Sábado, 11 de Julho de 2009

Graffitis - 36


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Longa Marcha

No fim dos anos vinte havia gente boa na China que achava que era melhor morrer de armas na mão do que morrer aos bocados na rua, de ópio, de fome, de exploração. Tinham começado por ser republicanos, por desespero contra a traição do Imperador manchú face aos japoneses. Tinham-se depois tornado comunistas porque acreditavam num último esforço da Justiça. E revoltaram-se em Shanghai onde o nacionalista chinês Chiang Kai-Shek, que amava a sua Pátria ao seu modo, os decapitou às centenas na rua. E fugiram. Fugiram. Para o Norte, para Oeste. Marcharam pelos terrenos mais difíceis do Mundo, morreram de fome sem pilharem os camponeses. De cada dez, à partida, chegou apenas um. Muitos ficaram para trás, morrendo torturados. Uma delas foi a primeira mulher de Mao Zedong. Os chineses chamam-lhe «um tempo para lembrar». Entre eles ia um homem pequenino, que se embriagava sempre que podia, que os outros gozavam e a quem chamavam Deng Xiaoping, a «pequena garrafa Deng». Mais tarde, esta pequena garrafa, achou que não importava se o gato era preto ou branco, desde que caçasse ratos, os ratos da miséria da sua gente e, quando morreu, pediu que o queimassem e deitassem as cinzas dele ao mar. Do outro lado do mar, um actor amado pelas mulheres que fora toda a vida homossexual, Rock Hudson, morrendo em sofrimento, pediu a mesma coisa.
Hoje vejo que uma maioria de gente, oprimida e humilhada nas suas crenças e na sua cultura, acha por bem correr a rua de uma cidade no meio do deserto e matar à paulada uns imigrantes internos. E depois, vejo que os imigrantes internos se acham no direito de, no dia seguinte, correrem as ruas e vingarem os seus companheiros inocentes que morreram no dia anterior. No meio deles vejo os polícias chineses e ao cimo vejo um mundo que diz «eu não sou polícia», como Caim dizia a Deus, depois de matar Abel, « eu não sou guarda do meu irmão».
Que a Longa Marcha guarde estes polícias. Ninguém tem o direito de andar a matar à paulada. Que o espírito de Sun Tzu, aquele General que achava que a maior vitória era aquela em que se não derramava uma gota de sangue, encha de alegria o trabalho destes polícias mal equipados, mal pagos e com um sentido inato de que as coisas têm um modo de ser feitas. O mundo em que vivemos será mesmo esse, aquele em que nos viraremos para a direita e veremos a torre de uma mesquita, nos viraremos para a esquerda e veremos alguém que acelera ruidosamente um carro que não queremos e contra o qual votámos. Olharemos em frente e teremos alguém que pensa e sente de um modo diferente daquele que aprendemos. Olharemos para trás e alguém nos olha com mau-querer.
E que tenhamos a coragem, se a situação se tornar insustentável, de começar a Longa Marcha, pelos terrenos mais difíceis do Mundo e do Espírito, morrer de sede sem roubar uma maçã pendurada do ramo de algum pobre. Só para que o Mundo seja menos feio, como na coreografia de Michael Jackson em «Beat it», onde a violência se transformou em Dança e a dança é a vitória sobre os demónios, pelo Amor e pela Harmonia. Que os Polícias da China, num sítio onde o Céu é muito alto e o Imperador está muito longe, dancem como os guerreiros de Qia Long, enterrados, numa noite de Lua Cheia.

André

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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Acabei de efectivar um post sobre a Guarda

Lendo alguns blogues locais e ouvindo algumas opiniões, parece que o exercício da crítica na Guarda se tornou um pecado, digamos, venial. Exigindo-se, implicitamente, uma consensualidade e uma auto-complacência que, normalmente, conduzem ao umbiguismo e ao definhamento adiado. A palavra "parece", que atrás utilizei, não foi por acaso. Claro que ninguém se coíbe de comentar episódios da vida pública. E nem é esse facto que está aqui em causa. O problema está a montante: na desinformação por vezes veiculada pela comunicação social local; na descontinuidade entre a opinião que se tem em privado daquela que, sendo o caso, se tem publicamente (isto porque não existe na Guarda um espaço público plural e esclarecido digno desse nome, prevalecendo a não inscrição de que falava José Gil); a tendência a pessoalizar o debate, onde isso não é de todo aconselhável. Houve uma verdadeira causa em que participei, nos anos da juventude na Guarda, ao lado de muitos outros: a afirmação da modernidade na cidade. Pelos vistos, duas décadas depois, o programa da altura continua a fazer sentido. Podia dar muitos exemplos, mas vou-me cingir a um, por sinal emblemático: o TMG. Na esmagadora maioria das cidades deste país, a existência de uma estrutura daquela qualidade e com uma oferta cultural da envergadura que se sabe, seria motivo de orgulho para todos. Mesmo discordando-se dos padrões dessa oferta. Pois o bom senso e algum brio levariam a concluir que, sem um TMG, a cidade ficaria muito mais pobre e, se calhar, muito mais triste. Na Guarda, infelizmente, não foi isso que sucedeu. Embora dotada de um objecto cosmopolita que a projecta, uma parte dela encara-o com desconfiança. Em parte, graças a uma minoria "qualificada", que o ataca não por razões plausíveis, i.e., discordâncias face ao modelo de programação ou determinado espectáculo, mas como argumento ao serviço da luta política, da concorrência empresarial, ou de simples interesses difusos e agendas pessoais. Ou seja, para alguns cidadãos, sejam eles anónimos ou figuras da vida pública, o TMG ainda não foi internalizado como património da cidade, estabelecendo-se à sua volta um módico de consensualidade e reconhecimento. Outros exemplos poderiam ser dados, como já referi. E todos eles conduziriam ao mesmo diagnóstico. Todavia, existem diferenças entre a forma como o obscurantismo e o ódio à moderninade se estrincheiravam na altura e agora. Se antes o clericalismo e o caciquismo eram alvos certos e cristalinos, agora oa agentes do subdesenvolvimento podem ser encontrados em qualquer lugar. Nuns mais do que noutros, é certo. Só que agora sobrevivem de /e alimentam os pequenos poderes, em lugares-chave, as clientelas renovadas, os sibilinos jogos de influências, as redes de branqueamento e de impunidade. Ou seja, antes actuavam como polícias da moral e agora como agentes de uma administração, de uma economia e de um mérito paralelos. Portanto, nesse acerto da cidade com a contemporaneidade, é caso para dizer: "a luta continua"...

