Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

Mostrar mensagens com a etiqueta Blogosfera. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Blogosfera. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Um ou vários?

Podemos recorrer a vários critérios para arrumar os blogues. Repare-se que falo dos blogues, não do perfil dos bloguistas, embora uma coisa desemboque inevitavelmente na outra. E o universo em análise é determinado por um patamar mínimo, firmado na qualidade e pertinência dos conteúdos. De fora estarão naturalmente os blogues institucionais. Utilizarei então o diapasão mais simples: os números. Quantos bloguistas fazem um blogue? A resposta determina, por conseguinte, dois tipos, os unipessoais e os colectivos.
  1. Os primeiros são, à partida, mais consistentes: têm a marca pessoal do autor gravada no seu ADN; traduzem uma estratégia onde um determinado modelo se torna mais facilmente perceptível, onde os sobressaltos são a excepção; exprimem uma disponibilidade e uma vastidão discursiva que um espaço partilhado não acomoda; permitem um tom confessional que uma pluralidade de vozes anularia e uma total liberdade na gestão do ritmo das actualizações, do modelo, dos comentários e do próprio fim. São, em suma, o meio mais característico e irredutível da intervenção dos cidadãos no ciberespaço.
  2. Os colectivos podem ter qualquer uma das características apontadas. Todavia, como que aparecem diluídas. Não se dá tanto por elas. Neste tipo, é o resultado compósito, a regularidade, o que relamente interessa. Mais até do que a assinatura das postagens. É óbvio que cada blogue encerra uma história particular. Sendo que, nos colectivos, tenho descoberto duas formas típicas de associação. Por um lado, aqueles que nasceram e cresceram à volta de uma projecto editorial, jornalístico, científico, ou artístico, de um movimento de opinião, de uma determinada actividade, da defesa de determinada causa, entre outras razões similares. Por outro lado, aqueles em que os seus autores quiseram dar expressão, no ciberespaço, a uma sólida afinidade pessoal e/ou ideológica. Que não é incompatível, bem pelo contrário, com uma colaboração pontual ou intermitente. Ora, quer num caso quer noutro, abundam blogues de referência, espaços incontornáveis na blogosfera lusa. Mas se a união faz a força, pode não produzir a qualidade que se esperaria. Tenho visto inúmeros casos de blogues colectivos onde desapareceu a homogeneidade (diferente de uniformidade). Onde os próprios autores polemizam entre si, percebendo-se que as suas posições são inconciliáveis e o debate prima pela aridez. Onde, no oposto, abundam as reacções corporativas. Onde a unidade gráfica degenerou numa manta de retalhos. Onde o pulsar de várias vozes descambou numa apagada e vil cacofonia.
Quer tudo isto dizer que sugiro a existência de uma graduação de valor entre as duas categorias? A resposta é claramente negativa, nem a questão é essa. Afirmo, isso sim, que começa a ver-se na blogosfera um fenómeno transportado dos meios de informação convencionais: a concentração como estratégia e condição de visibilidade. Mas, se nuns casos o gregarismo é eficaz, noutros traduz a transformação dos blogues em simples newsgroups, salas de redacção que muitos só utilizam porque sabem que têm uma audiência que num projecto pessoal não alcançariam. Isto é, a descaracterização do todo como reflexo do comodismo das partes.

domingo, 12 de setembro de 2010

A choldra não passará

Alguns esquerdalhos enfezaditos, pseudo-cosmopolitas de primeira água, mas que não descortinam para além da vidinha viscosa e das palavras de ordem de encomenda, andam a despejar comentários pretensamente relevantes neste blogue. Para que conste. A rapaziada esforça-se, é justo lembrar. Chega a esguichar um repuxo opinativo inodoro e incolor, por instâncias mais apropriadamente manu militari. Sem a meia ejaculatória do regulamento. Dá pena esta escumalha, arregimentada ao serviço da situação xuxalista-magalhónica. Mamíferos com as orelhinhas baixas para o dono e arrebitadas para o que mexe. Gente que, por um prato de lentilhas, despeja a  escolaridade obrigatória em quem realmente pensa e age sem tutelas. Quem brilha. Quem conhece outras realidades. Quem é livre. Quem preza a pluralidade. Quem está apto para comparar. Esta carneirada mansa e arrogante, à imagem do chefe da licenciatura ao domingo, é a coisa mais destrutiva, ignorante e perigosa que a Nação já teve nas últimas décadas. Que não olha a meios para assegurar os lugares, manter as influências e policiar a dissonância. São os homens do fraque do regime. Claro que aqui não passam. Dói-lhes saber que o seu pretenso progressismo por aqui aparece como um boneco de palha. Dói-lhes perceber que a sua rebeldia de marca nada mais é do que um sinal de submissão. Porque o rebelde que não sabe rir de si próprio facilmente se transforma num autocrata, como bem avisou Lawrence Durrel. Seja como for, esses cidadãos nunca tiveram nem terão aqui lugar. A não ser como bobos da festa. Para isso, voltem sempre!!!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O sétimo dos pecados

Longe vão os tempos das esconsas casa de passe, dos prostíbulos manhosos e até mesmo dos coloridos e aveludados bares de alterne. Assim, quem pretenda andar ao fanico, andar em manobras, andar às gatas, ir ao fado, ir a manos, ou ir para leste, o melhor é recorrer às novas tecnologias. Até aqui, nada de novo, presumo. Mas se for esta a via escolhida, já chateia andar a navegar pelos sites porno e aparecerem  invariavelmente umas janelinhas de adware faiscantes. Ornadas com umas beldades ansiosas por um "bate papo com você" no chat online, enquanto meneiam algumas partes suculentas, ou falam mesmo ao telefone na Sala Oval com um desconhecido. Claro que se encontram inevitavelmente nas redondezas da área geográfica do IP utilizado. O engraçado é quando o servidor em causa está localizado numa aldeia recôndita. Ocasião em que 20 ou 30 ninfas locais suspiram pelo incauto na Merdaleja de Baixo! Nunca a máxima dos ecologistas "Pensar globalmente e actuar localmente" soou tão a propósito! 
Todavia, para os saudosos da mancebia de antanho, existe uma alternativa de tirar o chapéu. Sendo que até é essa precisamente a peça de vestuário mais usada no assunto em questão. Trata-se da utilização da blogosfera como local de oferta de serviços sexuais. Com efeito, abundam blogues que nada mais são do que agregadores de anúncios até agora só encontrados nos jornais. Como exemplo, até porque diz respeito à cidade onde vivo, apresento-vos o blogue Guarda Erótica. Como subtítulo, aparece "montanhas de prazer". Bem caçado, diga-se de passagem. Nos entrefolhos dessa particular orografia, há de tudo um pouco: quem tenha acabado de chegar com um corpinho de arrasar, uma viúva carente em chama, a carla bumbum guloso, o natural convívio sem pressa, uma colombiana irrestível peluda que adora tudo, a Sandra trintona meiga sensual e tarada, uma espanholada que não se sabe ao certo o que é, presumindo-se que nada tenha a ver com carapaus, alguém com amiga atrás tudinho... Tudo isto com umas fotografias pelo meio, para aguçar o apetite. O site dispõe ainda de uma zona gay e outra para casais. Na primeira, aparece um simples anúncio referente a... um travesti. Na segunda, não prolifera o swing mas outro tipo de práticas, mais do tipo voyerista. Como se nota, nas serranias, mesmo que do prazer, ainda imperam a circunspecção eclesial e as públicas virtudes.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O mobbing dos remediados - 3

