Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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domingo, 29 de janeiro de 2012

Breves (3)

1.Por causa de uma crónica a propósito da emissão do programa "Prós e Contras" a partir de Angola, o jornalista Pedro Rosa Mendes foi "dispensado" pela direcção de informação da RDP 1, onde colaborava na rubrica "Este Tempo" com as suas crónicas. O acto de censura resulta de uma crítica contundente ao espectáculo propagandístico oferecido à cleptocracia angolana e ao "nauseante e grosseiro exercício de propaganda e mistificação" (sic) do referido programa. Aqui poderão aceder à nota publicada no "Público", a propósito do tema. 
2. As virgens ofendidas do costume andam indignadas por causa de um desabafo do Presidente da República acerca da sua reforma. É claro que Cavaco Silva pode ser criticado por vários motivos. Do meu ponto de vista, como homem educado no regime anterior, está demasiado marcado por uma prudência imobilista e incapaz de retirar peso ao Estado. É bom não esquecer que a deriva despesista que nos tem em apertos começou com ele. Seja como for, circulam pela net panegíricos inflamados condenando Cavaco à execração. Esquecendo talvez que o seu trunfo maior é a identificação com o português comum, que sobe a pulso, com sacrifício, avesso a rupturas. Nas redes sociais, o fait-divers com Cavaco atinge proporções pantagruélicas. Desde peditórios a músicas, há para todos os gostos. Mas vê-se também a arruaça de tasca, do tipo "segurem-me senão vou-me a ele". E com isto andamos a perder um tempo precioso. Que deveria servir para aproveitar a crise da única maneira possível: desfazermo-nos de hábitos consumistas e de um individualismo sem futuro. Novas formas de convivialidade, de participação cívica, de solidariedade. O caminho é esse. Não é continuar a dar importância aos mesmos actores de sempre.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O espectáculo da populaça

Só para se ajuizar da qualidade informativa dos nossos meios de comunicação, basta ver o que se está a passar nas televisões esta noite. Em vez de cumprirem a sua obrigação - informar, divulgar, recrear - estão centradas nas comemorações de uma vitória, ao que parece, no mundo do futebol. As hordas com as cores de uma conhecida agremiação de bairro mais a norte eram mostradas ad nauseum. Enquanto vociferavam e grunhiam como se tivessem ganho o euromilhões. Manifestações festivas? Não! Expressão de ódio, chauvinismo e incultura cívica. Na cidade onde vivo, a escassez dos cidadãos que se juntavam em comitivas automóveis era compensada pelo ruído que produziam. Que ultrapassou as horas legalmente permitidas para tal. Entretando, as TVs iam convidando notáveis dessa agremiação regional dada à corrupção, para debitarem inanidades avulsas. Ou seja, a prova de como o insucesso escolar é premiado quando se trata de distrair os papalvos. Em síntese, é espantoso como as TVs da praça dão ampla cobertura a este espectáculo  degradante. Como se nada mais se passasse no universo. Uma vergonha!...

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A preparação do actor

Algures durante a semana anterior, passou um programa no Canal Odisseia acerca da linguagem gestual aplicada aos políticos. O universo em análise era claramente o anglo-saxónico. Onde, como é sabido, foi consagrada a gestão da imagem dos actores políticos como uma tarefa de primeira água. E nada aí é deixado ao acaso. A partir de um determinado nível de exposição pública e de importância institucional, qualquer político que se preze terá que dominar um conjunto básico de procedimentos mais ou menos estilizados. Os quais são imprescindíveis para uma performance convincente, fazer passar uma  mensagem positiva e reforçar a credibilidade. Ou seja, a forma capturou o conteúdo. Um bom político terá que ser necessariamente um bom actor, mas onde os gestos obrigatórios esmagam os artísticos. Dito de outra forma, um político bem sucedido não poderá jamais descurar um conjunto de técnicas de comunicação gestual, aplicadas a situações bem determinadas. E cuja margem de disponibilidade para o próprio é muito reduzida. Eis alguns exemplos referidos no programa:

