Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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terça-feira, 5 de abril de 2011

A mentureira

Já quando andava no Liceu, a matemática era para mim um pesadelo. Mais tarde, já na Faculdade, as assombrações continuaram, por via das disciplinas da área económica. Sempre detestei a Economia. Uma ciência tão inútil como a morte. Mas que, no essencial, não deixa de ser uma realidade perfeitamente... paralela. Vai daí, soube hoje que, por aplicação da tabela das agências internacionais de rating, estas fizeram descer a notação financeira de Portugal, de 'A3' para 'Baa1'. O País fica assim a três degraus da classificação de "lixo"! A sunny junk country, man! Note-se que essas mesmas agências são as que, em 2008, antes da "bolha", avaliavam o tóxico subprime com a classificação AAA. Vejam o magnífico documentário "Inside Job" e perceberão como o esquema circular funcionava. Portanto, estamos à beira de acabar num anódino quintal das traseiras do mundo financeiro, convenientemente escondido dos convidados da boda. O que custa, no meio desta excitação pré-insolvente, é perceber que os investidores de Wall Street ou de Singapura conhecem melhor a nossa realidade económica do que os cidadãos deste cantinho à beira mar enxertado. Um realidade demasiado dura para a nossa mansidão e que os Governos têm vindo, piedosamente, a ocultar. Talvez pensando, que, como eu, os portugueses não gostem de fazer contas...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Quem mandou vir um PEC?

Ora aí está o "subsídio" de férias que os portugueses vão "receber" no segundo semestre do corrente ano da graça. Vai discriminado, como convém. Divirtam-se...

1 - Aumento do IVA
A partir de hoje, a vida fica mais cara para o consumidor. A taxa do IVA passa de 20 para 21% e também aumenta um ponto percentual, nas restantes taxas. A medida foi ontem publicada, em Diário da República, e entra hoje em vigor. Esta medida junta-se assim ao aumento das taxas de IRS, que já se fizeram sentir nos ordenados de Junho.

2 - Derrama de 2,5%
As empresas também não escapam à subida de impostos. As empresas com lucro tributável superior a dois milhões de euros terão de pagar uma derrama extraordinária, de 2,5%, incidente sobre todo o lucro de 2010. Por causa deste reforço, as empresas terão de fazer um reforço do pagamento especial por conta.
3 - Transportes mais caros
Além dos aumentos dos impostos, os portugueses terão ainda de enfrentar maiores gastos com transportes públicos, já que a generalidade do sector terá um aumento médio de 1,2%. O aumento aplica-se aos transportes urbanos de Lisboa e do Porto, transportes colectivos rodoviários e ferroviários interurbanos de passageiros até 50km e aos fluviais na área de Lisboa.
4 - Preço do gás sobe
A partir de hoje as tarifas do gás natural sobem 3,2% em termos médios a nível nacional, de acordo com a proposta inicial da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE).
5 - Fim dos apoios sociais
Muitas das medidas extraordinárias de apoio ao emprego que o Governo tinha anunciado, deixam de existir a partir de hoje. Entre elas, a redução de três pontos percentuais dos descontos para a Segurança Social para as empresas com trabalhadores com mais de 45 anos.
6 - Subsídio de desemprego
As regras do subsídio de desemprego ficam mais apertadas a partir de hoje para os futuros desempregados: o tecto para a prestação passa a ser de 75% da remuneração e não de 100% como era até aqui.

Fonte: "Diário económico"

