De mansinho, o regresso. Evanescente. Palavra usada para trocar as voltas ao corrector. Que não a reconhece. Toma, toma! Alguns já dormiam tranquilos, aconchegados num putativo encerramento do estabelecimento... É verdade, vá lá, temos que admitir! Mas o sossego acabou, vates suspirantes da paróquia! Territoreantes comuns! Conviventes do encantamento! Grandes inquietações aí vêm. Tranquilos! Não vou entrar pelas extremas de ninguém. A propriedade é sagrada! Ainda mais a simbólica. E há que ter um módico de humildade. Porém, é sempre esta inquietação, este delírio cinzento! Que só conhece um caminho, a luz. Insectívoro, noctívago. Noites vagantes, garras prontas...
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quarta-feira, 20 de junho de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
O Plano B
Há dias, alguém me questionava acerca da minha profissão de fé de ter sempre um plano B para tudo. Como se tal facto tivesse atrás de si uma suspeição permanente lançada aos outros. Nada disso! Pela parte que me toca, logo à partida existem duas vantagens em jogar dessa maneira. A primeira é de ordem essencialmente prática. Procede daquela ideia tributária do cinismo, que consiste em "esperar o melhor, mas contar com o pior". E não há aqui qualquer juízo de valor. Perante a evidência, nada melhor do que estar preparado para ela. Ora, se a realidade não é confiável, se os outros nos poderão surpreender a qualquer momento, a única forma de encarar o facto com naturalidade é precisamente confiar nessa tendência. Com agilidade. Sem dramas. A outra razão é de ordem filosófica e, aparentemente, mais obscura. Tem a ver com a necessidade permanente da desidentificação. Ou seja, com a capacidade de não fazer depender a nossa realidade das nossas circunstâncias. De saber despojar-nos delas. De não fazer depender uma certa plenitude dos objectos familiares que, supostamente, a confirmam. Tudo está e depois deixa de estar. Ou vice-versa. E onde entra o plano B? É simples: actuar permanentemente como visitas ou visitados. Saber ficar aceitando o que é, estando ou não.
sábado, 5 de novembro de 2011
Arrumações
que estás aqui a fazer? saí de casa. mudaram de local. as instalações, caros clientes e amigos. para onde para onde? querida, vamos começar a ver casas? essa frase é minha. sou só sem nada, sou só sem nada, tatatararara raran. não é nada filho, não é nada, é só o terror a descer devagarinho, a escorrer pelas paredes. ai, agora temos tudo só para nós. vocês sabem lá! quero chegar depressa, quero chegar depressa, a sede no deserto e tal. afinal o que somos devêmo-lo a isso, à... e também ao... aos... pois. a isso. olha, vamos dormir querida, sim? ao cansaço, sim ao cansaço. e foi a minha vez de fazer uma surpresa. a sério?
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Autopsicografia
O poeta é um fingidor. Só porque o desencanto nunca é filosófico, mas poético. Porque apenas a poesia é capaz de apresentar as contradições sem as resolver. Compondo-as numa unidade superior, elusiva e musical. Enquanto esse desencanto, ao mesmo tempo que corrige a utopia, moderando o seu pathos profético e finalista, reforça o seu elemento fundamental, a esperança. Pois que a esperança não nasce de uma visão do mundo tranquilizadora e optimista, mas sim da dilaceração da existência, vivida e sofrida sem véus. A que cria uma irreprimível necessidade de resgate perante o mal. O mal que é simplesmente a radical insensatez com que se apresenta o mundo. A mesma que exige que a perscrutemos em profundidade. O poeta é um fingidor, nada mais. Porque não hesita em denunciar uma ferida profunda que lhe coloca dificuldades na realização plena. Tanto mais que "ambicionar viver é coisa de megalómanos", como escreveu Ibsen, querendo com isto talvez dizer que só a consciência do árduo e temerário que é aspirar à vida autêntica pode permitir que nos aproximemos dela. Tão completamente que até parece dor a limalha irisada que nos cobre, nesse momento. Como que numa exclamação incontida de glória...
