. Só conheço uma coisa ainda mais nociva:  conseguir ver nesses outros unicamente os seus defeitos e limitações imaginários, mas não descortinar os reais.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Auto de notícia

- Sempre é verdade que o outro foi dado como morto?
- Sim, mas não é certo, pois antes nunca fora dado como vivo...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Sondagem


(...)
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço

Alvaro de Campos, O Que há em Mim É Sobretudo Cansaço

sábado, 27 de dezembro de 2008

Camellia sinensis (3)

O reino dos chás tem uma deliciosa particularidade: à medida que o percorro maior é o espanto e a vastidão da minha ignorância sobre ele. Tantas são as possibilidades e os encontros. Mas hoje não poderia deixar de falar-vos de três descobertas recentes. Que fizeram as delícias deste Natal:
1º Um magnífico darjeeling de segunda colheita da Wittard, que descobri numa das suas lojas em Londres, na célebre Carnaby Street. O "champanhe" dos chás, aqui bem à altura dos seus pergaminhos.
2º Um chá verde chinês aromatizado com jasmim, em boa hora recomendado no estabelecimento "Leão Real", na Guarda. Cujo atendimento personalizado e inexcedível faz a diferença na cidade.
3º Uma surpreendente mistura aromatizada de chás pretos, da "Kusmi", de origem russa. Chama-se "Prince Vladimir". A presença da bergamota, do limão, da baunilha, da canela e do cravinho dão-lhe um paladar único e inesquecível.

Ver anterior

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A pista

(clicar para ampliar)

Na semana passada, desloquei-me a Cascais, onde "aluguei" uma das biCas do programa municipal com o mesmo nome. Destinado à utilização gratuita de bicicletas, mediante identificação. O objectivo era percorrer a pista recentemente construída ao longo da costa, até ao Guincho. Após uma breve incursão na "Boca do Inferno", tentando ignorar o pesadelo das barracas de quinquilharia, nova paragem num local bem mais acolhedor: a "Casa da Guia"., logo antes do farol com o mesmo nome. Trata-se de um espaço comercial e de restauração, com óptimas esplanadas junto à arriba, em volta de uma mansão em estilo revivalista, recém-restaurada. O conjunto goza de uma disposição bastante agradável. Aconteceu então. Cá fora, à entrada de um alfarrabista, logo no cimo de uma pilha de livros a preços convidativos, deparo-me com um exemplar da edição na imagem. Trata-se de "Tempo de Solidão", um conto de Manuel da Fonseca, com desenhos de... Maria da Luz Lino (Estúdios Cor, 1969)*. Nem queria acreditar no que estava a ver! Em parte porque desconhecia esta colaboração da Maria Lino. De cuja obra, lembro, vai ser inaugurada uma exposição no TMG, no próximo dia 13. Mas também porque, no dia anterior, tinha visitado o belíssimo centro histórico de Santiago do Cacém, terra natal do autor de "O Fogo e as Cinzas". E onde se inspirou para alguns dos seus melhores contos. Ocorreu-me que os livros podem refazer qualquer lógica, ligar o impensável. Não só porque os podemos ler, mas sobretudo porque nos encontram. A procurá-los.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Words, word, words... (3)

1. Palavras que detesto: locupletar, cabrestante, tergiversar, vasectomia, propedêutico, abnóxio.

2. Palavras que são música: tergiversão, proa, tacho, branda, derramar, sextante, abulia, cantante.

Ver anterior

quarta-feira, 23 de julho de 2008

And now, for something completely different

Uma visitinha ao Exotic Asia Market, amanhã, em Sacavém, vai ser um caso sério. Como o coração anda muito bem, obrigado, vou simplesmente levar o número de telefone de um psiquiatra amigo, para o que der e vier. Entretanto, para não ficar empenhado para o resto da vida, arranjei uma solução drástica, mas eficaz: só gastar até aquele plafond. Nem mais um cêntimo. Para o caso extremo de tal não resultar, vou levar uma cruz e água benta para afastar as tentações. No limite, usarei um chicote para me auto açoitar na casa de banho, para purificar os apetites. A propósito, lembrei-me daquela frase proverbial que se ouve dizer: tem que ser. Pois é, a frase é abaixo de cão. Mas nestas situações... tem mesmo que ser.

domingo, 20 de julho de 2008

O poço

sinto que neste blogue falta metier, suor honesto, um tempero discreto mas poderoso, alçapões comunicantes, o estandarte do alferes cristóvão rilke, antepassado do poeta, os cavaleiros valorosos em repouso, as águas do levante, as linhas do levante no teu rosto, os outros mortos, os que resistiram até ao fim, as pequenas vitórias, o barro primordial, os anjos sussurrantes, as palavras em trânsito. não sei quão optimistas são os poetas e os amantes. mas eu nunca disse: mãe, olha, sem mãos!