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O Dragão e o Elefante

Lê-se na introdução: "São três mil e quinhentos milhões: São mais jovens, trabalham e estudam mais do que nós. Têm mais poupanças e mais capital para investir. Inúmeros Prémios Nobel. Os seus salários são muitíssimo mais baixos. Têm arsenais nucleares e exércitos de pobres. A China e a Índia não são apenas as duas nações mais populosas do planeta: são o novo centro do mundo." Palavras que revelam o programa da obra. O autor, Federico Rampini, é correspondente do "La Repubblica" em Pequim. Publicou anteriormente "O Século Chinês", um êxito editorial. Conhece pois muito bem o terreno de que nos fala, combinando o método do jornalista e o entusiasmo do narrador. Aqui, o leitor é conduzido numa visita guiada através dos dois países, sendo analisadas as perspectivas de competição e colaboração das duas economias num futuro próximo e os motivos pelos quais a China e a Índia serão responsáveis por 42% do PIB mundial em 2030, deixando para trás os Estados Unidos com 23% e a Europa com apenas 16%. E por detrás dos números, equaciona a complexa realidade que os suporta, socorrendo-se de uma bem documentada análise política e cultural dos dois países, numa perspectiva dinâmica e aberta. Em suma, Rampini revela por que é que a China e a Índia serão no futuro próximo os pesos-pesados da economia global. Sem deixar, porém, de destacar as contradições do regime ditatorial chinês: uma cleptocracia paternalista, em que uma economia de mercado predatória, sem limites, embora sob a tutela do Partido Comunista (cuja nomenclatura se transformou numa ávida classe de empresários), coexiste com a ausência de regras democráticas, de direitos fundamentais e de qualquer modelo de solidariedade social. Onde os custos da perfomance económica passam pelo números do trabalho infantil, pela deslocalização forçada de populações inteiras, pelo pesadelo ambiental - Xangai, Cantão e Pequim, cada uma com cerca de 20 milhões de habitantes, estão envoltas num permanente fumo tóxico, os principais rios são pouco mais que esgotos a céu aberto, com níveis de poluentes químicos assustadores, as condições sanitárias nas áreas populosas são propícias ao desenvolvimento de novas epidemias, etc -, pelas circunstâncias infra-humanas, de quase escravatura, em que vivem e trabalham grande parte dos operários fabris. Os quais chegam aos milhões todos os anos às grandes metrópoles, vindos das zonas rurais. A exploração é comum tanto às unidades mais pequenas (trabalho ao domicílio no ramo das confecções e sapatos) como àquelas de grande dimensão que as multinacionais subcontratam, da Nike à Timberland, da Walt Disney à Puma. Do outro lado, o enorme teste por que passa a maior democracia do planeta, sobretudo depois do episódio do estado de sítio declarado por Indira Gandhi nos anos 70. Ás voltas com níveis de corrupção altíssimos e uma burocracia paralisante.
Algumas curiosidades são relatadas, escolhidas de entre centenas: as autoridades de Nova Deli conseguiram remover as vacas da cidade através de um microchip desenvolvido localmente e implantado nos animais; os números do Instituto Indiano da Ciência, em Bangalore (a Silicon Valey indiana), a mais selectiva das Universidades, de onde saem os investigadores mais procurados pelas multinacionais da informática e da electrónica; porque é que a prevista cotação do iuane - a moeda chinesa, recentemente revalorizada, o que tornou o made in China um pouco mais caro, para alívio da Europa e EUA - pode constituir uma autêntica revolução nos mercados financeiros; as contrapartidas que o Governo chinês impôs à Airbus para firmar o recente contrato de fornecimento de 150 aviões A320; as notas de euro poderão ser impressas na Malásia, porque a empresa holandesa qua ganhou o respectivo concurso aí montou a sua principal unidade de produção. Imprescindível para a compreensão do mundo actual.
Ficha: China e Índia, Federico Rampini, Editorial Presença, Março 2007