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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

O velho do restelo

Em outro momento, aqui declarei Miguel Sousa Tavares como intelectualmente defunto para este blogue. As razões foram explicadas na altura. Até porque MST não lê blogues, detesta bloggers e desconfia das redes sociais, como por várias vezes já se prestou a esclarecer. Pois o autor de "Equador" acaba de publicar uma crónica no jornal “Expresso”, intitulada "Esta noite sonhei com Mário Lino". Trata-se da recriação de um diálogo, meio real meio ficcional, que teve com uma "amiga estrangeira" (uma péssima definição, pois penso que os amigos nunca são estrangeiros para nós, a não ser que...) num percurso pela A6, entre Lisboa e Badajoz. Como se dá conta, o tema é a "alta velocidade", a construção de auto-estradas "a mais" e outros "elefantes brancos". O texto, muito apropriado para a silly season, é inquestionavelmente divertido e cria uma razoável malha argumentativa sobre temas fundamentais para o desenvolvimento do país. No entanto, se por um lado revela um pathos muito característico, por outro enferma de alguma demagogia e de muito pessimismo. Senão vejamos:
1. MST tornou-se uma espécie de luddite do séc. XXI. Que para além de desdenhar as novas formas de comunicação e informação, é contra o investimento em vias de comunicação estruturantes (ferro-rodoviárias), que associa a um fontismo desmesurado e sem justificação.
2. A sua "luta" pretende recriar o mesmo episódio de há 150 anos atrás, quando começaram a ser construídas as grandes linhas férras e o combóio se afirmou na paisagem e na economia nacionais. Marcando irreversivelmente o seu desenvolvimento. Sabendo-se que, em 1820, não havia sequer uma estrada contínua entre Lisboa e o Porto, demorando a viagem de carruagem dois dias. E não houve decerto factor de aproximação à Europa tão forte como a existência da linha "Sud Express", apartir de 1880. Sim , também li "A Cidade e as Serras", mas aqui a discussão é outra.
3. Portanto, em vez de fazer esperas aos combóios, armado com um chuço ou uma gadanha, como os camponeses da época do fontismo, MST aparece sob as vestes do paladino contra o betão, o asfalto e os planos faraónicos. Sejam eles o TGV ou a barragem do Alqueva, as autoestradas ou o novo aeroporto.
4. Convém agora dizer que o cronista tem razão nalguns pontos. Passo a enumerá-los: o excesso de troços de autoestrada ligando pontos já servidos por essa infraestrutura, ou cuja extensão diminuta aconselharia à simples duplicação das vias existentes; o caos urbanístico que se instalou na maior parte do território continental e insular; a saturação da linha do Norte, apesar do colossal investimento aí realizado; o tradicional esbanjamento de recursos públicos.
5. Em tudo o resto, a sua crónica parece-me manifestamente exagerada, parafraseando Mark Twain. Notam-se demasiado os preconceitos e a mente curta do lisboeta para quem o resto do país, com excepção do Algarve, deveria ser uma reserva cinematográfica, cinegética e com livre-trânsito para as provas com veículos todo o terreno. De preferência com estradinhas com boas vistas, paisagens sem mácula poluente, gente sorridente e solícita, uma disneylandia rural fantasmática, sem campos de golfe, mas cheia de hoteis com jaccuzzi, para as escapadinhas com as "amigas estrangeiras". Um país de acordo com a versão ampliada e revista da que teve o Estado Novo, pela mão de António Ferro e do SNI.
6. Po outro lado, MST recusa liminarmente a construção do TGV. Usando o argumento do provincianismo. É curioso que o cronista tenha referido esse pecadilho intelectual. O escritor Milan Kundera, no seu último ensaio, "A Cortina" (ed. ASA, 2005) refere precisamente a existência de dois tipos de provincianismo, igualmente negativos: o dos "grandes" e o dos "pequenos". É certo que o autor se refere sobretudo à produção literária. No entanto, o argumento é válido mutatis mutandis. Pois MST consegue, de uma assentada, conciliar os dois provincianismos. Ou seja o "deixemo-nos ficar isolados pois ninguém quer saber de nós", típico de quem vive num país periférico, com o "nós aqui já estamos servidos do que interessa, para quê dar valor ao que está fora?", típico de quem vive na capital!
7. O ponto de vista de MST resulta assim pobre, curto e algo arrogante E porquê? Sabe-se que o custo do transporte rodoviário, de que depende 80% da economia nacional, se tornou incomportável; que existem autoestradas transversais, que ligam o interior e o litoral, ainda sem custos para os utentes (algo de que MST decerto discorda), onde a discriminação positiva se justifica plenamente, uma vez que são essenciais para o desenvolvimento do país e para a sua coesão; que um novo aeroporto se justifica, embora com dimensões modestas, destinado a vôos "low cost", associando as respectivas companhias à gestão da nova estrutura; que é urgente a construção de duas linhas de alta velocidade: uma em "T" que ligue Lisboa ao Porto e a Madrid, e uma outra, sobretudo para mercadorias, entre Aveiro e Salamanca, com ligação à rede europeia.
8. Claro que todas estas estruturas são dispendiosas e requerem um elevadíssimo investimento. Mas os benefícios não se podem medir somente em números. Tal como o Alqueva não se pode avaliar pelos resultados imediatos, mas pela sua utilização futura, cujos contornos porventura desconhecemos. Ora, é precisamente pela amplitude da generosidade para com as gerações vindouras e pela visão prospectiva em relação ao devir que a história nos irá julgar. Não desperdicemos a oportunidade.