1º O orador político deve convencer a audiência da espontaneidade e da naturalidade das suas declarações, o que se traduz na conveniência em aparecer primeiro o gesto e imediatamente depois as palavras. E de esse gesto (preferencialmente utilizando as mãos e a cabeça) ser dirigido exactamente para o mesmo lado para onde se fala. O exemplo mais conhecido de como a inobservância deste procedimento pode ter consequências trágicas, também referido na transmissão, foi o da célebre negação de Clinton em relação a aventuras sexuais com Monica Lewinski. O Presidente americano não só apontou com o dedo para o lado oposto para onde falava, como parou de agitar subtilmente a cabeça em sinal de negação enquanto proferia a declaração. Resultado: poucos ficaram convencidos de que dizia a verdade. 

2º Em contexto mediático, um político não pode nunca deixar um gesto a meio. É um péssimo sinal de hesitação e falta de firmeza. Exemplo: a conhecida sequência da entrada de Blair na sua residência oficial em Downing Street, acompanhado da mulher, logo após ter sido empossado pela Rainha no seu 1º mandato. A certa altura, o novo Primeiro-Ministro passa o braço pelos ombros da mulher, que interpretou o gesto como sinal para o beijo protocolar. De imediato se voltou para Blair, o qual, em vez de consumar o ósculo, continuou a acenar à multidão, ignorando (olimpicamente) a mulher. Percebendo o erro, pouco depois abraçou-a, mas sem convencer ninguém da autenticidade do gesto. Claro que, nos dias seguintes a imprensa britânica não poupou as críticas a Blair pelo seu "repúdio". Graças a um deslize aparentemente inócuo, os tablóides ousaram passar por cima do estado de graça próprio dos vencedores.

3º Outra técnica, utilizada especificamente em campanhas eleitorais, consiste em o candidato, antes e, sobretudo, depois do seu discurso, apontar para pessoas determinadas na audiência e, em seguida, saudá-las de forma individualizada. O recurso é claramente cénico, pois o candidato não aponta para, ou saúda realmente ninguém. Quer simplesmente transmitir a mensagem de que certos cidadãos, de quem ele é "próximo", quiseram vir engrossar o seu caudal de apoiantes. E que esses cidadãos podiam ser um qualquer "de nós". E de que a referida "proximidade" reforça a ideia de confiança dos eleitores no "seu" candidato. No fundo, é a  evocação trivial da velha ideia liberal do "contrato social " de Locke, fundadora da democracia americana. Pelas imagens mostradas na emissão, quer Obama quer Hillary Clinton, usaram e abusaram do expediente, durante as últimas eleições presidenciais.

Notas: 
I - Stanislavski que me perdoe a utilização do título homónimo do seu livro, para fins tão pouco artísticos.
II - Após o tristemente célebre acordo ortográfico, "actor" passou a "ator". Algo muito próximo da designação do deus escandinavo, mas que nem por isso afasta a desgraça.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

As vinhas da ira (2)


