Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O mobbing dos remediados - 3

Escrever um artigo, depois de algum labor investigador, deixando de lado as feromonas e insistindo num certo depuramento opinativo. Ter tudo pronto, corrigido e revisto. Porém, no último momento, carregar na tecla errada. E eis o desastre a acontecer, numa fracção de segundo. Ou seja, ocorreu o pior pesadelo, o écran branco, sem remissão. Aconteceu-me outro dia, após ter escrito uma crítica ao último documentário de Jorge Pelicano, "Pare, escute e olhe", sobre o qual tenho muitas reservas, para editar aqui no blogue. Um dia destes reconstituí-lo-ei, pois a memória não perdoa.
A propósito, recentemente escrevi um comentário noutro blogue, a propósito do mesmo filme, onde expus as minhas razões. Logo a seguir, veio o comentário de um anónimo, destes que pululam nas caixas de comentários como se chafurdassem no seu elemento natural, o curral. O patusco disse que eu era "fassista", saudoso de uma primavera que não percebi bem qual e imputando-me uma linhagem nobilitante que, para minha estupefacção, me foi até hoje sonegada. E que incluía Telles, com dois lês, entre outros. O desespero de não ter um único argumento, ou sequer uma ideia, foi assim compensado com a "valentia" de um ataque sem rosto. Quem o faz, sabe melhor do que ninguém porque se esconde. Nada de novo, é claro. Já disse aqui e aqui, o que penso sobre esta fauna suína das caixas de comentários. O que significa que não me vou sequer repetir. Mas neste caso quis ir mais longe. Analisei detalhadamente as características morfológicas e ortográficas da escrita, bem como os pontos de fervura mais recorrentes, os enlaces ideológicos, as idiossincrasias, os lapsos, de dois ou três comentadores habitués desse blogue. Sobraram dois. Um é um ilustre comediógrafo e cronista com ligações à Guarda, notabilizado pela irracionalidade e pelo ressentimento. A obesidade correspondente da eminência decerto esconde a dimensão liliputiana do seu talento, mais em baixo. Sobretudo do próprio. O outro é um obscuro ambientalista, de que me ocuparei noutro post, dedicado aos insectos voadores. Há ainda a forte possibilidade de o comentário resultar de um personagem multi identitário, um fenómeno conhecido da blogosfera. Seja como for, neste episódio os meus objectivos foram plenamente conseguidos. Ao torpedear o unanimismo e o pensamento único, realidades que imperam em certos meios, na Guarda e fora dela, veio imediatamente o troco. A virulência da reacção, só suplantada pela sua indigência, demonstrou que toquei na ferida.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Foi há 20 anos...

Cartier-Bresson, "O Muro de Berlim", 1963

As efemérides, embora sejam associadas à evocação cerimonial de um acontecimento passado, também designam tábuas astronómicas que indicam, dia a dia, a posição dos planetas no zodíaco. Confuso? Não. Há casos onde aquilo que não se pode mudar co-habita na mesma palavra com o que muda permanentemente. Como aqui. Onde uma palavra raramente tenha um sentido tão abrangente como quando se aplica aos acontecimentos que levaram à queda do Muro de Berlim. Nessa noite de 8 para 9 de Dezembro de 1989, encontrava-me em Estrasburgo. De visita ao Parlamento Europeu, na qualidade de dirigente estudantil. Soube o que se estava a passar através da TV. Percebi imediatamente que o "socialismo real" tinha perdido a guerra e que a Europa voltaria a ser uma unidade política. Acabei agora de assistir a um excelente documentário na RTP 2 sobre a história do Muro. Duas imagens a reter: 1º o efeito em cadeia da visita de Gorbatchev à RDA, convidado de honra do 40º aniversário da fundação do país. Porém, na tribuna era aplaudido por dezenas de milhar de manifestantes, que desfilavam e gritavam por Gorbi, ignorando os dirigentes comunistas alemães. 2º o discurso de Honnecker, nessas cerimónias oficiais, num edifício rodeado por uma maré humana que clamava por liberdade, mas onde aquele afirmava convictamente que "o socialismo na pátria de Marx e Engels estava assente em bases indestrutíveis"... Ocorreu-me também que, daqui a dez anos, o então secretário geral do PCP prestar-se-á de bom grado ao mesmo papel, no seu bunker, rodeado por meia dúzia de indefectíveis...