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Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

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"A Aversão", de André de Melo (3ª parte)

A Si tinha ficado a falar com o Director do “Europa”. Este deixara-se enterrar numa poltrona com os joelhos completamente juntos e os pés cada vez mais afastados.
De vez em quando punha as mãos entre as pernas e olhava para a sala semi-vazia, um pouco desolado. A contracção em que vivia - o prestígio também, é certo - como Director do órgão oficioso do Estado (o que era diferente de Governo), a religião do colarinho branco e dos fatos muito respeitáveis em que tinha sempre vivido, deixavam-no, por vezes, de rastos. O pior era quando antecipava os pequenos gestos de contracção próprios da intimidade e lhes começava a soçobrar ainda em público. Fazia uma triste figura, ele, que enganara tanta gente com o seu queixo sem pescoço sempre apoiado num firme colarinho engomado e as meias pretas longas compradas em sítios que se segredavam como os fornecedores de droga ou de charutos havanos de imitação. Tinha a roupa toda engelhada à volta das pernas, contraídas num frémito de aflição e o casaco pendurado no palmo de ombros como a sobrecasaca do grilo dos desenhos animados. Ficara um bocado como o marido da Mi, o negociante francês (estão a lembrar-se, certamente) mas não era já um mergulho de cabeça na depressão porque toda a figura estava patinada de claro e dava um certo ar primaveril. Era antes um murro no estômago do ânimo, o que condizia, aliás, com a sua posição, curvado, de cotovelos no umbigo. Ficaram juntos, ele e a Si, por algum meneio que esta deu ao corpo grande onde já adornava um sortido razoável de hospitalidades. (ler mais)

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Terça-feira, 7 de Julho de 2009

A vidraça

os pássaros fugiram
investem agora contra a vidraça
e eu sei que sou todos eles
quando fecham as asas por fim
na perplexidade do vidro
eu sei que sou todos eles
e que o amor me morre atrás dos olhos
dentro de todas as palavras fechadas

A. M., in "A Imitação dos Dias"

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Domingo, 5 de Julho de 2009

Sarebbe bello vivere una favola - 11


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Contraditório

Por vezes ouço o programa "Contraditório", na Antena 1. Trata-se de uma emissão em formato "debate", com comentadores residentes: Ana Sá Lopes, Carlos Magno e Luís Delgado. Recentemente, fui formando a convicção de que a rubrica já teve melhores dias. Na última emissão discutiu-se a saga taurina de Manuel Pinho, o debate parlamentar sobre o Estado da Nação e o relatório da SEDES, que aponta o estado da Justiça como o principal factor de descredibilização do regime. Pois acreditem que o fórum se saldou por uma mediocridade nunca vista. Os comentadores limitaram-se a debitar lugares-comuns, por vezes a descair para o engraçadismo, sem nunca ir à raiz dos problemas. Ana Sá Lopes, um dos maiores exemplos vivos do politicamente correcto, não descola do discurso da tia da Linha, indecisa entre ir ao psicanalista ou ir a uma reunião feminista. A vacuidade é atroz. Luís Delgado, mais um liberal saído na Farinha Maizena, tornou-se um apoiante de última hora de Sócrates. Tudo isto porque, sendo um santanista, não lhe interessam nem um bocadinhos os louros para Ferreira Leite. Lá vai dizendo umas coisinhas sobre politica internacional com algum interesse. O mais lúcido, apesar de tudo. Por último, aparece Carlos Magno. O homem está em estado de pré-senilidade. Repete-se, não deixa falar os outros. Permanentemente auto-centrado, não esconde um provincianismo que, no Porto, já só usa quem quer. O seu posicionamento político é uma nebulosa de bitaites. Onde o factor territorial, com o Porto no centro de tudo, comanda a vida, como na canção. Depois quer fazer passar um progressismo afinal conservador, muito "anos 60", do género "eu é que estive lá nos anos da brasa", etc. É o típico burguês do Norte, mas sem o brilho, a ilustração, ou aquele cepticismo epicurista que podemos encontrar nas crónicas de António Souza Homem. O que redunda, por vezes, num atavismo inaceitável. Recordo-me do momento em que Ana Sá Lopes relatava a importância que tiveram na AR as redes sociais online, mormente o Twitter, no episódio da demissão de Pinho, após a sua investida. Magno rebateu logo que isso (as redes) era politicamente correcto. Assim, sem mais nada. Em que planeta vive este homem? No conjunto, a argumentação de todos foi paupérrima. No caso da Justiça, limitaram-se a meia dúzia de banalidades, a uma comparação com o sistema judicial americano e se a pena imposta a Madoff tinha sido "correcta". Muito pouco, diga-se. Nunca lhes passou pela cabeça que o maior problema da Justiça se pode encontrar na crónica balcanização pelas várias classes que nela operam?

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Sábado, 4 de Julho de 2009

O terceiro mundo

Este homem é muito mais do que um vendedor de pneus suburbano, semi analfabeto, sem competências sociais, nem "mundo". E que o laxismo que alguns confundem com democracia empurrou para o estrelato. É o representante exemplar do pato-bravismo pós prec, que prosperou à custa de negócios semi-clandestinos. E que, como bom self made men da gamba e do merxedes, não descurou o negócio. Gere o Benfica como se fosse o supermercado da esquina. Sem estratégia, sem brilho, sem resultados, sem auto-avaliação, sem respeito pelas opiniões divergentes, sem educação, sem estatura cívica condigna, sem deixar de se achar dono daquilo que é simplesmente depositário em nome dos sócios, sem rasgo, sem carisma, sem fair play, sem nunca reconhecer o erro. Este homem pode ser um bom fiscal de obras, mas não serve para um lugar como o Benfica. Se continuar, vai acabar por o banalizar, pô-lo a lutar pelo 3º ou 4º lugar, ser o bombo da festa dentro e fora do país. Um case study onde o sebastianismo manda, em lugar das vitórias. Portanto, espero bem que a coisa bata bem no fundo. Pode ser então que alguém aprenda alguma coisa.

PS: O homem teve uma vitória albanesa. que os capangas de serviço já se encarregaram de apregoar aos céus. Mas porquê tanto estardalhaço? Lembremos que foi "eleito" ao arrepio de uma decisão de um Tribunal; que passou a campanha a caluniar os opositores; que recolheu 18 825 votos, num universo de 178 000 sócios (para já não falar nos tais seis milhões de simpatizantes); que reduziu o Benfica, desportivamente, à vulgaridade. Que legitimidade real tem o homem para continuar a enterrar o clube? Será que não tirou as devidas conclusões, face à onda de contestação à sua gestão? Por outro lado, as reacções sectárias e alucinadas dos apoiantes envergonham-me como adepto. Pensava que o Benfica era um lugar de liberdade e de pluralidade. Não é. Isto não foi uma eleição, mas uma nomeação por uma micro minoria. Com estas hordas, o SLB tornou-se um lugar perigoso. E eu já não quero assistir ao resto.

