Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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terça-feira, 28 de julho de 2009

"A Aversão", de André de Melo (4ª parte)

O Director do “Europa” descia agora a rua, consumido. À transparência da sua distracção fugidia, com um olhar desperto, ia sondando o passeio.
Não faltavam rostos conhecidos do jornalismo, pela Avenida da Liberdade abaixo e acima. Não seria capaz de contratar um matador mas, se a ocasião se prestasse, iria pôr um à prova. Àquela hora, os jornalistas do “Quotidiano” vinham a decompor a feijoada pela rua abaixo com os olhos meio vidrados de álcool. Tinham ficado barrigudos e teimavam em usar aqueles bigodes revolucionários, agora pelados e grisalhos, enquanto não se compunha o salário com “ganchos” noutros jornais, e o “Quotidiano” se confinava a um esconso do salão político. Não era um certo radicalismo que os reduzira àquele canto do espectro (político). Afivelavam até uma opção moderada, quando todos eram revolucionários, em sabatinas de radicalidade, numa linha da qual ele se sentira sempre correlegionário. Tomava era a precaução de não a revelar e cuidar meticulosamente das influências de que dispunha antes de se confidenciar. Mas Roma não paga a precursores. Quanto a eles (aí vinham, em grupo, meio amparados uns aos outros, como uma cáfila) todos rodeando uma rapariga mais nova, certamente estagiária, de calças de ganga e camisa fina com as pontas atadas acima do umbigo. (ler mais)

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quarta-feira, 8 de julho de 2009

"A Aversão", de André de Melo (3ª parte)

A Si tinha ficado a falar com o Director do “Europa”. Este deixara-se enterrar numa poltrona com os joelhos completamente juntos e os pés cada vez mais afastados.
De vez em quando punha as mãos entre as pernas e olhava para a sala semi-vazia, um pouco desolado. A contracção em que vivia - o prestígio também, é certo - como Director do órgão oficioso do Estado (o que era diferente de Governo), a religião do colarinho branco e dos fatos muito respeitáveis em que tinha sempre vivido, deixavam-no, por vezes, de rastos. O pior era quando antecipava os pequenos gestos de contracção próprios da intimidade e lhes começava a soçobrar ainda em público. Fazia uma triste figura, ele, que enganara tanta gente com o seu queixo sem pescoço sempre apoiado num firme colarinho engomado e as meias pretas longas compradas em sítios que se segredavam como os fornecedores de droga ou de charutos havanos de imitação. Tinha a roupa toda engelhada à volta das pernas, contraídas num frémito de aflição e o casaco pendurado no palmo de ombros como a sobrecasaca do grilo dos desenhos animados. Ficara um bocado como o marido da Mi, o negociante francês (estão a lembrar-se, certamente) mas não era já um mergulho de cabeça na depressão porque toda a figura estava patinada de claro e dava um certo ar primaveril. Era antes um murro no estômago do ânimo, o que condizia, aliás, com a sua posição, curvado, de cotovelos no umbigo. Ficaram juntos, ele e a Si, por algum meneio que esta deu ao corpo grande onde já adornava um sortido razoável de hospitalidades. (ler mais)

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terça-feira, 30 de junho de 2009

"A Aversão", de André de Melo (2ª parte)

A meio da manhã, foi fazer compras. Atravessou o jardim até à garagem pela trilha de pedras, como se caminhasse já pela rua central de Cascais. Olhou de relance o jardim e viu a piscina onde o filtro mergulhava como um animal pré-histórico a beber. Achou que assim estava bem, deixava a casa numa perfeita tranquilidade ( “pax tranquilla libertas est” já dizia o Cícero). Sentiu-se agradecida a Deus por viver naquele sossego, longe da brutalidade de Lisboa. No entanto, quando punha o carro a trabalhar, subiu-lhe uma comoção profunda pela cana do nariz e desaguou num pranto inexorável. Baixou a cabeça de modo a que o chapéu de aba larga lhe ocultasse a cara e... chorou mesmo. “Meu Deus! Como é possível!?”, bramiu, enquanto desferia os punhos no volante. Sentir-se observada daquela maneira, esquadrinhavam-na a cada canto da sua vida íntima, a perseguiam-na a cada segundo!”. Será que a inveja pairava no ar, era o anjo da Morte dos primogénitos, depois das pragas da brutalidade e da falta de educação generalizadas?! Porque é que a perseguiam daquele modo quando escrevia? Sentia os dentes de predadores rangendo nas obscuridades daquela Lisboa de falhados, sentia o catarro de aves absurdas preparando-se para romperem o silêncio, à gargalhada. Tinha a alucinação de que passava numa floresta de espinhos em camisa de noite e uma das fímbrias prendia-se, ela não conseguia libertá-la, ficava nua e esfarrapada à vista das árvores ululantes ( devia andar a ver demasiados vídeos...). (ler mais)

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quarta-feira, 24 de junho de 2009

"A Aversão", de André de Melo (1ª parte)

Antes do sol nascer, já dói o fígado a quem tem de se levantar.
Se espreitar pela janela descobrirá, então, um pequeno dia, completo, entre as casas. Às vezes há também a neblina que convém num frio atrevido e pica o novelo dos olhos estremunhados, convocando um espirro como uma bala na câmara.
Por outro lado, o arfar – primeiro, compassado, depois sem ordem - dos autocarros, já tinha atravessado o sono há muito tempo, ainda era noite cerrada, até o deixar exangue de anjos e prenúncios. Os boémios vinham esconder-se à pressa, por trás da porta vacilante antes de o sol - se viesse - cerrar o punho flamejante sobre a avenida, onde as manhãs não cantam, nem assobiam.
Longe dali, há orvalho e sarças, vegetação espinhosa, ainda ao alcance do mar. E a manhã pede licença. Os besouros e as cigarras cantam até mais tarde e há sempre alguém percorrendo um carreiro entre a vegetação que, a certo ponto, julga estar sozinho e começa a assobiar... ou até a dar até uns passinhos de dança. Ao longe escuta-se a sirene de um comboio. (ler mais)

"A Aversão" (introdução)

É já no próximo post! Abram alas! Vai começar a publicação de "A Aversão", de André de Melo. Trata-se de um romance cuja acção se desenrola nos anos 90. O autor, de quem os leitores já conhecem alguns textos, uma vez que é colaborador regular deste blogue, onde assina "André", abalança-se assim numa produção mais extensa. A obra será publicada em fascículos, no "Boca de rodapé", para onde haverá sempre uma chamada e link a partir deste blogue. A edição propriamente dita - que inclui a revisão de texto, ordenação e numeração - é da minha responsabilidade. Segue-se uma sinopse da obra, enviada pelo autor:
"Anos noventa. Lisboa. Uma mulher de um político e universitário famoso, resolve dedicar-se a escrever romances mais ou menos de cordel, com cobertura de um Editor amigo. Tem ambiente para isso, visto que não trabalha, vive na Linha de Cascais numa mansão vigiada, longe do bulício da cidade, onde os restos da Revolução de Abril vão dando lugar à periferia da Europa. Apesar de ter três filhos na idade malandra, não lhe falta uma criada cabo-verdiana, submissa e analfabeta, para poder livremente dispersar-se.(ler mais).