Escrever um artigo, depois de algum labor investigador, deixando de lado as feromonas e insistindo num certo depuramento opinativo. Ter tudo pronto, corrigido e revisto. Porém, no último momento, carregar na tecla errada. E eis o desastre a acontecer, numa fracção de segundo. Ou seja, ocorreu o pior pesadelo, o écran branco, sem remissão. Aconteceu-me outro dia, após ter escrito uma crítica ao último documentário de Jorge Pelicano, "Pare, escute e olhe", sobre o qual tenho muitas reservas, para editar aqui no blogue. Um dia destes reconstituí-lo-ei, pois a memória não perdoa.
A propósito, recentemente escrevi um comentário noutro blogue, a propósito do mesmo filme, onde expus as minhas razões. Logo a seguir, veio o comentário de um anónimo, destes que pululam nas caixas de comentários como se chafurdassem no seu elemento natural, o curral. O patusco disse que eu era "fassista", saudoso de uma primavera que não percebi bem qual e imputando-me uma linhagem nobilitante que, para minha estupefacção, me foi até hoje sonegada. E que incluía Telles, com dois lês, entre outros. O desespero de não ter um único argumento, ou sequer uma ideia, foi assim compensado com a "valentia" de um ataque sem rosto. Quem o faz, sabe melhor do que ninguém porque se esconde. Nada de novo, é claro. Já disse aqui e aqui, o que penso sobre esta fauna suína das caixas de comentários. O que significa que não me vou sequer repetir. Mas neste caso quis ir mais longe. Analisei detalhadamente as características morfológicas e ortográficas da escrita, bem como os pontos de fervura mais recorrentes, os enlaces ideológicos, as idiossincrasias, os lapsos, de dois ou três comentadores habitués desse blogue. Sobraram dois. Um é um ilustre comediógrafo e cronista com ligações à Guarda, notabilizado pela irracionalidade e pelo ressentimento. A obesidade correspondente da eminência decerto esconde a dimensão liliputiana do seu talento, mais em baixo. Sobretudo do próprio. O outro é um obscuro ambientalista, de que me ocuparei noutro post, dedicado aos insectos voadores. Há ainda a forte possibilidade de o comentário resultar de um personagem multi identitário, um fenómeno conhecido da blogosfera. Seja como for, neste episódio os meus objectivos foram plenamente conseguidos. Ao torpedear o unanimismo e o pensamento único, realidades que imperam em certos meios, na Guarda e fora dela, veio imediatamente o troco. A virulência da reacção, só suplantada pela sua indigência, demonstrou que toquei na ferida.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A cegueira

Só um cego não percebeu que o jogo com o Galatasaray proporcionou a pior exibição do Benfica dos últimos tempos. Foi um autêntico banho de bola da equipa turca. Eu nem queria acreditar naquilo. Ao longo do jogo, viu-se claramente que as opções tácticas e o rendimento da equipa foram medíocres. E que, ou Quique Flores altera o esquema de jogo, ou os dissabores mal começaram. E o que faz a blogosfera benfiquista, perguntareis? Pois bem, uns organizam jantaradas monumentais, com imensas palmadinhas nas costas e, com um grão na asa, tiradas fadunchas e lacrimejantes, num meio termo entre as farras descritas em "A Capital" de Eça e um filme português dos anos 30/40. Outros, por sua vez, andam ofegantes em caçadas no Alentejo, depois do tal jantar. Isto cheira-me a seita. Enfiar a cabeça na areia e esperar que as antigas glórias se repitam. Entretanto, não vejo ninguém, a não ser Bruno Carvalho, no "Novo B enfica", de que sou leitor habitual, reflectir seriamente no que está mal no clube e na equipa. Sem esse exercício, isento de desculpas externas, o Benfica tornar-se-á uma banal sucursal de Fátima.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

U qui diz mulelo (3)

Tomei conhecimento, por terceiros, de que um obscuro blogue da Guarda, certamente com problemas de audiências, me "dedicou" um autógrafo e uma caricatura. Ups! E logo sem avisar! O autor teria sido um "fotógrafo" recentemente premiado, que não gosta de ver a sua "arte" criticada e de que já esqueci o nome. Demonstrado ficou agora que é também adepto do engraçadismo e da pulhice. Com o beneplácito dos seus comparsas "egitanos". Para a posteridade, a lembrança da sua credibilidade nula, enquanto cidadão e enquanto blogger.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

sábado, 4 de outubro de 2008

Alojamento de artistas

A Pensão Ulisses é a última e afortunada descoberta deste blogue. É grátis para quem não tem medo de atirar fora as certezas. Os alojamentos são do melhor. O bom gosto e a sobriedade predominam. Os muitos temas em circulação são quase sempre perigosos, polémicos, controversos, mas sempre apresentados com elegância, retocados com uma pincelada crítica, luminosa e doce.
Todos os quartos têm uma ampla vista para o mar, comme il faut, e estão de costas viradas para os horizontes remotos do socialite literato, a pequenez das cidades pequenas, dos espíritos pequenos, de muitas revistas culturais. Para lá chegar, basta bater aqui ao lado, nos favoritos. Entre e deixe-se ficar, só ou acompanhado. Boa estadia.