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Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

A candeia

Houve decerto uma tarde em que o céu se estendia sobre a lassidão dos meus pensamentos. Daí emergindo uma espécie de irreversível fantasia, ora doce, ora ameaçadora. Um reflexo possível daquele azul pálido, com pequenas nuvens alvas, voando à superfície, através das copas desfolhadas das árvores em redor. Como seria estranha essa indizível estranheza! As palavras combinariam com um arruinado templo de Delfos, povoado de deuses solícitos ou punitivos. Talvez um calafrio me percorresse até à ponta dos dedos. Os pensamentos erguendo-se desordenadamente, como bolhas de água fervendo: existia, portanto, algo com que sempre se teria de contar, algo de que me precaver, algo que subitamente pode saltar fora dos calados espelhos dos nossos pensamentos. Ou ainda, será possível que, naquela tarde de luz, no meio do que antes parecia nítido, se abrisse uma porta levando a outro mundo, imprevisível, desnudado, devastador? Será possível que entre uma transparente e firme casa de vidro e ferro e uma outra, onde se deambula por confusos corredores repletos de vozes, não exista apenas uma passagem, mas que as suas fronteiras se toquem, secretas, próximas, podendo ser ultrapassadas a qualquer momento?. E, ainda assim, as palavras, essas palavras, em sobressalto, estendidas eternamente por milhares de sinuosidades, como uma escada sem fim e sem objectivo. Essas palavras que vão alumiando, às cegas, por entre o sopro brutal do vento glacial que me invade.

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A idade dos porquês - 3

Porque será que só os poetas conseguem encontrar, no mesmo instante, um enigma insolúvel e uma inexplicável coerência?

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Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

O auto da marisqueira


Está confirmado oficialmente. A lista do senhor da imagem, concorrente às eleições de sexta-feira, vai ser suspensa. Graças à providência cautelar interposta por Bruno Carvalho, o outro concorrente, director do Porto Canal. Cujo blogue que o lançou na corrida -"Novo Benfica" - tenho acompanhado e comentado com interesse. Finalmente fez-se justiça! A manobra da demissão em bloco dos corpos sociais, destinada a antecipar as eleições, transformando-as numa espécie de plebiscito forçado, não deu os frutos desejados. O expediente, de uma esperteza saloia pungente, deve ter sido combinado nalguma marisqueira de referência. Imaginemos então os pormenores:

O da bigodaça lá ia ensaiando soletrar três frases seguidas sem erros ortográficos e sem se levantar e dizer, em alvoroço, perante o fantasma de Pinto da Costa: "porra, tirem-mo da frente senão, senão... mostro-lhe já que também sou sócio do clube dele... olha, olha... eu nunca falei com árbitros, ouviram?" Mais adiante, depois de umas ameijoazinhas, verberou, com ar berlusconiano, contra "essa garotada que anda por aí... estarei firme contra os oportunistas", referindo-se aos críticos que se limitaram a querer um Benfica ganhador e moderno".
Por sua vez, o Vilarinho, depois de duas "Tapada do Chaves" tinto, cinco Chivas e três CRF bem aviadas, ainda conseguiu pôr-se em pé: (para o empregado) "ófaxavôr, traga-me um absinto com gelo, ao menos é verdinho (hic)... sim, porque de benfiquistas já estou farto... sempre a chatear, sempre a criticar (hic)... aquele bruno tripeiro a comparar-nos a cigarras (hic), sabem que mais? agora sem a barba chegava bem pra ele... HIC" (arroto canoro, aplaudido imediatamente pelos apoiantes vieiristas, com ar de sicários de algum "bandido" mexicano, agarrados à lagosta e atirando amiúde uma setinhas contra o alvo com o retrato do bruno carvalho).
Entretanto, o comprador de jogadores por atacado conferenciava à parte com os capangas do blogue "Tertúlia benfiquista". " Vencer, vencer? Quantos são, quantos são? A gente parte-os todos, meu comandante, é só dizer" dizia um, enquanto dava vigorosas marteladas na perna de uma sapateira. "Um lacaio do Oiliveirinha, é o que ele é. A criticar assim à tripa forra este nosso querido presidente! O único que consegue estar em 5 casas do Benfica (faz um acto de contrição) ao mesmo tempo..." dizia outro, a sorrir para um futuro tachinho. O querido líder lá ia compondo a bigodaça, tamanho 165/70 R13, enquanto murmurava para si: (aparte) "quem me dera ser o estaline, io... assinava já umas ordenzinhas de execução antes do digestivo, io... bigode e perfil de superhomem nitzschiano já tenho, io..." (claro que esta tirada do "superhomem" é reveladora que o nosso homem afinal é um letrado a fazer-se passar por pastor do povo benfiquista, mas que, afinal, se revelou como um hamlet de fino recorte). Nisto chega o Vilarinho, de gatas, agarrado a uma perninha de frango e uma garrafa de Cutty Sark 15 anos. "Já sei! (hic, hic) Demitimo-mo-n..-nos todos em bloooco.(hic) Assim teremos iiiiileizões agora em Julhlhlhlho (hic) e vão ser favas contadas... O Moniz que o meta no nariz e o carvalho que vá pró..." O bimbo levantou-se, com ar de quem descobriu a pólvora, seguido imediatamente dos consortes. "Meu bom Vilarinho! Dá cá esses ossos e, já agora, a garrafa! Acabaste de me resolver um problema f..... Até já era para apitar pela intervenção divina! Sim, porque eu com árbitros só falo no messenger." Seguiu-se um concurso de jargão futebolístico, onde os sicários e comensais puderam qualificar apropriadamente os críticos e mofinadores da OBRA FARAÓNICA, GIGANTESCA, DIGNA DE CALÍGULA, CICLÓPICA E IMORTAL DE LFV. Sem nunca lhes passar pela cabeça que, se os adeptos do Benfica quisessem um bom contabilista ou um bom gestor de conta a dirigir o seu clube, mas com a equipa a ser humilhada e a nada ganhar, torciam aos fins de semana pelo gabinete de TOC mais próximo, ou pelo Banco de que seriam clientes.

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Tsimfuckis

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Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Já agora...

Intensificação da co-gestão como fórmula participativa por excelência na condução das empresas; encarar o trabalho como um valor acrescentado na qualidade de vida e realização pessoal e não como uma mera utilidade produtiva; abandono gradual do conservadorismo fiscal, com a adopção da progressividade e de uma taxa a incidir sobre operações financeiras; luta sem quartel contra a burocracia e a ineficácia da administração pública; e, sobretudo, para clarificar o contrato associativo que funda a democracia representativa, não confundir a vontade de todos com a vontade geral...
Eis alguns temas que, na praça pública e nos think tanks mais atentos, poderiam fazer a diferença no debate político e social do momento. E trazidos por quem? Pela esquerda reformista, evidentemente. Pois a outra anda demasiado ocupada a olhar para o passado e a apontar aos "neoliberais" nas barracas de tiro.

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Terça-feira, 30 de Junho de 2009

"A Aversão", de André de Melo (2ª parte)

A meio da manhã, foi fazer compras. Atravessou o jardim até à garagem pela trilha de pedras, como se caminhasse já pela rua central de Cascais. Olhou de relance o jardim e viu a piscina onde o filtro mergulhava como um animal pré-histórico a beber. Achou que assim estava bem, deixava a casa numa perfeita tranquilidade ( “pax tranquilla libertas est” já dizia o Cícero). Sentiu-se agradecida a Deus por viver naquele sossego, longe da brutalidade de Lisboa. No entanto, quando punha o carro a trabalhar, subiu-lhe uma comoção profunda pela cana do nariz e desaguou num pranto inexorável. Baixou a cabeça de modo a que o chapéu de aba larga lhe ocultasse a cara e... chorou mesmo. “Meu Deus! Como é possível!?”, bramiu, enquanto desferia os punhos no volante. Sentir-se observada daquela maneira, esquadrinhavam-na a cada canto da sua vida íntima, a perseguiam-na a cada segundo!”. Será que a inveja pairava no ar, era o anjo da Morte dos primogénitos, depois das pragas da brutalidade e da falta de educação generalizadas?! Porque é que a perseguiam daquele modo quando escrevia? Sentia os dentes de predadores rangendo nas obscuridades daquela Lisboa de falhados, sentia o catarro de aves absurdas preparando-se para romperem o silêncio, à gargalhada. Tinha a alucinação de que passava numa floresta de espinhos em camisa de noite e uma das fímbrias prendia-se, ela não conseguia libertá-la, ficava nua e esfarrapada à vista das árvores ululantes ( devia andar a ver demasiados vídeos...). (ler mais)

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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

O arraial

Ninguém porá em causa que, na Guarda, existe uma oferta cultural com bastante qualidade. Quer em termos absolutos quer relativos. Mormente aquela que chega por via do TMG. No entanto, apesar de alguma constância ao nível dos públicos, pesa ainda muito o lastro local da relativa ausência de hábitos regulares de fruição cultural e de uma massa crítica participativa e independente. Realidades estruturais que poderão ainda ser vistas sob outros formatos: a inexistência de uma intermediação crítica entre a imprescindível informação, que acompanha os espectáculos e o simples copy/paste dos press release com que os jornais "noticiam" a cultura. Falta pois o meio termo, que neste caso encerra uma virtude inigualável: indicia uma opinião pública descomprometida e esclarecida, mas que não receia sair das torres de cristal onde alguns iluminados se encerram; mostra os sinais de um espaço público dinâmico, sem receio do contraditório, em que várias verdades coexistem e se vão compondo com urbanidade e audácia.

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Domingo, 28 de Junho de 2009

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Oração do espantalho

Desta ideia de que «sai para a rua» e tudo se resolverá, se estende uma sombra medonha. Não é um filme de terror, nem digo isto para me comprazer em dizer mal da Democracia. Em Teerão, as pessoas sabem tão bem como nós o branqueamento que acompanha as Revoluções. Mussavi, em fato escuro, com a mulher cheia de títulos académicos, pela mão, sabe melhor que ninguém que não escaparia a um tribunal dos Direitos Humanos. Nem o Ocidente. O miliciano que matou Neda, tinha cerca de quarenta anos, o que quer dizer que era um adolescente quando muito provavelmente foi combater para os campos de minas, na pior guerra que o Ocidente encomendou sobre o Irão. Uma juventude perdida é igual a um desvio de pontaria. O primeiro dever dum Estado e de todos os Estados é a Vida e a Morte. E, no meio disto tudo, deleitamo-nos decadentes com Farrah Fawcett há uns anos, quando ainda tentava ganhar dinheiro à conta daquilo que depois tentaria vencer, a exploração do seu corpo na ribalta. Com David Carradine, a busca de um moral budista, como desculpa, num actor filho de Hollywood, deixou-o morrer infame num hotel de Banguecoque. Com Michael Jackson, basta vê-lo no videoclip «I’m bad» para perceber o demónio, ardendo no Inferno, em que o tornaram. E, sobre os cadáveres dançam os desgraçados do «gay pride», festejando o fim de uma civilização que provavelmente teve o seu «Titanic» no avião da Air France sobre o Atlântico. Que guerra se seguirá? Frustrados por não termos tido a morte em directo dos três ícones, temos a de Neda, em Teerão. E prometem-nos que a crise se comporá, como não podia deixar de ser. Como se interrogou um general romano face a um centurião espantado com a carga de uns bárbaros sobre as legiões: estes deviam saber quando vão ser esmagados. Deviam?! Apetece-me gritar que o que vai triunfar é isso mesmo: o Socialismo e não a Democracia. Os derrotados de Waterloo não sabiam que morriam pelo futuro, um futuro em que os pés-descalços também tinham direito à cidadania. Sim, viva o socialismo, mesmo o socialismo por quem Niccoló Bombacci morreu de punho erguido ao lado de Mussolini e dos super-fascistas. Um socialismo onde o Bem Comum seja o nosso dever, o nosso Orgulho, a nossa realização. E que nisso, nessa certeza, nos seja finalmente dada a paz interior. S. Pedro, deixa-me entrar, pois fiz o melhor que pude para que todos pudéssemos entrar aqui um dia. E trago o meu canário, o meu gato e o meu cão, o meu vizinho irritante, o meu irmão desavindo e este espantalho em farrapos que fui eu, que me crucifiquei ao sol para que a seara florisse…

