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sexta-feira, 2 de julho de 2010

A guerrilha não passará!...

A Fundação Trepadeira Azul, instituição que tem desenvolvido um trabalho notável sobretudo em áreas ambientais, está sediada na Quinta de Santo António, freguesia de Aldeia viçosa, concelho da Guarda. No passado domingo, aí promoveu um concerto de música erudita, pelo grupo "Capela Egitanea".  Porém, quem ao local acorreu, deparou-se logo à entrada do recinto com uma situação insólita: o Presidente da junta de Freguesia Local, Baltasar Lopes, acompanhado de alguns comparsas e completamente alterado, gesticulava e vociferava contra a realização do concerto, anunciando o seu boicote ao som das vuvuzelas. Ao mesmo tempo, ameaçava a Direcção da Fundação com represálias de todo o tipo. E até o público que se dispunha a assistir ao espectáculo. As "razões" apresentadas pelo edil para o seu comportamento diziam respeito a questões judiciais passadas, havidas entre a Junta e a Fundação. Pelo caminho, ia erguendo uma série de impedimentos administrativos, completamente infundados, à realização do concerto. Apesar dos repetidos apelos à contenção, o autarca manteve o seu propósito. De modo que as vuvuzelas se fizeram soar ao longo do espectáculo. O desenrolar dos factos foi presenciado pela GNR, chamada ao local, mas que nada fez para impedir o sucedido.
Entretanto, a história é denunciada no dia seguinte pelo Américo Rodrigues no seu blogue "Café Mondego", cujo texto convido a ler. Como verão, os factos são relatados na primeira pessoa, pois o autor esteve presente no concerto e são recheados de abundantes pormenores.
Mas o episódio não termina por aqui. Logo na terça feira, Baltasar Lopes apresentou uma "proposta" na sessão respectiva da Assembleia Municipal (de que é membro por inerência, sendo presidente de uma Junta de Freguesia, para quem não sabe), no sentido de ser diminuído em 20% o apoio da Câmara ao Teatro Municipal da Guarda. A proposta foi posta à votação, tendo sido aprovada com os votos de toda a oposição e parte do PS. Não enquanto resolução, mas como "recomendação". Sem qualquer propósito vinculativo para o executivo, portanto. Durante a discussão, houve ainda tempo para um "iluminado" presidente de junta fazer incluir na proposta o encaminhamento da verba assim "recuperada" para as Juntas de Freguesia. Até ao momento, não houve ainda qualquer reacção por parte da estrutura concelhia do PS. Sabendo-se que Baltasar Lopes, embora independente, foi eleito com o apoio dos socialistas. Por outro lado, Américo Rodrigues denunciou o episódio em primeira mão e da forma veemente que se lhe reconhece. O que levou a que fosse visado de duas formas: como Director do TMG, pela insólita iniciativa descrita; pessoalmente, através de insultos e ameaças que afirma ter recebido a partir de então.
Algumas ilações:
a) O caso, embora aparentemente possa ser remetido para o fait divers pitoresco, reveste-se de alguma gravidade.  Sendo urgente uma tomada de posição por parte da Câmara e da Concelhia do PS. Retirar a confiança política ao autarca é o mínimo que se exige. O normal seria exigir a sua demissão, ameaçando-o com uma auditoria às contas da praia fluvial.
b) Por outro lado, sabe-se que a deliberação da AM, seja qual for a sua forma, não terá quaisquer efeitos práticos. O órgão não tem competência para alterar orçamentos devidamente aprovados de uma empresa municipal, a Culturguarda. Mesmo assim, é incompreensível como proposta tão descabelada foi aprovada. As razões do proponente são claras: têm as dimensões precisas de uma vingançazinha pessoal de quem não suporta ver-se posto em causa. E de quem usa um órgão autárquico, que integra por inerência de funções, como caixa de ressonância dos seus ressentimentos pessoais. De resto, as repetidas facécias do autarca ajudaram a compor a sua imagem de marca: a do cacique trauliteiro e populista. É altamente improvável que os verdadeiros motivos do edil fossem conhecidos de quem votou favoravelmente a proposta. Que integrou toda a oposição e os Presidentes de Junta do PS. A história é contada aqui pelo AR.
c) O resultado e a composição da maioria que aprovou a proposta não me surpreendem. Por dois motivos: 1º Na Guarda, para além do conhecido populismo associado ao eleitorado tradicionalista de direita e dirigentes dos partidos e instituições que o representam, existe um outro. Trata-se do populismo promovido por certos partidos da chamada esquerda. Que vivem do soundbite miserabilista, de uma superioridade moral que ninguém lhes outorgou e do engraçadismo de circunstância. Associando a cultura ao despesismo e ao desperdício. Ou quando muito, a som de fundo da "revolução". Não porque realmente acreditem nisso, mas por razões de mera estratégia eleitoral. 2º Ficou evidenciado que a maioria dos presidentes de Junta vivem amarrados às suas clientelas e à sua "influência". Não apresentando qualquer estratégia que ultrapasse a sua sobrevivência política. A alteração efectuada à proposta inicial, que faz lembrar a repartição de um saque, fala por si.
d) O TMG é uma peça essencial para a afirmação e desenvolvimento da cidade. Não vou aqui repetir as razões que tantas vezes referi. Aqui, por exemplo. O que interessa, por agora, é focar na noção de que o Teatro Municipal é uma instituição modelar, com provas dadas e, em cada ano que passa, crescentemente acolhido pela cidade no seu imaginário. Claro que não esta isento, bem pelo contrário, da avaliação política nos órgãos próprios, da avaliação do próprio público e do benchmarking. Outra coisa é admitir ou compactuar com esta espécie de terrorismo, que desprestigia as instituições, pode colocar em causa políticas de longo prazo assumidas pela autarquia e cria um ruído completamente à margem do que interessa debater. 
Conclusão:
É fundamental não só que a Câmara se demarque desta "recomendação" e de quem a propôe, como também reafirmar a sua aposta na actividade cultural como factor estratégico de desenvolvimento local. Sobretudo agora que se percebeu que, embora para muitos seja esta a aposta certa, ainda não o é para todos. O que não é necessariamente mau. Sabendo-se que as opções políticas de risco são as únicas dignas desse nome.

