Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A luta

A esquerda festiva e suburbana, com o testa de ferro Carvalho à frente, está a promover uma coisa chamada "Greve Geral". A exibição terá lugar no dia 8 de Novembro nos melhores cinemas. É de esperar que vá bramir por mais "dinheirinho" ao fim do mês, promoções a eito, nada de coisas complicadas como a flexisegurança, que façam mover os "instalados" do empreguinho para toda a vida para empregos viáveis, uns carros de som a debitarem as palavras de ordem de sempre, onde pontuam termos como "ofensiva", "direitos dos trabalhadores", etc., os sindicatos atarefados a inflacionar os números dos aderentes. Em conclusão, uma autêntica "jornada de luta" contra... contra... enfim, alguma coisa há-de ser, em versão Jacques Tati da Brandoa.
Melhor só o comentário no "Incontinentes Verbais", sobre este acontecimento:
"Uns ficam em casa a coçar a barriga, como forma de luta. Outros lutam para terem uma casa onde coçar a barriga."

domingo, 2 de outubro de 2011

A mostra paleontológica

Os comunas lá desceram ontem à rua. Muito protesto e tal dos "trabalhadores", ressabiados do costume e gente que, de um modo geral, ainda não descobriu que o exemplo da diferença parte de cada um de nós. E que já não existe riqueza excedentária para redistribuir! Mas Aleluia! Com "movimentos de massas" desta dimensão, Portugal ficará a um passo de ultrapassar as trapalhadas financeiras em que se afundou, graças ao modelo alucinado de desenvolvimento posto em prática por políticos irresponsáveis nos últimos 30 anos. Estas "manifs" são como que um passe de mágica! Graças ao fulgor geriátrico destes desfilantes patuscos fósseis! Ah, mas o inevitável factotum Silva (Carvalho para os "camaradas") esteve lá. E até adiantou "númbaros": à volta de 180 mil en la calle, diz ele. Ups, tantos!... Não será efeito do Viagra?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Nobre versus novilíngua

Começaram anteontem os debates a dois, nas várias televisões, entre os  candidatos às eleições presidenciais. Para abrir a sequência, o país pode assistir ao round que opôs Fernando Nobre e Francisco Lopes. Percebeu~se claramente que Nobre não teve dificuldade em encostar o comunista às boxes. O último vinha bem preparado, com a habitual cábula minimal repetitiva. Para além dos soundbites habituais do discurso dos comunistas portugueses (e dos admiradores de Enver Hoxa), onde 1+1 é sempre igual a 1, avançou com uma naipe de acusações a Nobre. Assim tentando "demonstrar" a sua incoerência, a volubilidade da sua candidatura, confrontando-o ad nausem com a sua alegada posição contraditória face ao OGE. Ao mesmo tempo, tentava-o associar à real politik, por via de alguns comprometimentos no passado, apontados a dedo e retirados dos arquivos bolorentos da Soeiro Pereira Gomes. Nobre não precisou de muito para "desmontar o boneco". Afinal, quem aceita ser candidato a Chefe do Estado devido a uma decisão de um sinistro Comité Central, conseguida, imagino, pelo sistema de sorteio, bola branca bola preta, não merece grande consideração. E demonstra estar tão mergulhado no sistema como as forças do mal que os seus acólitos tanto diabolizam. E certamente Lopes nunca conseguiu criar um único emprego, como lhe apontou Nobre. Todavia, aposto que já conseguiu destruir muitos, devido à conhecida intransigência negocial dos sindicatos controlados pelos comunistas. Em suma, limitou-se, ao longo do debate, a blindar o seu eleitorado e pouco mais. Nobre fez o que lhe competia e o que sabe sem esforço: ser compassivo, inclusivo, transversal, universalista. Por outro lado, percebi com clareza, se dúvidas houvessem, a natureza do discurso estereotipado e autista dos comunistas. E de como constitui uma afronta à inteligência. Viu-se perfeitamente que o funcionário do PCP, a quem entregaram a "gloriosa" tarefa de se candidatar, não está habituado a este tipo de interlocutores. O PCP vive no mundo da fantasia, onde as palavras substituem as coisas, as profecias valem como objectivos, os conceitos ocultam a realidade e a esquizofrenia anula o mais ténue vestígio de honestidade intelectual. Ter pela frente um verdadeiro lutador, como Fernando Nobre, um homem cujo palco privilegiado tem sido afrontar uma realidade de que as estatísticas não falam, onde há que decidir depressa e sem esperar recompensas, é pedir demasiado a gente tão limitada. E o que é pior, rebater um discurso que, por não ser politizado, é terrivelmente político, que escapa à lógica comezinha e totalitária da novilíngua orweliana dos comunistas, deve ter sido aterrador para o zelota Lopes.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Campanha "o último a sair apaga a luz"

