Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Tábua de marés (5)


A 23”, Outubro de 2008
Revista trimestral
Director: Ricardo Paulouro
Edição: Associação Cultural A.23, Fundão




Desde o primeiro número que esta publicação me chamou a atenção. Por várias razões, como é costume dizer-se: o excelente grafismo, a variedade dos temas abordados, uma notável coerência editorial, o enfoque nos temas regionais e nas personalidades oriundas da área, mas sem impedir que o grosso da atenção vá para temas culturais nacionais e internacionais, fotojornalismo e reportagem/ensaio. A escolha sempre foi ampla, como se adivinha. Neste número, vários pontos altos poderei realçar. Começo pela notável série de fotografias de Paulo Nunes dos Santos recolhidas na Geórgia durante o recente conflito militar ocorrido naquele país. Imagens pungentes, onde o autor revela uma apreciável maturidade. Em seguida, chamo a atenção para a crónica de Rita Barata Silvério, autora e
blogger, cujos textos já tinha seguido com atenção na saudosa revista “Atlântico”. Este chama-se “Spain is different” e fala-nos da forma como deveríamos recolher ensinamentos da forma como os espanhóis defendem e promovem os seus produtos autóctones diante de Bruxelas. Assinalo também uma interessante reportagem/ensaio intitulada “O país sanitário visto do balcão da taberna”. Um exemplo das potencialidades do chamado jornalismo literário. Trata-se de uma incursão do autor por tabernas e similares do Fundão e arredores, com uma divertida arremetida por Ciudad Rodrigo. Na secção entrevista, aparece-nos Jorge Palma no seu esplendor. Uma peça onde o músico fala de si, sem rodeios, num plano temporal alargado. E onde tomei conhecimento de que, no seu último álbum, incluiu um tema, “A Velhice”, criado para uma sublime peça teatral a que pudemos assistir recentemente do TMG: “Começar e Acabar”, de João Lagarto, a partir de textos de Beckett. Uma nota final para uma reportagem de fundo sobre a história atribulada do Grémio Lisbonense (Jangada de pedra no naufrágio da baixa”) e, já agora, de uma receita de "Bacalhau com Broa". A qual já está, nesta hora, devidamente arquivada…

Publicado no jornal "O Interior", em 23 de Outubro

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A reentrada


Está disponível, desde quinta-feira, a edição de Setembro da revista "LER". No interior, chamo a atenção para a fabulosa entrevista de Eduardo Lourenço conduzida por Carlos Vaz Marques, com o subtítulo "Estou em dívida para com a humanidade inteira". O autor fala de si, das tertúlias literárias que conheceu, das influências, da actualidade e dos livros, na perspectiva da sua substituição por novos suportes. Felizmente, parafraseando Mark Twain, as notícias acerca do fim dos livros são completamente infundadas. Ou como afirma E.L., "há sobretudo esse tempo que é transportado fisicamente pelos livros. Esse pó que fica nos livros. O pó do tempo. Nos novos instrumentos não haverá pó. (...) Porque o relacionamento com os livros torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas." Corram a ler. Neste número, destaque ainda para o comentário de Osvaldo Sivestre à recente edição de "O Homem sem Qualidades", de Musil, com tradução de João Barrento, as crónicas de Pedro Mexia, José Mário Silva e sobretudo de Filipe Nunes Vicente. Onde nos fala de Bulgakov, da vulgarização dos "vícios" e do porquê do proibicionismo. A ler a "ler". Pois.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A nova "Ler"

Depois de um interregno de um ano e meio, a revista Ler voltou às bancas, em grande estilo. Dirigida, desta feita, por Francisco José Viegas, que assim retoma funções que já desempenhou entre 1989 e 2000. A publicação aparece com novo arranjo gráfico, novos colaboradores permanentes e com periodicidade mensal. Neste número, destaque para uma extensa entrevista ao maior escritor português vivo, António Lobo Antunes, conduzida por Carlos Vaz Marques; uma compilação dos "50 autores mais influentes do séc. XX", por José Mário Silva, que já conhecia enquanto autor do incontornável blogue "Bibliotecário de Babel"; um artigo sobre Eduardo Lourenço, por Miguel Real; uma excelente crónica de Eduardo Pitta; o regresso de Fernando Sobral, meu ex-colega na Universidade e uma selecção de propostas editoriais criteriosa, incluindo a publicação dos respectivos excertos. Razões mais do que suficientes para seguir com atenção este renascer de uma publicação de referência nestas "coisas" dos livros.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Boca Dada

