Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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terça-feira, 4 de maio de 2010

Lido

À falta de anticlericalismo popular, há agora uma nova forma de anticlericalismo intelectual de parte da esquerda « fracturante ». Enquanto não houver um Papa que seja mulher, lésbica, negra, de preferência não crente, e que vote nos EUA no Obama, os Papas, em particular este, são alvos preferenciais. E este acirra os ânimos de forma muito especial porque é branco, alemão, conservador, teólogo, e conhece bem demais a impregnação da doutrina cristã pelas variantes na moda desde os anos sessenta de « progressismo » esquerdizante.

Pacheco Pereira, no "Abrupto"


segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Goodbye Lénine

Repare-se nesta pérola da saudosa esquerda dos idos de setenta: "nos 27 anos em que se manteve o muro em Berlim houve 79 mortes das quais foi dada informação uma após outra até à saciedade: eram "vítimas do comunismo". Entre 1989 e 2007 foram mortos, que se saiba, 15.000 imigrantes ao enfrentarem as fronteiras europeias" (in Muros ruidosos, Muros silenciosos).
Apesar de o comunismo ter falido em toda a linha e de ter chegado a hora das utopias pré marxistas (as únicas em que vale a pena investir), apesar das evidências do colapso da luta "anti acapitalista", há quem ainda persista na cegueira. Ora, no exemplo citado, as "detestáveis" fronteiras europeias são comparadas ao muro erigido pelos carcereiros comunistas da RDA. E os fugitivos africanos são comparados a cidadãos de uma mesma nação, que tiveram o azar de ficar do lado errado e que só desejaram reconquistar a liberdade e a prosperidade. Anular as vítimas dos "outros" com as "nossas" é o expediente monstruoso que resta a uma esquerda ultra-complexada, que ainda desfia o catecismo marxista, sem dignidade e sem sombra de vergonha. Nesse acto de devoção aparecem outros "santos" como Frantz Fanon, teórico chic do "anti-colonialismo", muito na moda nos trabalhos académicos nos anos 70. Trocado por miúdos, mais uma fraude africana sub-gaulesa, alimentada pelos compagnons de route sartrianos e afins.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O nó

Aplaudo sem restrições o veto presidencial ao projecto-lei de regulamentação das uniões de facto, aprovada recentemente pela maioria parlamentar. Se há matéria sobre a qual sou sensível é a da invasão da esfera das liberdades pessoais por uma esquerda festiva e que utiliza a sua ideia de igualdade como um rolo compressor. Neste caso, um PS em fim de mandato, acolitado pelos comunistas e pelas hordas fracturantes bloquistas, não hesitou em tentar fazer passar pela porta do cavalo algo que a sociedade nunca reclamou, nem o seu programa eleitoral mencionou. Esta medida tem duas leituras óbvias. A imediata, diz-nos que o timing para uma eventual reaprovação parlamentar da lei irá recair na próxima sessão legislativa. Com a decorrente incerteza da próxima composição parlamentar. O PS quer assim demonstrar trabalho perante a esquerda "histórica" e marcar pontos nas eleições que se avizinham. Por sua vez, uma leitura não imediata revela-nos a profunda insensatez deste tipo de medidas. Repare-se no seguinte: a recente lei do divórcio veio instituir, na prática, uma espécie de permissão para o "divórcio na hora", desprotegendo, nos seus efeitos, a parte tendencialmente mais fraca. Isto é, conseguiu relativizar os deveres e exponenciar ficticiamente os direitos. Com a recente proposta, vem-se atribuir efeitos jurídicos a uma situação de comunhão de vida, onde as partes não quiseram precisamente que eles existissem! Porque se realmente os quisessem tinham optado pelo casamento! Ou seja, o Estado, munido do característico jus imperii, vem meter no mesmo saco situações inconfundíveis, determinadas exclusivamente pela esfera de liberdade pessoal dos envolvidos. Criando assim uma espécie de casamento atípico, onde são atribuídos direitos a quem nunca os pediu e negados os deveres que os justificam. A esquerda jacobina deve estar orgulhosa desta "obra" proselitista! De uma estupidez inaudita. Até porque as situações injustas criadas por via das uniões de facto, do ponto de vista securitário, da transmissão do arrendamento e sucessório, já estavam devidamente salvaguardadas no ordenamento jurídico em vigor. É quanto basta. Tudo o mais é uma intromissão intolerável na privacidade dos cidadãos. Por outro lado, há quem defenda que o projecto agora vetado vem trazer alguma protecção aos casais homossexuais. Mas se assim é, então mais valia que a maioria parlamentar assumisse, corajosa e frontalmente, o casamento entre nubentes do mesmo sexo! Porém, essa medida é pouco "aconselhável", em termos de contabilidade eleitoral. Ora bem... Mais interessante foi ver a reacção de alguns parlamentares ao veto presidencial: "arcaico", "ultra-conservador", "reaccionário", que "quer manter a injustiça", etc. Sem um único argumento razoável em defesa do projecto. Só faltou o providencial grito de guerra da "esquerda unida, sa": "seu façista!". Em resumo, didáctico, mas de uma tristeza aterradora.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

O beco


O que quer realmente este homem? Esticar a corda até alguém a largar do outro lado? Atracar o cacilheiro da saga da resistência ao albigense Louçã? Ganhar o prémio do sempre em pé que dá jeito a Sócrates, porque o país o julga acolitado de companhias tão recomendáveis? Continuar de forma masoquista dentro do PS, sem perceber que esta força política tudo fará para conservar o poder sem olhar a meios? Reeditar um frentismo para inconfidentes? Ser o arauto de um neo PRD dos desiludidos e não dos desfiliados? Este homem traz consigo um humanismo pungente e uma voz quente e tonitruante, é certo. Mas corre o risco de se tornar o idiota útil de Louça, depois de ter sido a um tempo a caução esquerdista de Sócrates. O negócio parece ser este: Alegre agiliza a transferência das suas "bases" para ambiências bloquistas; por sua vez, Louçã fornece a logística e a estridência programática. Um bom negócio para ambas as partes, ao que parece. Mas péssimo para quem não prevê nada de novo nesta Plataforma. Pouco mais do que um prolegómeno para um realinhamento que não é para levar a sério. Um lance táctico destinado a suprir uns buracos do cenário provável de um PS sem maioria absoluta nas próximas legislativas. Claro que há um défice de representação política na sociedade portuguesa. À esquerda e à direita. Claro que os partidos enfraquecem dramaticamente a luta política e a democracia. Claro que promovem a mediocridade e "matam" a política. Mas será este homem que irá mudar alguma coisa?

terça-feira, 22 de julho de 2008

Arrastinho

1. Acho piada à ralé esquerdalha: sempre com Guantanamo na boca. A "prisão sem lei" para aqui, "a prisão do imperialismo" para acolá. Já ninguém se lembra dos crimes do 11 de Setembro, como convém. Curiosamente ou não, esquecem-se também - ele há coisas! - da realidade confinante: Cuba. O que é esta nação caribenha senão uma gigantesca Guantanamo, onde um regime despótico e brutal encarcerou o seu povo sem julgamento prévio? A esta propósito, recomendo uma visita ao magnífico blogue Generación Y, de Yoani Sanchez. Uma voz censurada, mas não silenciada, cuja história já aqui contei.
2. Os ciganos aos tiros na Quinta da Fonte. Até podiam ser ETs. As balas não têm etnia. Neste país há leis. Iguais para todos. Todinhos. Ou por serem aplicadas aos ciganos já há discriminação? Confesso que já atingi o limiar da paciência com este discurso paternalista dos crybabies esquerdalhos do costume.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O Carmo e a Trindade

Só não muda de ideias quem nunca as teve. Nesta fórmula coexiste a crueldade da simplificação e uma espécie de brilhantismo espertalhaço com que se aliviou uma consciência a precisar de uns mimos extra. Todavia, a tirada é justa, mais do que correcta. "Tudo isto a propósito de quê?", já deveis estar a perguntar (isto é, a meia dúzia de moicanos que ainda me lêem). Ora bem, nada de sustos, pois trata-se de filosofia pura. Ou seja, da natural e saudável evolução do ethos, como diria JPP. Ou, trocado por miúdos, de como as ideias propulsionam e resultam de uma procura. Sinalizam os tempos fortes e os fracos. Instalam uma prática ou corrompem-na. São ensaios para a dúvida e sofás para o desconforto.
Portanto, nada melhor do que uma história. Na cidade onde vivo, existe um amigo com quem mantenho saudáveis divergências de pormenor, firmadas desde inflamadas campanhas políticas em comum, durante a juventude. Há pouco, percebi que, afinal, o pormenor tinha dimensões pantagruélicas. Claro que, do ponto de vista da defesa intransigente das liberdades e da rejeição das ortodoxias morais, nem uma dissonância. O problema está noutro local: do lado dele, o percurso óbvio de uma tarimba política de base, repetida ad nauseum, com as suas adaptações forçadas, o verbo fácil e automatizado, a subalternidade não assumida perante quem realmente dá as cartas, a inconsistência programática, a cristalização em meia dúzia de slogans mal digeridos, uma inocência barroca e provinciana. Pela minha parte, sempre cultivei um descomprometimento absoluto com a partidocracia, a preguiça cosseryana, a experimentação como a única pedra de toque, a mastigação lenta das ideias trazidas pelo poço do tempo. O resultado, naturalmente, manifestou-se. O meu amigo continua preso à política como uma espécie de acampamento amistoso de facções rivais, com um cheirinho conspirativo, mas pleno de animação colegial. Um meio termo entre as reuniões republicanas descritas pelo Eça em "A Capital" e a utopia sem esforço da acção determinada pelo cálculo. Tudo supervisionado por um Baden Powell que se quis, à força, banir. É este o seu cenário de eleição, onde reivindica as palavras de ordem de sempre. Pela minha parte, aconteceu a "desgraça": li abundantemente Nietszche, Hannah Arendt, Montaigne, Tocqueville. E levei-os muito a sério! Ora bolas! Claro que também comprava as revistas "Gina" e "Tânia", em pacotes de três exemplares, embrulhadinhas em plástico, num quiosque manhoso dos Restauradores. Mas essa é uma história que ficará, se calhar, para outro texto... Mantive-me pois afastado de qualquer hipótese de uma carreira política e muito menos partidária. Mas não do labor público, naturalmente. Enquanto o meu amigo, por seu turno, se ia "educando" nessas escolas de "virtudes" em que se tornaram os partidos políticos e sucedâneos.
É claro que a divergência acontecia não só na forma como no conteúdo. Há pouco tempo, publicou ele uma crónica num jornal local, a propósito de um comício onde participou e que juntou parte da esquerda conservadora no Teatro da Trindade. O tom era claramente aquele que eu chamo da esquerda sindicalista. Passo a explicar: eis que um intérprete da sofreguidão popular aparece e clama, em nome da clientela, isto é do "povo", ou dos "trabalhadores", por mais isto, mais aquilo, mais dinheiro, mais subsídios, mais regalias, mais assistência, mais polícias na rua, mais salários, quer criar um país constituído por 10 milhões de assistencializados, calimeros insuflados por um estado providência que ninguém quer pagar, que ninguém diz como pagar, que ainda por cima troçam da verdadeira, da magnífica e produtiva preguiça - a dos personagens de Cossery, aquela dos que realmente reflectem sobre o mundo em que vivem - que preferem cidadãos a quem é negada a iniciativa económica, a iniciativa artística, a iniciativa cívica, pastoreados à força por vanguardas de burocratas que tudo dizem assegurar e nada resolvem, sacerdotes do óleo usado, da tecnologia ineficiente, do falso debate, um mundo isolado, planificado, onde quem grita mais alto é atendido primeiro. Esta histeria suburbana, isolacionista, demagógica, nada tem a ver comigo. Hoje é preciso exigir menos, em vez de pedir mais. É necessário que os entraves à criação de riqueza sejam mínimos. Que os sistemas políticos existam para defender os indivíduos e não os grupos e as corporações. Que a cultura crie os seus próprios públicos. Que a liberdade de criação valha muito mais do que a reivindicação da continuidade. Percebi, nesse dia, a distância que me separa desse universo ferrugento, em desagregação. O tal que o meu amigo, e mais uns poucos, acreditam ainda ser o cenário do futuro.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Locatio

É sempre bom, de vez em quando, alguém me recordar o grau zero do pensamento. Apanágio da uma certa esquerda histriónica e conservadora, que se vai arrastando na ala geriátrica de um subúrbio qualquer. Desta vez, o tema fracturante dessa gente são os senhorios e a sua índole parasitária. O asinino escrevente bem se esforçou por exprimir uma ideia, uma que fosse, para uma discussão séria do tema. Em vão. Lembro então à alimária em epígrafe o seguinte: a esmagadora maioria dos senhorios são pequenos proprietários, que empregaram muitas vezes o produto do trabalho de uma vida inteira num investimento que julgavam seguro: o imobiliário. No entanto, devido ao carácter perpétuo do arrendamento, à impossibilidade de aumentar as rendas, às dificuldades no despejo (agora atenuadas com a nova lei), ao facto de estar ele, um privado, a assumir uma função social (rendas baixas) que deveria ser o Estado a fazê-lo, esse senhorio naturalmente abdicou da realização de obras e de quaisquer melhoramentos na casa. Alguns são mesmo obrigatórios, de acordo com a legislação em vigor. A mesma que impõe obras ao senhorio, dificilmente lhe permite aumentar as rendas. A nova lei foi um flop, pois em vez de incentivar o mercado do arrendamento, retraiu-o ainda mais. E são raros os senhorios que utilizaram o mecanismo dos aumentos, pois já perceberam que os procedimentos de avaliação prévios são uma armadilha para aumentar o IMI. Sei do que falo, por experiência pessoal e profissional.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Nostalgia

Durante o fim-de-semana pela capital, não desgrudei da Praça das Flores. O objectivo era apanhar o bloquista-caviar Daniel Oliveira com a boca na botija, numa das duas esplanadas existentes no local. E porquê, perguntareis vós? Muito simples: esperava vê-lo a consultar as obras escolhidas de Trotski, na mesa do canto, com ar sisudo, ou a doutrinar as massas para o assalto a um comboio, de pé em cima de uma mesa, com os olhos e as armas apontadas aos malditos Brancos, ou de joelhos, a recitar um mantra expiatório e beijar a mão ao patusco Zé, o famoso Robin "Zé" Wood, nom de guerre de Sá Fernandes, o tal que se tem dado muito bem no poder (atenção antropólogos, case study na mira!), num arroubo sentimental retirado de um drama russo de novecentos, ou a dar cabeçadas na parede enquanto gritava "eu hei-de às fuças ao Bush", intervalado por "força, Bin, vai-te a eles!", ou a andar para cima e para baixo, à maneira de Rilhafoles, preparando mentalmente as palavras de ordem a debitar na próxima emissão de "O Eixo do Mal", em prol da pintilhésima causa fracturante, fazendo-se de sonso, o gajo, incapaz de entender o mundo em que vive, ou simplesmente um só dos personagens-chave dos romances de Cossery, os tais que que só querem a paz, rir da realidade que nos impingem, que não lutam contra, mas escarnecem, o gajo, que afinal não estava lá. Provavelmente, foi liquefazer-se numa praia. Porra, já nem há esquerdalhos como antigamente.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A esquerda bloqueada

Houve recentemente uma campanha da marca Tagus, entretanto cancelada, onde se associava o consumo daquela cerveja a uma espécie de pertença a uma suposta comunidade de machos, que assim reivindicam o seu "orgulho heterossexual". No meio de dois arrotos, claro, embora essa manifestação de júbilo esteja só subentendida. Tudo isto resumidinho dá no seguinte: como marketing é fraquinho. Como mensagem é indigente. Mas a resposta veio depois. As associações do "sector" gay, lésbico e tal saltaram à carga. Indignadas porque o "seu" orgulho já existia antes ("tá aqui, registadinho, querem ver, querem?"). Portanto, como são minorias "oprimidas", têm o direito natural a uma série de sentimentos grupais que as maiorias não podem ter. As quais têm que se resignar a andar caladinhas. De preferência com ar culpado, acabrunhado mesmo. O Francisco José Viegas já veio desmistificar esta saga politicamente correcta. Em resposta, o Daniel Oliveira apareceu a defender as ditas associações, indispensáveis para as causas fracturantes do seu partido. Ora, vamos lá ver. Sou dos que sempre acharam que é infinitamente mais importante aquilo que as pessoas metem na cabeça do que aquilo que metem no cú. Sejamos claros: não creio que, no nosso país, haja tanta homofobia assim, que justifique tantos "cry babies", tanta hiper-susceptibilidade, tanta vitimização, tanta seriedade. Ela existe, é claro, mas não tem a dimensão que dizem ter. E a lei penal já acautela as discriminações nessa matéria de forma inequívoca. (ler mais)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

¿por qué no te callas?


