Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A casa (12)

Sol-coração, pedra que lateja, / pedra de sangue que se torna fruto: / as feridas abrem-se a não doem, / minha vida flui semelhante à vida.

 E agora, meus olhos cantam. Inclina-te sobre o seu canto, lança-te à fogueira.

Surgem / uns tantos pássaros / e uma ideia negra.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A casa (11)

 Caio e ergo-me, / ardo e afogo-me.

Não sou mais que uma pausa entre duas vibrações: o ponto vivo, o agudo, imóvel ponto fixo de intersecção de dois olhares que se ignoram e se encontram em mim.

Sou o espaço puro, o campo de batalha. Vejo através de meu corpo meu outro corpo.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

O sotão - 1

De acordo, é um cliché mais que abusado. Outro dia, staying inside, dei por mim a revolver o sotão da antiga casa, explorando o caos da memória como quem corre de olhos vendados num bosque sem pensar nas consequências. Mesmo sabendo que a o apelo fantasmático do baú do tesouro enterrado na areia é para outras latitudes, não resisti. Mas a recompensa não demorou a chegar: uma caixa cheia de cartas e um caderno cintado e reforçado nos cantos. Havia mais caixas, é claro. Mas aquela chamou-me a atenção, porque ressaltava uma inscrição, em letras grossas: "ninguém ama sem prejuízo". Eram cartas recebidas em resposta às minhas e algumas cópias. Testemunhos de um tempo onde ainda se escreviam cartas. E de amor, ainda por cima. Percebi que, durante muitos anos, escrevi muitas. Extensas, telegráficas, grandes, pequenas, mas todas ridículas, é bom de ver. Sinais de uma verdade impossível de alcançar, mas nem por isso menos real. Empolgada, é certo, mas sempre um passo à frente da simples exaltação, ou da mera fantasia. Num certo sentido, inúteis, todas, como seria de esperar. Porque a sua verdadeira utilidade só muito tempo depois se descobre. Numa delas podia ler-se: "o amor não é uma salvação nem uma perda, mas uma corrida. Por ele corri como um louco durante anos, perseguido por outro louco com uma navalha na mão, talvez o destino, o destino insensato do viajante no deserto ". Agora não o diria melhor.

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

Conto de Verão

Hoje à tarde encontrei um amigo que já não via há algum tempo. Em seguida beberam-se as cervejas da praxe. Estava desolado. Tinha combinado umas férias com a namorada. Um dia antes ela ligou-lhe. A cantiga do bandido: estava confusa, mais não sei quê, tinha que ir não sei onde, etc. Conclusão: lá se foram as férias. Eu a pensar, "olha, onde é que já vi isto?" "Graças a estes banhos de água fria, quero acreditar ferozmente que me tornei um aprendiz de céptico, que passei a tropeçar na tal corda que é para atravessar e vice-versa, que consegui ultrapassar a dialética entre o optimismo de Pangloss (tudo vai pelo melhor) e o pessimismo de Martin (à pergunta de Cândido "então para que serve o mundo?" responde "Para nos enfurecer"), da mesma forma que Cândido, no final, "sei que é preciso cultivar a nossa horta"*.
Vendo bem, o normal é o que aconteceu ao meu amigo e a mim: as pessoas passam a vida a fazer acreditar as outras em qualquer coisa e depois acabam a justificar-se com mentiras piedosas. Acreditar no contrário pode ser euforizante. Mas a realidade é de uma simplicidade cruel e edificante: está-se só e morre-se só. O resto são entusiamos para principiantes. Portanto, o melhor é só contar comigo. De promessas está o inferno cheio. Todavia, será esta dedução assim tão linear? Não será essa a suprema justificação que encobre todas as outras? É. O que fica então? Manter a esperança quando tudo aponta para que a espera cesse. A horta. É claro que não disse nada disto ao meu amigo. Só lhe perguntei se não queria fazer férias das férias. E avançar com a torre quando tudo estava à espera que lançasse a rainha.

* Voltaire, Cândido, Guimarães Editores, 2005

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Dêem-lhe crédito que o gajo amansa


Percorrendo a blogosfera, percebe-se que grande parte dos blogantes activos está de férias. Supõe-se que para destinos paradisíacos. A crédito ou a descoberto. Como pertenço à classe dos novos pobres e, como tal, indetectável pela publicidade, neste inenarrável mês de Agosto limito-me a dar umas escapadelas até uns concertos e festivais de verão, tomar uns banhos no Mondego, meter conversa com umas camones, evitar sítios com emigras, ir ver a exposição de arte sacra "Las Edades del Hombre", em Ciudad Rodrigo, rebolar no chão a rir depois de consultar o Diário da República II série na parte das nomeações, acabar de ler as "Cartas a Lucílio" do Séneca, acabar de escrever o guião para a peça de teatro, rever alguns amigos de outras odisseias que regressam à Itaca de montanha no Verão, ouvir a banda sonora do Paris Texas com possíveis lágrimas em anexo, fazer um percurso pedestre na Serra, talvez colocar aquele produto milagroso para couros na minha colecção de botas, mas sobretudo preparar calmamente a grande viagem ao Tibete, desejar ficar por lá e nunca mais voltar a esta merda. No entanto, sou um viajante nato. Quando parto penso sempre no regresso, mas nunca sei quando será. Será?