Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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terça-feira, 8 de setembro de 2009

A realidade ignorada pela esquerda caviar

Shirin Ebadi, Prémio Nobel da Paz 2003 e autora do livro A Gaiola de Ouro, vem a Lisboa no dia 11 de Setembro, promover este livro e falar sobre as violações dos direitos humanos que ocorrem na República Islâmica.
Shirin Ebadi nasceu no Irão a 21 de Junho de 1947. Em 2003 foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz. Shirin Ebadi é advogada e uma activista dos Direitos Humanos. Na mira do regime de Ahmadinejad, devido às suas batalhas a favor da democracia e dos direitos das mulheres, conduz uma intensíssima actividade de propaganda e uma batalha legal que a leva a percorrer o mundo. Publicou O Meu Irão (Sperling & Kupfer, 2006).

nota de imprensa da Esfera dos Livros

sábado, 29 de dezembro de 2007

Falsos ídolos

Aqui não se teria dito melhor. Ontem, no "Combustões":
Porque era mulher e era livre; porque era civilizada e cosmopolita; porque pertencia àquele grupo social que pela educação e horizontes alargados não se submete ao reducionismo de uma religiosidade desesperada que se nutre do analfabetismo e do obscurantismo; porque acreditava na inevitabilidade da adesão do Islão à contemporaneidade; porque advogava tudo o que os inimigos da liberdade abominam; porque fazia frente à sharia, à lapidação, à justiça de sangue e à guerra santa, foi morta. Morta pelos barbas-de-açafrão, danada nas mesquitas e nas madrassas, Benazir não serve de desculpa aos amigos dos nossos inimigos. Não era serva nem factotum de Bush, não era ditadora nem violara os sacrossantos pergaminhos da democracia, não se lhe conheciam amizades sionistas nem jamais abdicou do véu. Eles odeiam tudo o que não entendem, pelo que hoje, mais que uma derrota da Liberdade, a morte de Benazir Bhutto é um claro demarcador entre a civilização e a barbárie. A escolha nunca foi tão clara. Ou se está por "eles" ou se está pela comunidade de valores que, no Ocidente como no Islão laico, defende a retirada do confessional para o mais estrito domínio das escolhas individuais. Como aqui por mais de uma vez se disse, o estertor de um certo Islão nutre-se da violência do desespero. O tempo demonstrará que, no limite, os maiores inimigos do Islão foram esses loucos de Deus que não compreenderam que o tempo de uma certa ideia de religiosidade impositiva, purificadora e totalitária desapareceu.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O véu

Esta imagens não resultam de uma montagem. Foram registadas durante uma entrevista realizada recentemente pela jornalista da RTP Márcia Rodrigues ao Embaixador do Irão. Pergunta-se: deveria a jornalista apresentar-se em fato de banho, ou com um decote hollywoodesco? A resposta é não. Será que o traje que enverga, conforme à sharia, se destinou a despertar a familiaridade do Embaixador, de forma a obter alguma cacha? Não me parece. Evoca mais facilmente um número dos Gato Fedorento, uma capitulação, uma exposição particularmente aviltante, um sintoma de cobardia e de amnésia, face ao longo caminho que no Ocidente a conquista da liberdade teve que percorrer, face às teocracias e aos mercadores do invisível. De resto, um tema já aqui referido. Os seus inimigos agradecem.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Os amigos de Alex

