terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Todos pela liberdade

O primeiro-ministro de Portugal tem sérias dificuldades em lidar com a diferença de opinião.
Esta dificuldade tem sido evidenciada ao longo dos últimos 5 anos, em sucessivos episódios, todos eles documentados. Desde o condicionamento das entrevistas que lhe são feitas, passando pelas interferências nas equipas editoriais de alguns órgãos de comunicação social, é para nós evidente que a actuação do primeiro-ministro tem colocado em causa o livre exercício das várias dimensões do direito fundamental à liberdade de expressão.

É assim que começa a petição pública TODOS PELA LIBERDADE, a ser entregue na AR, neste momento ainda em fase de recolha de assinaturas. O momento é demasiado grave para ser deixado em claro. Já se sabia que tínhamos um primeiro-ministro sem carácter. Agora ficámos a saber que não tem sequer perfil para aceitar responsabilidades públicas num estado de direito. O que é espantoso é ainda haver quem assobie para o ar. Assinem e divulguem, s.f.f.

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segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Lido

Nem o Jornal de Sexta, nem o PÚBLICO tinham o poder de pôr em risco o Governo ou sequer de afectar significativamente o prestígio e o estatuto de Sócrates. Se alguém tinha esse poder era o próprio José Sócrates, para não falar no grupo obscuro e anónimo, que, segundo se depreende dos documentos que o Sol revelou, o serviu zelosamente no terreno. Não vale a pena insistir na ilegalidade e, sobretudo, na profunda imoralidade da operação, se por acaso existiu como a descreveram. Em qualquer sítio para lá de Badajoz, nenhum político sobreviveria um instante a essa grosseira tentativa de suprimir com dinheiro público o livre exame e a livre crítica, que a Constituição e os costumes claramente garantem. Mas não deixa de surpreender (e merecer comentário) que um primeiro-ministro de um partido que se gaba das suas tradições democráticas, declare por sua iniciativa, e sem razão suficiente, guerra aberta à generalidade dos media, que não o aprovam, defendem e bajulam. Não há precedentes na história deste regime de um ódio tão obsessivo à discordância, por pequena que seja, ou a qualquer oposição activa, de princípio ou de facto. O autoritarismo natural de Sócrates não basta para explicar essa aberração na essência inteiramente inexplicável. Tanto mais que ela o prejudica e dá dele a imagem de um homem inseguro e fraco. Pior ainda: de um homem desequilibrado e perigoso. A única hipótese plausível é a de que o primeiro-ministro vive doentiamente no mundo imaginário da propaganda. Ou melhor, de que, para ele, a propaganda substituiu a vida: Sócrates já não partilha ou nunca partilhou connosco, cidadãos comuns, a mesma percepção de Portugal. Do "Simplex" que nada simplifica ao estranho melodrama sobre as finanças da Madeira que nada pesam, aumenta dia a dia a distância entre o que país vê e compreende e o que o primeiro-ministro afirma enfaticamente que é. Está perto o ponto em que só haverá uma solução: ou desaparece ele ou desaparecemos nós.

Vasco Pulido Valente, no "Público"

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sábado, 6 de Fevereiro de 2010

Filmes para uma vida (1)


In a Lonely Place (Matar ou não Matar,1950), de Nicholas Ray, foi uma das poucas películas produzidas por Humphrey Bogart através da sua produtora independente, a Santana Pictures. Numa tentativa de se demarcar do establishment de Hollywood, imagem que o actor quis deixar no final da carreira. O enredo do filme anda à volta do protagonista Dixon Steele, um argumentista com uma crise de inspiração. Personagem irascível, cínico e capaz de gestos violentos, mas com alguns traços ocultos de um romântico desencantado. No fundo, uma criação talhada à medida de Bogart! Por sua vez, Gloria Grahame, no papel de femme fatale, tem aqui um dos seus melhores desempenhos da sua carreira.

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Cristal

Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.

Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.


