Algures na vida chega o lugar da gratidão. Por aqueles que nos amaram - poucos, após esticar o balanço com honestidade - por aqueles que não o souberam ou eu não soube, pelos erros que tão bem denunciaram o caminho, pelos outros que não passaram de hesitações, por aqueles que esperaram, divididos entre o orgulho e a queda, pelo consolo da ronda à volta do claustro, pelo fogo que triunfou, por vezes, no cume da insurreição e das sombras, pelas cinzas que foram ficando, pelos caminhos só ainda depois caminhos, pela assembleia de convidados que o vento trouxe e o vento dissipou, pelo orgulho que tudo rasgou, pelos céus de van gogh, pela poeira onde tudo se irá resumir. E brilhar.
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domingo, 16 de dezembro de 2007
quinta-feira, 9 de novembro de 2006
sexta-feira, 25 de agosto de 2006
Diário de um tolo - 7
Ser ainda como se já não fosse buscar no meio da chuva uma textura nova quando o dia é noite e a noite é dia gritar por todos os primeiros instantes de um novo tempo buscar o lugar a voragem a lucidez um alfabeto o sangue no meio das palavras as cinzas de um deserto as ruas vazias a dor de todas as ruas vazias ah ser como se já não fosse encontrar a morada de uma vida inteira a solidão estendendo-se como um lençol uma lâmpada acesa para os navios que nunca hão-de zarpar murmurar uma última canção para os olhos e adormecer quella sí lontana sorrise e poi si tronò all'eterna fontana mas há pouco a fazer quando no horizonte só há destroços talvez um arremedo de santidade ah ser como se já não fosse eis finalmente o dique que erigi para me salvar da enxurrada que aí vem pernoitar na doçura tão breve de um coração atónito. Areia. Areia e mais nada. Que venham as águas.
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domingo, 13 de agosto de 2006
Diário de um tolo - 6
Era o muro que atravessava o terreno. Dali até aqui. Podia ouvir a mensagem da voz pertencente a ti mesmo e a minha absorvia o eco da tua. “Onde vives”. Perguntavas. “Deste lado”. Respondia.
Continuámos encostados à parede inerte, pressentindo a vida do outro lado. “Onde estás?”. “Estou aqui”.
Continuámos encostados à parede inerte, pressentindo a vida do outro lado. “Onde estás?”. “Estou aqui”.
Hoje é domingo e amanhã é domingo. Apenas para mim. Hoje agi como no domingo se age e era sábado. Nada de confusões. Falhei um dia porque deixei de olhar para o calendário. Por isso deixei de ter um domingo completo nesta semana. Quando andava na rua avançava como se fosse domingo e fez toda a diferença. Domingo adiantado. Domingo por repetir. Amanhã vou ter outro domingo. E o sábado só ficou retrocedido às 7 horas da tarde. Não à hora que despontou para todos os outros. A razão para o retrocesso. O sítio certo à hora certa no dia errado. Amanhã o sítio certo à hora certa no dia finalmente certo. Domingo perdido. Intemporal. Identificado e novamente perdido. Mas só amanhã.
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domingo, 6 de agosto de 2006
Diário de um tolo - 5
Ser como se já não fosse ainda não é o fim ainda não é só a terra que se estende infinita nos meus passos é só o nascer de um lugar para as palavras que esqueci é só o começo dos dias dos meses e dos anos depois de mim não de ti mas as torres já ruiram e logo no outono com o sopro de um coração estéril de que já nem as pedras se conseguem apiedar ainda me vejo de cócoras no meio das ruínas a tentar descobrir como a tarde pode morrer de repente um sinal um vislumbre um ardor de que ninguém falou uma pontuação para os abismos um espelho para encontrar o meu rosto mais claro do que os pensamentos o meu nome mais profundo do que a escuridão dos sentimentos onde está fechado mas nada encontrei só um céu amargo onde a noite se tornou insensível ao dia e o meu sono é todo o crepúsculo que resta ah ainda se conseguisse ser como se já não fosse ainda se conseguisse recitar uma fábula onde o vento tudo arrebatasse e me atirasse para a efémera matéria do silêncio mas os vulcões secos estalaram e cuspiram cidades de tédio uma solidão que dói como uma dor de dentes como um convite da eternidade para deslizar por ela como um manual para proteger os meus passos numa dança impossível como uma música que finalmente ascende ascende nunca aceitando que a sua harmonia é harmonia ah se eu fosse como já não fosse.
