Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quinta-feira, 15 de julho de 2010

As portagens do nosso descontentamento

De degrau em degrau, e sem que as fraldas fossem mudadas de tempos em tempos, como lembrou a propósito Eça em "As Farpas", a política em Portugal foi ficando local de abrigo para gente desclassificada, a tender para a psicopatia, ignorante, boçal, sem princípios, sem qualificações profissionais ou cívicas. As excepções contam-se pelos dedos de uma só mão. Sei bem que lembrar certas coisas às vezes é doloroso para quem é apanhado. A ilustrá-lo, atentemos em dois exemplos da vida pública mais recente:
1º recordam-se da airosa intervenção do jesuítico Mota Amaral, aquando da sua retirada da vida parlamentar? Sem pestanejar e sem aquele seu conhecido sorriso seráfico, disse estar, na hora da despedida, "de consciência tranquila". Isto sob os rasgados aplausos (também) do PS. Repare-se que estamos a falar da mesma figura de cera que impediu que as escutas da operação "Mãos limpas" fossem utilizadas pela Comissão de Ética na sua investigação sobre o papel do 1º Ministro na gorada compra da TVI. Do mesmo que se remeteu ao silêncio a propósito do episódio dos gravadores furtados pelo deputado Ricardo Rodrigues a dois jornalistas da revista "Sábado", durante uma entrevista. Mas parece que tamanho zelo de insigne capataz valeu a pena. No final, veio a "merecida" recompensa: o estatuto senatorial encobrindo a insignificância moral.
2º Lembram-se das promessas dos candidatos apresentados na Guarda pelo PS, nas últimas legislativas? Ou, mais exactamente, do cabeça de lista Francisco Assis? Pois bem, vou recapitular. Em Setembro de 2009, a propósito de uma eventual mexida nas SCUT que servem o distrito, afirmou o candidato em entrevista à Rádio Altitude que "levantaria a voz" contra o fim das mesmas, ainda que "proposto por governo do PS". Ver aqui a notícia. Sobre o número dois, José Albano, nada se sabe. Presumindo-se que andasse a fazer contas para saber o timing exacto para saltar da AR para um lugar de nomeação política a la carte. Onde a sua irrequieta nulidade desse menos nas vistas. Quanto aos deputados eleitos pelo PSD, Carlos Peixoto e João Prata, devem ter engolido o princípio da universalidade de uma assentada, sem mastigar e fazendo o acto de contrição ao mesmo tempo. A deglutição foi certamente auxiliada por uns bons litros de Água das Pedras e uma caixa de Alka-Seltzer. Pois bem, o ex cabeça de lista e agora líder parlamentar da sua bancada teve também direito a um inusitado momento Chavez! Certamente por descargo de consciência, Assis emitiu uma declaração de voto no final da votação da proposta de alteração ao decreto-lei do Governo sobre portagens nas SCUT. Onde invoca as suas responsabilidades perante o círculo que o elegeu. Um gesto louvável, sem dúvida. Só que inócuo e sem qualquer efeito prático. Semelhante a uma estimável declaração retórica que tresanda a impotência. Onde é que a sua voz se "levantou" contra esta machadada fatal no desenvolvimento do interior? A sua única opção era ter votado contra a proposta. Fossem quais fossem as consequências políticas do acto. Agora, nem mil desculpas farão comover ninguém.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O pronunciamento

A República foi instaurada há 99 anos. Os anos de violência e demagogia que se seguiram mais parecem um guião para um filme de terror. Não é que eu tenha uma especial simpatia pela causa monárquica, mas cada vez mais sinto que, nesta data, nada encontro que me empurre para o entusiasmo de uma comemoração, ou para a simpatia com um suposto movimento regenerador. Que produziu algumas reformas de vulto e pouco mais. Portanto, exaltem-se os heróis, dignifiquem-se os visionários, aprenda-se com os erros e lembrem-se as vítimas. E é tudo...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Nós, os fundadores...

"Se vivêssemos no tempo do fascismo, eram uma boa carta de de recomendação para integrar os quadros da PIDE". Palavras do líder parlamentar do PCP, Bernardino Soares, respondendo ao deputado socialista Mota Soares. Foi durante o debate sobre as agressões dirigidas a Vital Moreira na manif do 1º de Maio, após aquele ter acusado os comunistas de terem "uma história sobre a calúnia, como têm todos os partidos comunistas do Bloco de Leste" e compreender o «nervosismo» do PCP por ter sido ultrapassado pelo Bloco de Esquerda nas intenções de voto. Bernardino teve depois o seu "momento chavez", digno de figurar na história recente do parlamentarismo em Portugal. Foi quando, depois de negar que o seu partido seja "um bando de arruaceiros", reclama-o, imaginem, como "um PARTIDO FUNDADOR DA DEMOCRACIA"!!! Leram bem, foi mesmo isso que ele disse!!! Então e a multidão ululante, pastoreada por capangas do aparelho e formada por lumpen arregimentado que, durante o "Verão Quente", queria invadir a Assembleia da República e paralisar os trabalhos da Assembleia Constituinte, sob os gritos "abaixo as instituições burguesas", "as eleições são uma farsa" , "viva a ditadura do proletariado" e outras palavras de ordem com o apropriado air du temps? Durante um ano e meio, os portugueses puderam apreciar quanto baste as "virtudes democráticas" desta força obscura, sectária, irresponsável, cada vez mais reduzida a um grupo de fanáticos e desequilibrados.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

A batalha do Atlântico (2)

Ainda sobre o recém aprovado estatuto político dos Açores, recomendo a leitura do último "Retrato da Semana", de António Barreto, crónica publicada no jornal "Público" de 2 de Janeiro. Chama-se "A luta e os problemas" e constitui o mais lúcido comentário que até agora li sobre o assunto. A versão integral poderá ser encontrada aqui. Eis um excerto:

"É DE LAMENTAR o comportamento do Governo. Não se sabe por que razão Sócrates e o PS quiseram alterar o estatuto naqueles pontos controversos. As razões óbvias parecem evidentes. Por um lado, os socialistas pretendem delimitar os seus territórios pré-eleitorais e acham que lhes convém um confronto com o Presidente. Por outro, nada mais fizeram do que manter a tradição: são reféns das regiões autónomas e dos seus dirigentes, no que, aliás, são acompanhados por todos os restantes partidos. Mas estas razões, por demasiado óbvias e mesquinhas, não chegam para perceber os seus pontos de vista. O Primeiro-ministro e o Parlamento devem aos cidadãos uma explicação. Não basta dizer que têm pontos de vista diferentes do Presidente, como afirmam os seus porta-vozes subalternos, têm de explicar os fundamentos da sua decisão e as vantagens de tão tosco estatuto."