Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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sábado, 24 de dezembro de 2011

Feliz Natal


"It´s a Wonderful Life" (1946), de Frank Capra, com James Stewart e Donna Reed

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Tábua de marés (44)

"Deus, Pátria, Autoridade". Trata-se de um documentário de Rui Simões, produzido em 1975 a partir de imagens de arquivo. E que pretende ilustrar a marcha da história no Portugal do séc. XX, especialmente a partir do declínio do Estado Novo. O título advém da invocação da célebre trilogia durante um discurso de Salazar, em 1936. Este registo constitui uma pérola da propaganda difundida por círculos ligados ao PCP, durante o PREC. O conteúdo programático não deixa lugar a dúvidas. Lê-se como um livro aberto. A ganga marxista está lá toda: a luta de classes, onde o "povo" aparece sob a forma de anjos imaculados arrotando palavras de ordem e palitando os dentes depois de uma sande de coiratos; a "burguesia" como uma galeria de personagens sinistras, fúteis, sádicas, que vivem para explorar o "bom selvagem" proletário. Os mesmos que detêm os "meios de produção" e tomaram conta da superestrutura política e ideológica (o Estado Novo e o "façismo"). Os mesmo que sustentaram uma guerra colonial destinada a assegurar os "lucros" de meia dúzia de exploradores e colonialistas sanguinários (neste ponto é curioso estabelecer uma comparação entre o rigor e a competência do documentário "A Guerra", de Joaquim Furtado e esta peça propagandística). Uma fábula onde só há os "bons" e os "maus". E com um final feliz, para sossego das consciências: a "evidência" da superação do materialismo dialéctico, o créme de la créme da vulgata marxista. Como? Pois bem, através do "fim da luta de classes", da marcha inexorável da história, conduzida na altura pela V Divisão, os governos do General Vasco Gonçalves e um vasto lumpen ululante, devidamente pastoreado pelos factotum comunistas. Era este o cenário que se perfilava no momento. Uma peça para um único personagem, "o povo escolhido", isto é, o proletariado. Formado pelo operariado fabril, intelectuais "progressistas", camponeses pobres", assalariados rurais e alguns burgueses transviados, depois de feito o indispensável acto de contrição. Neste ponto, a pequena-burguesia foi convenientemente silenciada, pois esperava-se que fosse a reboque dos actores privilegiados da História. Também a saga reivindicativa que hoje subsiste nos meios ligados ao PCP: os culpados são sempre os outros, o ressabiamento, a menoridade cívica, a endogamia. Para os comunistas, o uso das capacidades próprias e a iniciativa individual como factores de criação de riqueza são olhadas com desprezo; a essência dos indivíduos é determinada pela sua existência social, enquanto actores colectivos, convenientemente ensaiados para um só palco, a História pré-determinada e finalista. Depois, há pormenores deliciosos, como a desconfiança perante a autogestão, vista como um perigoso desvio pela ortodoxia pró-soviética. Ou os momentos em que é dada a voz ao bom povo, que papagueia um guião tosco e "normalizado", generosamente fornecido pelos agentes do aparelho comunista e engages avulso em voga na altura. O expediente mais não é do que uma forma insidiosa de paternalismo, ideologicamente orientado. Por último, a ira de um agricultor ribatejano, depois de lhe terem tirado a posse da sua terra, após uma questão judicial. Se a equipa de realização estivesse mais atenta, daria conta de que os desabafos perante as câmaras deste João Semana têm a ver unicamente com uma disputa de propriedade, cujo direito ele invoca urbi et orbi. Ora, segundo os comunistas, a propriedade é um roubo, uma indignidade. Enfim, distracções... Esta obra é, digamos, um poderoso registo acerca da cartilha marxista-leninista aplicada com fervor à revolução em curso em 1975. Está lá tudo o que é preciso saber sobre uma doutrina e uma prática política que quase triunfaram em Portugal. Não sem alguma ironia, um filme com propósitos documentais acabou por ser o melhor testemunho do ambiente político e ideológico que o determinou.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Pólvora seca