Paul Celan

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sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

As últimas sobre as escutas

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Por acaso

O nascimento do romance, enquanto forma original de criação literária, está intrinsecamente ligado ao triunfo de um corpo político feito à medida da nova sociedade burguesa, em meados do séc. XVII. Refiro-me ao Ocidente, claro está. Pois que, entre outros exemplos, o Japão do séc. XI já nos havia presenteado com o fabuloso "Romance do Genji". Ora, esse corpo político pressupõe: 1º que a segurança seja assegurada pela delegação da força nas mãos do Estado, em regime de exclusividade; 2º que os indivíduos, para quem a vida pública se manifesta sob o disfarce da necessidade, adquiram um renovado interesse pela sua vida privada e pelo seu destino pessoal, eliminadas as antigas conexões naturais com os seus semelhantes; 3º que esses mesmos indivíduos só possam julgar a sua vida pessoal comparando-a com a dos outros, tomando essa relação a forma de concorrência; 4º que, implicitamente - e porque dotados todos eles pela natureza de igual capacidade e protegidos uns dos outros pelo Estado, que regulamenta os negócios públicos e os interesses em presença sob a justificação da necessidade - apenas o acaso seja apto a decidir quem vencerá.
Significativamente, esta elevação do acaso à posição de árbitro decisivo da vida viria a atingir o seu ponto mais alto no séc. XIX. Como resultado, surgiu um novo género de literatura, que acompanhou o declínio do drama: o romance. É que o drama perdeu o sentido num mundo sem acção, enquanto o romance podia tratar adequadamente os destinos das pessoas, fossem elas vítimas da necessidade ou favoritas da sorte. Balzac, de quem li recentemente "O Pai Goriot" (1834), demonstrou todo o alcance do novo género. E chegou a apresentar, nas 88 obras que compõe a sua "Comédia Humana", as paixões humanas como o destino do homem: sem vício nem virtude, nem razão, nem livre-arbítrio. Só o romance, na sua completa maturidade, podia pregar o novo evangelho da paixão do homem pelo seu próprio destino. E através dela, o criador literário tentava traçar uma distinção ente si e os outros, proteger-se contra a desumanidade da boa e da má sorte, desenvolver, em suma, todos os dons da sensibilidade moderna. Tão desesperadamente necessária à dignidade humana. Mas exigindo que um homem seja, pelo menos, uma vítima, se não puder ser outra coisa.

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quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010

O casaco do gajo num anfiteatro

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A regra

(clicar para aumentar)

Imagem obtida numa exposição no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova

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Queda livre

Cair do amor pelo mundo para o amor de uma mulher é como sair de pára-quedas de uma embriaguez cheia de espinhos para uma embriaguez envolta de penas.

Nota: depois de um excepcional "Paço da Serviçaria", Douro, Reserva 2007, dá para isto...

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terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

Já vão quatro!


O "Boca de Incêndio" faz hoje 4 anos. Uma idade respeitável para um blogue, dirão muitos. Um ciclo de vida esgotado, dirão outros, embora com renitência. Ou não será antes o momento onde o cansaço se transforma em anseio de caducidade? Também... Seja como for, não existe nenhuma tabela de correspondências entre o tempo real e a duração, cheia de circunvalações e filigranas, de um blogue. Montaigne praticamente não saiu da torre do castelo para onde se retirou, escrevendo, a certa altura da sua vida... Precisamente porque descobriu que só um amor inesgotável pelo mundo pode fazer balancear o espírito para a sua consagração.
Como os visitadores ordinários bem sabem e aos outros lembro, o "Boca de Incêndio" tem uma estrutura, digamos, bicéfala. Ou seja, em parte flexível, sem nenhum ordenamento temático ou formal, e em parte constituída por rubricas sequenciais. As quais marcam o ritmo das actualizações da mesma forma que a poesia marca o compasso do todo. De tal forma que o peixe amarelo do texto de Herberto Helder, que devia ser de outra cor, às vezes aparece mesmo como amarelo. Por outro lado, conseguiu afirmar-se como um blogue do mundo e que fala para o mundo. Quando o encontra ao virar da esquina, é para aí que se dirige. Afirmou-se decisivamente na cena blogosférica nacional. A sério! Longe de ser consensual, evita as polémicas estéreis. Por falar nisso, elas não têm abundado por aí além. Ou seja, o debate de ideias foi substituído pelas comichões anónimas, para as quais a gerência, embora declinando qualquer responsabilidade, pode disponibilizar algumas pomadas. Será esta suposta alocação do confronto ideológico por questiúnculas pessoais um sinal dos tempos? De modo nenhum. Para mim, são puros desafios. A afirmação de que o "Boca de Incêndio" é um "espaço de liberdade" não corresponde a qualquer soundbite ou campanha promocional, mas tão só a uma exigência diária, a um exercício que não teme o erro. Portanto, as tentativas de condicionamento daqueles que convivem mal com a pluralidade, com a diversidade, nunca surtiram nem surtirão efeito. Aqui ou noutro lugar qualquer.
Resta-me agradecer sinceramente a todos os que este blogue têm seguido, apoiado, acrescentado, incentivado, visitado mais ou menos amiúde, divulgado, corrigido ou comentado com pertinência. Sobre o seu futuro, muito em breve darei notícias mais detalhadas.

