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sábado, 4 de abril de 2009
Aqui há livros!
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Já é muito bom, mas...(2)
(ler anterior)
Ainda a propósito da abertura de uma livraria Bertrand na Guarda, até ao final deste ano, ocorrem-me algumas reflexões complementares.
1. Começando pelos antecedentes. Nos anos 80 e princípios de 90, salvo erro, funcionou durante algum tempo uma excelente livraria nesta cidade, na Rua Mestre de Avis. Implantada num espaço lindíssimo, dispunha, para além dos blockbusters, de um fundo bibliográfico notável. Estando representadas, em abundância, as chamadas editoras marginais. O projecto, único na Guarda, acabou por soçobrar. Neste momento, existem dois locais na cidade onde se poderão adquirir livros, para além do Modelo: a papelaria Guarda Conta e o prestimoso estabelecimento que, durante tanto tempo, foi ponto de referência para quem lia: a papelaria do Sr. Felisberto. E é tudo.
2. Por outro lado, será que alguma entidade residente, pública ou privada, se deu ao trabalho de elaborar um estudo estatístico acerca dos hábitos de leitura da população residente? A Câmara Municipal não tem especialistas e sociólogos em abundância? Se as sumidades andam ocupadas, porque não encomendar esse estudo a uma empresa? E a Biblioteca Municipal? Não deveria, neste ponto, assumir as suas responsabilidades, em vez de se comportar como um simples departamento onde o que não interessa é levantar ondas? Ora, ou muito me engano, ou esse estudo permitiria tirar conclusões surpreendentes: que existem, afinal, hábitos de leitura na Guarda; que existe um mercado para os livros; que só faltava arrumar as várias categorias que compõem a procura. Quando participei na organização da primeira feira do livro a sério na Guarda, em 2002, estive particularmente atento ao tipo de títulos vendidos. E anotei dados surpreendentes; a enorme procura de edições sobre plantas, medicinas naturais, portofólios, monografias, ensaio, crónicas reunidas de autores com alguma notoriedade por via dos media, etc.
3. Convém ainda esclarecer o óbvio, embora muitos se esqueçam: a Bertrand é uma empresa privada. Mesmo comercializando livros, não deixa de se comportar como qualquer entidade empresarial: responder à oferta e, de preferência, exponenciá-la, ganhando com isso. Não se espera que tome a seu cargo aquilo que pertence às atribuições típicas de determinadas instituições públicas, no âmbito educativo e autárquico. Para concluir, apetece-me dizer que a Guarda não é Hay on Wye *. Mas podia, no mínimo, aspirar sê-lo. Aceitam-se contributos.
* vila no País de Gales, conhecida por ser o maior centro de livros usados e albergar a maior concentração de alfarrabistas do planeta. É igualmente famosa pelo seu festival literário anual, que congrega autores e público provenientes das mais variadas origens.
Ainda a propósito da abertura de uma livraria Bertrand na Guarda, até ao final deste ano, ocorrem-me algumas reflexões complementares.
1. Começando pelos antecedentes. Nos anos 80 e princípios de 90, salvo erro, funcionou durante algum tempo uma excelente livraria nesta cidade, na Rua Mestre de Avis. Implantada num espaço lindíssimo, dispunha, para além dos blockbusters, de um fundo bibliográfico notável. Estando representadas, em abundância, as chamadas editoras marginais. O projecto, único na Guarda, acabou por soçobrar. Neste momento, existem dois locais na cidade onde se poderão adquirir livros, para além do Modelo: a papelaria Guarda Conta e o prestimoso estabelecimento que, durante tanto tempo, foi ponto de referência para quem lia: a papelaria do Sr. Felisberto. E é tudo.
2. Por outro lado, será que alguma entidade residente, pública ou privada, se deu ao trabalho de elaborar um estudo estatístico acerca dos hábitos de leitura da população residente? A Câmara Municipal não tem especialistas e sociólogos em abundância? Se as sumidades andam ocupadas, porque não encomendar esse estudo a uma empresa? E a Biblioteca Municipal? Não deveria, neste ponto, assumir as suas responsabilidades, em vez de se comportar como um simples departamento onde o que não interessa é levantar ondas? Ora, ou muito me engano, ou esse estudo permitiria tirar conclusões surpreendentes: que existem, afinal, hábitos de leitura na Guarda; que existe um mercado para os livros; que só faltava arrumar as várias categorias que compõem a procura. Quando participei na organização da primeira feira do livro a sério na Guarda, em 2002, estive particularmente atento ao tipo de títulos vendidos. E anotei dados surpreendentes; a enorme procura de edições sobre plantas, medicinas naturais, portofólios, monografias, ensaio, crónicas reunidas de autores com alguma notoriedade por via dos media, etc.