Sobre o terrorismo jihadistaaqui expus o meu pensamento. Ao que parece, no Líbano, o Hezbolah continua armado até aos dentes, desafiando tudo e todos. A generosidade do irmão sírio, traduzida em armas e dinheiro, está de pedra e cal. Por cá, a ecuménica malta do costume, sempre disposta a atirar pedras aos americanos e aos israelitas, e a condenar a "heresia" dos cartoons dinamarqueses, vai assobiando para o ar. Mas o radicalismo islâmico, e o rasto de ódio e de morte que lhe está associado, nunca será compreendido se não se tentar perceber a motivação específica do terrorista. Ao contrário do que os relativistas pensam, não são as razões ideológicas, emergindo do sub-desenvolvimento crónico do mundo islâmico, ou a falta de perspectivas para muitos jovens, o que empurra determinado "soldado de deus" para uma carnificina. É bom lembrar que os actos terroristas mais sanguinários nos últimos anos foram perpetrados por jovens confortavelmente instalados na classe média. Que antes são recrutados para um tirocínio no Iraque ou no Afeganistão, lugar para o brainstorming final. Existe pois uma motivação autónoma, auto-suficiente, alheia a factores sociais, para a violência. Que rompe com as restrições decorrentes da própria fé islâmica e afirma-se como missão redentora e inquestionável. A jihad é o ópio que tranquiliza o último vestígio de humanidade. Esse terrorista está mais próximo de Alex - o protagonista psicopata do filme Clockwork Orange - que do Corão.

Publicado no jornal "O Interior"

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

A biblioteca de Tamegroute

Os livros são ainda os testemunhos por excelência da memória. Correspondem a uma das poucas características universais, comuns a qualquer cultura: a necessidade de registar os sonhos, os pensamentos, as fantasias. Borges relatou numa das suas obras que o mesmo Imperador que mandou construir a Grande Muralha da China foi o mesmo que mandou destruir todos os livros existentes no Império. Como se, por causa disso, o tempo começasse a correr de novo e a memória se apagasse.
Ora, o encontro, o verdadeiro encontro de civilizações começa por pequenas coisas. Algumas irrisórias. A biblioteca de Tamegroute podia ser um exemplo. Tamegroute é uma pequena aldeia marroquina no sopé do Atlas, rodeada de jardins e de uma terra cor de argila. Mas é sobretudo o local de uma das mais prestigiadas zaouïas de toda a África do Norte.
Fazendo parte do mesmo edifício onde funciona uma confraria religiosa e um centro de estudos teológicos, a biblioteca encerra tesouros imemoriais. Foi fundada por Mohamed Abu Nasr no séc. XVII, a partir de obras adquiridas ao longo das suas várias peregrinações a Meca. Cada uma das suas viagens transformou-se num périplo de vários anos: Egipto, Etiópia, Arábia, Iraque, Síria, Pérsia…
O acervo contempla desde manuscritos com nove séculos, tratados científicos, obras religiosas da idade do ouro do Al Andaluz, exemplares do Corão gravados a ouro, sendo o mais antigo do séc. XIII, iluminuras em pele de gazela e, sobretudo, uma tradução de Pitágoras para árabe, com 600 anos, numa época em que esta ainda era a língua das ciências. Em Tamegroute, os autores persas e gregos repousam em paz. E foi graças às traduções árabes que o seu saber foi transferido para o Ocidente, via Andaluzia, como se sabe. Filosofia, mística, direito e história do mundo muçulmano estão igualmente presentes em abundantes compilações.

sábado, 23 de setembro de 2006

Eu fui ao jardim celeste...

Pedido de desculpas do Imperador Manuel II Paleólogo

Desfile de cozinheiros exibindo receitas originais do Bacalhau à Brás

Vítima de traumatismo craniano à saída do Hospital mostrando a conta respectiva

Contra-manifestante, adepto da feijoada à transmontana

Novo treinador do Benfica, dando indicações do banco

Já aqui se comentou a reacção do mundo islâmico a declarações do Papa contidas na conferência académica que proferiu na Universidade de Ratisbona. Tudo girou à volta da citação da frase de Manuel II Paleólogo, imperador de Bizâncio, que diz a um seu interlocutor muçulmano: "Mostra-me o que Maomé trouxe de novo e encontrarás coisas más e desumanas, como o direito de defender pela espada a fé que pregava." Mas aquilo que está verdadeiramente em causa é a matriz grega do pensamento ocidental, segundo a qual a fé é inseparável da razão - o logos - como conclui, e bem, JPP , no Abrupto. Correspondência essa ignorada no Islão.
Ocasião pois para mostrar algumas das imagens que faltavam para uma melhor compreensão dos métodos da "persuasão musculada" utilizada nas terras do Crescente.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Anainanão, ficas tu, eu não

via "A Terceira Noite"