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Retrato de uma sombra

Os teus olhos, rastro de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
a tua sobrancelha, orla pelo caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campos de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, alámos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campos de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.


Paul Celan, in "A morte é uma flor", Cotovia, 1998 (trad. João Barrento)

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sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Stalker

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quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Os pontos nos ii

É com algum desapontamento, embora não com surpresa, que vejo muita gente, na blogosfera, nos jornais, em declarações públicas, que se reivindica "de esquerda", mas que não demonstra qualquer tipo de sensibilidade para a realidade social nua e crua. O que inclui, por exemplo, o drama da precaridade no emprego, o empobrecimento de novas franjas da população, a solidão, as recentes formas de exclusão social e até mesmo cultural, etc. São os mesmos que bradam em abstracto contra os papões, os "maus", os tigres de papel que cimentam um imaginário comum com que se constrói uma cumplicidade forçada, um sentimento do "nós", uma superioridade moral que ninguém outorgou. Mas que são incapazes de tomar posição quando se trata de optar entre a defesa das liberdades individuais e a opressão. Veja-se onde a cegueira ideológica pode levar, a propósito da recente proibição em França do uso da burka e do niqab em edifícios públicos. Cria-se assim uma tela a preto e branco, onde os "maus" são invariavelmente os "outros", os que não se conhecem, os que pensam de outra maneira, os que têm outros gostos, os que estão fora da segurança da casta. No fundo, trata-se de um neotribalismo alimentado por medos auto-insuflados, por fantasmas nascidos da incompreensão dos processos que levam à exclusão, à opressão, à arbitrariedade, à impossibilidade do triunfo do mérito. E como não se querem perceber esses processos - única forma de os combater - agitam-se bandeiras, repartem-se migalhas, apontam-se "culpados", escolhidos invariavelmente entre os "outros", faz-se pela mesma vidinha que se critica nesses "outros". Só que, neste caso, abençoada pelas melhores das intenções...

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terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Franguês de bolso

"Nuno Gomêz est encore un FANTASMÁ pour vous?". Pergunta do repórter da SIC ao guarda-redes Barthez, ontem durante o jogo de futebol de ajuda humanitária ao Haiti, no estádio da Luz. A reacção do atónito gaulês veio aos solavancos, ainda sem saber o que haveria de responder. Talvez pensando que estava diante do... "Fantasmá de l'Operá"...

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domingo, 24 de Janeiro de 2010

A Zundapp do gajo

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sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Leituras

Na minha modesta opinião, "Manual dos Inquisidores" é o último grande livro de Lobo Antunes. O que veio depois assemelha-se, digamos, a um exercício de austeridade monástica para enganar a morte. Refiro-me à ficção, é claro. Pois que as crónicas são outra conversa. É precisamente aí, na incursão ágil e intensa, na concisão fotográfica, que o autor melhor se revela. Mostrando-nos assim o seu portefólio particular ainda "em tosco". Envolvendo-nos numa cumplicidade onde reinam a empatia e a comoção. É por isso que recomendo sem restrições a leitura da sua última crónica, publicada ontem na revista "Visão". Chama-se "Vacilantes rostos do passado" e está aqui.