André

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Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

A mala do portátil do gajo

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Curtas

1. Leituras para este fim de semana: reler "O Livro das Horas", de Rilke. Um dos tais que, se pudesse, levaria para a eternidade.
2. Hoje à noite lá estarei no Poetry Slam, a partir das 22h30, no Music Box, ao cais do Sodré. A sessão faz parte do "Festival Silêncio".
3. Recomendo a leitura da crónica de Vasco Pulido Valente, no jornal "Público" de hoje, intitulada "O Contrato". Eis uma das alíneas do "negócio" da democracia portuguesa: "o Estado criava as classes médias que não existiam, protegia as que existiam e assegurava uma certa prosperidade a todas".

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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Momentos Zen - 56

O que é esquecido também faz parte da bagagem


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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

O gajo a fazer uma gracinha num museu

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"A Aversão", de André de Melo (1ª parte)

Antes do sol nascer, já dói o fígado a quem tem de se levantar.
Se espreitar pela janela descobrirá, então, um pequeno dia, completo, entre as casas. Às vezes há também a neblina que convém num frio atrevido e pica o novelo dos olhos estremunhados, convocando um espirro como uma bala na câmara.
Por outro lado, o arfar – primeiro, compassado, depois sem ordem - dos autocarros, já tinha atravessado o sono há muito tempo, ainda era noite cerrada, até o deixar exangue de anjos e prenúncios. Os boémios vinham esconder-se à pressa, por trás da porta vacilante antes de o sol - se viesse - cerrar o punho flamejante sobre a avenida, onde as manhãs não cantam, nem assobiam.
Longe dali, há orvalho e sarças, vegetação espinhosa, ainda ao alcance do mar. E a manhã pede licença. Os besouros e as cigarras cantam até mais tarde e há sempre alguém percorrendo um carreiro entre a vegetação que, a certo ponto, julga estar sozinho e começa a assobiar... ou até a dar até uns passinhos de dança. Ao longe escuta-se a sirene de um comboio. (ler mais)

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"A Aversão" (introdução)

É já no próximo post! Abram alas! Vai começar a publicação de "A Aversão", de André de Melo. Trata-se de um romance cuja acção se desenrola nos anos 90. O autor, de quem os leitores já conhecem alguns textos, uma vez que é colaborador regular deste blogue, onde assina "André", abalança-se assim numa produção mais extensa. A obra será publicada em fascículos, no "Boca de rodapé", para onde haverá sempre uma chamada e link a partir deste blogue. A edição propriamente dita - que inclui a revisão de texto, ordenação e numeração - é da minha responsabilidade. Segue-se uma sinopse da obra, enviada pelo autor:
"Anos noventa. Lisboa. Uma mulher de um político e universitário famoso, resolve dedicar-se a escrever romances mais ou menos de cordel, com cobertura de um Editor amigo. Tem ambiente para isso, visto que não trabalha, vive na Linha de Cascais numa mansão vigiada, longe do bulício da cidade, onde os restos da Revolução de Abril vão dando lugar à periferia da Europa. Apesar de ter três filhos na idade malandra, não lhe falta uma criada cabo-verdiana, submissa e analfabeta, para poder livremente dispersar-se.(ler mais).

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Sarebbe bello vivere una favola - 10


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Terça-feira, 23 de Junho de 2009

O teatro dos sonhos (1)

1. Lusco fusco é um termo bem curioso, hermético e intraduzível quanto baste. Daqueles que põe a cabeça em água a um aprendiz da nossa língua, ou a alguém pouco familiarizado com ela . À primeira vista, assemelha-se mais a uma palavra romena ou, até mesmo, a uma cidade azteca. Tecnicamente, designa o período do crepúsculo nocturno. Todavia, parece prolongá-lo, estendê-lo amorosamente, até ao momento em que o dia se faz noite. Uma transição celebrada por poetas, músicos e entusiastas do sobrenatural. E que, embora seja tradicionalmente associada a um fim épico, também pode evocar o início de um ciclo. Ou seja, uma espécie de "raio verde" da luminosidade, onde o encantamento, o desejo ou a invocação formulada se podem prolongar, ao invés do que acontece no momento em que o último raio solar repousa sobre a terra.
2. A Associação Luzku-Fuzku é uma comunidade que desenvolve acções de ordem ambiental, holístico e inclusivo. Está sedeada na Quinta do Dionísio, junto à povoação dos Trinta, concelho da Guarda. Num local privilegiado, o que é dizer pouco. Ou seja, num recanto verdejante do curso do Mondego superior, a montante do açude do Pateiro, ladeado de catanheiros e choupos. No âmbito do projecto "Ecompanhamento", com início em 2008, promoveu a construção orgânica de um "Teatrinho em Fardos de Palha", para além de várias casas de banho e chuveiros ecológicos, de um Yurt e de um retiro em barro. Ora, esse pequeno teatro foi inaugurado no domingo, recebendo a designação de "Salamandra". O programa incluía um percurso pedestre, lanche, tertúlia e uma sessão musical, a cargo de Gustavo Delgado e João Pedro Delgado nos violinos. A actividade teve o apoio do TMG. O edifício, com cerca de 12 m de comprimento e 3 de largura máxima, foi construído com materiais orgânicos: palha, madeira e barro. As paredes são de palha e, no topo, de ripas de madeira. Logo que o vigamento do telhado esteja assente, a palha será rebocada com uma camada de barro, o que melhorará muito a acústica. No lado que dá para o rio, há várias aberturas que fazem lembrar as vigias de uma embarcação. O tecto, muito parecido com o das pequenas igrejas nórdicas medievais, é formado por placas de madeira sobrepostas. No topo do espaço destinado ao palco há um pequeno vitral. Por sua vez, os espectadores, sentados em fardos de palha com um saco de serapilheira em cima, estão dispostos ao longo das paredes, frente a frente. Embora pensado como teatro, o espaço terá, naturalmente, uma utilização polivalente. Podendo servir, para além de outros espectáculos, como local de reuniões, ateliers, projecção de audiovisuais, etc. Poderão encontrar a seguir algumas das imagens registadas na ocasião.