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Words, word, words... (2)

1. Palavras que detesto: enxabido, atoarda, famélico, paralaxe, portentoso, motejar.

2. Palavras que são música: anil, borbulhar, cume, embora, ventoinha, alçar, pomar.

Ver anterior

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Diário de um tolo

Nunca me arrependi de ter tomado aquela, ou esta, ou outra qualquer decisão. Desde que tenha implicado uma escolha entre várias possíveis, é claro. Porque era a que estava certa, naquele momento. Era essa, e só essa, a que a minha natureza profunda não pôde suster. Ou que um impulso vigoroso projectou para a ribalta. Ou, quando o gesto amplo que se lhe seguiu, acabou por cegar a hesitação e a dúvida que se lhe opunham. Ou quando a tibieza, não poucas vezes, impôs o seu catecismo. Ora, todas elas estão certas, porque todas se resolveram naquele momento, foram produzidas para aquelas circunstâncias, utilizando um termo caro a Ortega y Gasset. Outra questão, muito próxima, mas avaliada por outra unidade de medida: será que esses momentos de liberdade conduziram a resultados certos ou errados? Ir por aí é um caminho ingrato. E porventura inútil. Se um resultado se apresenta como negativo, nada a fazer. A não ser alterar as causas, para que outros semelhantes não se produzam.

sábado, 19 de janeiro de 2008

A corrida ao ouro

Fazem falta novas latitudes na Guarda. Novas raças. Raças novas. Gente a fazer o pino. Gente a não fazer o pino, mas a tentar. Gente com outros movimentos, outro zénite. Gente com outra música no olhar. Gente com outra língua, outro prazo de validade para os gestos. A Guarda foi feita para os grandes voos, as eternas ambições. Os felizes momentos em que a irrealidade se mistura com a suspeita de uma vereda não sinalizada. O lugar da simplificação do desejo e do esquecimento. Um Olimpo de granito com pronúncia cerrada e um jeito irresponsável de sonhar.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Menos que Natal

Algures na vida chega o lugar da gratidão. Por aqueles que nos amaram - poucos, após esticar o balanço com honestidade - por aqueles que não o souberam ou eu não soube, pelos erros que tão bem denunciaram o caminho, pelos outros que não passaram de hesitações, por aqueles que esperaram, divididos entre o orgulho e a queda, pelo consolo da ronda à volta do claustro, pelo fogo que triunfou, por vezes, no cume da insurreição e das sombras, pelas cinzas que foram ficando, pelos caminhos só ainda depois caminhos, pela assembleia de convidados que o vento trouxe e o vento dissipou, pelo orgulho que tudo rasgou, pelos céus de van gogh, pela poeira onde tudo se irá resumir. E brilhar.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O regresso de Ulisses

Durante uns dias em Lisboa, coloquei-me sem dificuldade fora da possibilidade da notícia. Tal como Álvaro de Campos em relação ao soco. Jornais, nem cheirá-los. A não ser os de distribuição gratuita. Que por serem uma relativa novidade para quem vive na chamada província, despertam imediatamente a curiosidade. Televisão, só para ver o Benfica. Quanto aos blogues, tela nocent levius, visa venire prius, ou seja, homem prevenido vale por dois. É este o sagrado recato outonal do meu contentamento, o apogeu da descoberta, o lugar do encontro com o que há-de vir. De tal forma que, hoje, ao comprar o jornal, invadiu-me um secreto terror ao antecipar o que lá iria encontrar. Até já.

domingo, 28 de outubro de 2007

Diário de um tolo

As abluções domingueiras aconselham uma colheita de pensamentos originais, desalinhados, clarividentes, de uma circunspecção à prova de fogo. Por conseguinte, deveria destilar um brilhante silogismo, um naco de ironia, uma posta de saber com provas dadas, que se sustem à beira do abismo do auto convencimento, um vôo poético de fazer inveja, uma carga certeira no bombo da festa do momento, um feixe de luz para um sentido oculto, um casus belli desencantado onde ninguém esperaria, o xeque-mate numa polémica à beira da caducidade, tudo isso, o exercício de austeridade virtual, o mantra cibernético, a erudição prostituída, o cheirinho a obscuridade, só porque sim, ou porque não, a solidão desfeita e refeita. Contudo, por mais que tente, é a alquimia que não sai, que se tornou impossível, porque basta estender a mão e respirar.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Ódios de estimação - 1

Rui Oliveira e Costa. O comentador do programa "Trio de Ataque" reúne três excelentes requisitos: é sindicalista, é idiota e é adepto de um conhecido grupo excursionista do Campo Grande.