(Ready made realizado a partir dos textos publicados nos números 4 e 5 da revista Boca de Incêndio)

Como sempre, para além dos critérios de qualidade, procurámos anjos sem mestre, portadores de mensagens cujo conteúdo já não possuímos. Algo como um fora sem dentro, uma pura exterioridade animada, uma espécie de réplica ao imediato mágico, o qual corresponderia a um dentro sem fora. O trabalho é o ritmo do punho. Para aqueles que passam o tempo a reavivar a sensação de medo para depois – invocando a segurança – a explorarem. Eis enfim o absolutismo da magia. Abrir estas veredas. Criar este espaço, entre as dobras do tempo… Apetecia-me desaparecer sem deixar rasto, deixando uma tabuleta Volto Já para enganar os tolos e os repórteres, a mãe do capuchinho vermelho, os três porquinhos da estória, o presidente de câmara. A coisa estava para quem tivesse sangue frio. Imagens soltas sucediam-se no cérebro, a uma velocidade vertiginosa. Há sempre que contar com a música do acaso, ou melhor, com a cacofonia ensurdecedora do desconhecido. Esta fronte, baixa e apoquentada, agitando pensamentos sombrios… Gatafunhos inacabados, suspensos na própria vida que teoricamente tende para o infinito. Não preciso saber tudo. Apenas o que o frio permite, e é já tanto. Pois, pois Pois, pois O caso é que ninguém sabe. E quando isso acontece já não é pouco. Esperar, permanecer, prolongar, interromper, preparar-se para qualquer coisa, não querer fazer, aborrecer-se com o que se está a fazer. Missa, baile, aula, praia, etc… Maiakovsky disse um dia que há uma zona do espírito humano que não pode ser atingida senão pela poesia, e somente pela poesia que está acordada, que muda. Ora aí está uma coisa que não se pode saber, mas que se pode ver e ouvir. In the background, the music of the people. What beauty! A prostituição é uma das profissões fundamentais, talvez aquela que resume todas as outras. Tormento e beleza. A esperança começava a ser um bem escasso, intermitente. Um adiamento de si própria. Qualquer coisa que nunca poderemos compreender. Assim vai o mundo, os países que para sempre perderam o norte, já sua voz antiga não os ilumina, venenoso vestígio. Todo o arquivo é misterioso, mas nenhum mistério pode ser arquivado. Haverá então que posicionar-se de outro modo. Aonde vais agora? De onde pensavas que vinhas? Ciclica cicatriz manuscrita no corpo. O que é que pedimos aos filmes? Pois, pois. E estivemos a ver o que se passa no filme ou a pensar na nossa avó, quer dizer, a trabalhar o tempo da vida que dizemos ser a nossa? Não sabes aonde ir, já não sabes. E na estação, à chegada, já não há ninguém à tua espera. A indiferença dos deuses é eterna. Não há lugar nem para a história nem para o progresso. O prazo para cruzamentos está esgotado. O puzzle nunca chega a completar-se, por muito que o observemos. E outras coisas mais perigosas existem para além desta escrita ou da sua sombra. Primeiramente, julga-se possuir as suficientes chaves que permitem o acesso ao interior do problema; num segundo momento intui-se que as portas se comunicam umas com as outras, formando um labirinto. Por fim, percebe-se a força do problema sobre a força da sua resolução. Palavra de águia. Finjo uma hipótese entre o não e o sim? A liberdade que a razão desconhece oferece-se a nós ao virar de cada esquina. Era o início da grande viagem, embora a educação deprima as pessoas. Silêncio enfim, absoluto.

Pedro Dias de Almeida (lido pelo próprio na apresentação da revista, em 27.12.2006)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Revista

Edição dupla (nº 4 e 5), Dezembro de 2006

No dia 27 deste mês, pelas 18h00, será apresentado mais um número da revista Boca de Incêndio. A sessão terá lugar no Café Concerto do TMG, a cargo de Pedro Dias de Almeida, natural da Guarda, editor de cultura da revista "Visão" e colaborador da revista.
Nesta edição, a componente visual será bastante vincada, pois os trabalhos gráficos recebidos suplantaram as colaborações em forma de texto. O que veio a conferir a este número uma originalidade que, embora prevista, ultrapassou as expectativas dos editores.
Como sempre, para além dos critérios de qualidade, procurou-se assegurar a continuidade e a diversidade. A primeira, mantendo colaborações de autores reincidentes. A segunda, juntando novos contributos.
A distribuição irá ser alargada a locais específicos no estrangeiro – Universidades com departamentos de Estudos Portugueses, Associações Culturais, entre outros – para além de uma criteriosa cobertura nacional.