A terrível orfandade da esquerda herdeira do "socialismo científico" é dramática. Habituada a pensar e agir segundo abstracções - as "massas", a "classe operária", os "oprimidos" - cuja liderança esclarecida e "democrática" conduziria à vitória final, perdeu de vista o indivíduo e as suas verdadeiras necessidades. Alheou-se dos novos movimentos sociais e estéticos, cujo raio de acção caía fora da sua agenda política, preenchida esta quase na totalidade com reivindicações de carácter corporativo. Essa esquerda orgânica, acomodada ao hedonismo e à sociedade do espectáculo triunfante no pós-guerra, recusou-se a ver os sinais que vinham do lado de "cá" - a inviabilidade do "Estado Social", o desmantelamento da indústria pesada e com mão-de-obra intensiva, a terceirização da economia, a emergência de novos paradigmas de conflitualidade - e do lado de "lá": Hungria, Checoslováquia, Polónia, Cambodja, Cuba, China, etc. Indícios inequívocos da falência daquilo em que diletantemente acreditava. Com a queda do muro de Berlim foi o descalabro. O mundo deixou de ter bons e maus. Andou nesta indefinição durante uma década. Em seu socorro vieram alguns balões de oxigénio: a luta anti-globalização, a primeira guerra do Iraque, entre outros.
Mas algo aconteceu que veio alterar as coordenadas geográficas da sua busca incessante de novos paladinos anti-ocidente - a emergência do radicalismo islâmico. Que identificou erroneamente com os "oprimidos" do capitalismo global. Acontece que esse paladinos são precisamente os grandes beneficiários desse capitalismo e que, aliados às oligarquias reinantes, mantem a esmagadora maioria - sobretudo as mulheres - das populações dos respectivos países numa situação de quase indigência, num regime de cleptocracia fundada na autoridade inquestionável do Islão. Essa mesma esquerda ignorou ostensivamente a proliferação de madrassas, o massivo recrutamento de jovens descontentes - alguns tendo estudado no Ocidente - o crescente poderio militar dos fundamentalistas, a sua organização supranacional, a audácia com que iam cometendo atentados terroristas, financiados pelos potentados do golfo. Ao fim ao cabo, na sua perspectiva, eram lições merecidas pelo "Grande Satã" e pelo seu aliado sionista, os únicos responsáveis pelo estado a que as coisas chegaram. Em três coisas, no entanto, acertaram: as tentativas de laicização que nos anos cinquenta e sessenta foram feitas no interior do mundo árabe, de que Nasser e o Hamas da altura são exemplos, foram boicotadas pelos americanos, no contexto da Guerra fria; que também financiaram e armaram os talibãs e o Iraque, quando eram aliados estratégicos no combate, respectivamente, aos soviéticos no Afeganistão e aos iranianos; a invasão do Iraque, embora contabilizada como vitória militar, pode muito bem vir a ser uma derrota política, para além de ter criado mais um foco de instabilidade propício à demagogia dos radicais.
Voltando ao tema, o resto é fácil de seguir: padecendo de uma orfandade crónica, e carecendo de um inimigo de estimação para exercer o seu ressentimento - porque foi incapaz de fazer o luto, na sequela da desagregação do Leste - a esquerda elegeu um alvo preferencial: os Estados Unidos. A que associou recentemente o anti-semitismo. E nesta fixação doentia tem gasto grande parte das suas energias, em vez de se reformular, enérgica e drasticamente. Pelo caminho, e para além dos ultras islâmicos, aplaude os neo-populistas sul-americanos Chavez e Morales, Milosevic, Fidel, a escalada nuclear iraniana, o Hezbollah, etc. Ficando em silêncio no assassinato do cineasta Theo Van Gogh na Holanda - lembram-se? Idem quanto ao derrube das estátuas budistas no Afeganistão, às ordens dos Taliban. Alguém lhes exigiu desculpas? E alguém já as exigiu aos dirigentes religiosos islâmicos que diariamente insultam, ameaçam, caluniam tudo o que seja Ocidental? Que diariamente encontram qualquer pretexto para incendiar a "rua islâmica" e reforçar o seu poder. Neste ponto, o episódio dos cartoons dinamarqueses é exemplar. As maiores vítimas do terrorismo islâmico, é bom lembrar, são, em primeira mão, os próprios muçulmanos. As acções terroristas, cada vez mais desmaterializadas e planeadas localmente, obedecem no entanto a um programa preciso - manipulação dos media, agitação cirúrgica, concentração de meios em zonas conturbadas, mobilidade logística, recrutamento de cidadãos muçulmanos de países ocidentais como "soldados de Deus", "oferta" de serviços às populações em zonas ocupadas, imposição de um padrão islâmico regressivo para todo o mundo muçulmano, mesmo nos países mais "liberais" (veja-se o caso da Tunísia), sendo que, só os alvos são aleatórios. Porque dependem, cada vez mais, de circunstâncias puramente operacionais.
Mas essa esquerda, que com várias nuances continua a colher os frutos daquilo que tanto detesta, esqueceu-se de um pormenor: este terrorismo não escolhe os alvos pela sua maior ou menor simpatia com a sua causa. Portanto, também ela pode ser vítima, também os mesmos que subscrevem, explícita ou tacitamente, a cruzada anti-ocidental, podem ser os próximos a cair. Toda esta história se resumiria simplesmente à ironia, se não fosse profundamente trágica.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

