Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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segunda-feira, 16 de maio de 2011

O prémio

Manuel António Pina acaba de ser galardoado com o prémio Camões. Uma distinção que premeia um percurso e uma obra. Obra essa que praticamente desconheço, é bom dizer. A não ser alguns poemas lidos em sessões públicas a que assisti e algumas crónicas dispersas. Por outro lado, há alguns anos, decorreu, no Auditório Municipal do Sabugal, uma memorável sessão onde o escritor foi homenageado. E na qual tive a felicidade de estar presente. Sobretudo graças à notável intervenção do autor. Que aí demonstrou duas das qualidades que mais aprecio, seja onde for: a simplicidade e o sentido de humor. Como referi mais atrás, qualquer galardão distingue uma obra e uma personalidade. Ora, sabendo-se que Manuel António Pina é originário do distrito da Guarda, tanto melhor para quem nele vive ou a ele está ligado.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Noite literária

poema das árvores e da aprendizagem

tudo o que as árvores fazem é pensar. ficam generosas à espera de chegar a uma conclusão. e se morrem, não é absoluto que tenham tido resposta. deram sombra, pássaro, fruto e vento, mas podem partir quietas, como quem tomba para dentro de si mesmo, com felicidade pelo que já passou e nenhuma mágoa, só a aceitação sábia do tempo

valter hugo mãe, in "contabilidade" (poesia 1996-2010), ed. Alfaguara, 2010

Nota: esta noite tive o prazer de assistir à conversa entre o autor e o prof. Dias de Almeida no café-concerto do Teatro Municipal da Guarda. A satisfação foi, suponho, extensível aos restantes convivas. Devo dizer que só conhecia o autor como blogger e crítico literário. Mas a partir de hoje, quero conhecer a sua obra. Iniciando  o périplo pela poesia. Que é sempre por onde se deve começar. Depois dou notícias...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Correntes D´Escritas 2011

Foi anunciado hoje o programa da 12ª edição dos encontros Correntes D´Escritas, um dos grandes eventos literários de expressão ibérica. Os livros, os escritores e o público encontram-se na Póvoa de Varzim, de 23 a 26 de Fevereiro. Haverá eventos paralelos com música, fotografia e teatro. O escriba por lá estará também. Aqui poderão encontrar alguns destaques do programa. Digam lá se não é para ficar logo com a cremalheira escancarada e salivante!

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Apenas as palavras

Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras.

Samuel Beckett, in 'Textos para Nada'

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Shatov versus Kirilov

No seu livro "Os Demónios" (ou "Os Possessos", dependendo da tradução), Dostoievski utiliza dois personagens, Kirilov e Shatov, para exprimir a ambivalência da necessidade e importância de Deus.
Kirilov acredita que a vida consiste em dor e sofrimento. Para ele, Deus não existe e, consequentemente, tudo é possível, incluindo o suicídio. Encarado como a expressão máxima da transcendência humana noutra forma, maxime uma existência divina. Observa que a felicidade não tem correspondência com as circunstâncias individuais, mas com um estado de espírito. Nesta linha, se alguém acredita na felicidade, será feliz, e nada haverá que a possa negar. O entendimento de Kirilov acerca de Deus ou da sua falta permite encará-lo como um dos personagens mais carismáticos criados pelo autor russo. Nesta obra, Kirilov surge como uma espécie de figura crística. Planeia matar-se para libertar os outros membros do grupo, perecendo pelos seus pecados. Toma assim em mãos o papel de Cristo, libertando a espécie humana para que todos possam aceder à tal transcendência que os aproximará de Deus.
Shatov, pelo contrário, quer acreditar em Deus, mas pressente que não tem fé. Valoriza a ideia de Deus e toma a religião como um factor essencial para a identidade da nação russa. Mas deu-se conta de que o seu modo de vida e as suas referências não lhe permitem ter fé. Admite a existência de Deus, mas tal postulado, só por si, não atrai a verdadeira fé. Por fim, Dostoievski coloca Shatov num papel trágico: no momento preciso em que se começa a conhecer, desenvolvendo uma convicção religiosa, é assassinado.

Quer Kirilov quer Shatov possuem convicções inabaláveis: o primeiro tem fé mas não acredita em Deus, já o segundo acredita, mas não tem fé.

terça-feira, 9 de março de 2010

Os nichos do escritor

Para que cessem as dúvidas, também há o Escritor-Que-Mede-Leitor-A-Metro. O tal que tudo dá e tudo pode tirar. O que vai anotando, à margem, alguns dos seus tipos de ouvintes: Leitores de Ontem, Leitores do Ano Passado, Leitores da Rua A, Leitores da Rua B, Leitoras de Olhos Claros, Leitoras de Cachecol, Leitores Pouco Interessantes, Leitores Estratégicos, Leitores Tácticos, Leitores Inimigos, Leitores Bajuladores, Leitores Raivosos, Leitores Traidores, Leitores na Patagónia, Leitores de Berlim, Leitores Insuportáveis, Leitores Sentados no Trono, Leitores que Mexem os Lábios, Leitoras que Cruzam e Descruzam as Pernas, Leitores em Trânsito, Leitores de Cuecas, Leitores Professores, Leitores de Faculdade, Leitores com Verrugas no Nariz, Leitores em Tese, Leitoras com Bâton cor de Abacate, Leitoras no Meio de Batalhas Feromónicas, Leitores a dez mil metros Acima de Nós...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Por acaso