10 comentários:

  1. A CDU votou contra. É preciso clarificar muito bem quem votou a favor ou contra. Não se pode generalizar em "toda a oposição".

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  2. Pela nossa parte tudo,mesmo tudo,faremos para defender a cultura.Sem ela nunca haverá liberdade nem democracia.
    mário

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  3. Porque será que as televisões, sempre apressadas em mostrar freak shows de província, não se interessaram pelo assunto? O tema até prometia: um regedor medieval a expulsar a cultura, o desenvolvimento, a modernidade.

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  4. Como este Baltasar não faltam sobas de tabanca espigadotes por aí. Este dá mais nas vistas porque é um artista de circo completo. Sem ofensa para os verdadeiros, claro. E os partidos adoram caciques assim... Vamos, já é altura de o MP actuar e começar a investigar os negócios deste personagem.

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  5. Vergonhoso, esse e todos os Baltasares deste mundo,despotas e escroques, e ainda por cima revanchistas. De facto, como é que esta notícia não se projectou a nível nacional?!
    Vou levar o teu texto para o meu blogue.Isto tem de ser noticiado.

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  6. É com profundo desgosto que mais uma vez a cidade da Guarda recebe mais uma machadada de forma fria e crua. Não bastavam as inúmeras obras desnecessárias, bizarras, despidas e sem nexo e onde o betão e o bronze desvirtualizado definem tristemente o panorama paisagístico da Guarda, como também não de agora, mas de à muito, se assiste à incapacidade da autarquia local em trazer vida e ânimo às outrora vigorosas estruturas humanas e industriais não apenas da Guarda mas de todo o distrito. É lamentável que aos poucos a Guarda vá perdendo alguns dos seus “F” ao contrário de regiões vizinhas. É igualmente com profundo desgosto que olho para a cidade, uma cidade muda, esquecida no tempo, onde nada muda e onde tudo permanece igual à semelhança de um centro de mesa numa sala vazia cujos donos esperam pacientemente a visita dos seus entes queridos, mas que até lá o pó vai dominando até alguém se lembrar que deve ser removido! Uma cidade tristemente dominada pelos confrontos políticos doentios, onde são postos em causa e em jeito de troféus, importantes pólos de desenvolvimento como o Instituto Politécnico, a Delphi, Gelgurte, o futuro Hospital da Guarda e a sua maternidade tão bem defendida pela minha colega Teresa Gil entre outras empresas que gradualmente vão despedindo trabalhadores e gradualmente vão fazendo da cidade da Guarda, uma cidade ainda mais esquecida e envelhecida, sem desenvolvimento e que por sua vez vai fazer com que centenas de jovens e não jovens procurem com sangue, suor e lágrimas em regiões vizinhas e no estrangeiro o dinamismo e o empreendedorismo que não existe nesta cidade. Basta! Basta de hipocrisia! É tempo de as pessoas olharem para o mundo! Onde está a compaixão e o humanismo que nos definem!? Esqueçam a cegueira de quem nada vê, mas que em tudo torna utopia! Sejamos humanos ao ponto de podermos olhar para os nossos vizinhos e com um simples sorriso alimentar a esperança de um futuro melhor para o nosso distrito. É triste o exemplo de me deslocar a uma grande superfície e não encontrar os iogurtes da Gelgurte, sobretudo para alguém que os comprava