Há dias, passou uma emissão do conhecido Jay Leno show, onde a convidada principal foi Cameron Diaz. Nem de propósito, pois tinha acabado de ver o "seu" penúltimo filme, "Dia e Noite" ("Knight and Day"), onde contracena com Tom Cruise. A entrevista propriamente dita foi algo desinteressante, por muito que o apresentador tentasse "animar" a plateia. A páginas tantas, depois de umas remexidelas langorosas na cadeira, a actriz revelou a sua faceta desportiva, no segmento radical. Nem mais. A voz emprestada da Princesa Fiona no "Shrek para Sempre" deu então um arzinho da sua graça. Ao confessar a sua predilecção por desportos náuticos. De preferência longe da costa, mas com ela à vista, não vá o diabo tece-las. Altura para o escriba aqui fazer um trocadilho engraçadote e bem apropriado entre cabotagem e cabotinismo, o que dá algo parecido com "cabotinagem"... Mas adiante. Ao longo dessa parte da conversa, proezas marítimas à parte, a actriz lá ia fazendo umas insinuações sobre fotografias suas em bikini. Sendo que  não permitiu que Leno mostrasse uma delas no programa, facto que não deixou de sublinhar.  Oportunidade para referir  outras fotografias, very special, onde aparecia em trajes menoríssimos e que tinham grande procura junto do público, segundo a própria. Isto enquanto se meneava com ar deliciado, de uma sonsice católica, à mistura com uns trejeitos impostos pelo star system, mas notoriamente pouco credíveis. Do tipo: "queriam ver mamocas e o meu rabiosque, queriam?" "Isso é que era!"  "Tendes muito que pedalar!" "Olhem que eu sou virtuosa nos dias ímpares, vale?" "Nos outros logo se vê..." Percebi nesse momento a razão de ser do "diaz" no seu nome, sabendo-se que o pai da actriz é cubano. Mas nada de confusões. Pruridos étnicos estão de fora nesta redacção. O que me traz aqui é a evidência de uma herança cultural ibérica, visível, ainda que de forma  extremamente subtil, na linguagem (em sentido amplo) da actriz. Ou seja, a marca de um pudor não assumido completamente,  de um jogo de sombras ambíguo, cujo poderoso erotismo, em vez de impregnar os sentidos, é destruído, em última instância, pela competência atlética exibida por quem dele deveria ser o centro.

domingo, 18 de julho de 2010

Filmes para uma vida (3)



"Breakfast at Tiffany's"  ("Boneca de Luxo", 1961), de Blake Edwards

Com: Audrey Hepburn, George Peppard, Buddy Ebsen, Patricia Neal;
Produção: Paramount Pictures

Esta comédia melodramática constitui um dos maiores sucessos da história do cinema. Embora intemporal, soube ser  também o retrato de uma época e vê-se hoje com a mesma frescura de há 50 anos.  O filme recebeu dois Oscares: Melhor Banda Sonora e Melhor Canção (Moon River). Hepburn foi nomeada para melhor actriz principal.
A película baseia-se no livro homónimo de Truman Capote, de 1958, que se veio a tornar um verdadeiro clássico da literatura americana contemporânea. A obra foi reeditada entre nós em 2009, sob a chancela da D. Quixote, com o título "Boneca de Luxo".  A versão cinematográfica alterou bastante o argumento do livro. Algo que desagradou muito a Capote, especialmente a solução encontrada para o final.
Blake Edwards é um prolixo realizador, conhecido sobretudo por ter sido o criador da série Pantera Côr de Rosa. Mas para lá da comédia, de que o genial "The Party", com um inesquecível Peter Sellers, é exemplo maior - um filme cujo humor absurdo e obsessivo evoca Jacques Tati - experimentou o drama e mesmo filme de terror ("Experiment in Terror", 1962). Depois do seu casamento com Julie Andrews, é opinião corrente entre os críticos que a sua produção decaiu de qualidade.
Holly Golighly é a personagem principal de "Breakfast at Tiffany's". Protagonizada  por Audrey Hepburn, numa interpretação inesquecível. Deslumbrante, espirituosa e ternamente vulnerável, imprevisível, inquieta as vidas dos que com ela se cruzam. Mesmo usando uma voluptuosidade bastante esbatida em relação à personagem original, aqui substituída pela ingenuidade e pelo humor, não recua diante de expedientes para sobreviver e de planos para triunfar. Para uma história que é um autêntico libelo à sedução e, porque não, à amizade.A primeira escolha do realizador recaiu sobre Marilyn Monroe, a instâncias de Capote, que terá pensado nela como a actriz perfeita para reencarnar Holly. A que não terá sido estranho a partilha de uma vida de dissipação entre ambos.O primitivo realizador pensado pela Paramount para ao filme foi John Frankenheimer. Todavia, acabou por valer a escolha de Edwards, ao que parece imposta pela actriz.
A extraorinária banda sonora de Henry Mancini foi determinante para o sucesso da película. O tema principal, "Moon River" (composto em co-autoria com Johnny Mercer), passou imedatamente a clássico, mal o filme estreou. Moon River foi gravado em 500 versões diferentes e vendeu um milhão de cópias logo na edição original.
Há sequências no filme verdadeiramente emblemáticas. Pondo de parte a icónica serenata à janela de Holly, ressalta o plano-sequência da festa em sua casa. Os encontros mundanos eram tema corrente em certo cinema produzido nesta época. Basta lembrar o "Oito e Meio" e o "La Dolce Vita" de Fellini, o "La Notte", de Antonioni, mas sobretudo os primeiros filmes de Cassavetes, de que "Shadows" e "Too Late Blues" são exemplos maiores. Eram sobretudo uma oportunidade para a inovação estética, para mostrar o desembaraço nos costumes, para o humor, para os encontros inesperados e as declarações intempestivas.