O nascimento do romance, enquanto forma original de criação literária, está intrinsecamente ligado ao triunfo de um corpo político feito à medida da nova sociedade burguesa, em meados do séc. XVII. Refiro-me ao Ocidente, claro está. Pois que, entre outros exemplos, o Japão do séc. XI já nos havia presenteado com o fabuloso "Romance do Genji". Ora, esse corpo político pressupõe: 1º que a segurança seja assegurada pela delegação da força nas mãos do Estado, em regime de exclusividade; 2º que os indivíduos, para quem a vida pública se manifesta sob o disfarce da necessidade, adquiram um renovado interesse pela sua vida privada e pelo seu destino pessoal, eliminadas as antigas conexões naturais com os seus semelhantes; 3º que esses mesmos indivíduos só possam julgar a sua vida pessoal comparando-a com a dos outros, tomando essa relação a forma de concorrência; 4º que, implicitamente - e porque dotados todos eles pela natureza de igual capacidade e protegidos uns dos outros pelo Estado, que regulamenta os negócios públicos e os interesses em presença sob a justificação da necessidade - apenas o acaso seja apto a decidir quem vencerá.
Significativamente, esta elevação do acaso à posição de árbitro decisivo da vida viria a atingir o seu ponto mais alto no séc. XIX. Como resultado, surgiu um novo género de literatura, que acompanhou o declínio do drama: o romance. É que o drama perdeu o sentido num mundo sem acção, enquanto o romance podia tratar adequadamente os destinos das pessoas, fossem elas vítimas da necessidade ou favoritas da sorte. Balzac, de quem li recentemente "O Pai Goriot" (1834), demonstrou todo o alcance do novo género. E chegou a apresentar, nas 88 obras que compõe a sua "Comédia Humana", as paixões humanas como o destino do homem: sem vício nem virtude, nem razão, nem livre-arbítrio. Só o romance, na sua completa maturidade, podia pregar o novo evangelho da paixão do homem pelo seu próprio destino. E através dela, o criador literário tentava traçar uma distinção ente si e os outros, proteger-se contra a desumanidade da boa e da má sorte, desenvolver, em suma, todos os dons da sensibilidade moderna. Tão desesperadamente necessária à dignidade humana. Mas exigindo que um homem seja, pelo menos, uma vítima, se não puder ser outra coisa.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Leituras

Na minha modesta opinião, "Manual dos Inquisidores" é o último grande livro de Lobo Antunes. O que veio depois assemelha-se, digamos, a um exercício de austeridade monástica para enganar a morte. Refiro-me à ficção, é claro. Pois que as crónicas são outra conversa. É precisamente aí, na incursão ágil e intensa, na concisão fotográfica, que o autor melhor se revela. Mostrando-nos assim o seu portefólio particular ainda "em tosco". Envolvendo-nos numa cumplicidade onde reinam a empatia e a comoção. É por isso que recomendo sem restrições a leitura da sua última crónica, publicada ontem na revista "Visão". Chama-se "Vacilantes rostos do passado" e está aqui.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Resíduos não sólidos

Um pouco de Bíblia, retalhada, cosida e interpretada ao gosto popular, uma pitada de teoria da conspiração, mais a Inquisição, inveja a Roma, anti-papismo primário, insinuações pornográficas, umas manchas de incesto e parricídio, mais histórias de seminário e crimes do Padre Amaro e eis que temos sucesso editorial garantido, de Dan Brown a Saramago. A receita vence desde o século XVIII. As pessoas gostam do sórdido, escaldam de entusiasmo com grandes mentiras, inebriam-se com o apedrejamento de tudo quanto inspire ordem, hierarquia e autoridade.
Tanta indignação contra Saramago e tanta invectiva e desabafo acabam, como pedem as regras do mercado, por atrair clientes. Ora, tenho a certeza absoluta que nove em dez daqueles que compraram o Evangelho segundo Jesus Cristo o não leram e aqueles restantes que o fizeram não compreenderam coisa alguma. A obra é ilegível e deixa de ter piada a partir da segunda página, pois da abolição das regras de pontuação nascem o caos intelectivo, enunciativo e dialógico, que juntos, permitem a fruição de um texto, literário ou não. Mutatis mutandis, escrevam uma receita culinária sem virgulas, pontos finais e parágrafos e provocarão grandes indisposições que terminarão numa consulta de gastroenterologia. Assim é a obra de Saramago, sem tirar. (...) (que) vai voltar a escrever sobre o tema. Está a queimar inutilmente os últimos dias da sua passagem por esta vida escrevendo coisas votadas ao esquecimento. É uma pena, pois se o Memorial tinha o seu quê de curioso e o Levantados do Chão ecoava o que de humano havia no Neorealejo, estas coisas são, como o foram os panfletos de Oitocentos, mero lixo doméstico.

no "Combustões"

sábado, 24 de outubro de 2009

Mas ainda dão corda à criatura?