Eis como Zapatero e o rei Juan Carlos meteram na ordem Hugo Chavez, durante a recente XVII Cimeira Ibero-Americana, realizada em Santiago do Chile. O motivo foram os insultos repetidos que este havia dirigido a Aznar. Ver aqui a notícia completa. Recorde-se-se que o vitalício presidente venezuelano se tornou uma espécie de versão local do "pai dos povos", sucessor de Fidel e arauto do niilismo raivoso e anti-globalização que certa esquerda tanto aprecia. A tal que está pronta a desculpar qualquer movimento ou regime totalitário, mesmo que de cariz fascista ou fundamentalista, desde que anti ocidental e anti-americano em particular. É o delírio. Daniel Oliveira lá vai dizendo que o homem desprestigia a esquerda internacional, mas não deixa de lembrar que Chavez, "pelo menos ainda, não é um ditador", colocando-o ao mesmo nível de Bush, em matéria de legitimidade para governar. Palavra que não sei se afirmações destas revelam simples ignorância da História, desonestidade intelectual, ou provêm de uma obstinada má-fé.

Nota: Chavez vem a Lisboa no dia 20. Segundo consta, para jantar com Sócrates e debater acordos energéticos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Ponto de ordem


Espero freneticamente pela remessa do recém publicado "O que resta da esquerda?" (ed. Aletheia), do britânico Nick Cohen, colunista do "Observer" e do "New Statesman", e que acabei agora de encomendar. Para abrir o apetite, leia-se na íntegra a entrevista dada pelo autor ao jornal "Público". Após uma leitura atenta, fica prometido um comentário neste blogue.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Myanmar - 3

Vale a pena ler esta postagem de Rui Bebiano, no "A Terceira Noite". Chama-se "A Birmânia não é aqui" e diz o essencial acerca do modo como parte da esquerda nacional se demitiu das lutas que realmente fazem sentido na actualidade. Limitando-se a correr atrás do clamor corporativo e do vazio ideológico.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O Mito de Outubro

"Outubro faz noventa anos, mas está menos agonizante do que por vezes aparenta. Na superação do seu legado – e dos grandes equívocos que produziu – encontra-se, provavelmente, a única forma de interromper a deriva autoritária e intolerante que a esquerda antineoliberal contemporânea tem sido incapaz de apagar das suas agendas." Lê-se na introdução ao primeiro de uma série de textos que Rui Bebiano está a dedicar ao tema, no "A Terceira Noite". Leitura recomendada, por supuesto.

sábado, 21 de julho de 2007

O relativismo

No último número da revista "Atlântico", publicação de que este blogue é fã incondicional, destaque para um trabalho de Carlos do Carmo Carapinha, intitulado "A Esquerda Superior". Uma análise demolidora sobre a arrogância moral da esquerda, protagonizada pelas suas patrulhas bem pensantes. É um tema já várias vezes aqui abordado: o inacreditável desplante com que a esquerda se escuda numa superioridade moral que a si própria atribuiu. Uma falácia pejada de esqueletos no armário e que a História aos poucos vai desenterrando. Afinal, o único diapasão ético passa pelo crivo de Kant: a possibilidade de determinada conduta poder ou não ser universalizada. Agora, como desde sempre, é a ânsia de poder como um fim em si e o uso que dele se faz o que realmente marca a diferença. Neste ponto, remeto para "Falsos Ídolos", de Arno Gruen. Retomando o fio à meada, diz a certa altura o autor do artigo:
A esquerda "superior" tem uma cartilha, recheada de paradigmas, proposições e deduções, que explica "tudo". E o tudo é invariavelmente isto: o predomínio do mal só pode ser sinónimo de inconsciência e/ou de não autonomia moral. A intrínseca propensão para o "mal" e para a falibilidade não a comove. Dito de outra forma, o "mal" só existe porque existem vítimas que, deixadas sem alternativa, perpetram o "mal"por via de um qualquer "mau sistema" - político, claro - que as corrompeu e conduziu ao ressentimento e ao desespero. O facto da consciência moral é, então, filho único: trata-se exclusivamente da "condição social" do indivíduo. A esquerda "superior" alcança tudo. Só ela consegue ver que, por dertás de um canalha, há sempre uma vítima: o próprio canalha. A esquerda "superior" é sempre expedita e sapiente a compreender as razões do canalha, mas desvaloriza ou desatende as razões por detrás do receio ou do preconceito das verdadeiras vítimas, ou dos que receiam ser a próxima vítima.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Os fariseus