Por via do "Água Lisa", chegou-me um artigo de opinião do "Avante", que assim reza:
"A campanha política, ideológica, institucional e mediática em torno dos 20 anos da chamada «queda do muro de Berlim» foi massivamente difundida pelos media e conduzida por uma assinalável «santa aliança» anticomunista entre extrema-direita, direita, social-democracia, ex-comunistas e a chamada «nova esquerda».As classes dominantes recorrem, mais uma vez, à revisão da história para erigir com estas «comemorações» uma gigantesca farsa que tenta apresentar o acontecimento como uma «revolução», uma vitória do «bem» sobre o «mal», um acto de «libertação», ocultando simultaneamente a História e as reais razões da construção do Muro como as provocações e as acções militares e de espionagem hostis dos EUA, Grã-Bretanha e França contra a RDA e o campo socialista, sinalizadas logo no início do pós-guerra."
Nem sei o que dizer. A não ser que a arteriosclerose avançada produz efeitos como estes. Mesmo assim, para quem gostar de literatura fantástica, vale a pena a leitura integral do artigo. Fica o registo, para memória futura.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Foi há 20 anos...

Cartier-Bresson, "O Muro de Berlim", 1963

As efemérides, embora sejam associadas à evocação cerimonial de um acontecimento passado, também designam tábuas astronómicas que indicam, dia a dia, a posição dos planetas no zodíaco. Confuso? Não. Há casos onde aquilo que não se pode mudar co-habita na mesma palavra com o que muda permanentemente. Como aqui. Onde uma palavra raramente tenha um sentido tão abrangente como quando se aplica aos acontecimentos que levaram à queda do Muro de Berlim. Nessa noite de 8 para 9 de Dezembro de 1989, encontrava-me em Estrasburgo. De visita ao Parlamento Europeu, na qualidade de dirigente estudantil. Soube o que se estava a passar através da TV. Percebi imediatamente que o "socialismo real" tinha perdido a guerra e que a Europa voltaria a ser uma unidade política. Acabei agora de assistir a um excelente documentário na RTP 2 sobre a história do Muro. Duas imagens a reter: 1º o efeito em cadeia da visita de Gorbatchev à RDA, convidado de honra do 40º aniversário da fundação do país. Porém, na tribuna era aplaudido por dezenas de milhar de manifestantes, que desfilavam e gritavam por Gorbi, ignorando os dirigentes comunistas alemães. 2º o discurso de Honnecker, nessas cerimónias oficiais, num edifício rodeado por uma maré humana que clamava por liberdade, mas onde aquele afirmava convictamente que "o socialismo na pátria de Marx e Engels estava assente em bases indestrutíveis"... Ocorreu-me também que, daqui a dez anos, o então secretário geral do PCP prestar-se-á de bom grado ao mesmo papel, no seu bunker, rodeado por meia dúzia de indefectíveis...