Saramago, o antigo aparatchik, distinguido no capítulo dos saneamentos políticos no DN durante o Verão Quente de 75, anda a fazer pela vida. Desta vez, lançou uns mind games promocionais, assim mais teosóficos, acerca do Antigo Testamento. Logo transformados no centro do debate na esquálida "praça pública" da Nação. Afinal, o homem não disse mais do que outros já disseram sobre o tema. Só que se trata de um nobelizado, um intelectual "progressista", apreciado por muita gente com a escolaridade obrigatória. No entanto, Saramago é talvez o maior equívoco da literatura nacional do séc. XX. Escreve bem, o que é discutível, mas nunca foi um bom escritor. Vale mais uma só obra de José Cardoso Pires do que toda a sua litania prosélita, que alguns confundem com literatura. Como cidadão, a arrogância e o ressentimento social precedem-no à légua. Porém, a sua prestação mediática é-me absolutamente indiferente. Entretanto, a criatura lá vai parindo uns volumes, tentando imitar os sul americanos. Desta vez, para aumentar as vendas de "Caim", nada como uns bons soundbites, em registo agitprop. Um tique que lhe ficou dos tempos leninistas. Mas cuja eficácia, em termos de marketing, tem chegado e sobrado. Portanto, temos um escritor medíocre, esganiçando-se na tasca a dizer "mal da padralhada". Ou seja, um pregão tonitruante que anuncia os seus serviços... Esquecendo-se que barafustar "contra a padralhada" é uma espécie de socialismo para idiotas.

Publicado no jornal "O Interior"

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A frente Leste

Esta senhora chama-se Herta Müller. Foi-lhe recentemente atribuído o Prémio Nobel da Literatura. A escritora é praticamente desconhecida em Portugal. Sendo romena, é etnicamente alemã, em cuja língua escreve. Uma dupla identidade comum nos países do centro-leste europeu, de que Kafka foi o exemplo maior, como é sabido. Vive em Berlim desde 1987, onde se exilou por motivos políticos, para fugir ao regime ditatorial de Ceausescu. Da sua já vasta bibliografia, só três obras têm edição em português: O homem é um grande faisão sobre a terra, trad. Maria Antonieta C. Mendonça, Cotovia, 1993; A terra das ameixas verdes, trad. Maria Alexandra A. Lopes, Difel, 1999; O Compromisso, trad. Lya Luft. Globo, 2004. Uma obra a descobrir, naturalmente.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Céline (1)



Tinha que ser. Depois do aperitivo e das entradas, o prato principal. A sopa virá no fim. A edição é da Ulisseia (1983) com tradução superlativa de Aníbal Fernandes (a utilização do termo "caracolando" tirou-me do sério). Pelos vistos, Céline não me larga. Os homens realmente livres são o único exemplo que é preciso levar a sério. Ainda recordo como a primeira leitura da "Viagem ao fim da noite" me deixou meio zômbico durante uns tempos. Por acção do petardo corruptor. Ou seja, por obra e graça da missão principal da literatura: corromper. A releitura que agora decorre tem ainda "isso", mas já tem "outra coisa". Recordo o que escrevi há tempos sobre o leitor errante:
"O livro é, não obstante as limitações da memória, como um quadro: no momento em que se acaba a leitura, tem paisagens, vales, dobras sombrias, cor, corografia. Dos seus picos (cobertos com a neve dos sublinhados) os pobres espremem citações, os sábios erigem torres académicas e os vagabundos visionam panoramas de intensidade, medo e fascínio. Há também um ambiente, nos livros. Uma luz do lugar. Um sopro. Às vezes um odor, único, que atravessa o país desvelado pela primeira leitura. No fim do livro é que começo a ler. Na revisita é que apreendo esse espírito que une leitor e escritor na mesma aflição. A aflição que impele à escrita e à leitura, conclui o leitor errante. Num instante está ali tudo. Tudo, mas nada ainda é conhecido. É aqui que se deve começar a ler."
Depois farei aqui as contas finais, é claro.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

O achado


Descobri este raríssimo exemplar do número da revista dedicado ao autor da "Viagem ao fim da noite", num simpático alfarrabista da baixa de Bruxelas. A edição é de Outubro de 1991. Nem queria acreditar no que estava a ver! A vida e a obra do genial escritor são aqui analisados à lupa. Desde a reedição dos panfletos ao seu estilo único, passando por uma entrevista praticamente inédita, de 1958.