O mobbing dos remediados - 2

Ainda a propósito do episódio que aqui relatei, o qual originou um fenómeno localizado de "troll", fui buscar as palavras sumamente apropriadas de Pacheco Pereira, num texto de 2006, que aqui poderá ser lido na íntegra. E sobre o tema em concreto, I rest my case, remetendo para o disclaimer ao lado, na caixa informação/contacto.

"No caso português, os comentadores não parecem ser muitos, embora a profusão de pseudónimos e nick names, dê uma imagem de multiplicidade. São, na sua esmagadora maioria, anónimos, mas o sistema de nick names permite o reconhecimento mútuo de blogue para blogue. Estão a meio caminho entre um nome que não desejam revelar e uma identidade pela qual desejam ser identificados. Querem e não querem ser reconhecidos. (...)
Imaginam-se como uma espécie de proletariado da Rede, garantes da total liberdade de expressão, igualitários absolutos, que consideram que as suas opiniões representam o “povo”, os “que não tem voz” os deserdados da opinião, oprimidos pelos conhecidos, pelos célebres, pelos “sempre os mesmos”. São eles que dizem as “verdades”. Mas não há só o reflexo do populismo e da sua visão invejosa e mesquinha da sociedade e do poder, há também uma procura de atenção, uma pulsão psicológica para existir que se revela na parasitação dos blogues alheios. Muitos destes comentadores têm blogues próprios completamente desconhecidos, que tentam publicitar, e encontram nas caixas de comentários dos blogues mais conhecidos uma plataforma que lhes dá uma audiência que não conseguem ter.
Não são bem “Trolls”, sabotadores intencionais, mas tem muitas das suas formas perturbadoras de comportamento. A sua chegada significa quase sempre uma profusão de comentários insultuosos e ofensivos que afastam da discussão todos os que ingenuamente pensam que a podem ter numa caixa de comentários aberta e sem moderação. Quando há um embrião de discussão, rapidamente morto pela chegada dos comentadores compulsivos, ela é quase sempre rudimentar, a preto e branco, fortemente personalizada e moralista: de um lado, os bons, os honestos, os dignos, do outra a ralé moral, os ladrões, os preguiçosos que vivem do trabalho alheio, e dos impostos dos comentadores compulsivos presume-se. O que lá se passa é o Far West da Rede: insultos, ataques pessoais, insinuações, injúrias, boatos, citações falsas e truncadas, denúncias, tudo constitui um caldo cultural que, em si , não é novo, porque assenta na tradição nacional de maledicência, tinha e tem assento nas mesas de café, mas a que a Rede dá a impunidade do anonimato e uma dimensão e amplificação universal.
O que é que gera esta gente, em que mundo perverso, ácido, infeliz, ressentido, vivem? O mesmo que alimenta a enorme inveja social em que assentam as nossas sociedades desiguais (por todo o lado existe este tipo de comentadores), agravada pela escassez particular da nossa. Essa escassez não é principalmente material, embora também seja o resultado de muitas expectativas frustradas de vida, mas é acima de tudo simbólica. Numa sociedade que produz uma pulsão para a mediatização de tudo, para a espectacularização da identidade, para os “quinze minutos de fama” e depois deixa no anonimato e na sombra os proletários da fama e da influência, os génios incompreendidos, os justiceiros anónimos, o “povo” das caixas de comentários, não é de admirar que se esteja em plena luta de classes."