Edição: Aquilo Teatro
Direcção:
Américo Rodrigues, António Godinho, Maria Lino
Concepção gráfica e paginação:
Alexandre Gamelas
Colaborações (neste número)
: António Bento, António Godinho, Barbara Spielmann, Barbara Assis Pacheco, Claire Moreau, Edmundo Cordeiro, Carlos Alberto Machado, Doris Cordes-Vollert, E. M. de Melo e Castro, Joan Lazeanu, João Camilo, José Oliveira, Jorge dos Reis, José Manuel Gomes Pinto, Kerstin Franke-Gneuss, Susann Becker, Tiago Rodrigues e Vítor Pomar.

pedidos para:
aquilo.teatro@sapo.pt bocadeincendio@gmail.com
ou Livraria Leitura

domingo, 6 de agosto de 2006

sábado, 15 de julho de 2006


Manuel Portela, "Boca de Incêndio", nº 3, Dez. 2005

O Riso de Céline

«A razão! É preciso ser louco. Assim, com tudo castrado, não é possível fazer nada. Dão-me vontade de rir. Veja-se aquilo que os contraria: nunca ter havido quem conseguisse fazer um filho "racionalmente". Não há remédio. Para haver criação é preciso haver um momento de delírio

Louis-Ferdinand Céline, Ele, Rabelais, Falhou o Golpe

O particularismo da voz megalómana, voz delirante, de Céline, está em mostrar o absurdo que há em não termos fé nos sentidos, fé nas emoções. A grande idolatria que é o termos medo das sensações... medo de sentir. Com o seu delírio megalómano, procurava Céline esmagar o medo no próprio lugar em que ele mais facilmente se insinua, medo que se apodera das sensações, medo que erradamente tomamos por a verdade das sensações, medo da voz que nelas julgamos pressentir. Precisamente a tirânica voz do Verbo, essa voz que era já o demónio de Sócrates e aquela que foi depois o instrumento do poder sacerdotal dos evangelistas, esses homens capazes de mudar a «direcção do ressentimento». Mas também a voz dos gramáticos encartados e a voz presente nas boas orações literárias de todos os dias santos.

Lírico como jamais houve, homem-pássaro sem igual, Céline recusava a idolatria, e a do Verbo mais do que qualquer outra. Se escrevia era para se poder vingar da falsa «eloquência natural», para se desforrar do palavreado insidioso com que o Diabo se disfarça de bom Deus. «Temo que não nos libertemos de Deus enquanto continuarmos a acreditar na gramática», escreveu um dia Friedrich Nietzsche. Céline, esse, poderia ter dito: «Temo que não nos libertemos da gramática enquanto continuarmos a acreditar no Verbo». Eis uma equação que o sr. doutor Destouches não enjeitaria.

Escrevendo para «ganhar a vida», Céline cantava. Céline assobiava. Para isso dispunha ele de uma técnica incomum, técnica forjada numa gaguez incomparável com a qual torcia as boas maneiras da língua. Rabelaisiano, desconfiado que era das “boas sensações”, das sensações conformes ao Verbo, ninguém como ele, larápio e fugitivo, atacou tanto os poderes instalados no edifício central da sua língua materna. Ninguém como ele desarmou todas as manhas e perfídias que denunciam o outro lado do seu bom-tom: «Um tom igual ao dos liceus, um tom igual ao do jornal de todos os dias, um tom igual ao das discursatas, um tom igual ao das declarações do Parlamento, ou seja, um estilo verbal, talvez eloquente, mas em todo o caso nada emotivo». «Words, words and words»... «tics, tics et tics»...