Publicado no jornal "O Interior"

Nota: Ler aqui outras memórias do Muro, de João Tunes.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O nó

Aplaudo sem restrições o veto presidencial ao projecto-lei de regulamentação das uniões de facto, aprovada recentemente pela maioria parlamentar. Se há matéria sobre a qual sou sensível é a da invasão da esfera das liberdades pessoais por uma esquerda festiva e que utiliza a sua ideia de igualdade como um rolo compressor. Neste caso, um PS em fim de mandato, acolitado pelos comunistas e pelas hordas fracturantes bloquistas, não hesitou em tentar fazer passar pela porta do cavalo algo que a sociedade nunca reclamou, nem o seu programa eleitoral mencionou. Esta medida tem duas leituras óbvias. A imediata, diz-nos que o timing para uma eventual reaprovação parlamentar da lei irá recair na próxima sessão legislativa. Com a decorrente incerteza da próxima composição parlamentar. O PS quer assim demonstrar trabalho perante a esquerda "histórica" e marcar pontos nas eleições que se avizinham. Por sua vez, uma leitura não imediata revela-nos a profunda insensatez deste tipo de medidas. Repare-se no seguinte: a recente lei do divórcio veio instituir, na prática, uma espécie de permissão para o "divórcio na hora", desprotegendo, nos seus efeitos, a parte tendencialmente mais fraca. Isto é, conseguiu relativizar os deveres e exponenciar ficticiamente os direitos. Com a recente proposta, vem-se atribuir efeitos jurídicos a uma situação de comunhão de vida, onde as partes não quiseram precisamente que eles existissem! Porque se realmente os quisessem tinham optado pelo casamento! Ou seja, o Estado, munido do característico jus imperii, vem meter no mesmo saco situações inconfundíveis, determinadas exclusivamente pela esfera de liberdade pessoal dos envolvidos. Criando assim uma espécie de casamento atípico, onde são atribuídos direitos a quem nunca os pediu e negados os deveres que os justificam. A esquerda jacobina deve estar orgulhosa desta "obra" proselitista! De uma estupidez inaudita. Até porque as situações injustas criadas por via das uniões de facto, do ponto de vista securitário, da transmissão do arrendamento e sucessório, já estavam devidamente salvaguardadas no ordenamento jurídico em vigor. É quanto basta. Tudo o mais é uma intromissão intolerável na privacidade dos cidadãos. Por outro lado, há quem defenda que o projecto agora vetado vem trazer alguma protecção aos casais homossexuais. Mas se assim é, então mais valia que a maioria parlamentar assumisse, corajosa e frontalmente, o casamento entre nubentes do mesmo sexo! Porém, essa medida é pouco "aconselhável", em termos de contabilidade eleitoral. Ora bem... Mais interessante foi ver a reacção de alguns parlamentares ao veto presidencial: "arcaico", "ultra-conservador", "reaccionário", que "quer manter a injustiça", etc. Sem um único argumento razoável em defesa do projecto. Só faltou o providencial grito de guerra da "esquerda unida, sa": "seu façista!". Em resumo, didáctico, mas de uma tristeza aterradora.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Via Láctea

Não podia estar mais de acordo com o André, quando conclui que "o assunto mais importante de um Estado não é a Liberdade. É a Vida e a Morte." Nem vale a pena repetir as razões. No entanto, presumo que fala de um Estado de direito democrático, pois para os outros a liberdade nem sequer é assunto. Em rigor, mesmo para aqueles, a liberdade também não é um tema ou uma área de governação, mas a base fundadora, a razão de ser do contrato que os erigiu. Mesmo assim, a Liberdade é aqui encarada enquanto garantia, enquanto pressuposto intangível. Todavia, a sua plenitude exige que, mais do que um conceito formal, seja encarada como um desafio absoluto, intrínseco à própria existência. Ou seja, em princípio, os cidadãos que integram um estado democrático são livres. Mas quantos são libertos? Quantos renegaram a quinquilharia trendy, a vaidade, a avidez, o culto da imagem, o compromisso, a ânsia de poder? Quantos perceberam que a liberdade não serve só para que não nos atrapalhem a vidinha, mas para sermos outra coisa que nos ultrapassa e acolhe sem perguntas? Muito poucos, caros amigos. Até hoje, orgulho-me de ter conhecido alguns: desde alguns vagabundos que havia na Guarda, a alguns clochard que conheci em Lisboa, passando por um alemão desgrenhado, que vi ao longe, numa praia do litoral alentejano, acompanhado de um cavalo e um cão. E com quem conversei por improvisar um jantar, em cima da areia, enquanto o cavalo se escarregou de deglutir, à sucapa, umas peras que tinha acabado de comprar. Circulava de terra em terra, trabalhando nisto e naquilo. No dia seguinte ia ajudar a carregar umas caixas de pescado no próximo porto. Não tinha medo de nada (cumprindo, sem o saber, o anseio de Étienne la Boétie, no "Discurso da Servidão Voluntária: "n'ayez pas peur"). A não ser, talvez, de perder as noites estreladas.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Tiananmen - 20 anos