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O mobbing dos remediados

Tenho dado conta, pelos comentários que tem deixado nestas páginas, da presença assídua de um aficionado da prática do blog hopping. O termo refere-se precisamente à navegação compulsiva de uns blogues para outros, com o único propósito de ler e/ou deixar comentários. Neste caso, o/a autor/a utiliza uma linguagem do tipo demencial, apresentando notórias deficiências ao nível da sintaxe e da ortografia. Além disso, assina sempre com nomes diferentes. Porém, o tipo de linguagem denuncia uma origem unipessoal e esquizóide. Trata-se de uma espécie de mobbing muito comum nas caixas de comentários. Promovido por pessoas a necessitarem urgentemente de cuidados ao nível da saúde mental. Ou então, podiam usar um dístico na testa, como o que uma vez observei numa t shirt: "estivemos um bocado mal, mas agora já estamos todos curados, obrigado." Seja como for, neste blogue ficarão à porta.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Boas notícias

Eis alguns exemplos de histórias com final de princípio feliz. Verdade verdadinha:

1. O Manuel foi colocado algures no Estoril. Bolasss!

2. O Américo deu a conhecer à Guarda as suas gotas de auto-estima-te. Não é água benta, mas uma espécie de sertralina auto-insuflável que a cidade deverá consumir em abundância. Pois não se esperam milagres, a não ser que...

3. O Sérgio descobriu mais um entusiástico momento Chavez.

4. Experimentei o sensacional Spice Gold e em verdade vos digo, meus irmãos: é de estalo!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Mais coleccionador

O coleccionador não pára. No seu vastíssimo entendimento, a morfologia e a sintaxe são uma e só coisa. Pois estar em relação a é o mesmo que integrar uma categoria. O coleccionador é o torrencial e compulsivo taxinomista da actividade cultural. O seu conhecimento abrange um pouco de tudo em geral e nada de nada em particular. O problema é que o coleccionador não consegue suster a sua diarreia informativa. Ele caga cultura como quem vai às compras. Só ele domina a terminologia musical, cinematográfica, literária, visual, informativa. Se alguém tem uma opinião diferente acerca dos seus ícones, aparece logo com ar professoral a corrigir os desvios ao gosto. Ao gosto dele, entenda-se. Só ele é que sabe, só ele é que pode ter opinião, só ele é que pode operar os conceitos onde se encerra e de onde exerce o seu magister dixit de paróquia. O coleccionador está condenado a ser o sampler de si próprio. Como não tem talento artístico, nem rasgo que se veja, se ouça, ou leia, é incapaz de rupturas. Mas lá se vai mantendo em circulação, como polícia conceptual, guarda nocturno do embuste, vigilante do império da imagem e da vacuidade, o seu alimento de mutante, de agiota da arte, de mestre escola sem alunos e sem cheiro.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Os blogues e o poder

As áreas do poder que mais me interessam são, chamemos-lhe assim, as da pesada. Essas em que há alguma coisa que se pode fazer e nas quais se pode mudar. Portanto não é matéria sobre a qual eu reflicta, se acontecer aconteceu, se não acontecer não aconteceu. Uma coisa lhe digo: não tenho nenhum farol nem nenhum fundo do túnel a dizer "quando deixares de fazer aquilo que fazes, vais fazer outra coisa qualquer e isso significa um upgrade".

Pacheco Pereira, em entrevista ao DN de 27 de Julho, aqui na íntegra

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Ainda o coleccionador

O coleccionador, essa figura ímpar da blogosfera, continua a exibir a sua sumptuosa ignorância, mascarada atrás de uma profusão de referências inesgotável. Será que ele ouviu, viu ou leu tudo aquilo que, assevera, pode alterar a existência de quem o faz? Não acredito. Até porque, ao contrário do coleccionador, quem realmente reflecte sobre o mundo em que vive, acaba por se deter na espessura dos objectos de cultura que consome. E usa-os como meios de transformação efectiva. E percebe que a sua única utilidade é uma fermentação sincera, poderosa da acção. O coleccionador, é bom não esquecer, não se detém em torno de uma resposta que não encontrou. Que ideia! Pelo contrário, para prevenir o embaraço, promove uma dúvida à certeza seguinte, continua e sistematicamente, numa voragem imparável. A diarreia de coleccionador é ilimitada. A cultura é o seu laxante: imagens atrás de imagens, coelhos a saírem sem parar da cartola, clips do you tube às resmas, discografias impensáveis... "As coisas que ele vai buscar!", soletram, com a boca escancarada, as costureirinhas e os gremlins da cultura. "O gajo deve ser mesmo culto!", proclamam os néscios urbi et orbi. Sem nunca suspeitarem, uns e outros, que o preclaro brilhantismo não passa de uma estratégia de instalação para um ego insuflado até à demência. Uma espécie de compulsão em afirmar ad nauseum que a sua pila é maior do que todas as outras do ginásio. O coleccionador é o copista dos tempos modernos. Só ele conhece, guardada às sete chaves, a côncava funda da sua efectiva e mesquinha ignorância do mundo. Só ele?