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domingo, 16 de julho de 2006
Diário de um tolo - 4
Ontem fui, como em todos os sábados, fazer o rotineiro jogging até ao Parque Municipal. Estava já na fase das distensões, junto ao lago, quando me pareceu ouvir alguém a chorar. Num primeiro momento, pensei que a sugestão viesse do chilreio dos pássaros. Pouco depois, os soluços chegaram com uma clareza lapidar. Olhei para o lado de onde provinham. Num banco de madeira, a cerca de 30 metros, estava uma rapariga sentada no sentido contrário, encostada ao espaldar. Chorava convulsivamente. Os sons ecoavam pela copa das árvores, pelos muros de pedra, pela superfície das águas. E eu ali, num ritual atlético que de repente se tinha tornado patético. Após alguma hesitação, parei e ia dirigir-me para ela, sem saber sequer o que dizer. Felizmente, nesse preciso momento, parou de chorar. Não sei o que parou mais dentro dela. Fosse o que fosse, agora nada justificaria uma pergunta, um sinal. Por muito breves que fossem, tinham o significado de uma invasão. Continuei. Foi só quando cheguei a casa que os diques ruiram. É que o choro da rapariga tinha ressoado para além do mundo físico. Tinha-se tornado o espelho perfeito da minha vida: a incerteza e a solidão extremas à procura de um talento inconcebível que delas nasça e ascenda, como uma grande música. Ruiu tudo. Exactamente como as torres gémeas no 11 de Setembro. A dor é certa e não tem fundo. É uma tocha que arde silenciosa sobre as ruínas do passado.
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sábado, 24 de junho de 2006
Diário de um Tolo - 3

Que possamos recolher alimento suficiente para rir o riso de deus. Como quem invoca algo numa oração interminável, em que já não interessam os factos, mas como a nossa memória fica por eles impregnada. Afinal, esquecer é só o princípio de uma corrida, com um louco a perseguir-me de navalha em punho. Talvez o destino insensato do viajante no deserto, onde os meus dons vão beber como um animal com sede. Saberei todavia reconhecê-los? Oxalá pudesse ouvir alguns passos, do outro lado. E o dia se movesse, lentamente, ressoando pelas paredes, pelos pátios, pelas brumas onde um novo tempo se espalha. Desse lugar poderia observar toda a minha vida erguendo-se como um rio de sangue:
numa tarde em que o céu se estendia sobre a lassidão dos meus pensamentos, daí emergindo uma espécie de irreversível fantasia, ora doce, ora ameaçadora, um reflexo possível daquele azul pálido, com pequenas nuvens alvas voando à superfície, através das copas desfolhadas das árvores em redor... Como seria estranha essa indizível estranheza! As palavras combinariam com um arruinado templo de Delfos, povoado de deuses solícitos ou punitivos, talvez um calafrio me percorresse até à ponta dos dedos, os pensamentos erguendo-se desordenadamente, como bolhas de água fervendo: existia, portanto, algo com que sempre teria de contar, algo de que me precaver, algo que subitamente pode saltar fora dos calados espelhos dos meus pensamentos...
Mas será possível que, naquela tarde de luz, no meio do que antes parecia nítido, se abrisse uma porta levando a outro mundo, imprevisível, desnudado, devastador? Será possível que entre uma transparente e firme casa de vidro e ferro e uma outra, onde se deambula por confusos corredores repletos de vozes, não exista apenas uma passagem, mas que as suas fronteiras se toquem, secretas, próximas, podendo ser ultrapassadas a qualquer momento? E, ainda assim, as palavras, essas palavras, em sobressalto, estendidas eternamente por milhares de sinuosidades, como uma escada sem fim e sem objectivo… Sei agora que é do coração estéril que extraio toda a força, toda a confiança que aprende a não desesperar de nada.
numa tarde em que o céu se estendia sobre a lassidão dos meus pensamentos, daí emergindo uma espécie de irreversível fantasia, ora doce, ora ameaçadora, um reflexo possível daquele azul pálido, com pequenas nuvens alvas voando à superfície, através das copas desfolhadas das árvores em redor... Como seria estranha essa indizível estranheza! As palavras combinariam com um arruinado templo de Delfos, povoado de deuses solícitos ou punitivos, talvez um calafrio me percorresse até à ponta dos dedos, os pensamentos erguendo-se desordenadamente, como bolhas de água fervendo: existia, portanto, algo com que sempre teria de contar, algo de que me precaver, algo que subitamente pode saltar fora dos calados espelhos dos meus pensamentos...
Mas será possível que, naquela tarde de luz, no meio do que antes parecia nítido, se abrisse uma porta levando a outro mundo, imprevisível, desnudado, devastador? Será possível que entre uma transparente e firme casa de vidro e ferro e uma outra, onde se deambula por confusos corredores repletos de vozes, não exista apenas uma passagem, mas que as suas fronteiras se toquem, secretas, próximas, podendo ser ultrapassadas a qualquer momento? E, ainda assim, as palavras, essas palavras, em sobressalto, estendidas eternamente por milhares de sinuosidades, como uma escada sem fim e sem objectivo… Sei agora que é do coração estéril que extraio toda a força, toda a confiança que aprende a não desesperar de nada.
Foi assim: vejo ao longe um barco arribando contra a corrente, as velas colhidas nas cruzetas, navegando em silêncio. Nunca saberei para onde. Nem ele saberá que foi um mensageiro do tempo que não há-de vir.
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