A brisa em volta

Poucos momentos se conhecem da vida de Qu Yuán, o primeiro poeta chinês. Terá nascido no seio de uma família aristocrata, cerca do ano 340 a. C. Ocupado alto cargo como oficial no Reino de Chu. Sido expulso devido a calúnia. Escrito o Li Sao (Elegia da Separação). Escrito o Jiu Ge (Nove canções). Escrito uma parte da colecção de textos do Reino de Chu que dá pelo nome de Chu Ci (Versos de Chu). Aquando da notícia da queda do Reino de Chu às mãos do Reino de Qín, ter-se-á lançado ao rio Mì Luó, suicidando-se, de desgosto. Contava 63 anos e corria o ano de uma era anterior à de Cristo em 277 anos. Em resumo: nasceu, conheceu a glória, a desgraça, a escrita e a morte por asfixia. Ao todo, conto sete dias assinaláveis. Os dois dos extremos biológicos do mortal, os dois dos limites da sua vida pública, os três em que a sua mão se curvou para dar a ver através de tinta.
Desconhecemos por completo que tempo fez durante estes dias que se destacaram das seis dezenas de anos (mais mil dias) que durou a sua vida. (Choveu? Fez sol? Nevou? As nuvens iam altas?) E como seria diferente a sua biografia aos nossos olhos se nos tivesse chegado a singela frase: Quando Qu Yuán iniciava a redacção de Jiu Ge, um pouco acima, a brisa contornava as laranjas que ainda se conservavam suspensas no azul.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Gavotte (1)

Acabei de ler "As Benevolentes", de Jonathan Littell (D. Quixote, 1ª edição, 2007). De resto, um livro por bastante badalado e que se tornou, em todo o lado, um fenómeno editorial. Entre nós, a primeira edição esgotou em duas semanas, como aqui é explicado. Como começar? Ao longo da uma vida, chega um momento em que se percebe que são poucas as obras literárias que nos conseguem abanar de alto a baixo, jogar connosco um lance de alto risco, embora fascinante. Quando se inicia a leitura, não se imagina sequer que, 900 páginas depois, as perguntas se avolumam à mesma cadência com que os últimos recantos da inocência se esboroam como castelos de cartas. Única condição para que uma espécie de consagração da pureza nascida da amoralidade triunfe, para além do bem e do mal. É nessa viagem que Maximiliem Aue, ex SS-Obersturmbannführer ao serviço da Sicherheitdienst, nos convida a entrar. "Nunca pedi para me transformar num assassino", começa por dizer, explicando que "o Estado é composto de homens, todos mais ou menos comuns, cada um com a sua vida, a sua história, a série de acasos que fizeram com que um dia um deles estivesse do lado bom da espingarda ou da folha de papel enquanto outros estavam do lado mau. Esse percurso só muito raramente é objecto de uma escolha, ou igualmente de uma predisposição". Está lançado o programa. O ex servidor do III Reich leva o leitor pela mão, para que testemunhe o horror sem remissão, a iniquidade sem esperança. Um cenário onde ele foi actor, da mesma forma, remota mas possível, que o leitor igualmente poderia ter sido. E de onde lhe lança para os olhos a sua vida miserável, sem subterfúgios. De fora, ficam os remorsos, os apelos à redenção e à misericórdia, tudo o que possa assemelhar-se ao mais ténue acto de contrição. Aue procede tal como o poeta Vergílio, numa nova Divina Comédia amputada do Paraíso. Todavia, enquanto o poeta se assemelha a um cicerone, Aue é o porteiro da sua memória sem nome. Enquanto Dante conseguiu construir uma alegoria moral para a sua época, para Littell era impossível fazer o mesmo com o nazismo. Não só por causa da evidência da banalidade do mal, na expressão de Hannah Arendt. Mas porque, neste caso, a violência organizada, a industria da morte e a psicopatia como marca do poder, reuniram meios de destruição nunca antes conseguidos. Precisamente em nome de um programa de expansão nacionalista, caucionado pelas mais sólidas referências ideológicas e estéticas. Que quis inaugurar uma ordem que transcendesse uma arrumação moral que renega, com os resultados que se conhecem. Curiosamente, os anti-semitas "normais" eram mal vistos no Reich, uma vez que o ódio irracional inquinaria a eliminação "limpa" de uma espécie sub-humana. Max Aue poderia ter sido um simples jovem idealista, contaminado pela ideologia nacional-socialista e pelo grupo Action Française - Robert Brasillach e Lucien Rebatet foram seus amigos enquanto estudante em Paris. E prosseguir uma carreira académica promissora, na área jurídica. Só que, envolvido pela polícia (Kripo) num episódio "de costumes", numa zona de Berlim pouco recomendável à noite, aceitou uma proposta para integrar a SD na frente Leste. Onde acompanha o avanço da frente na Ucrânia, Crimeia, Cáucaso, acabando em Estalinegrado, onde presenciou os horrores da derrota e da retirada alemã. E onde uma bala de um sniper russo o deixou às portas da morte, de que escapou milagrosamente e lhe abriu o caminho para uma condecoração e uma carreira em alto estilo. Aue parece querer dizer-nos que a tragédia do triunfo e queda do Reich nada tem a ver com a sua tragédia pessoal. Cruzaram-se num beco da história. Onde a culpa e o remorso são assuntos risíveis, tudo é humano, demasiado humano, no início e a partir do fim de uma certa escala. A Oresteia que Aue testemunhou é pois, com toda a propriedade, um tema nietzscheano. A sua é a de um destino para o qual a história o empurrou, de tal forma aterrador que nem as Euménides se dispuseram a suavizá-lo. Estão lá todos os elementos desse pathos: o amor impossível pela sua irmã gémea, Una - a Beatriz proibida - que o precipita na homossexualidade, certamente por vingança e para se sentir perto dela; o assassínio nunca assumido da mãe e do padrasto, no sua casa do sul de França, o que dá origem a uma perseguição tipicamente kafkiana, movida por dois polícias boçais e ridículos, representantes do senso comum, embora sem consequências práticas; o assassínio do seu único amigo, Thomas, no final, após este lhe ter salvo a vida, o que lhe abriu as portas da fuga para França, com uma identidade falsa.