quinta-feira, 9 de julho de 2009

O velho do restelo

Em outro momento, aqui declarei Miguel Sousa Tavares como intelectualmente defunto para este blogue. As razões foram explicadas na altura. Até porque MST não lê blogues, detesta bloggers e desconfia das redes sociais, como por várias vezes já se prestou a esclarecer. Pois o autor de "Equador" acaba de publicar uma crónica no jornal “Expresso”, intitulada "Esta noite sonhei com Mário Lino". Trata-se da recriação de um diálogo, meio real meio ficcional, que teve com uma "amiga estrangeira" (uma péssima definição, pois penso que os amigos nunca são estrangeiros para nós, a não ser que...) num percurso pela A6, entre Lisboa e Badajoz. Como se dá conta, o tema é a "alta velocidade", a construção de auto-estradas "a mais" e outros "elefantes brancos". O texto, muito apropriado para a silly season, é inquestionavelmente divertido e cria uma razoável malha argumentativa sobre temas fundamentais para o desenvolvimento do país. No entanto, se por um lado revela um pathos muito característico, por outro enferma de alguma demagogia e de muito pessimismo. Senão vejamos:
1. MST tornou-se uma espécie de luddite do séc. XXI. Que para além de desdenhar as novas formas de comunicação e informação, é contra o investimento em vias de comunicação estruturantes (ferro-rodoviárias), que associa a um fontismo desmesurado e sem justificação.
2. A sua "luta" pretende recriar o mesmo episódio de há 150 anos atrás, quando começaram a ser construídas as grandes linhas férras e o combóio se afirmou na paisagem e na economia nacionais. Marcando irreversivelmente o seu desenvolvimento. Sabendo-se que, em 1820, não havia sequer uma estrada contínua entre Lisboa e o Porto, demorando a viagem de carruagem dois dias. E não houve decerto factor de aproximação à Europa tão forte como a existência da linha "Sud Express", apartir de 1880. Sim , também li "A Cidade e as Serras", mas aqui a discussão é outra.
3. Portanto, em vez de fazer esperas aos combóios, armado com um chuço ou uma gadanha, como os camponeses da época do fontismo, MST aparece sob as vestes do paladino contra o betão, o asfalto e os planos faraónicos. Sejam eles o TGV ou a barragem do Alqueva, as autoestradas ou o novo aeroporto.
4. Convém agora dizer que o cronista tem razão nalguns pontos. Passo a enumerá-los: o excesso de troços de autoestrada ligando pontos já servidos por essa infraestrutura, ou cuja extensão diminuta aconselharia à simples duplicação das vias existentes; o caos urbanístico que se instalou na maior parte do território continental e insular; a saturação da linha do Norte, apesar do colossal investimento aí realizado; o tradicional esbanjamento de recursos públicos.
5. Em tudo o resto, a sua crónica parece-me manifestamente exagerada, parafraseando Mark Twain. Notam-se demasiado os preconceitos e a mente curta do lisboeta para quem o resto do país, com excepção do Algarve, deveria ser uma reserva cinematográfica, cinegética e com livre-trânsito para as provas com veículos todo o terreno. De preferência com estradinhas com boas vistas, paisagens sem mácula poluente, gente sorridente e solícita, uma disneylandia rural fantasmática, sem campos de golfe, mas cheia de hoteis com jaccuzzi, para as escapadinhas com as "amigas estrangeiras". Um país de acordo com a versão ampliada e revista da que teve o Estado Novo, pela mão de António Ferro e do SNI.
6. Po outro lado, MST recusa liminarmente a construção do TGV. Usando o argumento do provincianismo. É curioso que o cronista tenha referido esse pecadilho intelectual. O escritor Milan Kundera, no seu último ensaio, "A Cortina" (ed. ASA, 2005) refere precisamente a existência de dois tipos de provincianismo, igualmente negativos: o dos "grandes" e o dos "pequenos". É certo que o autor se refere sobretudo à produção literária. No entanto, o argumento é válido mutatis mutandis. Pois MST consegue, de uma assentada, conciliar os dois provincianismos. Ou seja o "deixemo-nos ficar isolados pois ninguém quer saber de nós", típico de quem vive num país periférico, com o "nós aqui já estamos servidos do que interessa, para quê dar valor ao que está fora?", típico de quem vive na capital!
7. O ponto de vista de MST resulta assim pobre, curto e algo arrogante E porquê? Sabe-se que o custo do transporte rodoviário, de que depende 80% da economia nacional, se tornou incomportável; que existem autoestradas transversais, que ligam o interior e o litoral, ainda sem custos para os utentes (algo de que MST decerto discorda), onde a discriminação positiva se justifica plenamente, uma vez que são essenciais para o desenvolvimento do país e para a sua coesão; que um novo aeroporto se justifica, embora com dimensões modestas, destinado a vôos "low cost", associando as respectivas companhias à gestão da nova estrutura; que é urgente a construção de duas linhas de alta velocidade: uma em "T" que ligue Lisboa ao Porto e a Madrid, e uma outra, sobretudo para mercadorias, entre Aveiro e Salamanca, com ligação à rede europeia.
8. Claro que todas estas estruturas são dispendiosas e requerem um elevadíssimo investimento. Mas os benefícios não se podem medir somente em números. Tal como o Alqueva não se pode avaliar pelos resultados imediatos, mas pela sua utilização futura, cujos contornos porventura desconhecemos. Ora, é precisamente pela amplitude da generosidade para com as gerações vindouras e pela visão prospectiva em relação ao devir que a história nos irá julgar. Não desperdicemos a oportunidade.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A água benta

As proclamações contra o neo-liberalismo (ninguém sabe ao certo o que isso seja) são um tanto perigosas. Quase tanto como o entusiasmo acrítico com a hegemonia dos fluxos financeiros globalizados pelo mundo inteiro. As convulsões do sistema assinalam o ponto onde ele deve ser melhorado e não posto em causa no seu todo. Transformar os "neoliberais" nos novos sacos de boxe revela uma grande imprudência. Uma vez que a promiscuidade e a condescendência da maior parte das autoridades nacionais e internacionais para com o o mundo financeiro e especulativo não permite indignações de encomenda, nem falsas surpresas. Se a célebre taxa Tobin já tivesse sido implementada, o comportamento dos agentes financeiros teria sido muito mais prudente. Por outro lado, é bom lembrar o case study chinês: um sistema onde coexiste uma economia de mercado atípica, porque sem regras de espécie alguma e oligárquica, com uma ditadura de partido único. A irracionalidade do sistema pode fazer aumentar vertiginosamente o PIB, mas causa desigualdades enormes e legiões de trabalhadores em regime de quase escravidão. Os que sofregamente agora descobriram os "judeus mais a jeito para bode expiatório", isto é, os neoliberais, deveriam pensar em qual o sistema económico que mais riqueza, bem estar e desenvolvimento, apesar de tudo, criou na história da humanidade. Ah, já sei, foram os planos quinquenais estalinistas!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Os falsos profetas

