Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A hora

Não. Fica-te, se queres, a ruminar o que foste. Eu parto ao encontro do que sou, do que já começa a ser, meu descendente e antepassado, meu pai e meu filho, meu semelhante dissemelhante. O homem começa onde morre. Vou ao meu nascimento.

Octavio Paz, "Velho Poema", in "Águia ou Sol", Hiena Editora, 1985 (trad. Rui Rosado)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A poesia aqui tão perto


Da Guarda não saíram, tenho essa amarga suspeita, os melhores poetas da nossa história. No entanto, muitos por ela passaram e não ficaram insensíveis à sua singularidade. Sendo alguns de primeiro plano, é justo dizê-lo. O peso do granito, a densidade da paisagem, a linearidade dos gestos não constituem, na aparência, um apelo poético com um módico de grandeza. E na verdade não são. É que, na Guarda, é bem possível que as contas poéticas não se rejam pela tabuada vulgar. É praticamente certo que a ausência de uma "decoração" confortável, de musas em águas tépidas, de rios que dilaceram e incessantemente criam, de embalos mais gingões, de uma doçura concertada, obriguem a um trabalho suplementar. Não para descobrir coisas onde elas não estão. Não para as esconder. Mas simplesmente chamar a atenção para que a sua única realidade é não serem mais do que aquilo que parecem. Uma poesia assim obtêm-se mais pelo despojamento do que pelo esforço. Mais pela evidência da matéria do que pela sua contemplação. Mais pelo aconchego do que pela dissolução. Mas não é caso para pessimismos. Bem pelo contrário. A prová-lo, está este espectáculo. Uma espécie de balanço poético da cidade, onde são convocadas várias linguagens artísticas, vários autores e várias gerações. Com a poesia no centro do eixo da gravidade. E a Guarda como berçário dos lugares da sua percepção. Em suma, um espectáculo que a coloca exactamente no centro das qualidades poéticas que dela irradiam. Ou se preferirem, uma visita guiada, multidisciplinar, por uma espécie de neo Penalva sibilante e encantatória. Por favor, não façam cerimónia...

Esta produção do TMG conta com a coordenação e encenação de Américo Rodrigues, sendo a selecção de textos da responsabilidade deste vosso criado. Por sua vez, o guião foi criado por ambos, em co-autoria. O lote escolhido inclui autores como Alberto Dinis da Fonseca, António Monteiro da Fonseca, Augusto Gil, D. Sancho I, Eduardo Lourenço, João Bigotte Chorão, João Patrício, José Augusto de Castro, José Manuel S. Louro, José Monteiro, Ladislau Patrício, manuel a. domingos, Miguel Torga, Osório de Andrade, Pedro Dias de Almeida, Políbio Gomes dos Santos, entre outros. No palco, como protagonista /narrador, estará José Neves, actor residente do Teatro Nacional D. Maria II. E estarão também músicos e dançarinos. Haverá projecção de um filme e diversos vídeos produzidos especialmente para o espectáculo. Para mais informações, poderão consultar o blogue do TMG.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Acidente poético fatal

Américo Rodrigues volta à poesia "escrita", após as suas estimulantes deambulações pela poesia sonora. Há quem diga spoken words, mas o significado das designações não é exactamente o mesmo. A obra reúne textos publicados no seu blogue pessoal, "Café Mondego". Os quais reflectem algumas das obsessões poéticas caras ao autor: a perda, o corpo, a dilaceração das certezas, o apelo indesmentível da matéria, o fulgor das onomatopeias, o grito, as memórias ardentes, a corrosão, as baterias assestadas à loucura da "normalidade".  Ingredientes agora temperados com uma ironia nova, visceral. E vestidos com algumas inovações ao nível da forma, sobretudo do ritmo, que surpreenderão certamente alguns. Suspeito que, com estas liberdades, o autor transportou para a poesia "convencional" a sua experiência performativa na poesia sonora, o apego a sonoridades cadenciadas e guturais.
 "Acidente poético fatal" é editado pela Associação Luzlinar, sendo a capa e paginação de Tiago Rodrigues. A apresentação decorrerá na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, a 17 de Dezembro, pelas 18 horas. Está prevista a leitura pública de alguns poemas, pelo autor, no Café Concerto do Teatro Municipal, pelas 23.00h.