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A vida dos outros

Neste local, ou neste, poderão aceder a várias escutas telefónicas efectuadas a Pinto da Costa e João Loureiro, no âmbito do processo "Apito Dourado". O primeiro, regressado agora das sombras e retomando o discurso fracturante e sibilino que o tornou célebre, diz-se vítima de um ataque sórdido. Sem perder a compostura, note-se. A perda do controle do "sistema", a descredibilização do seu estilo e, sobretudo os êxitos desportivos da concorrência (leia-se Benfica) estão a deixar este homem fora de si. Acompanham o desespero a matilha e homens do gatilho que o rodeiam. E, por efeito de dominó, os seus aliados de conveniência. A podridão que este senhor e seus apaniguados impuseram ao futebol no nosso país desde há quase 30 anos, está a chegar ao fim. O estertor final do polvo, antes da implosão, adivinha-se. Mas antes, vejam e ouçam atentamente os registos. Por momentos, percam as ilusões. Desfaçam-se da inocência. Saboreiem esta instrutiva mostra da saga "a realidade tal como ela é". Ou seja, o lado B da virtude. E que belo naco siciliano! Mesmo que se pareça com o esgoto niilista segredado a Rastignac por Vautrin, o sinistro celerado de "O Pai Goriot" de Balzac. "Não há princípios, mas acontecimentos, o homem superior, etc." A lição podia começar por aí. Mas aqui, mesmo o realismo cínico do "Leviathan" de Hobbes ficaria à porta. É outra coisa. Mais perto de uma putrefacção moral e criminal que ficará impune. Até ver.

Nota: a propósito das alminhas mais preocupadas com o conhecimento público das escutas do que com aquilo que elas revelam, ler este apropriado texto.

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Pluvioso


(de 20 de Janeiro a 18 de Fevereiro)

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Lido

(...)
E quanto mais Sócrates se enterra na negação do real, mais este lhe bate à porta. Até o próprio parece começar a aperceber-se disto, e a responder a este fim dos tempos numa fuga em frente obstinada, porque é da sua natureza, mas confusa e caótica. Já toda a gente percebeu tudo isto menos os intelectuais orgânicos "socráticos", um conjunto modernaço de gente que tem o coração no Bloco de Esquerda, mas a carteira no PS, ou melhor, no gabinete do primeiro-ministro. Gente que pouco preza a liberdade mas que tem acima de tudo um enorme fascínio pelo poder como ele se exerce nos dias de hoje, entre o culto da imagem, o pedantismo das causas "fracturantes", o vanguardismo social, o "diabo que veste Prada" ou Armani, e o "departamento dos truques sujos" à Richard Nixon, tudo adaptado à mediania provinciana da capital. A ascensão ao poder de uma geração de diletantes embevecidos com os gadgets, pensando em soundbites, muito ignorantes e completamente amorais, que se promovem uns aos outros e geram uma política de terra queimada à sua volta, é a entourance
que o "socratismo" criou e vai deixar órfã.

Pacheco Pereira, no "Público" de 16.01

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quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

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terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

Lido

Depois do Haiti. Deus.

- Comeu-se demais na terra – gritava o pai dela. Comeu-se demais e morreu-se demais. Disse o Papa que o Núncio em Port au Prince tinha sobrevivido. - Graças a deus – disse o Papa. E graças a quem morreram os outros? Graças a quem sofreram? Graças a quem ficaram assim, gente sem nome nas ruas de Port au Prince, entregues à ignomínia das câmaras e da ajuda internacional, ao cheiro da carne putrefacta, à banalidade dos corpos insepultos, dos membros amputados? Que deus é este que se invoca para a graça excepcional e se iliba da tragédia colectiva? O ridículo deus pós – conciliar, o deus dos homens cultos, um deus sem lugar num Universo pequeno demais para o esconder, um deus inútil que já não ameaça nem castiga, um deus mais insignificante que a cúria romana e o Paparmani.