Ainda hoje não se sabe a dimensão do massacre nem o número de vítimas às mãos do Exército "do Povo". Os números divergem consoante as fontes. Isto apesar dos apelos da comunidade internacional e da oposição interna. O que não conseguiram foi apagar uma brisa de liberdade na China, tão efémera quanto trágica. A propósito, recomendo a leitura desta evocação de João Tunes.Justificar completamente

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Projecto Citius, dia 100

Hoje de manhã, mal entrei no Tribunal de Viseu, com a pressa habitual, percebi que alguém me chamava. Mais um problema de configuração da assinatura digital para resolver, ou coisa parecida, pensei imediatamente. Mas não, não era. Mal olhei para trás, percebi quem me tinha interpelado. Tratava-se da A., uma colega dos tempos da Tertúlia Académica, na FDL, em cujos primórdios participou activamente. O encontro foi breve. Mas enquanto durou percebi que algumas das palavras-chave que na altura tomámos como nossas não foram em vão. No final, cada um foi à sua vida. Eu para a sala de informática. Ela como testemunha num caso de contrafacção. Por momentos, percebi que somos a soma dos sonhos irrealizados e dos que singraram. Numa proporção assustadoramente desigual, mas mesmo assim compensadora. A Tertúlia pertence, claro está, aos últimos. E, partindo da insurreição, chamemos-lhe distópica, que permaneceu a sua marca genética, nenhum dos que lá nasceram faltou a este encontro.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

O prémio

O Generación Y , da cubana Yoani Sánchez, que já atrás referi, consolidou a sua posição de verdadeiro ícone da blogosfera. Se já antes era citado e reconhecido como um modelo a seguir, agora viu serem-lhe atribuídos dois galardões, de uma assentada: os prémios BOBS (Best of Blogs) (Alemanha) e Ortega y Gasset de jornalismo digital (Espanha). Mas a lista não acaba: Yoani foi incluída no rol das 100 pessoas mais influentes do mundo em 2008, segundo a revista "Time". Ao receber o segundo prémio, Yoani escreveu no seu "balsa-blogue" um belíssimo texto de agradecimento, aqui em versão integral e que não resisto a transcrever um pedaço:
"Não faltaram os que me chamaram à paz do silencio, à tranquila mansidão da apatia. Alertaram-me sobre esta teia legal e policial que maneja conceitos como “propaganda inimiga”, “quintacolunismo”, “assalariados do Império” ou - nos casos mais leves - mero “diversionismo ideológico”. Recomendaram-me que fugisse, indicaram-me a emigração como o caminho mais curto para a catarse; todavia, ao invés de comprar um motor de chevrolet para cruzar o estreito da Flórida, tornei-me uma balseira virtual. Escapei, porém não de meu país, senão do medo, da paranóia e do conformismo."

quarta-feira, 19 de março de 2008

Até quando?

Concentração e Vigília, frente à Embaixada da República Popular da China, 4ª feira, 19 de Março, a partir das 18.30 (R. de São Caetano à Lapa)

Está on-line uma Petição para que a Assembleia da República aprove, de acordo com os princípios fundamentais consagrados na Constituição, uma moção de censura à sistemática violação dos Direitos Humanos e das Liberdades Política e Religiosa no Tibete, por parte do Governo Chinês. A petição já recolheu, numa semana, 5800 subscrições, tendo excedido as 4000 que a lei exige para a discussão ser agendada na A.R.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Lembrete

"Nunca se pode ser tão livre quanto se deseja, quanto se quer, quanto se teme"

