Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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sábado, 6 de junho de 2009

Pó e botas velhas

Chang Kwai Caine deu-me a ideia, quando era mais novo, que, na violência da vida, há formas não violentas de resolver uma existência cheia de angústias. Mas a não-violência não é um impulso, uma coisa fácil, ou um entusiasmo. Implica esforço, renúncia, muita ajuda de fora de nós e de fora do nosso Pensamento. Assim, lembro-me de duas cenas do filme «Kung Fu», com o qual a personalidade de David Carradine se confundiu: uma em que ensina os pacifistas Mormon, que renunciaram a pegar em qualquer tipo de armas, a tirarem as armas aos agressores e outra em que, sentindo um desejo de carinho e companhia de uma mulher casada e sozinha, esse homem solitário e perseguido que Carradine representava, passando uma noite de insónia num estábulo, renuncia humildemente e conforma-se com o seu longo caminho de peregrino, despedindo-se na manhã seguinte, dessa mulher, com um gesto de paz, em que ambos sabem que têm de renunciar, deixando, ainda assim, mais um gesto de paz entre dois seres que são a Humanidade inteira. E lembro-me neste mundo do espectáculo e da expressão, em que nos esquecemos tantas vezes que as palavras se movem e ondulam como o nosso corpo, do sorriso sempre bonito de Cat Stevens, agora no rosto do velho Yussuf Islam, algures num disco que editou e onde repete muitas vezes «dust and boots, boots and dust».
E quando ouço alguém arriscar tanto numa Universidade do Cairo, vejo os limites das palavras. Todos as vêem mas, entre elas, como umas pedras do chão, algumas hão-de servir para construir uma barreirita contra o vento, ou para fazer um fogo na noite fria e não apenas para atirar à cabeça duma pobre somali, que, uma vez tendo sido violada por homens armados quando ia visitar a mãe, se queixou à polícia e foi acusada de adultério. E hão-de servir, para perceber que não somos todos iguais e que o nosso tempo nesta terra é como o trajecto de uma avião que não teve sorte, e que nem todos gostam de andar nus e talvez se sintam melhor com um lenço na cabeça que escolheram de uma longa tradição em que confiaram. É que a liberdade não me pode ser imposta, como uma não-violência violenta, que cada um tem o seu tempo e o seu caminho e que, como posso ser livre, se não confio naquilo que escolho e faço meu? E sei também que os que tentam conciliar interpretações de Deus tão diferentes, dum mesmo Deus que serve de desculpa para tantos entusiasmos violentos, se arrisca, com o seu bom coração, a tê-lo atravessado por uma bala, sem que nada tivesse mudado entretanto e o amor egoísta da multidão o esqueça depressa, trocando-o por um outro amor qualquer, em permanente excitação. Pelo que, depressa aquele que esteve no topo, entre palmas e foguetes, uma noite escura ficará sozinho e pedirá a Deus «Pai, afasta de mim este cálice… Mas se é essa a Tua vontade…». E, então, o avião Airbus, apesar da sua perfeição técnica, não se conseguirá mais levantar. Na noite escura, tão escura «qui nem é bom fálá», o meu coração duvida de Deus e o meu coração junta-se àqueles que, não crendo em Deus, são tocados pela loucura e pelo desespero, sendo guiados por um grito mudo ao Céu. Algures numa paisagem cheia de poeira onde «Kung fu» Caine volta a partir sozinho e perplexo, olho as minhas botas caminhando pelo pó. Yussuf Islam, Cat Stevens…reza por mim esta noite.

André

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O dia 0


Gostei de ouvir o discurso de Obama, na sua tomada de posse. É curioso que, em relação ao seu projecto político, passei das muitas reticências para um entusiasmo moderado. O que me agradou no seu discurso foi a densidade, a divisão clara entre o que é ou não negociável, a visão clara das responsabilidades da América no xadrez mundial, o enfoque na crise financeira, a firmeza em relação aos inimigos da liberdade, a retoma dos princípios que fundaram o sistema político americano, mas pondo-os ao serviço da visão estratégica do novo presidente. Que soube hoje ser o intérprete, o visionário, o construtor e o garante do accountability do seu mandato.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O binómio

O ambiente é de euforia. Obama será o 44º presidente dos EUA. O manto da unanimidade paira sobre a Terra. Todos descobriram uma razão para festejar a vitória. A maioria porque se trata do primeiro "não branco" a tornar-se o homem mais poderoso do mundo. Claro que o puro acontecimento histórico, jornalistico, cultural, é de peso. Obama será certamente o "Homem do ano" eleito pela "Time". E com toda a justiça, acrescente-se. Pela minha parte, sempre acharei que Hillary teria sido melhor presidente. E não será, muito menos agora, que mudarei de opinião. Mas voltando ao cerne do entusiasmo e do aplauso que acompanhou a eleição, pouco me interessa a cor da pele de Obama. Aliás, isso é precisamente o que menos me interessa. Se for mais sensato, audaz e esclarecido do que o seu antecessor, o que não será difícil, terá o meu aplauso. Todavia, tenho uma profunda desconfiança em relação ao movimento messiânico que a sua campanha criou. Que nada tem a ver com a onda dos Kennedy, que varreu a America nos anos 60. Neste caso, imperava a sede de liberdade, de respeito pelos direitos civis, de políticas sociais consistentes, de um hedonismo inocente e transversal. No caso de Obama, a matriz é religiosa, tribal, criada por um ídolo televisivo que promete esperança e manda esperar. Este binómio espera-esperança é a linguagem algorítmica de todas as religiões. Menos do budismo, claro. Nessa linguagem binária, em vez de 0.1.00. 1.11.0, temos esperança esperança. espera. espera. esperança. espera espera. A receita tem alcançado um imenso êxito ao longo da história, com alguns resultados que se conhecem: guerras, fanatismo, anulação do outro, subalternização da mulher, etc. Claro que também há a sede de justiça, uma espiritualidade profícua, mas essa foi sempre reservada para a nata pitagórica. Acontece que sou um pessimista moderado. Entre outras coisas, acredito que a natureza humana é basicamente determinada pelo poder e pelos genes. E que andamos todos a lutar contra todos, à maneira hobbesiana. Mas essa é a parte bestial. O mais importante, isto é, a dimensão exclusivamente humana, vem depois. A arte e a compaixão são os modos mais óbvios de a abraçar e reinventar, fugindo a um sinistro determinismo. Mas que dispensa, naturalmente, a intervenção de ídolos.

sábado, 25 de outubro de 2008

O grande equívoco

O mundo vai ficar muito mais incerto e perigoso se este homem for eleito como próximo presidente dos EUA. Sem qualquer experiência governativa, com um discurso vago, mas exaltante, este homem irá certamente ignorar a Europa. Um tele evangelista com a tenda montada tem conseguido ludibriar parte da América e quase toda a Europa bem pensante. Um escândalo. Eu bem sei que as pessoas precisam de ídolos. Mas que diabo, podiam fingir um bocado, ou começar a ler Arno Gruen. Os sinais de favoritismo já começaram: ao que parece, se Obama for eleito, ao que tudo indica, pretende nomear como embaixadora em Londres Oprah Winfrey, sua apoiante da primeira hora e uma espécie de Teresa Guilherme americana. Futuro? Esperança? Depois não digam que não avisei.

PS: à medida que a campanha avança, os alinhamentos dos opinion makers da casa nesta eleição vão confirmando a minha aversão em relação a Obama. Agora foi a vez de Júdice, - esse tarefeiro multiusos do regime, exemplo de coerência e honestidade intelectual, para quem Portugal "é um país de merdosos" (sic) - vir tecer loas ao candidato democrata. Há momentos em que as escolhas se tornam escandalosamente simples: se Júdice gosta, então eu não gosto. Ponto.

domingo, 25 de maio de 2008

Lido

Barak Obama parece finalmente às portas da nomeação. Mas o homem que está a chegar à meta não é o mesmo que vimos à partida. Devia ter ganho com entusiasmo – e vai ganhar matematicamente. Não devia haver a mínima dúvida acerca da sua vitória sobre um advogado da guerra no Iraque – e há. Nada o impede de ascender muito alto. Mas já percebemos que quanto mais subir, mais pequeno há-de parecer.

Rui Ramos, artigo do Público de 14 de Maio

Ler na íntegra no blogue Atlântico