terça-feira, 20 de abril de 2010

Eyjafjallajokull

Antes

Depois

Será que este vulcão islandês, que projectou a sua cólera sobre o mundo desde 14 de Abril, poderia ter outro nome? Podia, mas não era tão cómico para um não indígena tentar pronunciá-lo. Será que poderia ter sido um bocadinho mais discreto? É claro que podia. Mas já que enveredamos pelas comparações, basta ficarmos pela maior catástrofe vulcânica de que há memória: o Krakatoa, em Agosto de 1883, numa ilhota indonésia entre Java e Sumatra, que a violência inimaginável da explosão praticamente fez desaparecer. A última erupção foi ouvida na Turquia e no Hawai e rebentou os tímpanos a quem se encontrava num redor de 15 Km. O manto de cinzas e poeira expelidas pelo colosso cobriram o globo durante cerca de ano e meio, provocando alterações climáticas e no ciclo solar. Os efeitos projectaram-se na própria arte, uma vez que, dizem os entendidos, o estranho céu do celebérrimo "Grito", de Munch, foi o mesmo que o artista pode observar nos céus da Noruega, um ano depois da erupção. O efeito do tsunami, com ondas de quase 40 metros, foi sentido inclusive no Canal da Mancha. Como vêm, mesmo num vulcão a discrição é relativa. Por último, não podia o Eyj...... ter uma sonoridade mais doce, mais apropriada a uma espécie de justiça divina, luminosa? Podia, sim senhor! E não seria tudo diferente, se agora falássemos do Vesúvio, do Etna, de Stromboli?... Espera aí!!!... Stromboli? Sim, a "terra di Dio", essa, filmada por Rosselini em 1949. E convenientemente habitada por um anjo, Ingrid Bergman... Ou seja, para bem da eternidade.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O raid berlinense

A partir de domingo e durante 4 dias estarei em Berlim. Do programa de festas, para além do circuito obrigatório, consta uma visita à Filmhaus, um complexo que alberga o Museu do Cinema e da TV e o Arquivo Nacional do Filme (Deutsche Kinematek). O qual oferece, entre outras iguarias, exibições contínuas numa permanente retrospectiva dos grandes momentos da cinematografia alemã, de Robert Wiene à diva Dietrich, da produção menos conhecida durante a república de Weimar (1918-33) até aos ícones de Riefenstahl. O créme de la créme será uma visita à exposição "The complete Metropolis", um making-off fotográfico e pictórico desta opus magnum de Fritz Lang. Pena é que a 60ª edição do Berlinale (Festival de Cinema) tenha acabado no dia 21. Enfim, não se pode ter tudo...
Outra cartada na manga é um percurso de bicicleta, organizado e com guia, acompanhando durante vários kilómetros o traçado original do Muro, com passagem pelos locais mais emblemáticos. Entretanto, fiquei hoje a saber que me esperam duas (?) festas de boas vindas em casa de pessoal amigo onde vou ficar. No desiderato, já não vou levar o cachecol do Glorioso, pois tal seria encarado como manobra provocatória...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Filmes para uma vida (2)


Os Filhos da Noite ("They Live by Night", 1948, 95'), de Nicholas Ray

Com: Cathy O'Donnell, Farley Granger, Howard Da Silva, Jay C. Flippen, Helen Craig, Will Wright, Ian Wolfe; Argumento: Charles Schnee e Nicholas Ray, segundo o romance "Thieves Like Us" de Edward Anderson; Produção: RKO Radio Pictures.