A falência da Lehman Brothers e suas repercussões no crédito imobiliário e nas bolsas tem trazido à costa as habituais carpideiras do "fim do neoliberalismo" e da crise do capitalismo. São os eternos representantes da esquerda que nada quer aprender com a história nem com os monstros que gerou. É por isso estimulante ler o artigo de opinião de Pacheco Pereira no "Público" de sábado. Trata-se de um monumento à lucidez, justamente intitulado "O ataque ao 'neoliberalismo' e o 'bacalhau a pataco" e do qual transcrevo um excerto:
"Naturalmente, como muita gente acha, os "mercados" são maus e injustos, esquecendo-se de que são os mercados que estão a acabar com o Lehman Brothers e bem, (...) que a destruição provocada pelas crises é um mecanismo fundamental de crescimento e de inovação, da pujança do modelo económico do capitalismo. A "crise não é o sinal da crise do liberalismo, mas sim do seu normal funcionamento, em sociedades e economias que incorporam o risco e os custos como parte do seu funcionamento normal. (...) É nestas alturas de "crise do liberalismo" que eu me sinto mais liberal, que eu tenho mais aguda percepção de como na crítica socialista à "economia do casino" vai um preocupante pacote de restrição de liberdade para as pessoas e para as empresas, de fechamento do mundo, de paroquialismo e intervencionismo e, a prazo, muito maior mediocridade e pobreza remediada do que a queda do Lehman Brothers e dos seus parentes pode causar."

terça-feira, 10 de junho de 2008

O escravo sorridente


Leiam bem a seguinte oferta de emprego, na parte dos requisitos exigidos. Acreditem que é mesmo real.

Nível de Aptidões Técnicas: 1.Fortes capacidades conceptuais; 2.Excelente capacidade na resolução de problemas.
Nível de Capacidades Profissionais: 1.Excelente capacidade de comunicação escrita e oral; 2.Excelente capacidade de Organização; 3.Capaz de trabalhar eficientemente cruzando diferentes ambientes funcionais; 4.Atitude positiva e um excelente senso de Humor; 5.Capaz de trabalhar sob stress, em tempos de execução de tarefas muito curtos e de forma autónoma; 6.Excelente capacidade de Análise; 7.Capacidade de trabalho excepcional.
Atributos:
1.Paixão; 2.Accountability; 3.Orientação a resultados; 4.Capacidade de adaptação; 5.Atenção ao detalhe; 6.Bom trabalhador em equipa; 7.Excelente capacidade a resolver problemas.

Como porventura se deram conta, trata-se de um emprego para um Übermensch nietzscheano caricatural, para um verdadeiro apaixonado por accountability (que, em bom português, significa, "pôr-se a jeito"
) um cruzador de diferentes ambientes funcionais, acima de qualquer suspeita, capaz de trabalhar sob stress, a olhar para o relógio, sem sequer praguejar onde um estóico o teria feito, possuidor de um conceptualismo à prova de detalhe, não vá o diabo tecê-las, bom em equipa e em "autonomia", adaptável a tudo, calcinhas sempre em baixo, ser enrabado e agradecer, e ainda capaz, ainda pronto para tudo resolver, tudo prever, tudo organizar, tudo remendar, o funcionário modelo que preenche os sonhos mais lúbricos do capital, o que cumpre a hagiografia do produtor* inefável, do executor multiusos, de um émulo de Deus sem Deus, de um semideus sem arte, gravitando em torno da perfeição de um autómato, destilando energia positiva, sempre energia positiva, e humor, muito humor, enquanto o látego sobe e desce, enquanto os dias se estendem como tições em brasa, enquanto a mentira vai sobrando como a única verdade, enquanto lhe é negado o último reduto da sua dignidade, enquanto o sorriso regulamentar vai enganando a submissão.