Foi sobretudo pelo modo como empregava o argot, pelo modo como passava o «falado» a «escrito», pelo modo, enfim, como nessa transposição encontrou a única forma possível de exprimir a emoção (para ele a fonte de onde brotam os actos essenciais da vida), que Céline se tornou conhecido. Conhecido, sim, mas jamais amado: «La gloire ne va qu’aux morts, n’est-ce pas. Les vivants n’arrivent qu’à l’Académie». Sob este aspecto, Céline era profundamente mal-educado, obsceno até, ele que, exigente, cruel, vigilante, submetia as palavras a uma intensa tortura de parto. Mas Céline nunca quis contar, ele quis apenas fazer SENTIR... Eis a fórmula para o seu generoso conceito de estilo. Com ele, é a própria emoção que se transforma imediatamente em carácter. Não se pode pedir muito mais...

Se, por acaso, Céline leu Beckett deve ter rido e sofrido com a imaginação do irlandês. E se a grande crença de Kafka – e o que, por meio dela, permite ligar o judeu de Praga ao jesuíta de Dublin – é a consciência de que há uma «culpa» que nos é exigida em troco do saber que «há qualquer coisa em nós que é indestrutível», ou, dito à maneira do irlandês, que subsiste, apesar de tudo, «um continuar quando não se pode continuar», para Céline a paciência é uma virtude de beatos. De beatos cansados das emoções que apenas a vida – e não o Verbo – pode justificar. Precisamente a Santa Paciência do Verbo que ensina às ovelhas a boa maneira de balir... «“No princípio era o Verbo.” Não! No princípio era a emoção. O Verbo veio depois, para substituir a emoção, tal como o trote substitui o galope, mas o galope é que é a lei natural do cavalo; ao trote obrigamo-lo nós».

São conhecidas as birras de Céline contra a dialéctica. Contra o arrazoado. Contra as ideias. Contra a propaganda. Neste aspecto, o seu lirismo é o avesso aristocrático do sermonismo democrático e universal de Saúl de Tarso. Também por isso é Céline contra tudo aquilo que não incarna. Contra si-próprio, contra Céline, o histrião preciso. Clínico, conhecedor, quente, eis Céline, o construtor de emoções. Nada, em suma, que nas profundezas da língua se agitasse, lhe escapava: nenhuma maleita, nenhum pus, nenhum micróbio, nenhum tumor, nenhum cancro. Prosa natural e impressiva, prosa também homeopática, a do doutor Louis-Ferdinand Destouches, prosa contra o Verbo de um médico obcecado com a saúde das emoções, pluma lírica emotiva de um naturalista empenhado em curar aquelas infecções da língua que tornam doente a sensação da palavra.

Puritano como era, quando Céline ria, ria para aliviar a garganta, para desgaguejar a emoção, para lhe apagar, por instantes, as reticências. Para evitar o bem e o mal. Para recusar o bem e o mal do Verbo, para recusar, no fundo, o Pecado Original, «não é verdade?», diria ele. Emoção Plena. Inteira. Capaz. Viva.

António Bento, "Boca de Incêndio" nº3, Dez. 2005

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Revista

Publicação semestral de âmbito literário e artístico, cujo número inaugural saiu em Maio de 2004, a que se seguiram mais dois. Inclui textos literários, (conto, poesia), recensões, ensaios, artigos de opinião, trabalhos de investigação, desenhos, gravuras. O leque de colaboradores tem um âmbito nacional e internacional, compreendendo escritores, poetas, artistas plásticos e investigadores.

Edição: Aquilo Teatro, CRL
Direcção: Américo Rodrigues, António Godinho, Maria Lino
Design e Paginação: Alexandre Gamelas

Colaboradores: Ana García Varas, Américo Rodrigues, André Bandeira, António Bento, Bartolomé Ferrando, Carlos Alberto Machado, Domingo Sanchez, E. M. de Melo e Castro, Fernando Aguiar, Gerda Lepke, Ingrid Kerma, João Camilo, José Alberto Ferreira, José Manuel Pinto, José Oliveira, José Teixeira, Julien Blaine, Karla Woisnitza, Klaus Becker, Manuel Poppe, Manuel Portela, Maria Fisahn, Maria Lino, Pedro Dias de Almeida, Pedro Vilar, Rui Eduardo Paes, Rui Sousa, Sabine Peters, Sérgio Monteiro de Almeida e Vítor Viçoso


Pedidos para: aquilo.teatro@sapo.pt bocadeincendio@clix.pt
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