terça-feira, 30 de agosto de 2011
A fronteira
Há duas fases bem distintas na existência do comum dos mortais. Na primeira, crê-se que as regras são constrangimentos que oprimem. Na segunda, sabe-se, de ciência certa, que elas existem para nos libertar. Refiro-me, naturalmente, às regras enquanto padrões culturais, mais do que normas legisladas. Sendo que, aquelas cuja convicção de obrigatoriedade é mais poderosa, resultam de uma sageza e de uma rotina de polimento negociada através dos tempos. De modo a que, na maior parte das vezes, surjam em contextos com funções e sentidos bastante diferenciados. Percebi também que, perante a evidência, só há duas atitudes possíveis:
1. A sua deposição não concertada, num dado momento, a que se segue a correspondente substituição por uma "nova ordem" redentora. Pelo menos, para as vanguardas esclarecidas, é claro. Como se a narrativa da História que sustenta tal praxis se resumisse a uma longa marcha até ao seu fim, ao fim da História.
2. Ou, então, perceber que essas regras tem elas próprias uma marca genética, a que se poderia chamar caducidade latente. Actuar sobre as regras significaria uma de duas coisas: apressar-lhe o prazo de validade ou, sendo possível, validá-las enquanto forma para uma situação política e social distinta. Mudança que, sendo impossível sem a subsistência da muitas dessas regras, nunca aconteceria a partir delas.
Escusado será dizer que, no primeiro estádio referido, encontramos o marxismo, o fascismo e seus derivados e subprodutos. Trata-se de uma fase embrionária da acção política. Na segunda fase estão os que, como eu, não ignoram que a liberdade é uma filigrana que requer o cuidado de muitas gerações. Precisamente porque esse trabalho, humilde e verdadeiramente audacioso, poderá nunca ficar concluído.
1. A sua deposição não concertada, num dado momento, a que se segue a correspondente substituição por uma "nova ordem" redentora. Pelo menos, para as vanguardas esclarecidas, é claro. Como se a narrativa da História que sustenta tal praxis se resumisse a uma longa marcha até ao seu fim, ao fim da História.
2. Ou, então, perceber que essas regras tem elas próprias uma marca genética, a que se poderia chamar caducidade latente. Actuar sobre as regras significaria uma de duas coisas: apressar-lhe o prazo de validade ou, sendo possível, validá-las enquanto forma para uma situação política e social distinta. Mudança que, sendo impossível sem a subsistência da muitas dessas regras, nunca aconteceria a partir delas.
Escusado será dizer que, no primeiro estádio referido, encontramos o marxismo, o fascismo e seus derivados e subprodutos. Trata-se de uma fase embrionária da acção política. Na segunda fase estão os que, como eu, não ignoram que a liberdade é uma filigrana que requer o cuidado de muitas gerações. Precisamente porque esse trabalho, humilde e verdadeiramente audacioso, poderá nunca ficar concluído.
Pecado original
Muitos participaram nas habituais transumâncias estivais de e para as ocidentais praias lusitanas, durante os meses de Julho e Agosto. São manadas e manadas entupidoras do comércio, da areia, da paciência, das estradas, dos mercados, das ruas, dos cafés, dos serviços, do sossego. Há quem chame isto de férias... Alguns já declararam mesmo, para os devidos efeitos, o fim do Verão. Talvez porque se sintam ainda aquém da Taprobana. Ou porque quiseram transformar o fim do "seu" Verão numa categoria universal. Tudo hipóteses (de trabalho), é claro. Seja como for, está aí à porta o magnífico e inspirador mês de Setembro. Propício a delíquos poéticos, caminhadas redentoras com a vieira a orientar, longas exposições aos tons dourado-acastanhados pré outonais e leituras a propósito. O mês onde, como bem notou Eugénio de Andrade, "tudo estava calmo / céu, lábios, areias...". A demora convém ser longa. Sem esquecer uma passagem furtiva pela vinha, ou pelo pomar. Espreitar a sua úbere e perfumada generosidade. Trincar a maçã. Dar graças por esta trégua momentânea entre os homens e Deus.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Encontro marcado
É um erro pensar que os outros, alguns outros, não têm uma consciência. Que algo os impede de uma dissimulada contrição. Que não possam, ou não saibam, reconhecer as regras que precedem a secura de uma lei, ou o peso da uma obrigação. Não é que essa ausência não se manifeste com frequência. Mas quem foge, não foge com a sua consciência. Simplesmente atrasou um encontro. Ou seja, o tal pêndulo, chamemos-lhe do ethos, que julgamos não encontrar, está sempre lá. A questão é que nem sempre se manifesta no local onde o esperaríamos.