A esquerda festiva e suburbana está a promover uma coisa chamada "Greve Geral", em exibição amanhã nos melhores estabelecimentos. É de esperar que vá bramir por mais "dinheirinho" ao fim do mês, promoções a eito, nada de coisas complicadas como a flexisegurança, que façam mover os "instalados" do empreguinho para toda a vida, uns carros de som a debitarem palavras de ordem inaudíveis, os sindicatos atarefados a inflacionarem os números dos aderentes. Em conclusão, uma autêntica "jornada de luta" contra... contra... enfim, alguma coisa há-de ser, em versão Jacques Tati da Brandoa.
Melhor só o comentário no "Incontinentes Verbais", sobre este acontecimento:
"Uns ficam em casa a coçar a barriga, como forma de luta. Outros lutam para terem uma casa onde coçar a barriga."

quarta-feira, 16 de maio de 2007

A nova velha esquerda

Ver Daniel Oliveira no programa televisivo "Eixo do Mal", especialmente no último. Que melhor exemplo para observar o que a esquerda convencional ainda consegue balbuciar, num mundo onde se limita a resistir, numa busca desesperada de heróis (o melhor que conseguiu arranjar foi o primata Hugo Chavez), caminhando para o abismo sem deixar de ignorar a erosão das figuras saídas dos sarcófagos que galhardamente esculpiram uma meta-história tristonha em tempos idos? E que insiste em exibir uma consciência solene ou festivamente limpa, preocupada em não sair de cena de um equilíbrio mundial que não compreende. Mas onde não deixa de emular uma patética peregrinação em direcção ao abismo. Sintomática, a incapacidade em aplaudir qualquer acto, qualquer modelo político que pressuponha mais sacrifícios que os que estaria disposta a assumir, em paralelo com a propensão para não perdoar a audácia de políticos predestinados ao sucesso, fora da vulgata messiânica. Pois o conhecido bloquista, notabilizado por ter jurado a pés juntos que o que se passou na praia de Carcavelos há dois anos foi uma ilusão de óptica colectiva e por ser o porta voz actual de Sá Fernandes (o "empata" do túnel), veio dizer uma coisa espantosa: Blair é uma figura menor na cena europeia, decretando logo a seguir que ficará na história unicamente por causa da Guerra do Iraque. Notável, tamanha cegueira. Blair é o político europeu que melhor compreendeu os novos equilíbrios mundiais e que melhor interpretou as aspirações tradicionais da social democracia europeia. Que assentou em três pilares básicos: um ambiente favorável para as empresas e para os negócios; manutenção de mercados abertos e com altos índices de ocupação, porque é necessário que um mínimo de 70% da força laboral de um país esteja activa para que se torne possível o financiamento que proporciona o chamado Estado do Bem estar; finalmente, um bom sistema de pensões sociais, formação profissional, educação e saúde. Foi este o programa básico da Terceira Via, a designação sob a qual promoveu as suas políticas, mediante o contributo teórico de um think thank, que teve Anthony Giddens como figura de proa. Blair conseguiu a proeza de ver reduzidos drasticamente os índices de desemprego na Grã-Bretanha, com valores próximos do pleno emprego, aumentada a competitividade da economia, mantida a qualidade e o fluxo de prestações sociais e serviços públicos, controlar as tensões sociais com origem na multiculturalidade, gerir o complicado dossier da segurança e da ofensiva contra o terrorismo. E tudo isto sem deixar o Reino Unido de ser um parceiro indispensável no processo de integração europeia. Em suma, o melhor P. M. que o R.U. já teve desde a Segunda Guerra. Sendo exemplo incontornável para grande parte da esquerda europeia de inspiração social-democrata e social-liberal. Mas pronto, Daniel Oliveira e seus compagnons de sarjeta pensam o contrário. Grande parte da esquerda francesa também. Por isso perderam as presidenciais.
Para acabar, um excerto delicioso de Norman Mailer, retirado de "Os Exércitos da Noite" (ed. D. Quixote, 1997). Diz o autor de "Os Nús e os Mortos", referindo-se a determinados liberais (em determinados contextos, o correspondente americano à nossa esquerda mais caricatural) na década de 60: "a posição ou o poder na sociedade eram, para o tecnólogo liberal, também um conceito desejável, mas sempre com a possibilidade de ser abandonado em troca de outro melhor. Eram servos daquela máquina social do futuro, na qual todo o conflito humano irracional seria resolvido, negociado todo o conflito de interesses, e a ressonância da natureza seria condensada em frequências que, confortavelmente e consoante o gosto, a pudessem ligar ou desligar. As suas salas de estar pareciam escritórios precisamente por estarem prontas a ser mudadas para a Lua a fim de formarem cidades de Utopia - sendo utopia, pode bem supor-se, o único nome apropriado para modelos-piloto da Utopia em Áreas de Estágio Não Terrestres ecologicamente Subdependentes e Francas, ou seja, planetas mortos, para onde se tenha de mandar comida, mas onde as possibilidades de bons direitos cívicos e engenharia social sejam cem por cento de truz!"