3. Convém ainda esclarecer o óbvio, embora muitos se esqueçam: a Bertrand é uma empresa privada. Mesmo comercializando livros, não deixa de se comportar como qualquer entidade empresarial: responder à oferta e, de preferência, exponenciá-la, ganhando com isso. Não se espera que tome a seu cargo aquilo que pertence às atribuições típicas de determinadas instituições públicas, no âmbito educativo e autárquico. Para concluir, apetece-me dizer que a Guarda não é Hay on Wye *. Mas podia, no mínimo, aspirar sê-lo. Aceitam-se contributos.
* vila no País de Gales, conhecida por ser o maior centro de livros usados e albergar a maior concentração de alfarrabistas do planeta. É igualmente famosa pelo seu festival literário anual, que congrega autores e público provenientes das mais variadas origens.
Já é muito bom, mas...
Está prevista a abertura, até afinal do ano, de uma livraria Bertrand na Guarda. O novo espaço ficará alojado no Centro Comercial Vivace, vai ter 160 m2 e disponibilizar cerca de 25 mil títulos em permanência.
Até agora, só tenho lido comentários entusiásticos sobre a notícia. Aqui e aqui, por exemplo. Embora compreenda a euforia que deles transpira, falta ainda falar do resto. E o resto é de tal forma vasto que não permite, sem mais nem menos, um alinhamento pelo coro entusiástico que tem acompanhado a boa nova. E porquê? Creio que a simples abertura da livraria não é, de todo, a panaceia universal para o acesso aos livros e para a dinamização da leitura na Guarda. É uma notícia reconfortante, mas só isso. Será pela simples acção da oferta que a procura irá aumentar? E que tipo de procura? A abertura de uma livraria na Guarda tem um impacto maior do que noutros locais, precisamente porque é a única. Mas os resultados concretos no terreno são comuns às outras. Sobretudo quando falta o principal. Ou seja: há um ano que não existe uma biblioteca pública na cidade; não se sabe ainda quando será inaugurada a futura Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço. Por outro lado, o estabelecimento será simplesmente um local de venda de livros, ou terá algo mais que faça a diferença, que crie hábitos, que fixe consumidores, que proporcione algum debate público: lançamentos, presença de autores, tertúlias literárias organizadas, etc.? Quanto à localização, não ficaria muito melhor na Rua do Comércio, um espaço nobre por excelência, onde um estabelecimento deste tipo é essencial para fixar o público, em complementaridade com outro tipo de comércio, tradicional, por exemplo? Será que se podem responsabilizar os cidadãos da Guarda, como já vi, pela não existência de um espaço livreiro em exclusivo? Obviamente que não. Aqui, as responsabilidades pela omissão vão todas para a autarquia, que pouco tem feito para convencer um grupo privado a que aqui instale uma livraria, pois a interioridade e a desertificação assustam os investidores do sector mais distraídos.
O que vai trazer de novo a Bertrand? Muito pouco. Graças às razões expostas. Mas também porque, quanto à variedade, pelo que tenho visto no estabelecimento congénere do Serra Shopping, na Covilhã, os títulos disponíveis de imediato são pouco mais do que os de um escaparate de uma grande superfície. Os preços proibitivos dos livros também não ajudam. Pelo que a alternativa das encomendas via internet continua a ser muito apetecível: pela imensa variedade, pela facilidade, pelo preço. Se uma livraria se quiser afirmar na Guarda tem que ser muito mais do que um armazém de livros. Mesmo pertencendo ao sector privado. Seria interessante estabelecer uma comparação entre os índices de leitura antes e depois da abertura da livraria. Eu não estaria muito optimista. (continuação)
Até agora, só tenho lido comentários entusiásticos sobre a notícia. Aqui e aqui, por exemplo. Embora compreenda a euforia que deles transpira, falta ainda falar do resto. E o resto é de tal forma vasto que não permite, sem mais nem menos, um alinhamento pelo coro entusiástico que tem acompanhado a boa nova. E porquê? Creio que a simples abertura da livraria não é, de todo, a panaceia universal para o acesso aos livros e para a dinamização da leitura na Guarda. É uma notícia reconfortante, mas só isso. Será pela simples acção da oferta que a procura irá aumentar? E que tipo de procura? A abertura de uma livraria na Guarda tem um impacto maior do que noutros locais, precisamente porque é a única. Mas os resultados concretos no terreno são comuns às outras. Sobretudo quando falta o principal. Ou seja: há um ano que não existe uma biblioteca pública na cidade; não se sabe ainda quando será inaugurada a futura Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço. Por outro lado, o estabelecimento será simplesmente um local de venda de livros, ou terá algo mais que faça a diferença, que crie hábitos, que fixe consumidores, que proporcione algum debate público: lançamentos, presença de autores, tertúlias literárias organizadas, etc.? Quanto à localização, não ficaria muito melhor na Rua do Comércio, um espaço nobre por excelência, onde um estabelecimento deste tipo é essencial para fixar o público, em complementaridade com outro tipo de comércio, tradicional, por exemplo? Será que se podem responsabilizar os cidadãos da Guarda, como já vi, pela não existência de um espaço livreiro em exclusivo? Obviamente que não. Aqui, as responsabilidades pela omissão vão todas para a autarquia, que pouco tem feito para convencer um grupo privado a que aqui instale uma livraria, pois a interioridade e a desertificação assustam os investidores do sector mais distraídos.