Poderia a Assembleia Municipal da Guarda ter sequer aceite à votação esta moção? Em meu entender, a resposta é negativa. Por duas razões. Em primeiro lugar, o conteúdo desta moção extravasa claramente as  competências deste órgão. Que são elencadas no art. 53º da Lei n.º 169/99, de 18 de Setembro, alterada pela Lei n.º 5-A/2002, de 11 de Janeiro, que aprova o regime jurídico das Autarquias Locais. Em nenhuma das alíneas se prevê a possibilidade de uma assembleia emitir juízos sobre cidadãos individualmente considerados, nessa qualidade, sob qualquer pretexto. Em segundo lugar, a sua atribuição externa fundamental é "acompanhar e fiscalizar a actividade da câmara municipal". Por outras palavras, a definição sumária do seu princípio de funcionamento. O qual não inclui, obviamente, substituir-se a um tribunal, sempre que esteja em causa matéria onde a autarquia respectiva se considere lesada. Se foi esse o caso, deveria a AM ter endereçado uma queixa ao órgão jurisdicional competente. Fora de causa está a possibilidade de ela própria funcionar como um tribunal sumário. Onde está em discussão o exercício de um direito fundamental por um cidadão. Onde nem sequer o próprio pode exercer o contraditório. Onde as "provas" fornecidas não são analisadas nem valoradas por uma entidade independente. E a postura sedenta de sangue do actual presidente da AM está longe de corresponder à isenção requerida. Ficando assim os deputados votantes à mercê da demagogia, da chantagem e da capacidade persuasiva do tribuno proponente. Que subtilmente confundiu o uso da liberdade de expressão do cidadão Américo Rodrigues com a sua qualidade de Director do TMG. Ideia essa que acabou por passar para a votação, para a opinião pública e para alguma imprensa. É claro que, além dos meios normais, o próprio poderá reagir também pela via judicial, contra os titulares da AM intervenientes no caso, se para isso vir razões. Tal é o que permite o art. 97º da citada lei.
Se em relação ao acolhimento pelos membros da AM já se falou, sobra uma nota para a distribuição dos votos. Em relação ao PSD, confirmou-se o que já pensava acerca da estrutura local deste partido: dominada pelo atavismo, o conservadorismo, o anti-liberalismo, pela teia de interesses paroquiais que Pacheco Pereira tão bem tem vindo a denunciar. O PS anda pelas mesmas águas. Com a diferença assinalável dos doadores fantasma. As vozes divergentes só confirmam a regra. Notável é a posição do Bloco de Esquerda. Ou seja, não participar na votação e remeter o assunto para uma "questão de comadres". Ora, num partido habituado a opinar sobre tudo e todos, cujo líder mais parece uma picareta falante, e notabilizado pela promoção e defesa das questões fracturantes e/ou onde estejam em causa direitos fundamentais, o silêncio, neste caso, é ensurdecedor. Porém, numa estrutura local dominada pelo estalinismo, outra coisa não seria de esperar.
Por outro lado, neste episódio, há que referir a intenção manifestada por Baltazar Lopes em prosseguir a sua sanha persecutória. Agora tendo por objecto a Fundação Trepadeira Azul, na pessoa do seu presidente Mário Martins. Conheço este pessoalmente, bem como a sua notável acção em defesa do património ambiental local e da cultura, enquadrada institucionalmente pela Fundação. À qual só posso tecer os maiores elogios. Sabendo que, nesta área mais do que noutras, a acção em prol de causas não é possível sem pôr em causas interesses e poderes. 
Last but not the least, sobre o visado, Américo Rodrigues, três linhas. Após este episódio, AR posicionou-se definitivamente na Guarda como o elemento catalisador da dualidade modernidade/desenvolvimento/liberdade versus atavismo/subdesenvolvimento/carneirismo. Não que eu seja apologista das esquematizações a P&B, mas há situações onde elas têm todo o cabimento. Demonstrado ficou também que a sua intransigência e o seu destemor, em defesa de valores comuns aos defendidos pelo escriba, não só incomoda muitos, como o seu número se tem vindo a reproduzir desde que a luta começou, há trinta anos.
Para ambos, quero expressar a minha inteira solidariedade.

PS: sobre o caso, ver notícias aqui, aqui, aqui e aqui, ou um acertado comentário, na A23.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Qd é k a idd da gavt veio a dar nst lg ñ dá...

Um terço dos adolescentes americanos envia 100 sms por dia, é o titulo de um estudo hoje divulgado no Ionline. Segundo a sondagem, 87% dos inquiridos declaram que chegam mesmo a dormir com o telemóvel, "ou perto dele". As raparigas recebem diariamente 80 sms e os rapazes "somente" 30. Palavras para quê? Começo agora a perceber melhor as razões para o debatido episódio da escola portuense, há dois anos, onde uma aluna disputou o seu telemóvel com uma professora em modo wrestling.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Sócrates em queda