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

A sopa Campbell's


Recomendo a leitura do recente post de Rui Bebiano intitulado "A Outra Revolução", no "Terceira Noite". Um contributo decisivo para arrumar uma questão fundamental do imaginário colectivo dos últimos 50 anos: medir o impacto das novas formas de cultura popular e de afirmação individual surgidos nos anos 60. Conforme aí se diz, os anos 60 e 70 definiram-se muito mais pela afirmação da juventude enquanto grupo social portador de um padrão de vida autónomo, pelo fulgor da nova cultura popular, por uma intensa abertura no campo da moral (incluindo a construção de uma sexualidade renovada), por uma atitude estética própria e omnipresente, pela emergência dos movimentos sociais de um tipo novo, pela afirmação de um modelo de sociedade de natureza anti-disciplinar, do que pela proeminência nos processos de mudança das organizações políticas da esquerda. Isto é, a música de Bob Dylan, as provocações pictóricas de Andy Wharol, ou "a imaginação ao poder" do maio de 68, exerceram uma influência muito mais acentuada do que o "eurocomunismo", a "terceira-via" ou as inumeráveis reinterpretações do marxismo. Essa influência foi exercida essencialmente em meios estudantis e em vastos sectores urbanos, sendo decisiva, em Portugal, para a eclosão do 25 de Abril.
Bem a propósito, caberá fazer uma reflexão pessoal sobre o que significa ser "de esquerda", hoje em dia. Verifico que, nas grandes questões geo-políticas mundiais pós guerra fria e sobretudo pós 11 de Setembro, as minhas posições raramente coincidem com as da esquerda tradicional. Em relação à dimensão do Estado e ao peso do funcionalismo idem. O mesmo se diga quanto à necessidade de alteração da legislação laboral e do papel dos sindicatos, ou relativamente às politicas de emigração. Perante isto, só poderei concluir o óbvio: o vínculo que me prende à esquerda é de ordem estética, defesa da separação entre o Estado e as igrejas, apreço pelas liberdades individuais, por movimentos sociais novos e formas de vida sem delegação de responsabilidades. Do ponto de vista ideológico e programático, nada me entusiasma. Antes pelo contrário. Até mesmo os zapatistas perderam o encanto. O irrealismo e a cegueira com que encara a contemporaneidade, balizando-se atrás de uma superioridade moral que ninguém vê excepto quem a invoca, torna-a risível aos meus olhos. Vejam-se as posições tomadas em relação ao conflito israelo-árabe, situação política em Cuba, luta anti-terrorista e islamismo radical, neo-populismo de Chavez e Moralez, tumultos de ordem étnica em França (a que se seguiu a ocupação da Sorbonne como protesto contra a lei que previa a flexibilização laboral para jovens à procura do 1º emprego, que incluiu a pilhagem e o incêncio de parte da biblioteca de um departamento), a escalada nuclear iraniana, o episódio dos cartoons dinamarqueses, etc.
A esquerda, durante muito tempo, soube ser a protagonista de uma pretensão política da utopia, de uma pretensão salvífica de carácter heurístico. Que após ter conduzido ao oposto daquilo que reclamava, para muitos se tranformou numa fantasia compensatória caracterizada pela má-fé, pela reivindicação de um futuro impossível e de um passado que jamais existiu. E o presente? Para responder, é importante salientar que, por trás de muitos movimentos de rebelião inspirados no igualitarismo, está a implantação e defesa de estruturas sociais fixas e não necessariamente melhores, ou mais justas. Para sair do beco sem saída em que se recolheu, a esquerda terá que perceber cabalmente quem são os novos humilhados e ofendidos da actualidade, ser a sua voz, abandonando definitivamente veleidades meta-históricas. Terá que saber falar para todos e não para uma assembleia de paroquianos que a sustenha, sociológica ou eleitoralmente.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Os novos vendilhões do templo