*Vd. "Vigiar e Punir", Michel Foucault

quarta-feira, 28 de maio de 2008

End games

Na sua última crónica semanal no "Jornal de Notícias", Mário Crespo propõe uma solução draconiana, mas eficaz, para a escalada dos preços dos combustíveis no nosso país: a (re)nacionalização do único operador existente, ou seja, a Galp. Os argumentos convencem. Até porque já ninguém acredita - excepto os accionistas da Galp - que, num regime de monopólio (aquele que, de facto, existe), sejam os mecanismos do mercado típicos que fazem disparar os preços da forma que, dolorosamente, os portugueses bem conhecem.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

O Dragão e o Elefante

Lê-se na introdução: "São três mil e quinhentos milhões: São mais jovens, trabalham e estudam mais do que nós. Têm mais poupanças e mais capital para investir. Inúmeros Prémios Nobel. Os seus salários são muitíssimo mais baixos. Têm arsenais nucleares e exércitos de pobres. A China e a Índia não são apenas as duas nações mais populosas do planeta: são o novo centro do mundo." Palavras que revelam o programa da obra. O autor, Federico Rampini, é correspondente do "La Repubblica" em Pequim. Publicou anteriormente "O Século Chinês", um êxito editorial. Conhece pois muito bem o terreno de que nos fala, combinando o método do jornalista e o entusiasmo do narrador. Aqui, o leitor é conduzido numa visita guiada através dos dois países, sendo analisadas as perspectivas de competição e colaboração das duas economias num futuro próximo e os motivos pelos quais a China e a Índia serão responsáveis por 42% do PIB mundial em 2030, deixando para trás os Estados Unidos com 23% e a Europa com apenas 16%. E por detrás dos números, equaciona a complexa realidade que os suporta, socorrendo-se de uma bem documentada análise política e cultural dos dois países, numa perspectiva dinâmica e aberta. Em suma, Rampini revela por que é que a China e a Índia serão no futuro próximo os pesos-pesados da economia global. Sem deixar, porém, de destacar as contradições do regime ditatorial chinês: uma cleptocracia paternalista, em que uma economia de mercado predatória, sem limites, embora sob a tutela do Partido Comunista (cuja nomenclatura se transformou numa ávida classe de empresários), coexiste com a ausência de regras democráticas, de direitos fundamentais e de qualquer modelo de solidariedade social. Onde os custos da perfomance económica passam pelo números do trabalho infantil, pela deslocalização forçada de populações inteiras, pelo pesadelo ambiental - Xangai, Cantão e Pequim, cada uma com cerca de 20 milhões de habitantes, estão envoltas num permanente fumo tóxico, os principais rios são pouco mais que esgotos a céu aberto, com níveis de poluentes químicos assustadores, as condições sanitárias nas áreas populosas são propícias ao desenvolvimento de novas epidemias, etc -, pelas circunstâncias infra-humanas, de quase escravatura, em que vivem e trabalham grande parte dos trabalhadores fabris. Os quais chegam aos milhões todos os anos às grandes metrópoles, vindos das zonas rurais. A exploração é comum tanto às unidades mais pequenas (trabalho ao domicílio no ramo das confecções e sapatos) como àquelas de grande dimensão que as multinacionais subcontratam, da Nike à Timberland, da Walt Disney à Puma. Do outro lado, o enorme teste por que passa a maior democracia do planeta, sobretudo depois do episódio do estado de sítio declarado por Indira Gandhi nos anos 70. Ás voltas com níveis de corrupção altíssimos e uma burocracia paralisante.
Algumas curiosidades são relatadas, escolhidas de entre centenas: as autoridades de Nova Deli conseguiram remover as vacas da cidade através de um microchip desenvolvido localmente e implantado nos animais; os números do Instituto Indiano da Ciência, em Bangalore (a Silicon Valey indiana), a mais selectiva das Universidades, de onde saem os investigadores mais procurados pelas multinacionais da informática e da electrónica; porque é que a prevista cotação do iuane - a moeda chinesa, recentemente revalorizada, o que tornou o made in China um pouco mais caro, para alívio da Europa e EUA - pode constituir uma autêntica revolução nos mercados financeiros; as contrapartidas que o Governo chinês impôs à Airbus para firmar o recente contrato de fornecimento de 150 aviões A320; as notas de euro poderão ser impressas na Malásia, porque a empresa holandesa qua ganhou o respectivo concurso aí montou a sua principal unidade de produção. Imprescindível para a compreensão do mundo actual.


Ficha: China e Índia, Federico Rampini, Editorial Presença, Março 2007

sexta-feira, 19 de maio de 2006

Em alta...

Regiões mais pobres de Espanha ultrapassam a riqueza portuguesa

Em vez das costumeiras indignações, ou do condescendente masoquismo, normalmente associados a estas crudelíssimas estatísticas, propunha simplesmente ao leitor um instante de reflexão após ler esta notícia. Obrigado.