O que vai trazer de novo a Bertrand? Muito pouco. Graças às razões expostas. Mas também porque, quanto à variedade, pelo que tenho visto no estabelecimento congénere do Serra Shopping, na Covilhã, os títulos disponíveis de imediato são pouco mais do que os de um escaparate de uma grande superfície. Os preços proibitivos dos livros também não ajudam. Pelo que a alternativa das encomendas via internet continua a ser muito apetecível: pela imensa variedade, pela facilidade, pelo preço. Se uma livraria se quiser afirmar na Guarda tem que ser muito mais do que um armazém de livros. Mesmo pertencendo ao sector privado. Seria interessante estabelecer uma comparação entre os índices de leitura antes e depois da abertura da livraria. Eu não estaria muito optimista. (continuação)
sábado, 12 de maio de 2007
Ainda mais detalhes
Parto. Adentro-me em território estranho, a escrita do outro. Meu desígnio é perder-me, ser assaltado, despojado da língua, a materna. Não abdico de um pouco de broa da memória, mas preferirei colher as amoras que os atalhos da leitura me oferecerem. Seguirei o rasto dos seres rebeldes e ariscos, que se escondem furtivamente à passagem das caravanas oficiais. Procurarei abrigar-me à sombra da vida clandestina do texto. Espero a metamorfose do convívio com os salteadores, os raros e os mendigos . Minha glória será não me reconhecerem à chegada.
Assim meditou. Depois, debruçou-se sobre o livro, e leu.
Assim meditou. Depois, debruçou-se sobre o livro, e leu.
Mais detalhes
As tripas do livro, cá fora. As navalhas do olhar estiveram lá dentro, a vasculhar. Sangue e excrementos, escorrendo. Antes, o corpo na sombra. O corpo de leitura. O corpo umbral. Agora, o corpo friável. O corpo abaixo da superfície, revolvido. O corpo de superfície revolvida. O corpo atravessado pela insensibilidade da lâmina, sentido noutro corpo. Esse, o corpo da leitura.
Aquele ali, o corpo corpo, ou este aqui, o corpo que lê, são o corpo opaco. Manchas no sol. Corpos ilegíveis. Solitários. E, contudo, o livro é um espaço sacrificial. Aí se rasgam os corpos, aí comungam, aí se comem uns aos outros, permutando memórias, mortes e vitalidade. Aí se suturam os corpos com partes de outros corpos.
Aquele ali, o corpo corpo, ou este aqui, o corpo que lê, são o corpo opaco. Manchas no sol. Corpos ilegíveis. Solitários. E, contudo, o livro é um espaço sacrificial. Aí se rasgam os corpos, aí comungam, aí se comem uns aos outros, permutando memórias, mortes e vitalidade. Aí se suturam os corpos com partes de outros corpos.
Detalhes

Os livros são países, confidencia o leitor errante. Descobertos, não conquistados; percorrendo atalhos, não vias cartografadas; por vagamundos, não por plenimundos. Escrever é uma anabase, uma viagem em direcção ao interior de um país que nasce no risco do esquecimento. Ler é seguir o rasto de quem escreve - mas quem lê, inevitavelmente, perde-se, transvia-se, desvia-se da linha traçada, treslê, despista-se nas curvas da letra, escreve outro percurso, lê outro país. Continua o leitor errante: conheci um explorador genuíno (mas nada conquistou e nada tinha que fosse seu); sobre a leitura disse:
Os livros são chatos de ler. Não há neles livre circulação. Somos convidados a seguir. O caminho está traçado, único. Muito diferente é o quadro, total. À esquerda, também à direita, em profundidade, sem peias. Nele não há trajecto, há mil trajectos, e as pausas não são indicadas. Mal a gente o deseje, de novo o quadro todo, por inteiro. Num instante está ali tudo. Tudo, mas nada ainda é conhecido. É aqui que se deve começar a ler.