quinta-feira, 12 de maio de 2011
A tal aldeia
Ultimamente, tenho-me colocado sem dificuldade fora da possibilidade da notícia. Tal como Álvaro de Campos em relação ao soco. Jornais, nem cheirá-los. A não ser os de distribuição gratuita. Que por serem uma relativa novidade para quem vive na chamada província, despertam imediatamente a curiosidade. Televisão, só para ver filmes de acção e do Bergman. Quanto aos blogues, tela nocent levius, visa venire prius, ou seja, homem prevenido vale por dois. Com excepções, é claro. É este o sagrado recato primaveril do meu contentamento, o apogeu da descoberta, o lugar do encontro com o que há-de vir. De tal forma que, hoje, ao comprar o jornal, invadiu-me um secreto terror ao antecipar o que lá iria encontrar. Até já, como se ouve nos reclames...
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Crimes banais
Uma das características principais dos mistificadores, muitas vezes confundidos com os sonhadores, é quererem, à força, ver nas coisas o que lá não está, nem nunca estará. Arrastando os outros nessa vertigem. Muitas vezes o engano só serve para a composição da paz interior, para o sossego da própria mente. As consequências do facto, comprovadas pela História, são devastadoras. Pelo contrário, os verdadeiros sonhadores, um pouco como os piratas, são terrivelmente pragmáticos. Ou seja, distinguem-se por verem nas coisas o que já lá está, mas os outros ainda não viram. "Roubando" descaradamente a percepção aos que os rodeiam, para depois distribuir o saque e repartir a ambição. Todavia, se nessa matéria estamos conversados, noutro desiderato contíguo é mais difícil a arrumação. Refiro-me à tendência para vermos nos outros qualidade e atributos que não têm. Justamente para ilustrar um tese ou rendilhar uma mentira útil. Só conheço uma coisa ainda mais nociva: conseguir ver nesses outros unicamente os seus defeitos e limitações imaginários, mas não descortinar os reais.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
A arte da fuga
A fuga tem duas predestinações mais ou menos aceites pelo imaginário popular: a evasão penitenciária e o itinerário da consumação plena de alguma paixão fulgurante, que não espera pela aprovação das circunstâncias onde nasceu. Ambas são depositárias da rêverie romântica, ao jeito de Dumas, ou Camilo, respectivamente. No entanto, só a segunda encerra o núcleo essencial do amor trovadoresco. Ou seja, a representação do amor tal como o Ocidente o conhece, nascida algures na Provença do séc. XII. O maior problema destas movimentações, antes feitas a cavalo e hoje perfeitamente motorizadas, é que ninguém fala do local de chegada. Nada se sabe do que aconteceu "depois". Ou seja: o normal é dizer-se: "fulano e sicrana (ou fulano e sicrano, ou sicrana e fulana, sim, é melhor ampliar as variáveis politicamente correctas, não vão as associações "do sector" cair-me em cima) fugiram os dois anteontem, abandonando tudo". Descontado o pleonasmo da última parte, raramente o local de chegada, ou o desenvolvimento da história romanesca, são tema de conversa, ou mesmo objecto de curiosidade. Porque será? Pudor? Seria bom demais. Desinteresse? A proliferação de romantismo de cordel e das revistas cor de rosa desmentem a hipótese. A minha aposta vai para outra possibilidade, aparentemente menos óbvia: o mito do "foram felizes para sempre" impõe aqui a sua cortina de silêncio cúmplice. É que, se a fuga denota arrojo, também comporta um risco. E quem se arrisca não o faz sem uma determinação acima do cálculo e à margem da decepção. E não é menos verdade que o heurístico "happy end" é a homenagem possível que a resignação videirinha dedica à grandeza. Ou que uma curiosidade indisciplinada consagra ao que já pertence a uma ficção demasiado próxima da realidade. Portanto, para todos os efeitos, "viveram felizes para sempre". Porquê? Don't ask, don't tell!. Caso encerrado.