São apenas 29,4% os portugueses que têm de José Sócrates uma imagem positiva. O resultado foi obtido este mês, contra os 40,3% registados em Janeiro. O estudo é da Marktest, para a TSF.
As razões para este estranhíssimo caso podem ser encontradas aqui. Por sinal, grande parte delas divulgadas hoje no semanário "Sol". Ou então, para quem gosta de estudos comparados, numa visita ao país de Hugo Chavez. Boas notícias, apesar de tudo. Seja como for, depois de se saber agora de onde partiu a fuga de informação que permitiu aos visados nas escutas saberem que estavam a ser investigados, o país não tem quaisquer razões para confiar em Pinto Monteiro. Um PGR que, em vez de garante da legalidade, aparece como um simpático moço de recados da pandilha socrática.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Lido

O PS anda a dizer que existe uma “campanha mediática” contra Sócrates, alimentada num sinistro conluio entre a direita (o PSD dizem eles precisando), os patrões dos media e jornalistas desclassificados que, em conluio com magistrados e juízes, cometem todos os dias crimes num ataque pessoal ao carácter do Primeiro-ministro. Seria grave se fosse verdade, mas não é.
(...)
O problema é outro. O problema é, como já escrevi há muito tempo e acabou por se tornar uma frase repetida exactamente porque tinha força para se tornar viral, é que sempre que se dá um pontapé numa pedra, aparece José Sócrates lá debaixo e a sua Casa de amigos, boys, assessores, comissários, envolvidos sempre em algo que nunca se sabe se é ilegal porque a justiça está como está, mas que se sabe com certeza que é inadmissível num governo democrático. Quem faz a “campanha mediática” contra Sócrates e o seu governo é Sócrates a a sua Casa.

Pacheco Pereira, no "Abrupto"

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Lido

Nem o Jornal de Sexta, nem o PÚBLICO tinham o poder de pôr em risco o Governo ou sequer de afectar significativamente o prestígio e o estatuto de Sócrates. Se alguém tinha esse poder era o próprio José Sócrates, para não falar no grupo obscuro e anónimo, que, segundo se depreende dos documentos que o Sol revelou, o serviu zelosamente no terreno. Não vale a pena insistir na ilegalidade e, sobretudo, na profunda imoralidade da operação, se por acaso existiu como a descreveram. Em qualquer sítio para lá de Badajoz, nenhum político sobreviveria um instante a essa grosseira tentativa de suprimir com dinheiro público o livre exame e a livre crítica, que a Constituição e os costumes claramente garantem. Mas não deixa de surpreender (e merecer comentário) que um primeiro-ministro de um partido que se gaba das suas tradições democráticas, declare por sua iniciativa, e sem razão suficiente, guerra aberta à generalidade dos media, que não o aprovam, defendem e bajulam. Não há precedentes na história deste regime de um ódio tão obsessivo à discordância, por pequena que seja, ou a qualquer oposição activa, de princípio ou de facto. O autoritarismo natural de Sócrates não basta para explicar essa aberração na essência inteiramente inexplicável. Tanto mais que ela o prejudica e dá dele a imagem de um homem inseguro e fraco. Pior ainda: de um homem desequilibrado e perigoso. A única hipótese plausível é a de que o primeiro-ministro vive doentiamente no mundo imaginário da propaganda. Ou melhor, de que, para ele, a propaganda substituiu a vida: Sócrates já não partilha ou nunca partilhou connosco, cidadãos comuns, a mesma percepção de Portugal. Do "Simplex" que nada simplifica ao estranho melodrama sobre as finanças da Madeira que nada pesam, aumenta dia a dia a distância entre o que país vê e compreende e o que o primeiro-ministro afirma enfaticamente que é. Está perto o ponto em que só haverá uma solução: ou desaparece ele ou desaparecemos nós.