Gavotte (2)


A epopeia de Maximilien Aue poderia ter acabado quando decidiu ir passar a sua licença à mansão desabitada da sua irmã e marido, um aristocrata prussiano, compositor musical e inválido, na Pomerânia. Precisamente numa altura em que a chegada das tropas russas era só uma questão de dias. A descrição da sua estadia constitui um dos momentos mais intensos e brilhantes da obra. Uma espécie de viagem desesperada no interior das suas fantasias eróticas e obsessões sentimentais, um estertor orgástico que prenunciava o fim, um suicídio "por indiferença", já que, nesta altura, a morte era irrelevante para o narrador. Mas a história resolveu ainda puxá-lo para si, pela última vez. Pela mão de Thomas, que o foi resgatar do seu inferno privado. Para assistir à demência final, ao Apocalipse. E para dar uma dentada no nariz "pouco ariano" do Führer, quando este o condecorava, no seu Bunker. Um episódio marcadamente surrealista, num dos momentos mais surpreendentes do livro. No momento em que escreve as suas memórias, Aue é um pacato gerente de uma fábrica de rendas, em França. Cuja ambição maior é a nada se inclinar, senão a inclinar-se a nada. Que suporta. "sem repulsa", os seus deveres conjugais. Que tem pesadelos inexplicáveis, mas sem uma sombra de sentimento de culpa dentro de si. A sua única virtude é não julgar ou negar o que foi nem apelar ao julgamento do leitor. Precisamente a qualidade que nos expôs a sua tragédia sem nome, onde só os sonhos o traíram. Mas sem deixar de insinuar algo que, subtilmente, vai incomodando o leitor: "a máquina do Estado é feita do mesmo aglomerado de areia friável de que é feito aquilo que tritura, grão a grão. Existe porque toda a gente aprova a sua existência, até mesmo, e muitas vezes, até ao último minuto, as suas vítimas." Essa perturbação resulta do facto de, sem que ele nada esconda, mesmo o peso moral do acto de matar, o leitor pressentir como seria escandalosamente fácil ser o que ele foi.
Existe um momento no livro particularmente significativo. Após retomar as suas funções em Berlim, Aue é destacado pelo Reichführer Himmler para elaborar um relatório acerca das condições dos detidos nos K.L. (campos de concentração) na Polónia, com vista ao seu aproveitamento como mão-de-obra industrial. De visita a Birkenau, trocou umas impressões com um médico que aí prestava serviço, acerca da brutalidade dos guardas para com os detidos. Questionado, diz o oficial: "Uma solução fácil seria a de acusarmos a nossa propaganda, quando ensina que o Häftling (preso) é um sub-homem, não chega sequer a ser humano, é portanto legítimo bater-lhe. Mas não é bem assim: afinal de contas, os animais também não são humanos, mas nenhum dos nossos guardas trataria um animal da mesma maneira que trata os Häftlinge. A propaganda desempenha de facto o seu papel, mas em termos muito mais complexos. Cheguei à conclusão de que o guarda SS não se torna violento ou sádico por pensar que o detido não é um ser humano; pelo contrário, a raiva dele aumenta e transforma-se em sadismo quando se dá conta de que o detido, longe de ser um sub-homem como lhe ensinaram, é justamente, bem vistas as coisas, um homem, como ele no fundo, e é esta resistência, não sei se está a ver, que o guarda experimenta como insuportável, esta resistência muda do outro; portanto, o guarda, quando espanca o detido, está a tentar fazer desaparecer essa humanidade que é comum aos dois. Bem entendido, a coisa não funciona: quanto mais o guarda bate, mais obrigado é a comprovar que o detido se recusa a reconhecer-se como não-humano." Esta relação ambígua entre a vítima e o carrasco é largamente desenvolvida por Arno Gruen, no seu livro "A Loucura da Normalidade" (Assírio & Alvim, 1995). A certa altura, com base num relato de um jornalista, refere a história de um soldado alemão que, após ter recebido ordens para matar um soldado russo acabado de capturar, não o conseguiu fazer, ao perceber que "não era um inimigo abstracto qualquer, mas uma pessoa que, tanto como ele, sentia medo e desespero." Conforme é relatado por Aue, Himmler proferiu um célebre discurso, numa reunião alargada dos quadros do regime e dirigentes da SS, em Poznan, em Outubro de 1943. O objectivo dessa comunicação, de uma crueza suprema, pois nada escondeu em relação à Endlösung (solução final) em marcha, foi correctamente entendido pelo narrador: implicar o auditório nessa responsabilidade, estendê-la a todo o regime, comprometer os presentes com um conhecimento de que não se poderiam mais tarde descartar. O Reichführer nem se preocupou em camuflar a mistificação em que por vezes caiem os instigadores do assassínio de massas: "A maior parte de vocês deve saber o que isso representa, quando jazem juntos cem cadáveres, quando jazem aí quinhentos ou mil cadáveres. Ter passado por tudo isso e ter-se conservado uma pessoa decente - tirando algumas fraquezas humanas - isso é que nos tornou duros." (op. cit, p. 58).