Publicado no jornal "O Interior"

Nota: Ler aqui outras memórias do Muro, de João Tunes.

domingo, 11 de maio de 2008

O novo arquipélago gulag

O PCP é uma das únicas excrescências fúngicas do século XIX que sobreviveram no hemisfério ocidental. Representa, de forma excelsa, o mundo das trevas, do ressabiamento, da demência ciclotímica, da demagogia mais descarada. Para sobreviver além da ala geriátrica da História, não hesita em capitalizar "descontentamentos", alguns legítimos outros nem por isso. Dizem representar os trabalhadores, essa "vanguarda" convertida ao euromilhões, mas nunca os vi denunciar a ausência de sindicatos na China, o actual "farol" do socialismo. São os vendedores de time sharing da espontânea indignação e criação de movimentos sociais por parte dos cidadãos. O modelo económico e social por que uivam na rua e no Parlamento é o de uma nação totalmente assistencializada pelo Estado, só com "direitos", o "emprego para toda a vida" como norma, despedimentos só no caso de desvio à ortodoxia estalinista, os sacrossantos direitos dos trabalhadores repetidos na missa todos os domingos, um delírio burocrático e irresponsável, a regressão a um mundo arcaico, uma nova Albânia, um regabofe pago não se sabe por quem, pois para os comunistas isso é o que menos interessa.
Depois da revolta dos professores, faltava algo na "agenda de luta" dessa choldra. Pois bem, eureka, a reforma do Código de Trabalho veio resolver a aflição. Acolitados pela esquerda-caviar do BE, criaram uma moção de censura, destinada exclusivamente ao show off. Forças que representam 12% do eleitorado pretendem subverter a vontade da esmagadora maioria dos portugueses, em nome de ícones e fanfasmas. Talvez seja por isso que tanto abominam a "democracia burguesa". A vontade do povo só atrapalha.
O que nos traz este projecto de reforma do C.T.? Muita sensatez, mexendo nalguns tabus para aqueles que só defendem o emprego dos apaniguados e não a criação de emprego efectivo. Por outro lado, combate-se a precaridade dos vínculos laborais, mediante uma penalização da taxa contributiva para quem recorre aos (falsos) recibos verdes e incentivos fiscais à contratação efectiva. Não vou aqui analisar ponto por ponto a proposta do Governo. Quero no entanto acrescentar mais uma razão que acentua a risibilidade desta onda de contestação promovida pelo PCP. Quando estive um ano no sector informativo de uma delegação da Inspecção Geral do Trabalho, a atitude recorrente dos trabalhadores que acorriam aos serviços era simplesmente "fazer contas". Qualquer esclarecimento suplementar sobre outras possibilidades de actuação ou de consciencialização da sua cidadania, qualquer resultado não expresso numa máquina de calcular, caíam em saco roto. Será que são estes trabalhadores que o PCP e o BE dizem defender? Por outro lado, assisti a situações caricatas em que os próprios sindicatos induzem em erro os seus próprios associados, informando-os, em caso de litígio, dos níveis salariais do CCT para o sector onde eles fossem mais elevados e não, como seria normal, daquele que era efectivamente aplicável no caso concreto.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