O livro é, não obstante as limitações da memória, como um quadro: no momento em que se acaba a leitura, tem paisagens, vales, dobras sombrias, cor, corografia. Dos seus picos (cobertos com a neve dos sublinhados) os pobres espremem citações, os sábios erigem torres académicas e os vagabundos visionam panoramas de intensidade, medo e fascínio. Há também um ambiente, nos livros, uma luz do lugar, um sopro, às vezes um odor, único, que atravessa o país desvelado pela primeira leitura. No fim do livro é que começo a ler. Na revisita é que apreendo esse espírito que une leitor e escritor na mesma aflição, a aflição que impele à escrita e à leitura, conclui o leitor errante.
Os livros são chatos de ler. Não há neles livre circulação. Somos convidados a seguir. O caminho está traçado, único. Muito diferente é o quadro, total. À esquerda, também à direita, em profundidade, sem peias. Nele não há trajecto, há mil trajectos, e as pausas não são indicadas. Mal a gente o deseje, de novo o quadro todo, por inteiro. Num instante está ali tudo. Tudo, mas nada ainda é conhecido. É aqui que se deve começar a ler.
O livro é, não obstante as limitações da memória, como um quadro: no momento em que se acaba a leitura, tem paisagens, vales, dobras sombrias, cor, corografia. Dos seus picos (cobertos com a neve dos sublinhados) os pobres espremem citações, os sábios erigem torres académicas e os vagabundos visionam panoramas de intensidade, medo e fascínio. Há também um ambiente, nos livros, uma luz do lugar, um sopro, às vezes um odor, único, que atravessa o país desvelado pela primeira leitura. No fim do livro é que começo a ler. Na revisita é que apreendo esse espírito que une leitor e escritor na mesma aflição, a aflição que impele à escrita e à leitura, conclui o leitor errante.
quarta-feira, 11 de outubro de 2006
A importância da Leitura
a propósito da Comunidade de Leitores do Teatro Municipal da Guarda
As Comunidades de Leitores, com esse nome ou com outro, mas com fins idênticos, têm-se multiplicado em Portugal de há uns anos para cá. Inicialmente, constituíram-se em livrarias – na Barata, na Ler Devagar, na Almedina (a do Atrium Saldanha tornou-se referência), p.ex. – depois em Associações e Sociedades Literárias, sobretudo em Lisboa e Porto. Posteriormente o modelo tem vindo a ser adoptado por instituições culturais como a Culturgest (outra referência incontornável), bibliotecas públicas e escolas. Há também comunidades de leitores orientadas para domínios específicos, de que é exemplo a relativa a textos filosóficos, na Universidade do Minho.
Conforme se pode ler na apresentação da comunidade organizada na livraria Almedina, a razão fundamental para a existência destes eventos pode resumir-se ao seguinte: Porque ler é uma forma de resistência...Porque ler é uma forma de partilha...Porque cada leitor tem direito à comunhão com outros leitores e com os autores... Acrescentaria que essa partilha aberta é necessariamente igualitária na forma e desigual no conteúdo. Onde o objectivo não é assegurar uma mera troca de preferências literárias, ou de subjectividades, mas a criação de uma imperceptível narrativa, partindo daí. Não obstante, ainda que o cenário sejam as preferências dos leitores, o motivo é uma leitura transfigurada, filtrada pela paleta de um impressionista e revelada como uma epifania. Não se trata de uma descrição narcísica, mas de uma inscrição onde a linguagem é um pano cheio de buracos. Uma comunidade de leitores pode ser a prova de que não se lê unicamente "para", mas também "por causa", como um corsário sem bandeira, numa bárbara demonstração de um apetite de abordagem ou do abandono de uma condição demasiado humana, que não revela "boas pessoas", mas pessoas que querem pensar noutro lugar, na língua crepuscular de Sherazade. Neste ponto, seria interessante encarar uma comunidade de leitores como um retorno a um tempo onde a leitura era efectuada em voz alta – até ao séc. XVIII – adivinhando-se a sua fruição colectiva, sem perder a sua qualidade intrinsecamente íntima, bem como a presença regular dos autores.
Tenho participado regularmente na Comunidade de Leitores organizada pelo TMG desde praticamente o seu início. Uma iniciativa estimulante e inspiradora, assim creio, para quem nela participou. No entanto, à semelhança do que acontece noutras realizações similares, seria interessante convidar um autor para algumas das sessões, bem como suscitar a discussão colectiva de uma obra previamente determinada na sessão anterior.
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