Marguerite Yourcenar, A Obra ao Negro

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O véu

Esta imagens não resultam de uma montagem. Foram registadas durante uma entrevista realizada recentemente pela jornalista da RTP Márcia Rodrigues ao Embaixador do Irão. Pergunta-se: deveria a jornalista apresentar-se em fato de banho, ou com um decote hollywoodesco? A resposta é não. Será que o traje que enverga, conforme à sharia, se destinou a despertar a familiaridade do Embaixador, de forma a obter alguma cacha? Não me parece. Evoca mais facilmente um número dos Gato Fedorento, uma capitulação, uma exposição particularmente aviltante, um sintoma de cobardia e de amnésia, face ao longo caminho que no Ocidente a conquista da liberdade teve que percorrer, face às teocracias e aos mercadores do invisível. De resto, um tema já aqui referido. Os seus inimigos agradecem.

terça-feira, 10 de julho de 2007

O sangue dos outros

"Ninguém dá lições de democracia ao PS", vociferava há dias na AR o chefe do grupo parlamentar daquela força política. Aconteceu durante o debate realizado a propósito de conhecidos casos de perseguição, por via disciplinar, de funcionários que alegadamente cometeram delito de opinião. A suprema arrogância desta frase diz-me praticamente tudo acerca de quem nos governa. Condensa duzentos anos de equívocos e de sombras jacobinas. Bem andou Kant, quando detectou na possibilidade de uma acção poder ser ou não universalizada o fundamento para o único padrão ético.
Como prova de que a invocação de uma paródica superioridade moral anda de mãos dadas com a leviandade, apetece citar um excerto de um sugestivo texto de José Gomes André, no "Bem pelo Contrário". Isto a propósito das vaias e assobios dirigidos à Estátua da Liberdade, durante a Gala das 7 Maravilhas do Mundo, realizada há dias:

O mundo ocidental está tão farto de si mesmo, tão cheio da sua felicidade e simplicidade e comodidade, que olvidou os seus pilares morais, o sangue que outros derramaram em seu nome e as suas referências históricas. E não percebe que essas conquistas exigem que as estimemos e as preservemos com todo o cuidado. No dia – e esse dia está demasiado próximo – em que as esquecermos por completo, poderemos ter uma triste surpresa, e descobrir que aquilo que sempre demos por adquirido não passava, afinal, de uma frágil realidade, e a partir desse dia, talvez demasiado distante para ser recuperada.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Liberdade, Igualdade, Fraternidade

Ao contrário do que vem nos manuais de História e do que pensa a intelectualidade sub-gaulesa que ainda sobrevive no nosso País, em termos de liberdade (ou liberdades) nada devemos à Pátria de Descartes e Lamartine. Refiro-me às liberdades civis, e sobretudo o seu núcleo mais importante, as liberdades negativas, tais como ainda hoje são vertidas nos textos constitucionais. E ainda ao Estado laico, à separação dos poderes e mútuo controlo. Numa associação simplória de causa-efeito, fez-se descender estas conquistas directamente da Revolução Francesa. Mais concretamente da célebre Declaração de Direitos. Não creio de todo que assim seja. A liberdade, tal como hoje é entendida e vivida, é um epígono da Kant, quando lhe retirou as vestes teleológicas, mas sobretudo do parlamentarismo inglês e da Revolução Americana. No primeiro caso, a lição de as liberdades nunca poderem ser impostas de cima, mas organicamente consolidadas. Em defesa do indivíduo, naturalmente, mas também condição da sua cidadania. No segundo, temos um bom senso de pequenos proprietários, num momento histórico em que a tecnologia ainda não tinha separado irremediavelmente o homem da compreensão e do domínio de facto dos objectos com que lida no seu dia a dia. Um bom senso que erigiu um sistema de poderes que se fiscalizam mutuamente e que da política retirou o fundamental: os factos resultam da acção e não de intenções. Sobre eles rege a lei e nada mais.
Para uma melhor percepção deste entendimento, dirigi-me à Sé, onde observei, mais uma vez, os danos causados no retábulo pela soldadesca napoleónica na 1ª Invasão. Falo de destruição gratuita, que nada acrescentou. Um acto de selvajaria , a vis dos conquistadores que, em nome da ambição de um homem, pela força das baionetas quiseram impor a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Uma coisa ficou, no entanto: o Code Civil napoleónico, que inspirou toda a legislação oitocentista europeia no domínio do direito privado. Por cá, em particular o Código de Seabra, de 1867, que vigorou um século.