Rating de veludo
É como tudo. Até mesmo os apertos financeiros, que empurram o país para uma espécie de protectorado da boa vontade internacional, têm o seu lado positivo. Vejamos porquê. As conversões, as iluminações, as combustões espontâneas, as apostasias, as revelações místicas, as hierofanias inexplicáveis e outros fenómenos congéneres têm, quase sempre, um tronco comum. Acreditemos que sim. Ainda que, neste caso, encimado por uma carinha laroca... Aconteceu à hora de almoço. No meio do habitual zapping, deparei com a proverbial TVI. Exactamente no momento em que irrompeu a Marta, correspondente da Agência Financeira, por entre as resmas de pixels do ecrã. Ah, momento sublime!!! Ah, perdição que tomaste conta de mim!!! Como foi possível? Ah, o doce desespero, a altura, o mar, a soberania do acaso... Coisas não fechadas, abertas de par em par, como se o peito rebentasse... Quando me recordo do eco, que antes palavras como "ratings", "flutuações cambiais", "índice Dow Jones", "abrir em baixa", "cair em alta", "títulos transaccionados", "praça de Tóquio", tinham em mim!... Quedas consentidas, subidas fulgurantes, lances virtuais que compunham uma linguagem fantasmática, estéril, que produzia tantas emoções no meu ser como um algoritmo matemático ou a leitura das indicações terapêuticas de um anti-inflamatório. Ou seja, o mesmo que uma ladainha numa língua ininteligível. Uma cifra cuja repetição cadenciada induzia a memorização da forma, a neutralidade do fonema oco. Uma frenética liturgia do capital, sem templos nem genuflexões, ampliada pelos holofotes do espectáculo. A narrativa possível para o vazio. Mas tudo isso acabou, mal vi a Marta... O que era asséptico tornou-se um sopro e um arrepio, o que era inatingível ficou ao alcance da mão... Enfim, das trevas nasceu a luz, essa é a mais pungente realidade, meus amigos. Apesar dos seus "espirros", das amoráveis hesitações, dos "portantos", do à vontade esforçado... Mas será que a verdadeira beleza dispensará uma ligeira imperfeição para se fazer anunciar? E pronto, já só ambiciono ser o corretor preferido das suas primícias... Ah, crise bendita!
quarta-feira, 30 de março de 2011
De onde?
O que significa "ser" deste ou daquele sítio? Ou melhor, o que significa anunciar urbi et orbi que se é daqui ou de acolá? Antes de mais, convém isolar o enunciado "sou de tal sítio" do contexto onde aparece. O qual só ao autor do enunciado diz respeito. Pois é nessa declaração, e só nela, que vou pegar. Ora, o sentimento de pertença a um grupo, a um território, a uma cultura, a um corpo de representações colectivas comuns é, sem dúvida alguma, um elemento definidor da identidade do sujeito. Onde participam elementos subjectivos e objectivos, é claro. Mas nos quais não me vou agora deter. A existência social dos indivíduos é determinada, segundo Pascoaes, em primeiro lugar pela família a que pertencem, vindo depois a comunidade, associada a um território e, depois, a nação. Abstraindo do fundo de maneio ideológico que subjaz a esta construção, diria que, embora cada um se possa descartar de algumas destas filiações, dificilmente o poderia fazer em relação a todas elas. Centro-me agora na segunda, pois é dela que aqui cuido. O sentimento de pertença a um lugar é um laço identitário tão forte quanto relativo. Uma vez que pode não ser determinado pela naturalidade, mas pelas circunstâncias da existência, pela afinidade, por ser aí que se adquiriu a notoriedade, o conhecimento, a felicidade. Em suma, é um local adoptado que também nos adoptou, o que sinaliza uma verdade que uma ficção administrativa não pode fazer subsistir. Significativamente, na Idade Média e durante o Renascimento, era comum as pessoas serem conhecidas simplesmente por dois nomes: o próprio e o da cidade onde viviam, ou onde se notabilizaram. Erasmo de Roterdão e João de Ruão são só dois exemplos. Tudo isto para chegar onde? É menos importante o local de onde se é do que aquele onde se está. Claro está que, se ambos coincidirem e se para o sujeito essa ligação for importante, nada mais haverá a crescentar. Mas há mesmo. Porque existe uma relação inversamente proporcional entre o local de pertença formal que se invoca e a substância do seu conhecimento. Ou seja, quanto maior a veemência da afirmação do local de onde "somos", menos lá estamos, ou estivemos, efectivamente. Claro que, para muitos, esta questão nem se põe, uma vez que a sua identidade cultural passa por outras representações. Para esses, "ser" e "estar" são realidades simultâneas, nómadas e, porventura, risíveis, quando vistas em conjunto. No meu caso, posso adiantar que, estando fora de Portugal sou português, se isso vier à tona, e estando dentro sou prioritariamente "do mundo". Quando se trata de referir qualidades próprias, ou exemplos particulares, da Guarda. Na cidade, simplesmente "estou". Ou melhor, "vou estando". O que permite ficar dispensado de declarações redundantes e apropriações nefastas. "Tásse"? "Ora bem"!