Vasco Pulido Valente, no "Público"

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sopa da pedra

Sou espectador assíduo do programa Ponto/Contraponto, na SIC Notícias. Um emissão onde Pacheco Pereira tem oportunidade de se debruçar em pormenor sobre vários exemplos de mau jornalismo. E de como isso ilustra a falta de pluralidade e de isenção na informação. JPP é aqui, com toda a propriedade, uma espécie de provedor do cidadão, no que aos media diz respeito. E o programa é claramente um exemplo de serviço público. Ora, os baixos níveis de qualidade da maioria do jornalismo que se pratica no nosso país aferem-se, sobretudo, no tipo de tratamento dado aos temas de 1ª página. Mas nem por isso o tipo de apresentação das notícias "menores" deixará de definir também um quadro clínico de negligência e falta de rigor. Muitas vezes, é mesmo através do pormenor que se detectam os principais sintomas.
E é precisamente de um exemplo desses que hoje irei falar. Recentemente, no "Portugal em Directo" emitido pela RDP Centro, a seguir ao noticiário das 13h00, um jornalista dessa estação apresentava o "X Festival de Sopas da Serra da Estrela", em S. Paio, Gouveia. Claro que se não andasse com uma dieta semi-rigorosa às costas, tinha lá dado um pulo, mas a questão não é essa. Em termos globais, se abstrairmos do indiscutível mérito da ideia e da qualidade evidenciada, o facto em si não passa de mais uma iniciativa de promoção local. Todavia, o tratamento dado por esse jornalista foi desastroso. Após a descrição inicial, com aquele à vontade de quem associa uma mostra gastronómica a uma quermesse de feira, informou o auditório indígena que os que ali acorriam estavam (sic) "sequiosos de comer"!!! Sequiosos? Mas de comer o quê? As sopas, presumo! Confesso que, em termos semânticos, é complicado definir a apetência segregada no hipotálamo por uma sopa. Será sede? Será fome? Será uma sede que não chega a ser fome? Será uma fome envergonhada, mascarada de sede? Ou antes uma irreprimível necessidade de um aconchego da alma, por via do estômago, sem demasiado comprometimento? É de supôr que todas estas visões contraditórias passaram pela cabeça do jornalista. Se tal ocorreu depois de uma prova das sopas, é de supôr igualmente que o paradoxo se transmutou, adquirindo as propriedades do puro disparate. Se foi antes, é de acatar a hipótese de o jornalista pré-comensal ter ficado à mercê do trocadilho semântico de ocasião. Ou seja, o pau para toda a colher dos preguiçosos. E a ocasião produziu um magnífico oxímoro (figura de estilo que consiste numa contradição muito intensa e cujo significado é aparentemente absurdo). Vejamos então a definição para "sequioso" no Dicionário Priberam de Língua Portuguesa: 1. Sedento, ávido de água. 2. Seco em extremo, falto de água. 3. Fig. Sedento; ávido; muito desejoso. Como se depreende, o elemento chave é a falta de água. A qual, no limite, também pode ser a metáfora para outros apetites. Que inclui, ora aí está, o apetite de comer, perdoem-me o recurso estilístico. Portanto, não é de descartar a possibilidade de o jornalista, alucinado com os aromas de uma sopa de beldroegas, ter efectuado um trajecto linguístico singular, bizarro mesmo. Ou seja, o percurso que vai de um oxímoro a um simples pleonasmo.
Mais à frente, o jornalista entrevista alguns transeuntes. A páginas tantas, questiona um jovem sobre "o que é que andava ali a fazer"!!! Isto na suposição, presume-se, de que o jovem pudesse ser um ET, um adepto de uma claque de futebol em vilegiatura serrana, ou um pré-delinquente a quem foi dado o devido "correctivo das sopinhas". O mencionado jovem respondeu, sensatamente, que vinha "experimentar umas sopas". "Sopas?!", zuniu o jornalista. "Então vocês não gostam mais de bifes e assim?", acrescentou. Claro que a luminária queria dizer hambúrgueres. Claro que o perguntante estava surpreendido por causa de o jovem estar ali, "normalmente", e não num estabelecimento de fast food a empaturrar-se de toxinas, ou a fumar um charro, ou a insuceder na escola, ou a jogar ao braço de ferro com um professor numa sala de aula, com um telemóvel de permeio. Claro que esses clichés (temos que chamar as coisas pelos nomes), alimentados em grande parte pelos media, são de tal forma irresistíveis que o nosso jornalista não evitou sucumbir diante deles. Imaginemos que diante da sopa. Precisamente.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Zapping