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O vómito (2)

Neste texto levantei algumas questões que tiveram eco aqui e aqui (João Tunes fala, com propriedade, em "fuzilaria contra os blogues"). Todavia, gostaria de acrescentar mais qualquer coisa. Esse imperativo surgiu com novo visionamento do programa da SIC em causa, quando deparei na obsessão de MST em que fosse exigida a identificação a quem registasse um blogue. Quanto ao patético desempenho a que Moita Flores e Rogério Alves se prestaram, sob a batuta do apresentador, insistir no episódio é pura redundância. Voltemos a MST. Afinal, de que é que este senhor tem medo? Para responder, convem começar um pouco atrás. No séc. XIX e primeira metade do séc. XX, a notoriedade pública nos meios intelectuais acontecia, em grande medida, ou depois de um percurso solitário e em ruptura com o cânone, ou através do filtro da polémica, de um movimento concertado, com forte pendor ideológico. É claro que notoriedade não significava, então como agora, o mesmo que qualidade. Essa encontra-se sobretudo através do decurso do tempo. Seja como for, essa notoriedade pública tinha também uma projecção social. Pelas mesmas razões porque a afirmação social necessitava quase sempre de uma caução "cultural". Em qualquer caso, a notoriedade não era nunca um processo imediato, pois passava por vários crivos. Hoje, tudo se passa de modo diferente. Numa sociedade aparentemente aberta, onde a velocidade dita as sua regras sem concorrência, a meritocracia continua a ser um padrão anglo-saxónico e nórdico, ainda com pouco significado no nosso país. Aqui, a paroquialidade é genética e a ambição proporcional à dimensão espacial. Portanto, não é difícil alguém fazer-se notar onde, por um lado a complacência e o elogio mútuo das capelinhas, por outro a inveja sibilina e mortífera, funcionam como as duas faces da mesma moeda. A notoriedade é hoje, em todo o lado, uma característica intermitente e sujeita a constante validação. Não se adquire e pronto! A especificidade nacional encontra-se tanto no seu modo de aquisição, onde a intervenção da reverência e das influências domina, como na forma como ela se preserva. E aqui desempenham um papel fundamental os modos de legitimação operados pela crítica. Trata-se de um universo onde prevalece a categoria dos provadores. Ou seja, aqueles que assentam e legitimam os seus juízos no seu próprio gosto ou paladar artístico ou ideológico. Gosto disto, não gosto daquilo: os seus argumentos, logicamente, remetem-nos para as suas sensações e impressões. Para este tipo de críticos, a literatura, a arte e o comentário jornalístico reduzem-se a um simples intercâmbio de privacidades e a sua função reduz-se a estimular ou travar o consumo. Como o gosto pode ser bastante menos pessoal do que o narcisismo nos poderá fazer crer, o gosto destes críticos coincide, quase sempre, com o gosto dominante. Abundam e sobrevivem bem no mercado, sobretudo se conseguem – tarefa não fácil – associar um tom radical à expressão do seu gosto, mas que, ao mesmo tempo, não questione o gosto hegemónico. Podem ser encontrados um pouco por todo o lado, nos media, nas tribunas, nas cátedras, nos próprios blogues. (ler mais)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O vómito