Luís Januário, no "A Natureza do Mal"

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Cicatrizando

(clicar para ampliar)

Depois do lançamento no atelier "Temos Tempo", no Feital, em 21 de Dezembro, Américo Rodrigues vai apresentar na Guarda o seu último CD. Será no próximo dia 22, pelas 21.30, no Café Concerto do Teatro Municipal. As honras musicais, num registo de improvisação livre, a partir das experiências sonoras registadas na obra, estarão a cargo da Orquestra de Tararau Bicho. Neste caso composta por Victor Afonso, Tiago Rodrigues, Eduardo Martins, César Prata e o próprio. O nome do grupo reproduz, salvo erro, o pseudónimo com que o autor assinava os seus poemas há uns bons anos atrás.

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Tríptico para "le bouquet tout fait", de Magritte

1. ter que ser qualquer coisa que não sei ser. habitar uma memória que só por distracção consigo transpor. desfilar pelas sombras até onde os frutos caem e as manhãs anunciam o doce engano. improvisar, no minuto seguinte, o abismo e a redenção. e não esperar pela hora da chegada. devagar, sempre devagar. carregando às costas a sensação de encontrar tudo a meio. fora do alcance, num limbo de indiferença. à minha espera somente um mapa incompleto. sem lugar para os meus gestos de náufrago e a minha urgência de mar.
2. e nisto as cordas do alaúde tomando conta da paisagem gelada. nisto, os sinos anunciando a doçura dos teus passos. marcando na minha pele ternos e obscuros sobressaltos.
3. oxalá.

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segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Os cinco na ilha do farol

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A idade dos porquês - 9

"A nossa vida é definida pelas oportunidades. Mesmo aquelas que perdemos". Ora bem! Grande malha, digam lá!!! E se, em vez de "mesmo", puséssemos, deixa cá ver, "sobretudo", "também", "graças a", "por vezes com", "principalmente", "nunca", "apesar de", ou "jamais"? Sim, e que tal? Talvez o segredo esteja até nesta opção e não no que realmente se ganha ou perde...

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sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

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quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

Fala Também Tu

Fala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.

Fala —
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.

Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanta exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.

Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! —
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.

Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?

Sobe. Tacteia no ar.
Tornas-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se a cintilar: na ondulação
das palavras errantes.

Paul Celan, in "De Limiar em Limiar"
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

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quarta-feira, 13 de Janeiro de 2010

Preces atendidas - 34

Debra Winger

Ver anterior

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terça-feira, 12 de Janeiro de 2010

Números

Um facto facto, decerto ignorado pelo beautiful people das causas fracturantes e por um Governo que cada vez menos entende o país: pela primeira vez na sua história, 600.000 portugueses estão no desemprego.

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segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

Meu amor sem nome

Há muitas razões para legalizar o que existe e segue uma certa prática, e mesmo algumas regras. A guerra, que por já várias vezes foi posta fora da lei ou desencadeada para acabar de vez com todas as guerras: não acabou. A droga, que obedece a certas regras e está até na origem da sobrevivência e do desenvolvimento económico de povos e zonas do Mundo: talvez só se drogue quem quer, dizem. A escravatura ou a pirataria, que ainda existem. Quanto à escravatura, há associações dos direitos de quem se submete ao tipo de escravidão sado-masoquista. Temos os vulcões, as catástrofes, as pragas, que obedecem a regras.

