Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

Shatov versus Kirilov

No seu livro "Os Demónios" (ou "Os Possessos", dependendo da tradução), Dostoievski utiliza dois personagens, Kirilov e Shatov, para exprimir a ambivalência da necessidade e importância de Deus.
Kirilov acredita que a vida consiste em dor e sofrimento. Para ele, Deus não existe e, consequentemente, tudo é possível, incluindo o suicídio. Encarado como a expressão máxima da transcendência humana noutra forma, maxime uma existência divina. Observa que a felicidade não tem correspondência com as circunstâncias individuais, mas com um estado de espírito. Nesta linha, se alguém acredita na felicidade, será feliz, e nada haverá que a possa negar. O entendimento de Kirilov acerca de Deus ou da sua falta permite encará-lo como um dos personagens mais carismáticos criados pelo autor russo. Nesta obra, Kirilov surge como uma espécie de figura crística. Planeia matar-se para libertar os outros membros do grupo, perecendo pelos seus pecados. Toma assim em mãos o papel de Cristo, libertando a espécie humana para que todos possam aceder à tal transcendência que os aproximará de Deus.
Shatov, pelo contrário, quer acreditar em Deus, mas pressente que não tem fé. Valoriza a ideia de Deus e toma a religião como um factor essencial para a identidade da nação russa. Mas deu-se conta de que o seu modo de vida e as suas referências não lhe permitem ter fé. Admite a existência de Deus, mas tal postulado, só por si, não atrai a verdadeira fé. Por fim, Dostoievski coloca Shatov num papel trágico: no momento preciso em que se começa a conhecer, desenvolvendo uma convicção religiosa, é assassinado.

Quer Kirilov quer Shatov possuem convicções inabaláveis: o primeiro tem fé mas não acredita em Deus, já o segundo acredita, mas não tem fé.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Leituras


Porto, 1964, tradução de A. Augusto dos Santos

Foi em Os Irmãos Karamazov que Dostoievski se implicou por inteiro, sendo considerada a sua obra de maior fôlego. Escrita na fase final da sua vida, estava previsto que incluísse três capítulos, cada um deles dedicado a um dos irmãos (Aliocha, Dmitri e Ivan). A morte do romancista veio impossibilitar a criação do 3º volume, referente ao primeiro. Nesse período, o autor já havia abandonado o jogo e tentava restabelecer-se da morte de um filho. Nesta obra está presente um vasto painel da Rússia de então, como uma síntese grandiosa e inquestionável dos seus livros anteriores. Se a concepção religiosa de Dostoievski e a sua prosa dramática pudessem ser separadas, essa habilidade de mergulhar em vozes interiores e traçar um amplo e complexo painel social não existiria. E Dostoievski não seria tão caro ao leitor sensível, muitas vezes na adolescência, que é tão tocado pela sua intensidade moral, embora podendo dispensar o seu moralismo.
Já neste blogue se editaram diversos textos com referência à vida do romancista e aspectos particulares da sua obra. Ver aqui, aqui e aqui.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Raskol

Dia 22 de Dezembro de 1849. Na praça Semenov, em S. Petersburgo, os pés dos transeuntes enterravam-se na neve. Vários regimentos guardavam a praça, entre os quais a Guarda Imperial do Regimento de Infantaria de Moscovo, pois um dos homens condenados à morte nesse dia aí fora oficial. O pano negro que recobria o cadafalso salpicava-se dos flocos brancos. Sobre ele esperavam 21 homens, 16 dos quais entregues ao carrasco. Entre estes contava-se Dostoievski.
Voltemos atrás. O grande escritor havia nascido em 1821, numa altura em que o ímpeto reformista do czar Alexandre II, revelado quarenta anos depois, aproximando a Santa Rússia da Europa, era uma simples quimera que se pagava com a vida. Falamos de um mundo em que a prosperidade se media pelo número de “almas”, servos em regime de escravidão, ao dispor de uma aristocracia burocratizada e domesticada por um czar paternalista e sobre-humano. À boa maneira asiática, a sociedade russa daquele tempo estava rigorosamente estratificada: nobreza, clero, negociantes, cidadãos, camponeses e mais alguns grupos intermédios. A classe culta compunha-se de nobres, oficiais e funcionários públicos. Desde o tempo de Pedro o Grande cada nobre era compelido a “servir”. Tal “serviço”, porém, era de duração curta: permitia-se que se resignasse o cargo a favor de indivíduo de classe mais baixa e se levasse o resto da vida liberto de ambições públicas. Os oficiais dividiam-se em 14 patentes e cada nobre poder-se-ia inscrever em 6 registos!
Em Janeiro de 1838, Dostoievski ingressou na escola militar de engenharia de Petersburgo. Aí encontrou algumas das afinidades e círculos de influência que haveriam de o perseguir para o resto da sua vida. A publicação de Pobre Gente tinha-lhe garantido a entrada nos meios literários da capital. Entre eles, encontrava-se o círculo conspiratório animado por Petrashevski. Que houvera criado um grupo de seguidores, inspirados por Fourier, dispostos a introduzir reformas liberais na Rússia. O movimento chamava-se A Primavera dos Povos. Numa dessas reuniões, leu uma carta de Belinski a Gogol, refutando as suas afirmações monárquicas e religiosas. Tal leitura e a participação no ambiente conspiratório do grupo custaram-lhe a condenação à morte.
Encontramos o escritor novamente em frente do pelotão de fuzilamento. Sabe-se que, no último momento, chegou um emissário pessoal do czar. Com instruções para a sua e as outras penas serem comutadas entre o degredo perpétuo para a Sibéria, até uns "simples" quatro anos num centro de detenção naquelas gélidas paragens. Foi este o no seu caso.
Desse tempo em Omsk, nasceu uma das obras-primas da literatura, justamente intitulada Recordações da Casa dos Mortos: o pan-eslavismo cristão e uma cruel análise psicológica, lado a lado numa fascinante “reportagem” jornalística, mas sobretudo literária.
Ao longo da sua obra, para acentuar as diferenças entre as suas personagens, o escritor optou sempre por uma completa semelhança. Como se pretendesse demonstrar que a maior diferença existe, não entre duas cores diferentes, mas entre duas tonalidades muito aproximadas da mesma cor. Por exemplo, no julgamento do parricida, em
Os Irmãos Karamazov o promotor não acredita que o réu – Dmitri – seja culpado, ao passo que o advogado do acusado se convence profundamente do contrário. O leitor não duvida que a defesa triunfará, mas o Tribunal reconhece o réu culpado. Nesta caricatura das relações perversas entre as instituições públicas e a verdadeira natureza humana, Dostoievski, inconscientemente, confessa-se um anarquista, resguardando, sob as vestes de Deus e do Czar, a sua própria anarquia.

Publicado no jornal "O Interior"

PS: Sobre o romancista, ver também o que aqui e aqui neste blogue já se escreveu.

terça-feira, 20 de junho de 2006

Shatov versus Kirilov

No seu livro "Os Demónios", Dostoievski utiliza dois personagens, Kirilov e Shatov, para exprimir a ambivalência da necessidade e importância de Deus.

Kirilov acredita que a vida consiste em dor e sofrimento. Para ele, Deus não existe e, consequentemente, tudo é possível, incluindo o suicídio, encarado como a expressão máxima da transcendência humana noutra forma, maxime uma existência divina. Ele observa que a felicidade não tem correspondência com as circunstâncias individuais, mas com um estado de espírito. Nesta linha, se alguém acredita na felicidade será feliz e nada haverá que a possa negar. O entendimento de Kirilov acerca de Deus ou da sua falta permite encará-lo como um dos personagens mais carismáticos criados pelo autor russo. Nesta obra, Kirillov surge como uma espécie de figura crística. Planeia matar-se para libertar os outros membros do grupo, perecendo pelos seus pecados. Toma assim em mãos o papel de Cristo, libertando a espécie humana para que todos possam aceder à tal transcendência que os aproximará de Deus

Shatov, pelo contrário, quer acreditar em Deus, mas pressente que não tem fé. Valoriza a ideia de Deus e toma a religião como um factor essencial para a identidade da nação russa. Mas deu-se conta de que o seu modo de vida e as suas referências não lhe permitem ter fé. Admite a existência de Deus, mas tal postulado, só por si, não atrai a verdadeira fé. Por fim, Dostoievski coloca Shatov num papel trágico: no momento preciso em que se começa a conhecer, desenvolvendo uma convicção religiosa, é assassinado.

Quer Kirilov quer Shatov possuem convicções inabaláveis: o primeiro tem fé mas não acredita em Deus, já o segundo acredita, mas não tem fé.

sábado, 6 de maio de 2006

DOSTOIEVSKI, sempre


". . . to be acutely conscious is a disease, a real, honest-to-goodness disease." (Notes from the Underground)
"When . . . in the course of all these thousands of years has man ever acted in accordance with his own interests?" (Notes from the Underground)
"For what is man without desires, without free will, and without the power of choice but a stop in an organ pipe?" (Notes from the Underground)
"Talking nonsense is man's only privilege that distinguishes him from all other organisms." (Crime and Punishment)
"You laugh at your dream's absurdities, and at the same time you feel that in the fabric of those absurdities some thought is hidden, but a thought that is real, something belonging to your actual life, something that exists and has always existed in your heart." (The Idiot)
"If there is no God, then I am God." (The Possessed [Kirilov])
"So long as man remains free he strives for nothing so incessantly and so painfully as to find some one to worship." (The Brothers Karamazov)
"In an abstract love for humanity one almost always loves only oneself." [lost source!]
"The complete atheist stands on the penultimate step to most perfect faith." [lost source!]

Sobre o autor de "O Tio", ver o que aqui já se disse.