Comentário: Bowie (Farley Granger) é um jovem que acaba de fugir da cadeia com mais dois comparsas. Juntos dedicam-se a assaltar bancos no Midwest. No entanto, Bowie nada tem a ver com os outros, violentos e sem escrúpulos. Numa das casas "seguras" onde o bando se refugia, oferece a Keechie (Cathy O'Donnell) um relógio. Começa assim uma das uniões mais ternas do Cinema americano da década de 40. Mesmo sabendo que será dificil provar a sua "normalidade", já que o sensacionalismo dos media e a desenfreada caça ao homem criou uma histeria colectiva, Bowie mantém ainda a sua inocência. Mesmo depois de ter passado os seus últimos (e adolescentes) anos fechado numa prisão. A presença da também tímida Keechie faz-lhe crescer uma esperança de redenção, em contraste com a hostilidade que os cerca. Perante a qual só podem opor a grandeza dos sentimentos e a fuga. Uma história de amor tão intensa quanto trágica. Fazendo lembrar, em certos momentos, o cenário de "Palmeiras Bravas", a obra inesquecível de Faulkner, de pedra e cal no meu top 10 literário.

Com esta obra estreante, Ray tornou-se imediatamente notado no panorama cinematográfico da época. Num dos trabalhos mais notáveis de sempre do Cinema americano, cria um espantoso retrato de uma 'America Interior', de pulsões estranhas e primárias, pouco mostradas até então no Cinema. Sendo considerado um film noir, as personagens não se refugiam nas sombras das grandes cidades, mas sim na quietude das pequenas cidades rurais, aspirando um dia conseguir um lugar ao sol.
Ray parece aqui obcecado com a questão da justeza dos meios para as duas personagens atingirem a liberdade, ao colocá-los em permanente inquietação e sobressalto. Com isto, o realizador parece simultaneamente querer denunciar algum desmazelo social pelos mais desprotegidos. Mas não deixa de assim alimentar o mito do criminoso romantizado, melodramático, tradição prosseguida através dos road movies do género (de que Bonnie and Clyde é o exemplo maior) da qual Ray se torna aqui um feliz precursor.
They Live by Night mantém-se ainda hoje como um dos mais pujantes filmes da década de 40, anunciando já a beat generation e os adolescentes rebeldes sem causa (não será Granger o modelo de Dean, Brando ou Newman?) e o realismo dos anos 50. Como se tal não bastasse, a sua influência imergiu em obras contemporâneas, desde os delírios de Oliver Stone em Natural Born Killers, até a objectos cinematográficos mais sérios, como Wild at Heart. Simplesmente fundamental.

Ver anterior

A idade dos porquês - 11

Porque é que nos Westerns clássicos, quando um cowboy de primeiro ou segundo plano (mas nunca o personagem masculino principal) faz uma proposta mais ousada à moça casadoira, invariavelmente tem um objecto na mão qua vai lançando no ar como se fosse um rosário de contas? (Vd. "Duelo ao Sol", 1946, de King Vidor)

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Filmes para uma vida (1)


In a Lonely Place (Matar ou não Matar,1950), de Nicholas Ray, foi uma das poucas películas produzidas por Humphrey Bogart através da sua produtora independente, a Santana Pictures. Numa tentativa de se demarcar do establishment de Hollywood, imagem que o actor quis deixar no final da carreira. O enredo do filme anda à volta do protagonista Dixon Steele, um argumentista com uma crise de inspiração. Personagem irascível, cínico e capaz de gestos violentos, mas com alguns traços ocultos de um romântico desencantado. No fundo, uma criação talhada à medida de Bogart! Por sua vez, Gloria Grahame, no papel de femme fatale, tem aqui um dos seus melhores desempenhos da sua carreira.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Festival "Olhares sobre o Mundo Rural"


Promovido pelo Cineclube da Guarda, este ano em parceria com a Associação Luzlinar (Feital, Trancoso), este certame tem como tema, na sua quarta edição, “Fronteira e Memória”. Irá realizar-se no Teatro do Convento, em Trancoso, um edifício quinhentista recentemente remodelado para albergar eventos culturais. Esta edição conta, na sua programação, com o precioso apoio do realizador Pedro Sena Nunes, de quem vão ser apresentados dois filmes, um deles, “Tourada”, pela primeira vez. Destaque também para a exibição de “Cordão Verde”, de Hiroatsu Suzuki, recém nomeado para o Festival de Locarno, na secção “Ici et Ailleurs”. Pretende-se, mais uma vez, aprofundar a troca de perspectivas cinematográficas sobre a ruralidade, os seus códigos, as suas margens, as suas dinâmicas, a sua função de conservação das memórias e das identidades. Serão exibidas obras nacionais e duas do outro lado da fronteira, ao longo de dois dias de cinema, debates e uma mini feira do livro.