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O teatro dos sonhos (2)








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O teatro dos sonhos (3)



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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

A idade dos porquês - 2

Porque é que é preciso convencermos os outros, a qualquer preço, de que sabemos tudo, para insuflarmos até aos limites o balão da nossa pomposa fatuidade? E porque basta saber tudo para não saber nada? Conheço casos assim...

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Domingo, 21 de Junho de 2009

Tríptico em Sintra

1. falo-te com franqueza: não venhas aqui. todo eu me desmembro pela casa, compreendes? pois a desarrumação que te receberia, se viesses... e de novo primo o botão do alta-voz. aproximo-me do auscultador. quero ouvir-te do outro lado. não dizes nada. pouco depois desligas. não entendo, vens? que quer isso dizer? pego no casaco e saio com ele na mão direita. está frio. não o visto até chegar ao fundo da rua. começo a correr. começo a sentir o sangue em todo o corpo. sinto-o. tenho calor. fujo. fugir aquece-nos sempre. porque foges? se estivesse sentado naquele café e me visse passar a correr como corro, era isso que me perguntava. e olha até que podia parar e responder-me: não sei. e tu em que pensavas antes de me vires passar assim a correr? fujo. sabes o que é isso, não? estava à espera de ver alguém fugir, era nisso que pensava, dizes. agora à frente posso virar à esquerda e subir para a serra, ou à direita e descer (corro sempre).
2. vou descer. sempre que fugimos queremos descer. é que no fundo, só no fundo, podemos esconder-nos. se calhar, já me tocaste à campainha. quem chega como tu chegas, quantas vezes toca? e com que urgência o faz? bem, já devo ter descido bastante de algum lado. penso que vejo o fim rápido das coisas e que isso (nota: tenho mãos vazias mas dois dedos de conversa) me entristece. devo passar tempo demais na praia. e olhar muito para onde olho. e deixar correr a areia muitas vezes da mão esquerda. ou então não.
3. há uma bicicleta encostada ao portão verde de uma casa, aqui a meio caminho do fundo deste vale. daqui já vejo o mar. a serra ergue-se atrás de mim. olho. confirmo. há uma lua dentro dela. rápido, pego na bicicleta. tenho calor. deixo o casaco em cima do portão verde. é uma troca justa, não é roubo. sento-me. vou pedalar até ao fundo, isto é que é velocidade! até pode ser que, continuando assim, aviste enfim um talvez

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Sábado, 20 de Junho de 2009

O coveiro


O bimbo da foto, segundo tudo indica, vai ficar à frente do Benfica mais um mandato. A jogada da antecipação das eleições é de mestre. Isto é, de mestre de obras espertalhaço, o seu princípio de Peter. Ao retirar assim o tapete aos adversários, que se preparavam para apresentar alternativas credíveis à sua gestão desastrosa, demonstrou que se quer eternizar no poder. Acolitado pela sua matilha de indefectíveis, mais apropriados para integrar uma seita religiosa ou numa milícia popular. Que digerem mal os "relatórios de danos" sobre a actual situação do SLB, oriundos dos milhares e milhares de críticos da sua gestão. Basta consultar os blogues da "situação" e os "não oficiais". Entretanto, os "pontos de ordem" desses críticos acentuam esta fábula populista da desculpabilização do fracasso pela perversidade do "sistema". Lembrando os mesmos que, se ele existe, a melhor forma de o combater é alcançando vitórias. A natural insatisfação e revolta dos simpatizantes e adeptos que deram a cara, já provocaram sérios problemas nervosos aos adeptos que gostam de ser enganados, todas as épocas, com um eldorado, que uns meses depois se revela ser quinquilharia da loja dos 300. "Com papas e bolos se enganam os tolos", diz o povo. "Com esta equipa vamos longe" tornou-se a fábula estival que se repete ano após ano. No caso do SLB, a margem de manobra de uma direcção sem know how, sem estratégia, sem autoridade real, provinciana, alheia à meritocracia, com mentalidade de pato-bravo, passa inevitavelmente pela hábil gestão do binómio espera/esperança, como em qualquer religião que se preze. A história já se sabe, de cor e salteado: todos os anos, investimentos colossais num plantel "de sonho", "este ano é que é", etc. Depois vem o "retorno": uma equipa que colecciona exibições miseráveis, mais até do que resultados; jogadores desmotivados, em claro sub-rendimento; treinadores mal escolhidos e mal apoiados, as performances sobejamente conhecidas nas várias competições onde o clube participou (incluindo as inenarráveis exibições na Taça UEFA). E qual é o discurso oficial perante esta tragédia? Pois, já adivinharam. Meia dúzia de soundbites arregimentadores das massas, ancorados na diabolização de forças externas; uma lógica suicidária, de fuga para a frente; a ausência de qualquer avaliação de resultados e de estratégias, como é normal fazer-se em qualquer empresa; a hábil manipulação das legítimas expectativas dos adeptos; uma política de comunicação miserável, com declarações erráticas e fora do timing, nunca distinguindo o que é diferente (um erro de julgamento do árbitro e o favorecimento doloso, por exemplo, como se viu nas lamentáveis teorias da compensação, propaladas pelo director de comunicação do SLB, a propósito do conhecido episódio do penalty do final da Taça da liga); desprezo pelo "invisível" mas indispensável trabalho de bastidores. Este último aspecto constitui, no fundo, a verdadeira "piéce de resistence" de qualquer clube que trabalha para ganhar e inculca na sua equipa essa mentalidade e esse saber. Como adepto que já vibrou com o verdadeiro Benfica, sinto-me defraudado com tanta incompetência, tanta estupidez, tantos recursos esbanjados. Portanto, se este senhor continuar, saio eu. Nunca gostei de cerimónias fúnebres.