O Tribunal europeu dos Direitos do Homem aprovou o conceito de «casamento abrangente» que se alarga ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, à adopção de filhos e que se pode combinar com inseminação artificial. Está em causa ainda o casamento poligâmico ou poliândrico que são costume entre outras culturas, nomeadamente a islâmica, ou mórmon, cujos membros se podem estabelecer entre culturas onde a lei nunca permitiu esse tipo de casamento. Tudo o que é possível passa a ser apenas exigido que venha à luz e se regularize, que seja apreensível pelo cumprimento de certas regras. Assim foi com a guerra, que começou por ser algo onde as regras não existiam e se tornou algo disciplinado. Como a pena de morte. Como a prostituição. Mas não é o facto de seguir regras que faz duma prática algo que nos satisfaz. E o que não nos satisfaz, nós queremos corrigir. Sobre o que é satisfatório ou não, há dois critérios: o que pensa a maioria e o que pensam as pessoas interessadas. Ora, no caso dos casamentos gay, há duas combinações possíveis: há interessados que querem e a maioria aprova. Já o mesmo se não passa com as organizações que perfilham a ideologia fascista: a Constituição diz que a maioria as proíbe embora os interessados as queiram. A igreja satânica pode deparar com um problema semelhante: os interessados querem-na mas a maioria rejeita-a em nome da ordem pública ou dos «bons costumes». Talvez a maioria venha a consentir. O mesmo se passará com o conceito de «Portugal», ou de «Estado», de «Lei», de «Sexo», de «Vida», de «Amor», de «Vida Humana», de «Homem», de «Propriedade», de «Liberdade». Todas as palavras são relativas e quem lhes define o alcance, é a conjuntura, às vezes a Força, da maioria, às vezes a maioria do dinheiro. Quem não tiver força, não poderá resistir, até que arranje força, porque, desse modo, tudo será permitido para alargar o conceito da palavra. Sempre foi assim, dizem.

Ora não há casamento, matrimónio, marriage, Heirat, etc., sem um esposo e uma esposa, sem um noivo e uma noiva, pelo que não pode haver um casamento entre um Homem e um Homem ou entre uma Mulher e outra Mulher. A palavra foi forçada, porque ninguém quis ouvir que uma palavra tem um conteúdo mais estabelecido do que aquele que lhe queremos dar. Podem inventar uma palavra qualquer para o «casamento gay» mas não será casamento, ou então, o casamento semelhante ao «casamento gay» não será mais um casamento e as pessoas que se querem casar já não o poderão fazer apenas pelo civil, de modo a perceber-se que significado da palavra assumiram se não estavam bêbedos ou forçados. Assim só se estimula que as pessoas adoptem um código de conduta e um significado das palavras que não seja aquele partilhado e debatido pelo público, mas aquele que entenderem, nomeadamente o de seitas fundamentalistas de todos os tipos. É que, o que se diz, não é o que cada um pensa ou o que pensa quem tem a força de impor um significado. Há-de ser um caminho intermédio entre o que cada um pensa e o que a maioria quer. Mas nem o que cada um pensa nem o que a maioria quer são critério para dizer que o céu é «azul» ou que a lua é «branca». Nem mesmo o que todos pensavam, muitas vezes, se revelou ser verdade. Às vezes, um, só, estava certo.

André

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Noites brancas



A Guarda ontem à noite.

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Prémio Café Mondego

Numa feliz iniciativa do blogue "Café Mondego", foi criado um prémio com o mesmo nome, onde se irá distinguir anualmente uma figura da Guarda. Isto de acordo com as preferências de um júri constituído para o efeito, integrado este ano também pelo escriba. Segundo Américo Rodrigues, autor do blogue e da ideia, a atribuição do prémio escapa à lógica circular mediática ou institucional e não tem qualquer expressão monetária. Na sua primeira edição, foi ontem tornado público o vencedor do galardão. Trata-se de António Monteiro Igreja, mais conhecido pelo "Sr. Igrejas da Egitana Musical". As menções honrosas foram para Carlos Baía e o proprietário da tasca do Benfica. Para mais informação, recomendo uma visita ao blogue. Aqui.