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Breviário
Não sem algum acerto, o manuel a. domingos quis aqui repartir o mal pelas aldeias, no que à questão da crença/não crença diz respeito. Efectivamente, num tempo onde o sujeito perdeu de vista a sua relação com a transcendência e onde a crença ela própria se tornou um assunto privado, fará todo o sentido relativizar a crença em Deus, cuja existência se torna assim indiferente perante ela. Humaniza-se a crença e transforma-se em desejo mágico, uma vez que não só é impossível a certeza como facultativa a sua necessidade. Mas os problemas não acabam aí. Para o sagrado se revelar é preciso que alguém o veja desse modo. Ou seja, manifestar a sua fé. E, em paralelo, quem não queira ver, ou porque nega ou porque explica. Seja como for, é a incerteza do objecto que determina a dimensão (trágica?) do erro em ambos os casos. Por isso, ao contrário do que diz o manuel, não serão aquilo que ele considera como vantagens - fé e dúvida, respectivamente para crentes e não crentes - precisamente as pedras no sapato? É que, salvo melhor opinião, ambas significam não saber as respostas certas. Por acção ou omissão.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Pólvora seca
Há dias, passou uma emissão do conhecido Jay Leno show, onde a convidada principal foi Cameron Diaz. Nem de propósito, pois tinha acabado de ver o "seu" penúltimo filme, "Dia e Noite" ("Knight and Day"), onde contracena com Tom Cruise. A entrevista propriamente dita foi algo desinteressante, por muito que o apresentador tentasse "animar" a plateia. A páginas tantas, depois de umas remexidelas langorosas na cadeira, a actriz revelou a sua faceta desportiva, no segmento radical. Nem mais. A voz emprestada da Princesa Fiona no "Shrek para Sempre" deu então um arzinho da sua graça. Ao confessar a sua predilecção por desportos náuticos. De preferência longe da costa, mas com ela à vista, não vá o diabo tece-las. Altura para o escriba aqui fazer um trocadilho engraçadote e bem apropriado entre cabotagem e cabotinismo, o que dá algo parecido com "cabotinagem"... Mas adiante. Ao longo dessa parte da conversa, proezas marítimas à parte, a actriz lá ia fazendo umas insinuações sobre fotografias suas em bikini. Sendo que não permitiu que Leno mostrasse uma delas no programa, facto que não deixou de sublinhar. Oportunidade para referir outras fotografias, very special, onde aparecia em trajes menoríssimos e que tinham grande procura junto do público, segundo a própria. Isto enquanto se meneava com ar deliciado, de uma sonsice católica, à mistura com uns trejeitos impostos pelo star system, mas notoriamente pouco credíveis. Do tipo: "queriam ver mamocas e o meu rabiosque, queriam?" "Isso é que era!" "Tendes muito que pedalar!" "Olhem que eu sou virtuosa nos dias ímpares, vale?" "Nos outros logo se vê..." Percebi nesse momento a razão de ser do "diaz" no seu nome, sabendo-se que o pai da actriz é cubano. Mas nada de confusões. Pruridos étnicos estão de fora nesta redacção. O que me traz aqui é a evidência de uma herança cultural ibérica, visível, ainda que de forma extremamente subtil, na linguagem (em sentido amplo) da actriz. Ou seja, a marca de um pudor não assumido completamente, de um jogo de sombras ambíguo, cujo poderoso erotismo, em vez de impregnar os sentidos, é destruído, em última instância, pela competência atlética exibida por quem dele deveria ser o centro.