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Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

As novas crocs do gajo

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Via Láctea

Não podia estar mais de acordo com o André, quando conclui que "o assunto mais importante de um Estado não é a Liberdade. É a Vida e a Morte." Nem vale a pena repetir as razões. No entanto, presumo que fala de um Estado de direito democrático, pois para os outros a liberdade nem sequer é assunto. Em rigor, mesmo para aqueles, a liberdade também não é um tema ou uma área de governação, mas a base fundadora, a razão de ser do contrato que os erigiu. Mesmo assim, a Liberdade é aqui encarada enquanto garantia, enquanto pressuposto intangível. Todavia, a sua plenitude exige que, mais do que um conceito formal, seja encarada como um desafio absoluto, intrínseco à própria existência. Ou seja, em princípio, os cidadãos que integram um estado democrático são livres. Mas quantos são libertos? Quantos renegaram a quinquilharia trendy, a vaidade, a avidez, o culto da imagem, o compromisso, a ânsia de poder? Quantos perceberam que a liberdade não serve só para que não nos atrapalhem a vidinha, mas para sermos outra coisa que nos ultrapassa e acolhe sem perguntas? Muito poucos, caros amigos. Até hoje, orgulho-me de ter conhecido alguns: desde alguns vagabundos que havia na Guarda, a alguns clochard que conheci em Lisboa, passando por um alemão desgrenhado, que vi ao longe, numa praia do litoral alentejano, acompanhado de um cavalo e um cão. E com quem conversei por improvisar um jantar, em cima da areia, enquanto o cavalo se escarregou de deglutir, à sucapa, umas peras que tinha acabado de comprar. Circulava de terra em terra, trabalhando nisto e naquilo. No dia seguinte ia ajudar a carregar umas caixas de pescado no próximo porto. Não tinha medo de nada (cumprindo, sem o saber, o anseio de Étienne la Boétie, no "Discurso da Servidão Voluntária: "n'ayez pas peur"). A não ser, talvez, de perder as noites estreladas.

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Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Morreu hoje José Calvário

José Calvário, maestro, morreu hoje. E eu, hoje cantei, no meu caminho difícil. Não cantei nenhuma canção difícil, como a «Internacional», ou «Dizem que amor de Estudante». Ouvi canções brasileiras. Porque a minha alma quer cantar. Cantam os homens no trabalho diário, cantam os que vão ser fuzilados, cantam os que resistem em Teerão. Cantam os pássaros contra a noite. José Calvário já estava em estado vegetativo desde o fim do ano passado e ia passeando de hospital em hospital até que alguém lhe desligasse a máquina. Certamente que quem o amava, lhe fazia companhia e imaginava que naquele corpo arfante, em respiração artificial, se geravam canções como «E depois do Adeus» ou essa canção tão bela «No teu poema». José Calvário orquestrou essa coisa maravilhosa que se chamava «Canção portuguesa» e que outros chamaram nacional-cançonetismo mas que mesmo assim milhares de nós cantámos nessas jornadas em que fomos todos um, apesar das desconfianças, das ingenuidades, das santas estupidezes e que foi o 25 de Abril. Nesse tempo amávamos, amávamos de flor na boca, com um coração paciente, duradouro, tenaz, capaz de esperar e de dar, de renunciar até ao Amor por um Amor maior. Nesse tempo éramos todos como o Fernando Rocha, que conta piadas ordinárias, mas sobre quem o Espírito Santo soprou, pois, uma dia destes salvou um homem de morrer afogado no Rio Douro, o mesmo Rio Douro onde ele, catraio, saltava para apanhar moedas aos turistas. José Calvário era pequeno, franzino e irritável. Não foi um génio. Tinha um rosto belo como esse rosto dos portugueses que ardem sempre sem fim, em busca de uma Paz que nem a História, nem o Destino lhes dá. Um rosto belo como o de Ana Zanatti, que confessou a sua homossexualidade (e não o seu lesbianismo) ao fim de tantos anos, certamente amargos e que me deixou, pelo menos a mim, desgostoso, por um rosto tão belo não ter sido amado por quem o merecesse. José Calvário conduziu a orquestra do Portugal que se recusa a deixar de cantar. Não inventou as canções, não as revolucionou. Apenas as trouxe até nós para que as pudéssemos cantar.
E, hoje, pensando em José Calvário, canto em silêncio neste Mundo bárbaro, com os que marcham em silêncio em Teerão. Que lhes cresça por dentro essa força sem fim, que é a força do Mar, que vai e vem e que perdura, sempre generoso e humilde, sempre inesgotável e sempre lá, quer o dia seja radioso ou a chuva rasgue o Universo. Ele chamava-se Zé Calvário e vós sois um Povo que se prepara para o subir. Povo Calvário, vamos por ali acima, pela aquela ladeira medonha, mas vamos a cantar.

André

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O braço estendido


Eis Michela Vittoria Bambrilla, ministra italiana do Turismo. Bom, já se recompuseram ou ainda sonham com a figura esbelta da nossa Ministra da Educação? Pois dizem as más línguas que ela faz a saudação fascista depois do hino nacional. Não posso! A sério??? Custa a acreditar! É com fait divers como este que certa esquerda europeia anda preocupada, depois da trepa que levou no domingo. E aqui está a prova de que as mulheres folcloricamente esquerdalhas ainda usam óculos (ou bigode), são chatíssimas, acham que o Fellini é um misógino da pior espécie, tiraram o curso de Psicologia à noite, ou então, mostrando um belo naco, não deixam de comunicar por onomatopeias segredadas pelo chefe e fazer boquinhas, como é o caso da novíssima eurodeputada do BE. As outras, as que interessam, pendem para outra coisa. Ou, melhor ainda, não pendem, só dançam. São a marca do tempo sem o tempo.

Nota: nos comentários, podem bater no ceguinho à vontade...

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Ligações ao alto

Depois de ler este texto da Fátima Rolo Duarte percebi que já tinha ganho a semana. Sem o bíblico suor do rosto, é claro. A verdadeira razão para o benefício talvez esteja num irresistível impulso para dançar, sempre que o evoco.

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A idade dos porquês - 1

Porque é que nos clássicos do cinema, quando há uma visitinha policial a casa de gente requintada, a propósito de uma investigação criminal, vai sempre um inspector da polícia que parece um manual de boas maneiras, acompanhado de um novato com ar de recruta rural? E porque é que esse novato a querer mostrar serviço fica sempre a olhar para um quadro modernista na parede, como boi para palácio?

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Revista, nº4-5

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