Teorias

A mais recente obra poética de manuel a. domingos estará disponível a partir da próxima semana. O autor poderá ser contactado a partir do seu blogue. Trata-se de uma edição com tiragem única de 100 exemplares. Aguardo pela sua leitura.
manuel a. domingos é natural de Manteigas. Vive em Coimbra. É professor. Iniciou a sua carreira literária no DNJovem, onde foi colaborador.  Publicou Entre o Silêncio e o Fogo (poesia, 2002) Mapa (poesia, 2008) e Eu queria encontrar aqui ainda a terra, (teatro, 2009, em parceria com este vosso criado). Traduziu Xavier Queipo, Árctico (2009), Ethelbert Miller (2010) e Charles Bukowski, Ham On Rye: Pão com fiambre (2010). Poderá aqui ser consultada um entrevista sua ao portal PTNET literatura, em 05.10.2010.

domingo, 4 de setembro de 2011

Monólogo do Anjo

Estais aí. Desse lado da luz. Quis sempre descobrir-vos, sabeis? Surpreender-vos devagar nesta terra feroz e sumptuosa. Escutar as vossas preces. Comover-me com a doce fragilidade da vossa esperança. Adivinhar-vos os pensamentos. Beber-vos as emoções. Mesmo as mais secretas. Sobretudo as mais secretas. Para mim, cada dia é um caminho diferente. Uma palavra guardada que me espera. Sempre acompanhado do gracioso sussurro das aves, respondendo-vos quando o vosso campo se recusa encher-se de papoilas...
Às vezes, a luz esmorece. Porque as palavras que me procuram são palavras de crianças presas no tempo. Mas deixai-me sentar numa nuvem e dar pontapés na Lua, pois era como eu devia ter vivido a vida toda: dar pontapés até sentir um tal cansaço nas pernas que elas já não me deixassem voar.
Às vezes tenho tonturas. Quando olho para baixo, vejo sempre planícies muito brancas, intermináveis, povoadas por uma enorme quantidade de sombras. Sentado numa nuvem, na lua, ou em qualquer precipício, eu sei que as minhas asas voam para vós e as tonturas que a planície me dá são feitas por mim, de propósito, para irritar aqueles que não sabem subir e descer as montanhas geladas. Mas não quero que me ofereçam sombras. Não quero que me contem as vossas aventuras. Não quero que me escondam a vossa monstruosa inocência. Pois se fordes tocados por toda a beleza do mundo, conhecereis então a imensa crueldade que ele encerra.
Sou um desconhecido movendo-se constantemente no deserto, onde cada pegada deixa bem marcada na areia a imagem dessa outra existência em que a morte e a memória já nada significam. Mas as asas, as asas que sinto bem presas, seguras, essas, ficai a saber, podem ainda esmagar com cuidado, com extremo cuidado, dilacerar suavemente, pois nos olhos está o amor, o misterioso voo das aves que partem para o desconhecido.
Eu sei que para todos vós há um lugar por descobrir, um lugar tenebroso e cantante. Simples como é a claridade, torna-se a coisa mais difícil de encontrar. Talvez porque a distância que nos separa, longa, muito longa, seja a torre de chumbo do vosso próprio isolamento, talvez porque sentir o aparecimento da madrugada seja a origem da música onde a palavra se apaga. Criem-na. Sem medo. E agora, outros mais longe me chamam. Adeus, meus amigos. Estarei sempre, sempre convosco.

(Texto incluído no guião da peça teatral Guarda, Paixão e Utopia, apresentada no TMG nos dias 26 e 27 de Novembro)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ser poeta

Erram os que me consideram poeta, pois não o sou, infelizmente; e erram os que me consideram poeta, porque o sou, infelizmente.

Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny 

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Outro

Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos"

De volta

Eu estou só

Eu falo de quem fala de quem fala que estou só
Eu sou apenas um pequeno ruído eu tenho vários em mim
Um ruído amassado gelado na intersecção das ruas
despejado no pavimento húmido aos pés dos homens
precipitados correndo com as suas mortes
À volta da morte que estende os seus braços
Sobre o relógio sozinho respirando ao sol.


Tristan Tzara, in "L'Homme approximatif"

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O eco

 A vida é uma queda da energia brutal, sorriso que ficou da gargalhada, reflexo de um incêndio longínquo.

Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny

segunda-feira, 28 de março de 2011

O centro

O homem só é verdadeiro quando se julga incógnito. Se tem de representar a sua pessoa, a arte absorve-o e desvia-o do seu próprio ser.

Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny

sexta-feira, 25 de março de 2011

Logo à noite


Sim, lá estarei na mesa. Mas lateja-me aquela frase: "hoje há muita gente que escreve poemas, mas escasseiam os poetas". Aparece sempre no meio de um desejo de quietação. De uma responsabilidade que não se pode descartar. De uma oportunidade que a grandeza concede à dúvida. Mas o que estou a dizer? Será assim tão certa a rarefação?  Haverá uma ordem directamente proporcional nesta fatalidade?  Talvez. A dissolução sem medida, ou a clausura ardente não é para todos. Mas não é preciso exagerar. Os poemas desses poetas que não dispensam o estilo ou a feroz candura, como que inoculam uma espécie de dislexia nos seus hospedeiros.  Muito tempo e nenhuma pressa. Fazem devorar a realidade mais depressa do que esta se consegue regenerar. Abrem brechas, túneis e alçapões. Onde a luz nunca se esconde. Os tais poemas  desses tais poetas nunca estão no mesmo local. São poemas portáteis, negociados entre poetas nómadas. A impiedade é a sua  arma de sobrevivência. O seu recesso amoroso.  A sua moeda de troca.  
Mas como chegámos aqui? Amputada do seu berçário imemorial, a cosmogonia, a poesia banalizou-se. Sucumbiu à vertigem da individuação massificada. Abandonou a contenção. Deixou de ter um crivo a separar a escória do minério. Passou a ter boas maneiras. Longe, muito longe, a monitorização do apelo visceral. Adquiriu propriedades ansiolíticas ou euforizantes, para escravos e hibernantes. E o que fazem os escrevinhadores de poemas à poesia? Epitáfios bem intencionados, nada mais. Refinados ou pré-lavados produtos do ócio, da venalidade, da desatenção. Anseios de reconhecimento e, não raras vezes, de simples comiseração.

domingo, 20 de março de 2011

Dissolução

O amor é fome de outra vida, desejo de transitar. Quando dois amantes se abraçam e beijam, morrem um no outro, de algum modo, e transitam para um novo ser. A vida não pode ficar em nós, a repetir-se, que repetir é estar parado, é ocupar o mesmo lugar.

Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny

sábado, 12 de março de 2011

Música

O Universo é um ruído a converter-se em harmonia, um corpo a mostrar a alma.

Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny

sexta-feira, 4 de março de 2011

Noite literária

poema das árvores e da aprendizagem

tudo o que as árvores fazem é pensar. ficam generosas à espera de chegar a uma conclusão. e se morrem, não é absoluto que tenham tido resposta. deram sombra, pássaro, fruto e vento, mas podem partir quietas, como quem tomba para dentro de si mesmo, com felicidade pelo que já passou e nenhuma mágoa, só a aceitação sábia do tempo

valter hugo mãe, in "contabilidade" (poesia 1996-2010), ed. Alfaguara, 2010

Nota: esta noite tive o prazer de assistir à conversa entre o autor e o prof. Dias de Almeida no café-concerto do Teatro Municipal da Guarda. A satisfação foi, suponho, extensível aos restantes convivas. Devo dizer que só conhecia o autor como blogger e crítico literário. Mas a partir de hoje, quero conhecer a sua obra. Iniciando  o périplo pela poesia. Que é sempre por onde se deve começar. Depois dou notícias...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Lido

O movimento triunfa do frio.
O repouso triunfa do calor.


Lao Tse, "Tao Te King"

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Solidão

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.


Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã,
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...


Rainer Maria Rilke

O fogo

O ofício do poeta não inclui a prova sazonal, em letra de forma, mas a desmesura do resultado, o vigor da errância. É essa a sua prova de vida, "ou o que isso seja", dirão os que não desconhecem a maturação recatada do poema. Mas há ainda outra razão. Que se poderia nomear, à falta de melhor o "amparo do fogo". Porquê o fogo? Mais um recurso de estilo? Mais um ingrediente de um composto inócuo? A razão é simples: deve-se lidar com ele usando de toda a parcimónia. O verdadeiro perigo está em julgar que o dominamos, que lhe adivinhamos os movimentos, as percepções, as serventias, a inteligência móvel e imprevisível. Perigo de morte, portanto. Há momentos em que ele nos convida a arder consigo, participar numa langorosa erupção do ardor. Outras, envolve-nos na vertigem da aniquilação. Todavia, fixemo-nos no que ele desvela. E então, rente à corola do silêncio, à sabedoria do mel, à dor que no caminho revela, às mãos que se acendem, escavando, é aí que saem as palavras furtivas, as palavras que buscam a obscura transparência, as palavras que estão a mais. As que queimam.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder

terça-feira, 27 de julho de 2010

Borges, claro...

Lo perdido

¿Dónde estará mi vida, la que pudo
haber sido y no fue, la venturosa
o la de triste horror, esa otra cosa
que pudo ser la espada o el escudo

y que no fue? ¿Dónde estará el perdido
antepasado persa o el noruego,
dónde el azar de no quedarme ciego,
dónde el ancla y el mar, dónde el olvido

de ser quien soy? ¿Dónde estará la pura
noche que al rudo labrador confía
el iletrado y laborioso día,

según lo quiere la literatura?
Pienso también en esa compañera 


Jorge Luis Borges