sábado, 22 de janeiro de 2011
O carrossel dos leitores
Para que cessem as dúvidas, também há o Escritor-Que-Mede-Leitor-A-Metro. O tal que vai anotando, à margem, alguns dos seus tipos de ouvintes: Leitores de Ontem, Leitores do Ano Passado, Leitores da Rua A, Leitores da Rua B, Leitoras de Olhos Claros, Leitoras de Cachecol, Leitores Pouco Interessantes, Leitores Estratégicos, Leitores Tácticos, Leitores Inimigos, Leitores Bajuladores, Leitores Raivosos, Leitores Traidores, Leitores na Patagónia, Leitores de Berlim, Leitores Insuportáveis, Leitores Sentados no Trono, Leitores que Mexem com os Lábios, Leitores de Cuecas, Leitores Professores, Leitores de Faculdade, Leitores com Verrugas no Nariz, Leitores em Tese, Leitoras com Bâton cor de Abacate e Leitoras a dez mil metros Acima de Nós.
domingo, 16 de janeiro de 2011
E agora, algo completamente diferente
Aquele amanhecer foi mesmo penoso. De bom, só havia a reconfortante vaga canora dos pássaros. O ruído de fundo da eternidade. Podia ser. Essa de que o tempo é a imagem móvel. Poesia pura, o melhor de Platão. Mas pronto, devia andar sempre com um bloco de notas directamente ligado às impressões sem data. Ao fulgor de certas paisagens que nunca existiram, porque demasiado reais. Todavia, estão ali, com uma luz impossível, ao alcance de uma lágrima, de uma pequena obscuridade lançada pelo desejo. Mas acontece que essa rudimentar tecnologia poética só aparece na medida em que nada se espere dela, pois nada garante. A não ser, talvez, o sobressalto de não saber o que se pode deixar para trás.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Balanxo 2010
À semelhança dos anos anteriores, Américo Rodrigues, autor do blogue "Café Mondego", convida várias figuras a escrever uma espécie de balanços sobre o que na Guarda se passou no ano transacto. Os "balanxos" são depois reunidos e editados no blogue. Este ano, o meu foi assim:
(...) não se espere um rol exaustivo e ordenado de acontecimentos. Para isso, já existem os jornais e as rádios. Ficar-me-ei pela pincelada instaladora das sobras da memória. E à maneira dos mensageiros militares romanos, ciosos da permanência de uma cabeça sobre os ombros, comecemos pelas más notícias:
- o fecho anunciado da Delphi
- a descoordenação e incompetência evidenciada pela Protecção Civil em dias de neve
- a inexistência de jornalismo de investigação e equidistante dos poderes
- a continuação das admissões de pessoal na Câmara Municipal, após o início oficial da austeridade
- o desmazelo urbanístico que tomou conta da cidade
- a permanência de um Quasímodo ignorante e prepotente na Sé, a que alguns chamam “guia”
- a continuação no papel da Alameda da Ti Jaquina
- o tratamento noticioso dado aos chamados “gangues” da Guarda
- o definhamento do IPG
- a “inauguração” do Museu de Arte Sacra
- a morte lenta do Centro Histórico, em particular da Praça Velha
- a degradação imparável de uma das alas do antigo Convento de S. Francisco
- o adiamento da Plataforma Logística
- a continuação da incapacidade em fixar competências e vocações na cidade
- o estado comatoso de boa parte da classe política local, ao prestar-se a colocar o órgão máximo do município no grau zero da dignidade, por via da inqualificável aprovação de um voto de repúdio, por delito de opinião, contra um cidadão que nem sequer foi ouvido.
Agora as boas:
- as obras do novo Hospital a bom ritmo
- a nova rede de transportes urbanos
- a reconversão do Hotel Turismo em escola de hotelaria
- a criação de uma Unidade de Limpeza de Neve, por instâncias do Governador Civil
- o funcionamento razoável da Biblioteca Municipal
- os “Passos à volta da memória”, visitas encenadas ao centro histórico, durante o Verão.
- a mega-produção “Guarda: a República”, no palco do TMG em Novembro.
- a capacidade dos guardenses de enfrentar os desafios e ousar sonhar sem esperar que outros o façam.