A SIC transmitiu recentemente uma "reportagem" sobre a "os perigos da internet". O objectivo era notoriamente simples: denegrir a imagem dos blogues e da blogosfera; apagá-la como espaço comunicacional incontornável; aplicar os tiques e a miséria moral de alguns a toda uma comunidade em rede, que muito tem feito para o aparecimento de um verdadeiro espaço público no nosso país. E tudo isto imitando, precisamente, os métodos e as característica mais censuráveis da blogosfera. Tudo começa com declarações do "impoluto" Miguel Sousa Tavares, acusado de plágio num blogue, mas que enfia todos os bloggers no saco do anonimato e da cobardia. Repare-se, sobretudo, no facciosismo do pivot televisivo, acicatando os convidados à diabolização dos bloggers, identificando-os à partida como perversos sexuais, uma amálgama de mal-dizentes ressabiados e invejosos a que ninguém escapa, etc. Seguindo esta linha, os weblogs albergam unicamente o boato, a desinformação, a calúnia e a devassa da vida privada. O subtexto desta inanidade que passa por jornalismo era: "Olhem só esta cambada de malandros, estão mesmo a pedi-las! Um lápis censório vinha mesmo a calhar! Para ficarem a saber que o respetinho é muito lindo!", etc. Por outro lado, José Gameiro, o único convidado que contrariava o tom pretendido, era invariavelmente interrompido ou silenciado. Quer Moita Flores (um dos opinadores oficiais do regime), quer Rogério Alves, afinavam pela desonestidade intelectual, pela vitimização e pela censura no ciberespaço. Chegou-se ao cúmulo de incluir nas actividades correntes da blogosfera o branqueamento de capitais, o tráfico de armas e a formação de terroristas!... Já se sabia que os jornalistas sempre olharam para a blogosfera como se fosse o quintal das traseiras da respeitabilidade. Precisamente até editarem um blogue. Como é hoje a regra. Passaram então a importar para os jornais os piores hábitos da blogosfera. Esquecendo-se que as regras intrínsecas desta são distintas das dos meios de comunicação convencionais. Por outro lado, o alarmismo induzido contra os blogues, promovido por quem deveria analisar este mundo com serenidade, acaba por denunciar o pavor sentido por algumas figuras públicas - produzidas pela indigência televisiva, pelo défice crítico, pelo espírito de seita, pelo manto do amiguismo, pelo discurso oficial seguido informalmente pelos media tradicionais, pela genuflexão pavloviana, pela auto complacência, pelos sindicatos do gosto - de que o seu valor seja realmente escrutinado por uma opinião pública informada, livre e aberta. Em resumo, qualquer semelhança entre jornalismo sério e esta miserável emissão é pura coincidência.

domingo, 18 de maio de 2008

Lembrete

Ainda o coleccionador, esse capataz do espectáculo (na acepção de Debord), essa picareta cibernética que fala sobre tudo com a familiaridade de um demiurgo, esse grossista da produção cultural, que apresenta as suas escolhas por atacado, sem qualquer distanciamento crítico, esse case study essencial da blogosfera, não pára, não pode parar, quer espremer o seu não-ser até à demência, porque sabe que, ao voltar-se um momento que seja e com honestidade para dentro de si, não encontrará lá nada, a não ser fiapos viscosos de vaidade no meio do deserto, quer ser o primeiro a chegar, sempre o primeiro, enquanto ostenta os seus troféus como se fossem estandartes de um conhecimento que se resume a erudição wikipédica, circular, que nunca vai além da epiderme, que nunca toca na linguagem, que rodopia incessantemente numa vertigem autofágica, onde o silêncio não tem lugar, pois é o verdadeiro inimigo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Navegar é preciso

O 25 de Abril vale também pelo simbolismo que carrega consigo. Assim, trouxe também uma alteração editorial neste blogue. Nada mais nada menos do que o regresso da caixa de comentários. Os quais, como poderão, de resto, os leitores verificar, foram suspensos de há três meses para cá. As razões que invoquei na altura mantêm-se. Mas a elas se sobrepôs a evidência de que a blogosfera é um espaço interactivo. O que quer dizer que, se os resultados não forem os esperados, voltará o modelo anterior. Não é um "disclaimer", mas é quase. Obrigado.