A questão da suspensão do jornal de sexta, na TVI, tem contornos mais complexos do que à primeira vista possa parecer. Todavia, ao mesmo tempo, tornou tudo mais claro. Mesmo admitindo que tenha havido anteriormente pressões do gabinete do 1º ministro para que o programa acabasse, custa a crer que, num período eleitoral, tenham sido mais intensas. A ordem de suspensão, sabe-se agora, partiu do próprio Cébrian, patrão da Prisa. Só um ingénuo pensaria que foram imperativos de qualidade que determinaram a decisão. Numa perspectiva empresarial, no universo autofágico da comunicação social, o programa seria de manter, em princípio, pois tinha um share consolidado. Apesar de a emissão dever servir como case study sobre o que não deve fazer-se no jornalismo. Então, se assim é, porquê acabar com ele? Simplesmente porque outra lógica se sobrepôs à das audiências. Num país onde o peso do Estado se faz sentir em todos os sectores de actividade, não seria desejável que a TVI ficasse para trás numa possível reestruturação do sector, ou que tivesse tratamento de 2ª na disponibilização da informação oficial, ou nas habituais prebendas. O grupo detentor da estação assustou-se perante a perspectiva de promover um programa estigmatizado, num país pequeno, movido pela inveja, sem um espaço público plural e transparente e com um Estado imenso. Tudo o resto são suposições. Por outro lado, a reacção de Sócrates é miserável. Afirmando, com um cinismo insuportável, que até gostaria que o programa continuasse, mesmo tendo sido "vítima" no passado da "terrível" Moura Guedes. Mesmo tendo já dito o pior possível da emissão e dos seus responsáveis. Sócrates perdeu aqui toda e qualquer credibilidade política para quem gosta de manter um mínimo de exigência em relação a quem nos governa. E o caso Freeport está longe de ter terminado...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A torre e a feira

Em relação às novas redes sociais do momento, tenho algumas reservas, como é sabido. Que não nascem, creio, do preconceito ou do arcaísmo. É bom que fique claro: não duvido de todo das suas potencialidades intrínsecas, do seu poder mobilizador, das infinitas possibilidades de comunicação. A questão radica noutras águas: sempre busquei a perplexidade e o conhecimento no silêncio. No silêncio que repousa da agitação e a busca de novo. Ou seja, a realidade física e a torre do castelo de Montaigne como duas faces da mesma moeda. Sem intermediários virtuais. Portanto, organizar um pensamento dá muito trabalho. Mas ter muitos ideias, e espalhá-las como cascas de tremoços, até um papagaio consegue. A sofreguidão informativa que se vê no Twitter e no Facebook fazem temer o pior. O frenesi comunicacional é muitas vezes sinónimo de um vazio que não se quer reconhecer. Será mesmo que essas redes são veículos de partilha de conhecimento? Tenho sérias dúvidas. A revolução operada pelas redes sociais só faz sentido se elas forem encaradas como o terceiro elemento instrumental, a concha do peregrino, o meio congregador. Ou seja, o pretexto, nunca o tema. Ora, nestes assuntos fica sempre bem contar uma história. Ainda agora recebi, através do Facebook, uma mensagem convidado-me a integrar aquio que me pareceu ser o "grupo do soutien". Eh lá! Parei tudo o que estava a fazer, claro. Abri o link e, afinal, era um convite para aderir ao grupo de "soutien (apoio) aux refórmes de Valérie Pécresse", jornalista do canal "Arrêt sur images", entidade a que já aqui fiz referência. Afinal, um fórum de discussão política que me pareceu interessante e onde dá para desenferrujar o francês. Nada, portanto, de lingerie e temas associados...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Manobras de diversão