Há uma certa esquerda - representada pelo respectivo Bloco, satélites, amanuenses (tipo Daniel Oliveira) e afins - que adoptou um comportamento, digamos, sacerdotal, ao reivindicar incessantemente novos territórios para um sagrado de que se julga fiel depositária.
Numa operação bem urdida, muniu-se, em primeira linha, de uma canónica legitimidade moral, que ninguém pediu, mas que a todos impõe. Depois, vai coleccionando causas atrás de causas pour epater les bourgeois, devidamente artilhadas com soundbytes cirurgicamante dirigidos. A fase seguinte é mais delicada, incomparavelmente mais subtil: se antes criou um espaço, faltava avocar um tempo. De preferência um tempo imaginário e autofágico de que se julga a única intérprete qualificada, um tempo cuja idealização alucinada serve para justificar uma espécie de pedagogia revolucionária insuportavelmente paternalista.
É a tentação heurística no seu estado puro, mas sem a utopia como pano de fundo natural. Não! A construção é muito mais prosaica e eficaz. Ofertam ao escrutínio público a versão hedonista de um consolo desde sempre conhecido das religiões: o consolo da imaginação, necessário para suportar a realidade; o auto-engano, para nos suportarmos a nós mesmos. Os novos evangelizadores do politicamente correcto dispõe assim de uma nova/velha arma: a ficção compensatória.
Veja-se, por exemplo, o caso do Arrastão da praia de Carcavelos. Segundo testemunhos directos, apareceu realmente um grupo considerável de jovens negros que importunaram quem lá estava, com danos e furtos de permeio. Se, numa primeira fase, parece ter havido algum exagero da comunicação social e do relatório policial, os dados posteriormente apurados determinaram o que efectivamente se passou. Entretanto, com zelo militante, vem a jornalista Diana Andringa desmascar o que considerou ser uma "conspiração xenófoba". Os seus esforços foram recompensados com uma resolução da AACS, em que se passa uma reprimenda aos media que noticiaram os factos e onde se determinou a fonte da "conspiração": o alarme infundado dado pelo dono de um restaurante, naturalmente xenófobo, a que as direcções dos jornais, num irresistível impulso (adivinhem) xenófobo, deram cobertura. Perceberam?
O verdadeiro "contra-arrastão" veio depois: a tal esquerda prosélita desenvolveu uma autêntica operação de branqueamento da criminalidade. Específica, é certo, mas de criminalidade, mesmo que praticada por emigrantes negros da segunda geração. Há autênticos arrastões nos comboios suburbanos, inclusivamente registados em vídeo? Não, é tudo uma construção de mentes racistas, seguindo-se o piedoso argumentário do costume: é tudo uma questão "social", étnica, de integração, etc. Para ilustrar o que descrevo, atente-se a este exemplo. Obviamente, esta fábula já foi devidamente desmontada. Aqui
De qualquer modo, a imaginação delirante destes senhores vai decerto reservar-nos mais surpresas, justificando o injustificável e promovendo o catecismo dos novos interditos. Uma perspectiva inquietante, mas que se tornará risível numa sociedade que valorize mais as liberdades negativas do que a liberdade por catálogo. Entretanto, aguardo-os tranquilamente, como quem espera que batam à porta testemunhas de Jeová ou vendedores de enciclopédias. Mas esses, ao menos, sempre acreditam no que dizem, ou no que escondem.