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domingo, 10 de Janeiro de 2010

Notícias do interior

Hoje de madrugada, atirei a posta no Facebook: "Aqui pela Guarda, esta noite vai descer mesmo aos -8º, se não for mais. Esta sensação única de andar na rua com a cara anestesiada, o nariz inexistente e as mãos roxas faz-me tornar mais solidário com os habitantes de Novossibirsk e o peixe congelado em alto mar." Mais tarde, li a prosa e pensei logo: "Olha, olha, o gajo a armar! Grande coisa! Isso é para meninos! Dás música, mas não alegras!"... Belo seria outro gesto mais afoito. Mais incendiário! Mas o quê? O quê? Claro que esta interrogação foi puramente retórica, pois os dados estavam lançados... Querem saber? Pois bem, praticar hoje um dos meus desportos radicais favoritos. Ou seja, percorrer a Guarda de noite quando coberta de neve. Mas não é uma neve qualquer. Tem que ser uma espécie de poeira gelada, que no chão parece chantilly iridescente. Que nunca chega a empapar. Rebelde à consistência, omnipresente. Que o vento espalha como poeira, mas que comprimida se transforma num gelo melífluo. Portanto, caros amigos, passarei agora aos conselhos úteis: roupa e calçado adequado, meia garrafa de "Bushmills" no papo, uma boa máquina fotográfica e um leitor de MP3 artilhado com Herdningarna à discrição. O "Hippjokk" e o "Karelia Visa" servem...Até depois...

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sábado, 9 de Janeiro de 2010

Lido

(...)
Em vós escrita vi
vossa grande dureza,
e n' alma escrita está que de vós vive.
Não que acabasse ali
sua grande firmeza
o triste desengano que então tive;
porque antes que a dor prive
de todo meus sentidos,
ao grande tormento
acode o entendimento
com dous fortes soldados, guarnecidos
de rica pedraria,
que ficam sendo minha luz e guia.

Destes acompanhado,
estou posto sem medo
a tudo o que o fatal destino ordene;
pode ser que, cansado,
ou seja tarde ou cedo,
com pena de penar-me, me despene.
E quando me condene
- que isto e o que espero -
inda a maiores dores,
perdidos os temores.
por mais que venha, não direi: não quero.
Contudo estou tão forte
que nem me mudara a mesma morte.

Canção, se já não queres
ver tanta crueldade,
lá vás onde verás minha verdade.

Camões, Canção III

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sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

A feira

E pronto!... Hoje, em directo e ao vivo, chegou a prendinha oferecida na AR ao carrossel ruidoso dos activistas do "sector" gay (que o mercantilismo recuperou só por serem bons consumidores). Aos apoiantes que expelem a palavra "preconceito" e "discriminação" a cada 10 segundos. Uma espécie de novilíngua de conveniência de quem recusa qualquer tipo de debate democrático. A neocasste do grau zero do pensamento. E agora, já podemos dizer lá fora que somos "modernaços", apontando para as agências de rating. Aleluia! Hossana! No mesmo país onde ainda se olha de lado quando se vê uma mulher polícia e onde a pobreza aumenta a cada dia que passa... Agora, só falta mesmo ultrapassarmos a Eslováquia no ranking da UE. E sermos uma sociedade realmente desenvolvida. Onde não se confunda folclore com modernidade.

P.S.- Soube-se agora que as ardentes e fervorosas parelhas que festejaram em frente à AR eram simplesmente actrizes pagas para a ocasião. Mais palavras para quê? Ver aqui.

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Lido

Vale de Almeida parece acreditar que o valor simbólico do casamento pode ser transferido para as uniões gay por decreto, como se a sociedade fosse constituída por pessoas acéfalas que não percebem que, se a lei muda a instituição não é a mesma e o valor simbólico também não. O valor simbólico do casamento não foi criado por decreto e não é por decreto que pode ser transferido.

João Miranda, no "Blasfémias"

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quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

Balanxo 2009

À semelhança de anos anteriores, o blogue "Café Mondego" reúne e publica depoimentos de uma série de autores convidados, sob o lema "Balanxo". Onde é passado em revista o que de relevante, positivo ou negativo, aconteceu na Guarda durante o ano anterior. Segue-se a minha colaboração:

1. Negativo:

- A profunda crise social e económica que se vive no distrito. É certo que esta realidade não é excepção no conjunto do país. Só para não ir mais longe. A diferença, neste caso, está no âmbito mais ou menos limitado dos danos, na capacidade de absorção da comunidade e na relativa eficiência das instituições que a combatem, públicas e privadas, com destaque para a rede assistencial da Igreja. Ou seja, o desemprego e a depauperação, para não falar das situações crónicas de miséria, têm ainda na Guarda factores de peso que diluem o seu impacto. Refiro-me à existência de uma forte rede de solidariedade familiar e comunitária e, se isso não bastar, de uma tradição migratória recentemente reactivada.
- O clima de pessimismo e de ausência de horizontes, embora não expresso, que sobressai dos rostos e dos discursos. Sobretudo em muitos jovens, o que é um sinal de derrota que deveria constar da agenda diária dos decisores políticos, antes de qualquer projecto.
- O golpismo puro e duro que se tornou prática na estrutura distrital do PS.
- A campanha medíocre, com algumas excepções, a que os guardenses assistiram nas autárquicas.
- As reacções inqualificáveis dos dirigentes do PSD, mormente o seu cabeça de lista para a Câmara, face aos resultados eleitorais. Aliás, com a actual composição dirigente, o PSD atingiu o fundo do poço a nível distrital, tornando-se pouco mais do que uma federação de interesses autárquicos, pejada de truques florentinos. Neste momento, representa – embora não de forma exclusiva – o que de mais atávico e clientelar existe no distrito.
- As obras no pano de muralha junto ao Vivaci, que ainda ninguém percebeu a que se destinam nem quando acabam.
- O escandaloso estado de abandono do Chafariz da Dorna e largo respectivo. Há muitos anos que insisto nisto. Mais uma vez não se perde nada…
- O alcatroamento do caminho que conduz ao sopé da crista do Tintinolho, quando bastava melhorar a estrada de terra e a sinalização pedonal existente.
- A oferta musical dos estabelecimentos nocturnos da cidade, regra geral desinspirada e que exclui o Jazz do menu.
- O estado de total degradação da via pública em muitos pontos da cidade. O qual, aliado a um planeamento urbanístico em cima do joelho, faz da circulação a pé ou de carro nessas zonas um autêntico tormento.
2. Positivo:
- O início do processo das obras de requalificação do Hospital Sousa Martins.
- A vitória de Joaquim Valente para a edilidade guardense. Sem dúvida, a melhor opção para o futuro na cidade.
- O Parque Urbano de Rio Diz, do qual sou utilizador crónico. Embora inaugurado em 2007, continua a ser o espaço verde de lazer que a cidade há muito merecia e cujo potencial só o tempo e uma gestão cuidadosa saberão quantificar.
- A requalificação da Torre de Menagem da antiga alcáçova do castelo. A obra custou cerca de um milhão de euros. O centro de recepção compreende uma exposição permanente sobre a história e património da cidade, bastante aceitável, mas não se percebe onde está a anunciada “rede de percursos na paisagem”. A intervenção na torre, com a criação de mais um piso, foi quanto baste. Inclui a projecção interactiva de excertos do foral e de um pequeno filme em 3D sobre a cidade.
- O alto nível da programação e gestão do TMG. O qual tem cumprido com distinção um serviço público que é a sua principal atribuição. Algo a que não será alheio a excelente equipa que nele trabalha e a batuta inspirada do seu Director artístico. Seria fastidioso enumerar aqui o que de melhor passou pelos palcos do TMG no ano que findou. Direi apenas que, relativamente à programação, quando se refere que atinge vários públicos, tal significa simplesmente variedade na oferta e não a sua uniformização, tendo o gosto hegemónico como pano de fundo. O que permite, e ainda bem, que cada um ajuste a sua agenda pessoal ao programa disponível.
- O início das obras de construção da alameda que ligará a VICEG à rotunda da "Ti Jaquina".
- O índice de poder de compra per capita do concelho da Guarda – 91,7%, tendo como referência a média nacional (100%) – o mais elevado em toda a região.
- Os inúmeros guardenses cujo talento, empreendedorismo e competência profissional e académica, nos mais variados domínios, são reconhecidos e não poucas vezes premiados.

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Novamente a sacola do gajo

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Revista, nº4-5

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