(Reedição de um texto de 4.10)
Recentemente, escrevi um post intitulado "Verão Quente" a propósito da celeuma levantada por uma crónica de Madalena Ferreira no jornal "Terras da Beira", com o título "Matou-se". Sobre o assunto, em condições normais, nada mais teria a acrescentar. Todavia, na sua crónica de 04.10 no jornal "O Interior", António Ferreira comenta este tema. A certa altura, referindo-se àquele texto, afirma que aí revelo "que o político visado é mesmo um autarca, e da Guarda, tratando-se do próprio presidente da Câmara" (sic)! Não sei que texto leu A. Ferreira, mas não foi seguramente esse, nem nenhum outro que eu tenha escrito. A conclusão é pois unicamente sua, fazendo-a passar por autoria alheia. O que, quero acreditar, tenha resultado de uma mera desatenção. Entretanto, uma semana depois, António Ferreira fez publicar, no seu espaço de opinião do mesmo jornal, uma explicação acerca do seu equívoco. O que, pela minha parte, encerra a questão em causa. Sobre a polémica de fundo, creio que está tudo dito.

Sobre o assunto, remeto para a carta aberta a António Ferreira, que Américo Rodrigues publicou no "Café Mondego". Está lá o essencial.

domingo, 31 de agosto de 2008

Verão quente

Ainda em período de férias, fui apanhado pelo mais recente "caso" na Oppidana: a crónica de Madalena Ferreira, jornalista e correspondente na Guarda da SIC, no jornal "Terras da Beira". O visado pelo artigo é alegadamente o jornalista Rui Isidro, director da Rádio Altitude. Acusado pela autora, embora sem o nomear, de ser o autor dos discursos de alguns políticos locais. A identificação do visado foi, tanto quanto sei, estabelecida publicamente por Américo Rodrigues, no seu blogue "Café Mondego". Não sem antes informar do facto quer o visado quer a autora do artigo. Entretanto, li na íntegra o artigo em causa. Ora, para que conste, dá-se o caso de conhecer pessoalmente os dois jornalistas em causa. Com quem mantenho um relacionamento cordial. Todavia, esse facto em nada interfere com o comentário que se segue.
1. Em primeiro lugar, repare-se que Rui Isidro não desmente a imputação da autoria dos discursos, após ter tido conhecimento antecipado da sua divulgação . O que significa que ele reconhece, implicitamente, manter uma colaboração desse tipo com figuras públicas locais. A confirmar-se tal facto, devo dizer que não é caso único. É comum verem-se jornalistas atarefados a cuidar da imagem dos políticos, individualmente ou em empresas cuja actividade é a prestação de serviços na área do marketing político. Ou seja, os famigerados spin doctors. Não me custa acreditar que as intervenções públicas de figuras políticas nacionais sejam, no mínimo, objecto de uma vistoria antecipada por esses profissionais.
2. O actual Estatuto do Jornalista, aprovado pela Lei nº 1/99, de 13 de janeiro, alterada pela Lei 64/97, de 6 de Novembro, não contempla, acertadamente, a criação de discursos para políticos. Desde logo, o art. 3º, nº 2, considera actividade publicitária, incompatível com o exercício do jornalismo, "a participação em iniciativas que visem divulgar produtos, serviços ou entidades através da notoriedade pessoal ou institucional do jornalista, quando aquelas não sejam determinadas por critérios exclusivamente editoriais". O que está longe de enquadrar primores retóricos de encomenda. Como diz Américo Rodrigues, a matéria deveria ser objecto de auto-regulação. Afastada porém a questão legal, é fundamental lembrar que os políticos deveriam ouvir muito mais do que ouvem. E tomar como conselheiros os mais competentes, os mais sensatos, os mais criativos. E não somente os mais ambiciosos ou os demagogos. E se optassem por recorrer a alguém para redigir os seus discursos, deveriam fazê-lo preferencialmente com loucos, visionários e poetas.
3. Não é de todo descabido que Madalena Ferreira tenha levantado a questão da promiscuidade entre os jornalistas e os políticos. Mas decerto a jornalista não ignora que essas relações sempre existiram e continuarão a existir. E que certamente já terá tirado partido delas. São por demais conhecidos os expedientes usados por muitos jornalistas, para obterem informação privilegiada junto dos políticos e de como estes se fazem pagar por esses favores. O que é lamentável é que Madalena Ferreira se tenha referido ao problema particularizando-o, "denunciando" uma situação que sabe ser generalizada, embora não seja isso que a torne desculpável. Porém, creio que inebriada pelo ressentimento e motivada pela hubris ao serviço de uma vendeta exclusivamente pessoal. Certos termos em que a autora se parece referir ao presuntivo visado, Rui Isidro, são particularmente repugnantes. Todavia, enquanto cidadão e enquanto guardense, interessa-me muito menos a vida privada dos envolvidos do que o seu desempenho profissional, num domínio chave: a comunicação social. E nesse ponto, é de aplaudir o excelente trabalho demonstrado recentemente por ambos.
4. Não tanto pelo post de A.R., mas pela maioria dos comentários que se lhe seguem, quer-me parecer que há muita gente disposta a constituir uma milícia popular, pronta a aplicar ad hoc a célebre lei de Murphy. Ou seja, linchar publicamente a autora do artigo em causa. Estas exaltaçoes justicialistas são sempre perigosas. Sobretudo porque, a coberto do desagravo, da indignação e do apelo ao ressarciamento, surgem apreciações inaceitáveis sobre o carácter, a honorabilidade, as motivações ou o desempenho profissional da "condenada". Este princípio vale independentemente da maior ou menor razão que assiste a Rui Isidro. Ou do grau de reprovação pública que a crónica de Madalena Ferreira possa merecer. E sendo Rui Isidro o objecto do ataque da cronista, terá justos motivos para se sentir ofendido. Repare-se que coloco esta relação no plano de uma presunção, ainda que ilidível. Não tanto por duvidar do que afirma Américo, Rodrigues, mas por ter que admitir que possa haver mais jornalistas na Guarda que escrevam os discursos dos políticos.
5. É claro que não desconheço a ambiguidade que esta minha posição pode assumir, ao ser confundida com um excesso de zelo, tão conveniente quanto naif. Mas prefiro correr esse risco a deixar-me levar por entusiasmos e juízos precipitados.