não apenas pelo sabor e qualidade, mas também sabendo à partida que defendia o posto de trabalho de alguém! É triste ser informado que já não estão à venda por ter havido uma reestruturação da empresa e respectivos contratos, à semelhança de outras empresas! Não façamos da crise a desculpa para todos os males. O mal está em quem nada fez/faz para ultrapassar essa crise, em que nada fez/faz para ajudar o tecido empresarial da Guarda, nesse marasmo decrépito, ignorante e sem vergonha com que entregou de bandeja a base logística empresarial para a vizinha Espanha e nada fez para travar o declínio deste distrito que tinha outrora, se bem aproveitado as bases de um futuro promissor, agora tornado numa utopia de Thomas Moore. Um dia…quando voltar à Guarda…quero poder acreditar nessa Força que nos une contra a cegueira de quem nada Faz!

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  7. Ao anterior comentador:

    Obrigado pelo seu retrato de uma cidade que certamente sente como sua. E o qual, em traços gerais,subscrevo. A certa altura, toca num ponto que, em meu entender, é o principal factor de estagnação da cidade e região envolvente: a fraquíssima qualidade dos políticos locais. Que não conseguem mobilizar a esperança, apresentar modelos coerentes de desenvolvimento, impô-los ao poder central, gerar confiança, saber inverter o ciclo. Mas o que assistimos é precisamente ao contrário. As golpadas de tarefeiros medíocres, a dança dos lugares, a falta de coragem em expurgar as ervas daninhas, a distribuição dos cargos públicos como se fossem prémios de fidelidade, a figura do "influente"... Enfim, um espectáculo nauseabundo perante o qual se impõe uma acção de saneamento básico profundo. Que faça emergir as qualidades e as virtudes dos cidadãos que estão à margem deste gigantesco negócio de cargos, sinecuras e vaidades viscosas. Pois que enquanto figuras como a do post forem toleradas, ou enquanto nulidades "influentes" repartirem o bolo, ou enquanto uma comunicação social dócil e sem coluna vertebral for a regra, a estagnação da Guarda será cada vez mais acentuada.

    Notas.

    1. Como aqui alguém já comentou, a CDU votou contra a proposta. Fica a correcção. No entanto, não me admiraria que votasse a favor. Conheço casos de autarquias geridas pelo PCP onde impera a animação do foguetório e do decibel. O caso de Sesimbra é paradigmático. Onde uma gestão exemplar do anterior executivo, neste domínio, foi substituída pela "peixeirada" bem ao gosto de certos autarcas da CDU.

    2. Ao que parece, o Vereador da Cultura da Guarda, Dr. Virgílio Bento, emitiu uma declaração onde se demarca da resolução da AM e afirma a continuidade das opções seguidas no sector. Nem podia ser de outro modo. No entanto, aqui vai o meu inteiro aplauso.

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  8. Se houver vontade política, o sujeito cai imediatamente. E de nada lhe valem os "primos" na GNR e os aliados de circunstância na AM.

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  10. Uma vergonha... É bom que a população da aldeia comece já a pensar numa boa solução para quando o personagem se for embora, no final deste último mandato. Decerto vai cozinhar uma lista com os afilhados, pois os lucros da praia fluvial valem bem o "esforço"... Portanto, erradicar o clã definitivamente é a próxima tarefa da freguesia...

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