Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A casa (16)

 Contra a água, dias de fogo. / Contra o fogo, dias de água.

A luz despenha-se, / as colunas acordam / e, sem se moverem, dançam.

 A hora é transparente: / se o pássaro é invisível, vemos / a cor do seu canto.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A casa (13)

 O salto da onda / mais branca / cada hora / mais verde / cada dia / mais jovem / a morte

 Os lábios e as mãos do vento / o coração da água

A meio da noite / verte, / no ouvido de seus amantes, / três gotas de luz fria.

terça-feira, 4 de abril de 2006

A Memória das Coisas -9

VILA SOEIRO – Ervas
Ela pôs-se a atirar tudo pela janela. Depois começou a falar muito, depressa, sem cessar, até parar. Um dia, puseram-lhe nas mãos lápis de cores e colocaram diante dela uma folha de papel. Inerte, ela traça, distraída, alguns pontos e riscos, e depois, sem parar, flores, flores sem suporte. Flores de corolas simples, flores oferendas, flores de nascimento, flores tingidas de inocência. Muitas, muitas. Palavras, nenhumas, nunca mais. Flores é a sua única resposta. Flores, flores, flores.

domingo, 26 de março de 2006

A Memória das Coisas -8

SEIXO AMARELO – O Azeite

Em Novembro, a terra brilha por entre os sulcos. Até onde o sol chegou, surgiram os frutos, logo tombados, logo entregues às tulhas, às rodas e aos corredores escuros das máquinas, aos latejos da prensa hidráulica. Até onde o fruto chegou, eis o azeite, seu filho natural. Invade as cozinhas. Entra pelos almoços. Senta-se tranquilamente nos guarda-louças, entre os copos, as manteigueiras, os saleiros azuis, as especiarias. Tem luz própria, um calor incandescente, uma grandeza piedosa. É o astro da terra, estrela repetida e fecunda. Bate-nos à porta, com o seu aroma. Vamos! À mesa! Está na hora!

terça-feira, 7 de março de 2006

A Memória das Coisas - 7

PÊRA DO MOÇO – A Árvore

Não dorme. Com a idade tornou-se igual a um campo onde houve uma batalha, uma batalha ocorrida há séculos, um campo de muitas batalhas. Eis um ser doido. Um ser farol. Um ser mil vezes suprimido. Um ser exilado do fundo do horizonte. Um ser altivo. Um ser como no primeiro dia. Porque és apenas uma semente de uma semente. Outono, terra, água, altura, silêncio prepararam o germe, a farinhenta espessura, as pálpebras maternas que enterradas abrirão novamente para o alto a singela grandeza da folhagem. A sombria teia húmida de novas raízes, as antigas e novas dimensões de outro castanheiro na terra.

sábado, 25 de fevereiro de 2006

A Memória das Coisas - 6

JOÃO ANTÃO – A Tosquia

Chicotes de fogo, de escavação, de fel. Chicote sobre os bens e os males. Sobre as ordens e os olhos. Sobre as mãos que seguram a tesoura. Mãos imaculadas, reparadoras, as grandes mãos de luz. O sol em brasa sobre as camisas suadas e as gargantas mudas. Os instrumentos ovalados ceifando a lã numa planície de outras searas. Rasurar. Cortar a lã muito antes que dela se erga um fio, interminável e puro. Frágil, porque o fumo ondulante o desenhou. Duro, porque o temperaram todos os metais. A pedra aparando o aço. As ovelhas não esperam que as contem. Quantas foram, senhor António? O sonho acordado sempre a recomeçar. O recolhimento no sonho acordado. Rasura. Rasura. Rasura.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

A Memória das Coisas -5

JARMELO – A Forja

Na oficina da minha imaginação faço aparecer o metal ou a pedra. Trabalho no instantâneo. Vi nascer as chagas no aço. Chagas nas estruturas. A luz acompanhando as contracções do metal. No carvão a louca língua de fogo, que viveu dentro da locomotiva ou do navio. Só as mãos, soltas, serenas, reuniam o engenho e o aço. Ateavam as fornalhas. Esculpiam as formas saídas da matéria, vencendo o seu vão orgulho. Só a cadência dos martelos extirpava todo o enigma. Ainda o calor rodeando as coisas e os objectos. O calor fazendo crescer neles uma vertigem independente. Uma ira primordial. O mundo começou aqui.

A Memória das Coisas -4

CHÃOS – A Matança do porco

Já lá vão os convites aos vizinhos e familiares. Recolhido e seco o mato com que se vai chamuscar o cevado, chegou o grande dia. O matador, com ar solene que manterá e o distingue dos outros, prepara a sangria. Espera um pouco, ó Jaquim. É a voz da tia Alzira, embargada em emoção, tentando escapar da visão da morte de um personagem que ganhara a intimidade da casa. Um gesto vigoroso penetra a carne, a faca roda de forma a abrir as veias do animal. O sangue brota em golfadas, salpicando o vestido da Anita, e cai numa bacia onde se deitou sal e vinagre para não coalhar. Bate-me esse sangue, rapariga... É a recomendação do tio Rola à filha, que nem à mão de Deus Padre se voltava, gelada pelo derradeiro suspiro do bicho. Logo se lhe queima o pêlo com tojo, carqueja ou palha centeia, antes da toilette com pedaços de sangue cozido. Faz-se então o “cu ao porco”, para facilitar a extracção das tripas, lava-se a carcaça com vinho e um pano húmido e preparam-se os interiores, após o que é pendurada numa trave com a ajuda do chambaril, antes da desmancha. Morte sangrenta e brutal, sem dúvida, que permite quebrar um olhar demasiado humano que liga o homem ao animal: “Queres conhecer o teu corpo, abre o teu porco”...

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

A Memória das Coisas -3

CAVADOUDE – Tremoços

Qual quê? Tremoços, pois então! Nem os fundos verdejantes do vale do Mondego, as suas vinhas, pomares, hortas, ou campos de milho e feijão. Nem os alqueives centeeiros. Nem o futuro temível que na sombra se prepara. Nada conseguiu acabar com os garimpeiros destes montes. Poetas originais, que em vez de oiro extraem com a mesma paciência infinita frutos amarelos, frutos gloriosos para entretermos o nosso ócio à beira de uma cerveja bem gelada.

A Memória das Coisas -2

BENESPERA – A Estação

Desci da carruagem. Em frente, uma sala branca com um banco de madeira ao longo de uma das paredes. À saída da estação não havia nenhuma cidade nem aldeia. O fumo da locomotiva já se perdia ao longe. Agora, havia simplesmente uma espécie de quadrado de terra batida defronte do campo e das terras em pousio. No meio desse quadrado um cavalo. Trazia uma sela de madeira. Montei nele, agarrando-me à crina abundante: Instalei-me num tempo que nunca há-de vir.

A Memória das Coisas -1

Avelãs da Ribeira - O Livro

Num canto da igreja estava o livro. Dentro, uma linha fina. Uma linha onde ainda algo cintila. Não para explicar, não para expor. Uma linha como uma criança: nos seus desenhos não copia o homem; instala-o. O traço como uma bofetada que torna inúteis as explicações. Pintura para o acaso, para que dure a aventura do incerto, do inesperado. Livro, deixa-nos ser livres, sair de ti para povoar os arvoredos lá fora. As nossas palavras nutrem-se de tempestades, extraem alimento da terra e dos homens. Deixa-nos calcorrear os caminhos com os sapatos empoeirados e sem mitologias. De língua nenhuma, a escrita – sem pertença, sem filiação. Linhas, apenas linhas.