Consultar aqui o programa e o dossier do festival

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A sagração

Ontem assisti ao filme "Coco Chanel e Igor Stravinsky", de Jan Kounen. Um registo competente e seguro quanto baste. Mas não é para uma apreciação crítica genérica do filme, do seu enredo romanesco, que aqui venho. Traz-me simplesmente a sequência inicial, relativa à estreia do ballet "Le Sacre du Printemps", no Théatre des Champs-Elysées, em Maio de 1913. Ou seja, da obra mais emblemática de Stravinsky, coreografada na ocasião por Nijinski. Tratou-se de um célebre espectáculo, que provocou um enorme tumulto na assistência, maioritariamente indignada. E que requereu mesmo a intervenção da polícia, pois o cenário na plateia estava a parecer-se perigosamente com uma épica rixa de saloon. Só dez anos depois a obra foi devidamente apreciada pelo público, após apresentação no mesmo local. A gorada estreia suscitou-me um sem número de reflexões. Sobretudo porque vivemos num tempo que consagrou a cultura de massas, a confusão fatal ente cultura e lazer, num território simbólico fundamental, onde a noção de consumo já não faz sentido, mas o "devir com". A indiferença "normalizada" perante os produtos saídos da indústria cultural, assim como a relativa banalização do gesto criativo, diante da auto-complacência e de uma subsidiação pública sem critérios consistentes, compõe o resto do quadro. Hoje em dia, ninguém iria patear uma obra que considerasse ultrajante ou fora do cânone. Diria simplesmente que foi "interessante", depois de abandonar a sala a meio, com medo de parecer um bota de elástico. Mas sendo este relativismo acrítico uma doença contemporânea, limitou-se, no fundo, a substituir outras, igualmente nocivas, embora mais compreensíveis, porque relapsas ao "deixa andar". O que aconteceu naquele dia de Maio de 1913 foi prodigioso! O séc. XIX e o séc. XX encontraram-se pela primeira vez cara a cara, sem subterfúgios. Com as suas linguagens inconciliáveis. O caos a irromper pela estabilidade anafada de um mundo que iria ruir no conflito que se seguiria, um ano depois. Não consigo imaginar, por muito que tente, o choque que provocou naqueles cavalheiros vitorianos da Belle Époque aquela energia vital selvagem, nitzschiana, aquela trepidação ciclotímica das figuras animadas pela música de Stravinsky. Que inauguraram, nesse preciso momento e de pleno direito, a modernidade plena. O que se passou foi como que o encontro, nada pacífico, de dois mundos. E ao contrário de outros, mais amistosos, nem sequer teve a pena de um Pero Vaz de Caminha para o imortalizar. Creio, porém, que o filme veio colmatar essa lacuna. Não sei se a expressão terá aqui inteiro cabimento, mas vou arriscar: "e nada mais seria como dantes"...

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Lux

Recomendo uma visita à "Rua dos Dias que Voam". Porquê? É que está lá "exposta" uma colecção de imagens com anúncios de estrelas de cinema, publicitando o sabonete Lux. Na mais antiga, seguramente dos anos 30, encontramos Mae West a falar com um cupido, não sem um afrodisíaco sabonete pelo meio. Vá, corram! Depois não digam que não avisei!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Cinema ambulatório


O principal objectivo ciclo “Curtas em Flagrante" é tornar possível a troca de experiências e dar oportunidades de divulgação dos trabalhos de tantos jovens, que estão agora a iniciar a sua carreira no mundo do audiovisual.
O Elemento Indesejado é uma associação cultural recente, cujos principais objectivos são a divulgação e formação cultural e artística. Até ao momento tem sido a área do audiovisual a que mais tem explorado. Com um workshop de vídeo, a decorrer no âmbito do F.A.T.A.L. - Festival Anual de Teatro Académico de Lisboa - e responsável por toda a cobertura audiovisual do mesmo. Está também a organizar um conjunto de workshops na área das artes digitais, e funciona como um grupo de criação audiovisual com produção própria. Com este evento, pretende actuar como uma rampa de lançamento de novos artistas e divulgar a criação audiovisual que é feita no nosso país.

- Café Concerto do TMG, sexta-feira, pelas 23 00h

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

doclisboa


Começa hoje mais uma edição do "doclisboa". Este ano o destaque vai para uma homenagem a Jonas Mekas, uma retrospectiva sobre o documentário (pós) jugoslavo e uma mostra intitulada Love Stories. Como é da praxe, não faltarei...
O programa poderá ser aqui descarregado, em formato PDF.