Nota: a propósito desta obra, sugiro a leitura desta entrevista de Jonathan Littell ao Le Monde des Livres.

Gavotte (3)


O universo desvelado pela obra é de tal forma vasto, que alberga com muita dificuldade intenções historicistas, alegóricas ou psicanalíticas. Não é que uma obra literária desta envergadura não possa - bem pelo contrário - suscitar leituras transversais e povoar os fóruns de discussão. É certo que um ensaio controverso sobre um tema "quente" como o nazismo faria emergir, debaixo do tapete, todo o tipo de poeiras e de fantasmas. Situação de que não faltam os exemplos. Só que "As Benevolentes" é um romance. E um romance é um artifício que modela uma possibilidade de conhecimento. De tal forma que ninguém fica imune à leitura de uma obra que não pretende demonstrar, mas desenhar um labirinto. O livro, é sabido, dividiu a crítica e o público. Particularmente na Alemanha, como seria de esperar. Foi precisamente aí que, há semanas e pela primeira vez, Littel falou sobre o livro. Foi no lendário "Berliner Ensemble", em Berlim, perante uma plateia cheia até às costuras. Na sessão, respondeu a algumas questões lançadas por um soixant-huitard bem conhecido: Cohn-Bendit. O registo da entrevista poderá aqui ser lido na íntegra. Littel avança algumas das ideias-chave sobre as quais edificou o livro: o nacional-socialismo não foi só uma construção e uma aspiração política alemã, mesmo encarando-o à luz de uma perversão do romantismo e do idealismo filosófico germânicos; implicitamente, o nazismo foi e é uma questão que diz respeito à Humanidade e não só à Alemanha; o desenho da obra decalcado da "Oresteia" não é um tributo gratuito à tragédia grega, mas a ilustração do facto de a tragédia ter funcionado como referência fundamental para esses românticos, como Kleist, Hölderlin, Schiller, ou para filósofos como Heidegger; que o nazismo era uma linguagem comum para a sociedade, onde cada um se posicionou de acordo com as suas referências ideológicas e éticas e sobretudo com as respectivas ambições sociais e políticas; que a Europa moderna nasceu das cinzas do III Reich; também a frase que foi cacha no dia seguinte na imprensa alemã, quando questionado se os horrores que descreve não tolheram o escritor : "Quando se escreve, pensa-se nas vírgulas, nos subjunctivos, nos imperfeitos, não se pensa nos cadáveres. Cadáver é uma forma gramatical, quando escrevemos. A escrita é um trabalho com a linguagem"; por último, o papel que Littel destinou a Max Aue enquanto narrador: "Queria uma narrador que pudesse ser lúcido, desprendido, distanciado em relação a todos os outros. Uma parte do trabalho, para mim extremamente importante, foi precisamente os outros. Os leitores focalizam-se bastante em Max. Mas, para mim, todos os outros, todos os que Max descreve são igualmente importantes. Fossem eles Eichmann, ou Rebatet, ou ficcionados, tentei mostrar toda a gama de nazis que tenham existido. Do pequeno nazi de base até Himmler. E Max, enquanto personagem, serviu-me perfeitamente para isso, pois estava numa posição chave como observador. Li um artigo de historiador francês que avançou a ideia, assaz interessante, que Max mentia. Pois eu nunca tinha pensado nisso. Um nazi que não era anti-semita, que não lia Rosenberg e que prefere Flaubert e música barroca francesa será credível? É possível que ele minta, ou que seja sincero. É uma possibilidade do texto, absolutamente plausível, creio". Sim, é uma possibilidade do texto. Que requer uma análise suplementar. Littel, ao que parece, não gosta muito de falar sobre esta obra monumental. Mas quando o faz, não deixa dúvidas acerca do que pretendeu ao escrevê-la. Mesmo os silêncios também contam.