Os Idiotas


(via "Blasfémias")

Desde os anos oitenta que já nos tinhamos habituado a isto: manifestações dos
utilíssimos-idiotas-à-procura-de-causas-de-capa-de-jornal-agora-a-paz-amanhã-
logo-se-vê-os
-maus-estão-sempre-de-um-lado-desta-vez-os-bons-são-aqueles-
rapazes-adoráveis-do-hezbollah
-que-tanto-gostam-de-fazer-campanhas-de-
desinfestação-em-bairros-chiques-uns-amores-os
-maus-são-os-israelitas-e-
seus-aliados-oh-pá-foi-tão-gira-a-manif-amanhã-saímos-no-jornal...

Haja paciência para esta tropa. Ainda não se deram conta do mundo em que vivem. Não obstante, o delírio seria somente divertido, se a condescendência com o terrorismo associada não fosse imensamente perigosa, quase suicidária.
Pensar não é ter causas fáceis. A minha solidariadade está com quem defende a liberdade e o indivíduo, contra o fanatismo e a barbárie. Israel defende a sua sobrevivência como Estado soberano. É tudo. Como já diziam os romanos, às vezes é necessária a guerra para ter a paz. É o que afirma, por outras palavras, Amos Oz, o grande escritor israelita. Ver aqui.
Em relação ao abaixo-assinado que anda aí a circular, promovido pelo Movimento pelos Direito do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente, onde pontificam nomes de proa da intelectualidade nacional, nada melhor do que as pertinentes questões lançadas por Eduardo Pitta, em "Da Literatura".