"Deus, Pátria, Autoridade", reloaded

Ontem passou no TMG o filme "Deus, Pátria, Autoridade". Trata-se de um documentário de Rui Simões, produzido em 1975 a partir de imagens de arquivo. E que pretende ilustrar a marcha da história no Portugal do séc. XX, especialmente a partir do declínio do Estado Novo. O título advém da invocação da célebre trilogia durante um discurso de Salazar, em 1936. Este registo constitui uma pérola da propaganda difundida por círculos ligados ao PCP, durante o PREC. O conteúdo programático não deixa lugar a dúvidas. Lê-se como um livro aberto. A ganga marxista está lá toda: a luta de classes, onde o "povo" aparece sob a forma de anjos imaculados arrotando palavras de ordem e palitando os dentes depois de uma sande de coiratos; a "burguesia" como uma galeria de personagens sinistras, fúteis, sádicas, que vivem para explorar o "bom selvagem" proletário. Os mesmos que detêm os "meios de produção" e tomaram conta da superestrutura política e ideológica (o Estado Novo e o "façismo"). Os mesmo que sustentaram uma guerra colonial destinada a assegurar os "lucros" de meia dúzia de exploradores e colonialistas sanguinários (neste ponto é curioso estabelecer uma comparação entre o rigor e a competência do documentário "A Guerra", de Joaquim Furtado e esta peça propagandística). Uma fábula onde só há os "bons" e os "maus". E com um final feliz, para sossego das consciências: a "evidência" da superação do materialismo dialéctico, o créme de la créme da vulgata marxista. Como? Pois bem, através do "fim da luta de classes", da marcha inexorável da história, conduzida na altura pela V Divisão, os governos do General Vasco Gonçalves e um vasto lumpen ululante, devidamente pastoreado pelos factotum comunistas. Era este o cenário que se perfilava no momento. Uma peça para um único personagem, "o povo escolhido", isto é, o proletariado. Formado pelo operariado fabril, intelectuais "progressistas", camponeses pobres", assalariados rurais e alguns burgueses transviados, depois de feito o indispensável acto de contrição. Neste ponto, a pequena-burguesia foi convenientemente silenciada, pois esperava-se que fosse a reboque dos actores privilegiados da História. Também a saga reivindicativa que hoje subsiste nos meios ligados ao PCP: os culpados são sempre os outros, o ressabiamento, a menoridade cívica, a endogamia. Para os comunistas, o uso das capacidades próprias e a iniciativa individual como factores de criação de riqueza são olhadas com desprezo; a essência dos indivíduos é determinada pela sua existência social, enquanto actores colectivos, convenientemente ensaiados para um só palco, a História pré-determinada e finalista. Depois, há pormenores deliciosos, como a desconfiança perante a autogestão, vista como um perigoso desvio pela ortodoxia pró-soviética. Ou os momentos em que é dada a voz ao bom povo, que papagueia um guião tosco e "normalizado", generosamente fornecido pelos agentes do aparelho comunista e engages avulso em voga na altura. O expediente mais não é do que uma forma insidiosa de paternalismo, ideologicamente orientado. Por último, a ira de um agricultor ribatejano, depois de lhe terem tirado a posse da sua terra, após uma questão judicial. Se a equipa de realização estivesse mais atenta, daria conta de que os desabafos perante as câmaras deste João Semana têm a ver unicamente com uma disputa de propriedade, cujo direito ele invoca urbi et orbi. Ora, segundo os comunistas, a propriedade é um roubo, uma indignidade. Enfim, distracções... Esta obra é, digamos, um poderoso registo acerca da cartilha marxista-leninista aplicada com fervor à revolução em curso em 1975. Está lá tudo o que é preciso saber sobre uma doutrina e uma prática política que quase triunfaram em Portugal. Não sem alguma ironia, um filme com propósitos documentais acabou por ser o melhor testemunho do ambiente político e ideológico que o determinou.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Resistir

Eis um belo exemplo de esquerda arteriosclerótica. Esperneia, vocifera, mexe-se convulsivamente, acende umas velinhas em honra de criminosos e genocidas. Percorre, impávida e serena, a inefável hagiografia do erro mais colossal da história: o comunismo. São os inimigos da liberdade.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Duplipensar


Lembra muito bem João Tunes a duplicidade do PCP: no mesmo dia em que promove uma mega manifestação, no Parque das Nações, para defender os interesses das "massas" filiadas nos sindicatos que controla, envia uma caloroso aerograma ao "irmão" chinês, lembrando as virtudes do regime que este tutela da forma que se sabe. Mas haverá aqui alguma incoerência? É claro que não. O PCP desde sempre assumiu uma estratégia ambivalente: é uma coisa fora do poder e outra quando "já lá está". Nem que seja a nível autárquico. Internamente, clamando pela unidade sindical, amarrou os sindicatos que controla à sua agenda política. Para utilizar a seu bel prazer a capacidade de mobilização destes . O disfarce cessa quando se trata de enaltecer as "conquistas" onde os seus émulos são poder. Já agora, recordemos que no Império do Meio não há sindicatos e os poucos que existem resumem-se a um ou dois representantes nomeados pela estrutura local do PCC junto das empresas. Nada que surpreenda. Afinal, este modelo, sumamente apropriado ao fim da luta de classes, sempre preencheu o imaginário dos dirigentes comunistas. Mas nem por isso deixa de ser notícia.