Gavotte (4)


Prosseguindo a leitura em voz alta do livro, é fundamental responder ao seguinte: quem era Max Aue? Tomo como fiáveis as impressões que recolhi durante a leitura do livro. A história familiar do protagonista confunde-se com a génese do próprio nazismo: o pai fora um herói militar na Grande Guerra e um membro da aristocracia prussiana. Era o símbolo de um heroísmo inquestionável, mas algo anacrónico, segundo o cânone nacional-socialista. Acontece que ele desaparece, sem deixar rasto, logo após o conflito. O livro é equívoco quanto baste em relação ao seu paradeiro. A mãe acaba por refazer a família, voltando a casar com um homem de negócios francês. Situação que Max nunca irá aceitar e que está na base da sua fuga e adesão à Action Française e, depois, ao nacional-socialismo. Agora tracemos um paralelo com as condições humilhantes impostas pelos vencedores da Guerra de 14-18 à Alemanha, a bancarrota, a busca desesperada de referências colectivas, a restauração de uma ordem mítica, pré-iluminista, a dimensão inimaginável de uma hubris retaliadora e expansionista. O que significa que Max não corresponde de todo ao estereótipo do factotum nazi. Ele adere ao Volkstürm com toda a força das suas convicções, mas as suas referências intelectuais são europeias, fora do habitual cardápio dos autores "recomendados" pela ortodoxia. É bom não esquecer que Aue discutia apaixonadamente sobre Rameau e Couperin com o seu cunhado, compositor e músico. Defendia Kant perante Eichmann. Detestava Wagner. Revelou um profundo conhecimento do marxismo-leninismo, num tête à tête com um comissário político soviético recém-capturado, durante o cerco de Estalinegrado, e fuzilado passadas umas horas. Quis (re)encontrar Léon Degrelle, o incansável mentor do Rexismo belga, após a tomada do norte do Cáucaso, quando este comandava uma brigada que lutava ao lado da Wermacht. Nesse período, teve um breve contacto com o escritor Ernst Jünger, muito popular entre as tropas alemãs. Portanto, Aue era sobretudo um intelectual, a quem agradaria acima de tudo uma carreira académica tranquila, na área do direito internacional, mesmo que com algum proselitismo associado. Enquanto serventuário do regime, revelou uma "correcção" a toda a prova, mesmo quando dava o tiro de misericórdia aos judeus que eram atirados para as valas comuns, durante as execuções em massa de Kiev. Ou quando se insurgiu com os excessos de um oficial, numa aldeia perto de Karkhov, pois agredia "desnecessariamente", e sem ordens superiores, as mulheres judias, antes de serem fuziladas. Que lhe retribui com uma série de intrigas que determinaram a sua transferência para o fim do mundo: Estalinegrado. Como oficial superior das SS com funções burocráticas, revelou sobretudo a preocupação em tornar o sistema mais eficiente, mesmo que a sua missão fosse racionalizar o extermínio e o aproveitamento da mão-de-obra "disponível". Não creio que Aue mentisse, no sentido normal do termo. Em grande medida, deixou-se apanhar numa teia que o protegia de si próprio e que só dentro dela existia plenamente. Senti-me compelido a simpatizar com ele, com a sua tragédia pessoal. Acredito que a maioria dos leitores tenham igualmente sido presas desse impulso. Mas foi aqui que Littel revelou a sua mestria, de modo particularmente brilhante. À semelhança de Kafka, não se coibiu de desenrolar a narrativa com todos os detalhes possíveis - por vezes obsessivamente - sabendo que é nos pormenores que o Mal se esconde. No centro do campo de visão esteve sempre Aue. O que quer dizer que, em princípio, só sabemos o que ele nos conta. E o seu relato é de tal forma credível que, nem mesmo após os elementos reunidos na investigação das mortes da mãe e do padrasto, ocorre ao leitor que o autor foi mesmo ele. Permanece unicamente uma vaga suspeição. A dúvida só se desvanece no final, quando mata, a sangue frio, o seu único amigo, Thomas Hauser, depois de este lhe ter salvo a vida. Com o propósito de usar os meios de que este dispunha para adquirir uma nova identidade e fugir para o exílio francês. Até aí, Aue fora simplesmente um passageiro tranquilo e diligente, um oficial exemplar, alguém em busca da sua identidade. Mas percebe-se que é também um homicida. Mais frio e isento de escrúpulos do que aqueles que descreve no teatro de guerra e nos campos de extermínio. Percebe-se, então, que Max escondeu sempre algo, por trás do horror e da barbárie que descreve sem pestanejar: a sua própria natureza. Mas sempre acreditando - e disso querer convencer o leitor - que a verdade inimaginável que conta consome a mentira mesquinha dos seus crimes privados. Portanto, Aue não mentiu, mas omitiu as razões profundas da sua participação naquilo que descreve. Passou em claro a sua íntima natureza amoral. A qual determinou, afinal, a sua adesão inconsciente a um inferno gigantesco, que encobrisse convenientemente o seu inferno particular. Todavia, Max Aue em momento algum teme o destino. E isso aproxima-o da imponderabilidade e da incerteza. Ao mesmo tempo que o coloca muito para lá da censura ou da condenação. E da culpa. Como se, à semelhança do herói da tragédia, a única punição que o destino lhe reservou fosse ter sobrevivido. Por isso, o único facto que ele não confessa - o duplo homicídio - é, digamos, a razão de ser de uma confissão com 900 páginas. Um buraco negro.