Para acabar de vez com as dúvidas acerca do que é e do que pretende o Hezbollah, obrigatório ir a este post, referente a um documentário exibido na Sic-Notícias sobre esta sinistra organização.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

O sagrado e o profano





Enquanto fenómeno de luta política, não surpreende a onda de choque levantada pela publicação de doze cartoons no jornal dinamarquês Jyllands­-Posten, em Setembro do ano passado. E que depois foram reproduzidos em vários jornais europeus, onde as hierofanias islâmicas são objecto da sátira. Sobre o assunto já quase tudo se disse. De um lado, aqueles que pressentiram que estava em causa a liberdade de expressão e o Estado secular, activos fundamentais do património histórico e cultural europeu, mas também categorias universais de pendor kantiano. Do outro, numa aliança aparentemente contra natura, certa esquerda parada no tempo e a direita ultramontana alinharam na habitual cartilha politicamente correcta do complexo colonial, do relativismo e da defesa do indefensável. Mas a quem aproveita a fúria destrutiva das hordas vociferantes do crescente, tornadas o lumpen proletariado ao serviço de Deus, senão aos teocratas que as lideram e manipulam a seu bel-prazer? Só que, o impacto da violência desencadeada nas “ruas” do Islão não aproveitará também aos intolerantes de “cá”? É sintomático que a indignação dos manifestantes tenha recolhido, desde a primeira hora, o apoio de Le Pen… Adivinha-se também facilmente a posição de certas seitas fundamentalistas americanas, que já conseguiram erradicar o ensino da teoria da evolução nas escolas de certos Estados… Essa indignação acabará por ter, mais cedo ou mais tarde, a devida cotação nos mercados financeiros ligados ao petróleo e tudo regressará à “normalidade”, convenientemente policiada pelas oligarquias no poder, acolitadas pelos líderes religiosos e agitadores fundamentalistas do costume. Salvaguardados os lucros e os privilégios, business as usual. E é claro que neste jogo não há inocentes. De um lado e do outro.
No entanto, pouco se tem dito sobre o facto em si: o significado da decisão editorial de publicar cartoons que caricaturam o profeta Maomé e não só. Embora, repito, a reacção inusitada perante a sua publicação seja fundamentalmente política, porque convenientemente orquestrada por quem só a intimidação do Ocidente a qualquer custo interessa. É pois de salientar que, enquanto objecto artístico, as caricaturas têm grande qualidade, são mordazes quanto baste. Sobretudo a da autoria de Plantu, publicada no “Le Monde” onde um lápis em forma de minarete desenrola uma sucessão de linhas onde se lê “je ne dois pas dessiner Mahomet” e que acabam por formar o rosto do profeta, assinalando o interdito sob a vigilância inquisitorial de um muhezzin no alto do lápis.
Ora, se o riso é próprio do Homem – embora se diga ser um atributo de Deus – o humor, pelos vistos, ainda não adquiriu essa qualidade universal e partilhada por todas as culturas. Nem podia. O sagrado impõe as suas regras precisamente porque não pode ser questionado, a não ser pela invocação de outro sagrado. A negação do sagrado é pois menos destrutiva do que a sua lenta dissolução através da sátira e dos costumes, o “humano demasiado humano”, uma derrisão que faz cair pela base os poderes organizados em seu nome. “Se Deus não existe, tudo é permitido”, uma hipótese dilacerante que acompanha Dostoievski ao longo da sua obra, exemplarmente ilustrada no último capítulo de “Os Possessos”, censurado na versão original, onde Dmitri conta as suas infâmias a um Pope misantropo, que em desespero lhe atira que “pior do que não ter Deus é não ter Deus nenhum”.
Por outro lado, não é só a figuração que é interdita na arte islâmica. A noção de representação é estranha ao Islão, por imperativos religiosos, sendo impensável a existência do teatro, em qualquer uma das suas categorias. Mesmo a dança vertiginosa dos Sufis é um ritual extático de ordem mística. Significativamente, foi em grande medida a partir do teatro grego que nasceu o Ocidente enquanto entidade cultural. Essa capacidade de nos rirmos de nós próprios enquanto seres que a tragédia destrói e redime. O humor é pois o agente dissolvente por natureza, mas a forma como ele é valorizado é também um sintoma de saúde democrática. É crucial perceber que a liberdade de expressão, com os outros direitos fundamentais como seu limite natural, é nas suas margens que tem que ser defendida e quiçá avaliada. Goste-se ou não do que ela veicula. Esta história está para durar…