Nota: a CGTP criou um novo fantasma, que agita para agrupar os seus apaniguados: a flexisegurança. Ainda não percebeu, nem provavelmente o fará
nunca, que a sua aplicação é a única forma de salvar o Estado-providência.

sábado, 8 de setembro de 2007

O PCP no fundo do poço

Tomás Vasques dá-nos vários exemplos ilustrativos daquilo a que chama "Geografia ideológica do substantivo abstracto democracia." São eles:

1. «Tenho dúvidas que [a Coreia do Norte] não seja uma democracia» - Bernardino Soares, deputado do PCP.

2. «…não tenho conhecimento da existência de presos políticos [em Cuba]». - Bernardino Soares, deputado do PCP.

3. «Os traços da deriva antidemocrática e fascizante” [em Portugal]» - Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP.

Ainda a propósito da "Festa"

1. Em entrevista ao "Público" de ontem, Jerónimo de Sousa prossegue na senda do autismo e do delírio. Confrontado com a presença das FARC na "Festa", recusa-se a admitir que estas sejam uma organização terrorista. E vai mais longe: afirma que a queda da URSS abriu caminho ao neoliberalismo, entre outras enormidades. Lembro que esta organização está no index dos grupos terroristas, como tal classificados pela União Europeia e terá um stand próprio na Festa. Supondo-se que, tal como no ano passado, aí irá distribuir a sua publicação oficial "Resistência".
2. Sérgio Godinho e Vitorino vão apresentar os seus espectáculos nesta edição da "Festa". Dir-se-á que os compromissos artísticos são alheios à polémica e passam à frente. Mas é estranho que estas figuras estejam caladinhas que nem ratos, na perspectiva de integrar um acontecimento onde desfilam os partidos que sustêm alguns dos regimes mais opressivos e despóticos do planeta. Em relação ao Vitorino, já pouco há a esperar do personagem: um "crooner" provinciano, decadente e artisticamente desinteressante. Do SG esperava um pouco mais. Ou talvez não...
3. O PCP alerta para sinais de cariz fascizante na política de Sócrates, na revista distribuída na "Festa". Será que se esqueceu dos esqueletos que tem no armário! Digam lá se isto não parece mais uma história dos "X Files"? Uma coisa é certa: os comunistas tomaram de assalto a ala geriátrica da história e não vão de lá sair nunca mais...
4. Por iniciativa do Tiago Barbosa Ribeiro, do "Kontratempos", existe uma listagem em permanente actualização das postagens onde o caso é comentado.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

A cegueira

Li há pouco o livro de memórias de Maria Filomena Mónica, intitulado "Bilhete de Identidade". Aparte o comentário à obra, que ficará para outra altura, detive-me num episódio relatado na página 325. No início do "Verão quente", em Maio de 1975, Jean-Paul Sartre foi fotografado a empunhar uma G-3 à entrada do Ralis, o celebrizado quartel general dos SUV (Soldados Unidos Vencerão) e onde teve lugar o famoso juramento de bandeira com o punho erguido. O chamado turismo revolucionário estava no auge. Todos os dias desembarcavam em Portugal resmas de artistas e intelectuais franceses com a ressaca do Maio de 68, deslumbrados com uma revolução doce e portátil. Touraine, Cohn-Bendit, Althusser e outros andaram por aí, tentando perceber porque é que um sopro mais forte fez ruir um regime ditatorial. E também comprovar, no convívio com o povo "genuíno" e os seus ainda mais "genuínos" intérpretes, a validade do seu pensamento engagé. Nesta altura, o marxismo era tema obrigatório, mesmo nas Universidade mais conceituadas. Poucos eram os intelectuais "de esquerda" que ousavam criticar o "socialismo real" praticado a Leste, apesar da Hungria e da Primavera checa. A simpatia de alguns iconoclastas ia para... a revolução cultural chinesa. A linhagem de Sartre provem de Breton, Aragon, Éluard, Malraux. Todos eles fascinados com Estaline e as delícias dos planos quinquenais. Nunca se ouviu das suas bocas a mais leve alusão aos kulaks. Que descansem em paz.