Gavotte (5)


Até agora, a análise da obra cingiu-se ao universo da narrativa, ao enredo, às perplexidades de um tempo e de um regime: o nacional-socialismo. Faltava ainda colocar a pergunta fundamental: como foi possível "aquilo" no país que amava Schubert e idolatrava Goethe? O que levou a que a Bildung, ou seja, a seriedade e o radicalismo espiritual da cultura alemã, a sua modernidade, tenham conduzido à barbárie? Para tentar responder, necessário se torna tomar algumas precauções. É que uma coisa é falar do colapso moral de Auschwitz e outra, bem distinta é descrever uma tradição literária e moral que desaguou em Auschwitz. Mas que podia ter originado outra experiência, menos radicalizada do que o fantasma totalitário que se apoderou da Europa durante os anos 30 do século passado. Da Europa e não só da Alemanha, é bom repetir. As conexões entre causa e efeito colocam sempre uma questão muito delicada na construção do relato histórico. Em primeiro lugar, porque tendem a introduzir um elemento de necessidade onde impera, se não a liberdade, pelo menos o acaso. Depois, porque levam a que todo um processo apareça retroactivamente sobrevalorizado por um facto que essa sobrevalorização encara como fatalidade. O excesso de telos retrospectivamente reconstruído distorce o sentido típico, aleatório, polivalente, dos fenómenos que o presente vai produzindo. Convertendo essa vastidão numa imensa flecha que converge num único lugar: o grande centro de gravidade que se apodera do relato e, quiçá, da sua própria veracidade. É um trabalho de grande perspicácia aquele que se exige ao historiador: distinguir entre as causas realmente relacionadas, os elementos contingentes e os elementos completamente livres que configuram a base das suas hipóteses. Salvando-se assim do poder de atracção que certos factos exercem sobre esse material. Não há fatalismos na História. As tendências anteriores aos factos devem ser interpretadas com muita cautela. Sobretudo se essas tendências implicam uma leitura tendenciosa. Talvez seja desta tentação que a obra nos pretende prevenir. Usando de uma suprema elegância romanesca. Auschwitz e o nazismo funcionam, sem dúvida, como um campo magnético, capaz de condicionar muitas leituras. Mas é esse precisamente o triunfo póstumo dos nazis. Sobre o qual haverá que reflectir sem preconceitos. Não porque, de facto, se trate de uma vitória póstuma, mas porque é de acolher a possibilidade de que uma coisa - a cultura literária e moral alemã dos séculos XVIII e XIX - não tenha nada a ver com outra - o holocausto, o totalitarismo e a guerra de extermínio. E aqui convém distinguir: uma coisa é a afirmação de Adorno acerca da impossibilidade da poesia depois de Auschwitz e outra, bem diferente, é a obscuridade que Auschwitz projecta antes de si, retroactivamente. Transformando a construção da modernidade cultural na Alemanha como um caminho até ao holocausto. Essa sobredeterminação dos factos em função de um fim, tão monstruoso quanto ilógico, converte-os em algo que participa dessa irracionalidade, em algo inútil do ponto de vista da visão da Bildung alemã como um processo com potencial civilizador. Na verdade, esta não tinha esse propósito, no sentido pacificador, pluralista e democrático a que tendemos a associar a ideia de civilização. Uma ideia supostamente francesa, que aparece contraposta a um conceito bem alemão: a Kultur. Ora, a função desta não era tornar as pessoas melhores, satisfazer a utopia de uma cultura emancipadora, humanista, mas sim tentar evitar que algumas delas não soçobrassem no processo de individuação e socialização.