Sobra a nova simultaneamente péssima (para alguns) e tonificante (para larguíssimas minorias)
- o TMG continua a dar cartas e baralhar de novo.
- o fecho anunciado da Delphi
- a descoordenação e incompetência evidenciada pela Protecção Civil em dias de neve
- a inexistência de jornalismo de investigação e equidistante dos poderes
- a continuação das admissões de pessoal na Câmara Municipal, após o início oficial da austeridade
- o desmazelo urbanístico que tomou conta da cidade
- a permanência de um Quasímodo ignorante e prepotente na Sé, a que alguns chamam “guia”
- a continuação no papel da Alameda da Ti Jaquina
- o tratamento noticioso dado aos chamados “gangues” da Guarda
- o definhamento do IPG
- a “inauguração” do Museu de Arte Sacra
- a morte lenta do Centro Histórico, em particular da Praça Velha
- a degradação imparável de uma das alas do antigo Convento de S. Francisco
- o adiamento da Plataforma Logística
- a continuação da incapacidade em fixar competências e vocações na cidade
- o estado comatoso de boa parte da classe política local, ao prestar-se a colocar o órgão máximo do município no grau zero da dignidade, por via da inqualificável aprovação de um voto de repúdio, por delito de opinião, contra um cidadão que nem sequer foi ouvido.
Agora as boas:
- as obras do novo Hospital a bom ritmo
- a nova rede de transportes urbanos
- a reconversão do Hotel Turismo em escola de hotelaria
- a criação de uma Unidade de Limpeza de Neve, por instâncias do Governador Civil
- o funcionamento razoável da Biblioteca Municipal
- os “Passos à volta da memória”, visitas encenadas ao centro histórico, durante o Verão.
- a mega-produção “Guarda: a República”, no palco do TMG em Novembro.
- a capacidade dos guardenses de enfrentar os desafios e ousar sonhar sem esperar que outros o façam.
Sobra a nova simultaneamente péssima (para alguns) e tonificante (para larguíssimas minorias)
- o TMG continua a dar cartas e baralhar de novo.
domingo, 2 de janeiro de 2011
O rescaldo
Abrimos sempre os convites por recusar, recusando assim a única razão válida para os aceitar. São os jantares em que não se participou no repasto, mas todavia se marcou presença, os filmes que foram vistos e esquecidos no momento seguinte, um olhar mais ousado com vontade de mais saber, mas que se rejeita num desvio rápido e frágil. Triunfa, sem se dar por isso, a aceitação da única razão pela qual não se pode recusar um convite.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Pecado capital
Um anónimo comentador ambientalista fez o obséquio de deixar por aqui um recado caricatural, a propósito do meu mais recente e precioso gadget, na gama dos electrodomésticos. Já adivinharam do que se trata? Isso, precisamente, a maquinazinha Nespresso! Pois! What else é a hamletiana questão do Clooney e não sem alguma razão. O caso é que o texto se fez anunciar no tom admonitório, próprio, digamos, de uma bula papal. Convidando-me à expiação, por viscosa cumplicidade com os pecados monstruosos praticados pela multinacional em tropicais paragens. Apontando-me a autoria moral da "imperialista" agressão infligida aos indígenas nas colmeias industriais em terras confucianas. Associando-me à excruciante pegada ecológica e social deixada pela corporação helvética no planeta! Alertando-me, enfim, para a evidência de que, nesta matéria, não existe nem sombra de homenagem que o vício possa prestar à virtude. Ah, que fui fazer? Ah, "erros meus, má fortuna, amor ardente". Como foi possível? Para trás, "Vollutos"! Vade retro,"Arpeggios"! Em guarda, "Ristrettos"! Sumam, "Indriyas"! Vão para donde vieram, "Capriccios"! E sem olhar para trás! Vá, desapareçam, mafarricos! Eu vos esconjuro, criaturas das trevas! Em boa hora alguém zelou pelo meu bem-estar! No momento certo, voz atenta apelou à contrição e ao jejum! E se ainda não chegar, venham os cilicios e os chicotes! Para a frente com as penitências e as excomunhões!
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
A palavra
"Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), – são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro -), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas."
Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, ed. “O Oiro do Dia”, Porto, 1983
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