Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O prestidigitador


Mário Cesariny, "a velha desdentada" que experimentou como nenhum outro a virtude no excesso, faria ontem oitenta e quatro anos. Antes que façam dele mais um adorno do regime, para gáudio dos cortesãos que por aí abundam, aqui vai uma das suas provocações mestras.

o regresso de ulisses
O HOMEM É UMA MULHER QUE EM VEZ DE TER UMA CONA TEM UMA PIÇA, O QUE EM NADA PREJUDICA O NORMAL ANDAMENTO DAS COISAS E ACRESCENTA UM TIC DELICIOSO À DIVERSIDADE DA ESPÉCIE. MAS O HOMEM É UMA MULHER QUE NUNCA SE COMPORTOU COMO MULHER, E QUIS DIFERENCIAR-SE, FAZER CHIC, NÃO CONSEGUINDO COM ISSO SENÃO PRODUZIR MONSTRUOSIDADES COMO ESTA FAMOSA "CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL" SOB A QUAL SUFOCAMOS MAS QUE, FELIZMENTE, VAI DESAPARECER EM BREVE. PELO CONTRÁRIO, A MULHER, QUE É UM HOMEM, SOUBE SEMPRE GUARDAR AS DISTÂNCIAS E NUNCA PRETENDEU SUBSTITUIR-SE À VIDA SISTEMATIZANDO PUERILIDADES, COMO FILOSOFIA, AVIAÇÃO, CIÊNCIA, MÚSICA (SINFÓNICA), GUERRAS, ETC, ALGUNS PEDANTES QUE SE TOMAM POR LIBERTADORES DIZEM-NA "ESCRAVA DO HOMEM" E ELA RI ÀS ESCÂNCARAS, COM A SUA CONA, QUE É UM HOMEM. DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS, ANTES DA ROBOTSTÂNICA GREGA, OS ÚNICOS HOMENS-HOMENS QUE APARECERAM FORAM OS HOMENS-MEDICINA, OS HOMENS-XAMAS (HOMOSSEXUAIS ARQUIMULHERES). ESSES E AS AMAZONAS (SUPER-MULHERES-HOMENS). MAS UNS E OUTRAS ERAM DEMAIS. E DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS QUE PENÉLOPE ESPERA O REGRESSO DE ULISSES. MAS O REGRESSO DE ULISSES É O HOMEM QUE É UMA MULHER E A MULHER QUE É UMA MULHER QUE É UM HOMEM.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Cesariny - 3

Welcome, onde quer que estejas, em Elsinore, só pode ser, a morada certa para um príncipe em terra de plebeus, que acendeu as palavras como barcos. Graças a ti, muitas das que quase deixaram de esperar por nós, teimosamente ainda esperam.

Cesariny - 2

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de qualquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barcas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem.

Discurso ao príncipe de epaminondas, mancebo de grande futuro, in Manual de Prestidigitação, Assírio & Alvim, 1981

Cesariny - 1

Sem Título, técnica mista sobre platex

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Lista de tarefas


É preciso correr é preciso ligar é preciso sorrir/é preciso suor/é preciso ser livre é preciso ser fácil é preciso a roda/o fogo de artifício /é preciso o demónio ainda corpulento/é preciso a rosa sob o cavalinho/é preciso o revólver de um só tiro na boca/é preciso o amor de repente de graça/é preciso a relva de bichos ignotos/e o lago é preciso digam que é preciso/é preciso comprar movimentar comércio/é preciso ter feira nas vértebras todas/é preciso o fato é preciso a vida/da mulher cadáver até de manhã/é preciso um riso na boca do pobre/é preciso a máquina a quatro mil vóltios/é preciso a ponte rolante no espaço/é preciso o porco é preciso a valsa/o estrídulo o roxo o palavrão de costas/é preciso uma vista para ver sem perfume/e outra menos vista para olhar em silêncio/é preciso o logro a infância depressa/o peso de um homem é demais aqui/é preciso a faca é preciso o touro/é preciso o miúdo despenhado no túnel/é preciso o braço coberto de espuma/a luz o grito o grande olho gelado/ E é preciso gente para a debandada/é preciso o raio a cabeça o trovão/a rua a memória a panóplia das árvores/é preciso ainda que caias de borco/na cama no choro no rogo na treva/é precisa a treva para ficar um verme/roendo cidades de trapo sem pernas

Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação