Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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terça-feira, 4 de setembro de 2007

Ainda a propósito da "Festa"

1º Como bem lembrou um leitor, falta ainda referir um dos convivas de luxo na festa dos comunistas, este fim de semana: o Partido Comunista da Federação Russa. Pela mão do sinistro Zyuganov, já conseguiu não só reabilitar Estaline como aliar-se estrategicamente à extrema-direita e ao nacionalismo mais retrógrado (a Rússia como a nova Atlântida Vermelha, etc.). Fazendo pois um grande jeito a Putin, que assim aparece como "moderado". Toda a história contada aqui e lembrada aqui e aqui.

2º O Marxismo faliu em toda a linha como programa de acção. Nem mesmo os "comunistas" ainda falam em seu nome. Bem pelo contrário. Marx sobreviverá na galeria dos pensadores como o melhor intérprete das consequências da revolução industrial no séc. XIX. Em contrapartida, temos o maior dos seus contraditores, embora não declarado: Max Stirner. Marx dedicou-lhe postumamente a única obra intuitu personae que escreveu - "São Max" - um volume enorme onde refutava as suas teses. Stirner foi homem de um só livro: "O Único e a sua propriedade". A obra maldita do pensamento filosófico contemporâneo, que aqui e aqui tive ocasião de analisar. Marx perdeu. Stirner teve razão antes de tempo. É que não é a luta de classes que faz mover a história, mas o(s) indivíduo(s).

quinta-feira, 7 de junho de 2007

O limite

Penso que é sempre necessário colocar em algum lugar um poder social superior a todos os outros, mas acredito que a liberdade corre perigo quando esse poder não encontra diante de si nenhum obstáculo que possa conter a sua marcha e dar-lhe tempo de se moderar a si mesmo. A omnipotência parece-me em si uma coisa ruim e perigosa.
(...) Todas as vezes que um poder qualquer for capaz de fazer todo um povo contribuir para um único empreendimento, com pouca ciência e muito tempo conseguirá extrair do concurso de tão grandes esforços algo de imenso, sem que com isso seja necessário concluir que o povo é muito feliz, muito esclarecido ou mesmo muito forte.

Alexis de Tocqueville, in 'A Democracia na América'

quinta-feira, 13 de julho de 2006

Único - 2


A minha causa é a causa de nada”, é a expressão com que Stirner anuncia o seu programa, para depois acrescentar “Há tanta coisa a querer ser a minha causa! A começar pela boa causa, depois a causa de Deus, a causa da humanidade, da verdade, da liberdade, do humanitarismo, da justiça, do meu povo, da minha pátria, a causa do espírito e milhares de outras. A única coisa que não está prevista é que a minha causa seja a causa de mim mesmo!” Significará este auto-declarado egoísmo um bluff para espantar os incautos, um solipsismo ingénuo? Não, é a afirmação da soberania absoluta da singularidade de cada indivíduo, do único, contra todas as formas de dominação, incluindo a Revolução, o “Homem”, o sagrado, a consciência e o Direito. A começar pela fascinação, pela obsessão que os indivíduos sentem pelos espectros, as formas mais insidiosas de revelação do tal espírito. Que a dialéctica hegeliana desembocou numa servidão ainda mais tirânica: o materialismo histórico e a sociedade perfeita no seu termo, segundo Marx.
Quando o livro saiu, em 1844, foi como uma bomba de efeito retardado. Os censores bem hesitaram em conceder o imprimatur, por fim autorizado porque “demasiado absurdo para ser perigoso”. Logo após a sua publicação, Marx encarou Stirner como um alvo a abater, tendo escrito uma crítica demolidora, por sinal mais extensa do que o livro, e que permaneceu inédita até à sua morte: São Max.
O “estranho individualismo” de Stirner foi abundantemente citado e absorvido por gerações de estudiosos e artistas, mas raramente entendido na sua profética genialidade e quase sempre recalcado como um passageiro clandestino do pensamento. É que o tempo dele ainda mal começou.

Único - 1

Em Março de 2004, a editora Antígona publicou O Único e a sua Propriedade, de MAX STIRNER, Trata-se da sua primeira edição nacional, com tradução de João Barrento e posfácio de Bragança de Miranda, justamente intitulado” Stirner, o passageiro clandestino da história”. Aí pode ler-se que "nem é tanto Stirner que é um autor maldito; o seu livro é que foi amaldiçoado, uma e outra vez, ao longo dos anos, e das modas. (...) Trata-se de um livro extremo; mal se abre e se começa a ler, uma voz argumenta, seduz, insulta, combate e provoca"...
Em 1841, Stirner havia aderido ao Die Freien (os livres) um grupo de jovens hegelianos de esquerda, que tinha como figuras de proa Ludwig Feuerbach e Bruno Bauer A ideia base que os unia era a crença de que a dialéctica implicava que a História percorreu duas épocas absolutamente distintas: o materialismo intuitivo dos antigos (o mundo das coisas) e o mundo do espírito, próprio do cristianismo, cabendo encontrar uma nova síntese.
Feuerbach afirmou que a reverência que temos por Deus é antes pelo género humano, isto é, “a essência do homem é o ser supremo do homem”, ao que Stirner responde que o é, “precisamente por ser a sua essência, e não ele próprio”, sendo indiferente “ver a essência em mim ou fora de mim”. Para Stirner, o cristianismo situou sempre o ser supremo num duplo além, o interior e o exterior, sendo que o “espírito de Deus” é, ao mesmo tempo, “o nosso espírito” e “mora em nós”. Então “nós, coitados, somos apenas a sua “morada” e quando Feuerbach destrói a morada divina do espírito e o obriga a mudar-se de armas e bagagens cá para baixo, nós, a sua morada terrena, vamos ficar muito superlotados”. Para depois concluir que, afinal, “Os nossos ateus são pessoas devotas”.

sábado, 20 de maio de 2006

As sombras

Sócrates - Imagina ainda o seguinte: se um homem nessas condições (depois de encarar a luz) descesse de novo para o seu antigo posto (a caverna), não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
Gláucon - Com certeza
Sócrates - E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, (...) acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
Gláucon - Matariam, sem dúvida.
Platão, A República, Livro VII

O autor de Fédon parece dizer-nos, neste excerto da célebre alegoria da caverna, que o seu momento mais importante surge, não com a saída, mas com o regresso às sombras. Ora, se o mundo real torna possível a dianoia e a noesis, não é menos verdade que, a haver um sentido útil para a passagem de um mundo a outro, será o de dar depois a conhecer aos que vivem nas sombras o que está para além delas. Uma missão quase obrigatória, mas sem dúvida cheia de perigos e desilusões, como é aqui advertido.
Cuidado pois, muito cuidado quando se decide sair da caverna! Não é que me tenha tornado um pessimista, à maneira de Hobbes, mas pressinto que muito poucos quereriam a luz, sabendo o que isso implicaria, e quase ninguém regressaria para a diletante missão de divulgar a boa nova, sabendo o que encontraria de volta.