ADENDA (10.9.08): Sobre o assunto, em condições normais, nada mais teria a acrescentar. Todavia, na sua crónica de 04.10 no jornal "O Interior", António Ferreira comenta este tema. A certa altura, referindo-se a este texto, afirma que aqui revelo "que o político visado é mesmo um autarca, e da Guarda, tratando-se do próprio presidente da Câmara" (sic)! Não sei que texto leu A. Ferreira, mas não foi seguramente este, nem nenhum outro que eu tenha escrito. A conclusão é pois unicamente sua, fazendo-a passar por autoria alheia. O que, quero acreditar, tenha resultado de uma mera desatenção. Entretanto, uma semana depois, António Ferreira fez publicar, no seu espaço de opinião do mesmo jornal, uma explicação acerca do seu equívoco. O que, pela minha parte, encerra a questão em causa. Sobre a polémica de fundo, creio que está tudo dito.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Parabéns!

O "Público" acabou de atingir a maioridade. Foi ontem. Com todo o merecimento, diga-se. Que continue, por muitos anos, a ser a referência incontornável do jornalismo independente no nosso país. O momentum foi celebrado com a pompa da circunstância: uma edição especial, sendo director "por um dia" Pacheco Pereira, que vale a pena ler: as crónicas de Rui Ramos (Homem ao Mar, um texto memorável, sobre o naufrágio de L. F. Menezes) Helena Matos e Rui Tavares, o artigo de Miguel Esteves Cardoso sobre o que mais odeia no jornal e a reportagem sobre o dia de JPP como director. O qual faz questão de contar a "anatomia de um casino e a história de um Ferrari". Ah, e também o número especial da revista P2 (ainda sem a versão online) com um grafismo completamente renovado e conteúdos sumarentos. Fotografias dos "Objectos e situações que mudaram a nossa vida nos últimos 18 anos" (resultado de uma votação online), entremeadas por crónicas, à propos, de alguns colunistas residentes, era o prato forte da publicação. Louva-se também que, por um dia, os artigos de opinião estivessem disponíveis para não assinantes.