Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A poesia aqui tão perto


Da Guarda não saíram, tenho essa amarga suspeita, os melhores poetas da nossa história. No entanto, muitos por ela passaram e não ficaram insensíveis à sua singularidade. Sendo alguns de primeiro plano, é justo dizê-lo. O peso do granito, a densidade da paisagem, a linearidade dos gestos não constituem, na aparência, um apelo poético com um módico de grandeza. E na verdade não são. É que, na Guarda, é bem possível que as contas poéticas não se rejam pela tabuada vulgar. É praticamente certo que a ausência de uma "decoração" confortável, de musas em águas tépidas, de rios que dilaceram e incessantemente criam, de embalos mais gingões, de uma doçura concertada, obriguem a um trabalho suplementar. Não para descobrir coisas onde elas não estão. Não para as esconder. Mas simplesmente chamar a atenção para que a sua única realidade é não serem mais do que aquilo que parecem. Uma poesia assim obtêm-se mais pelo despojamento do que pelo esforço. Mais pela evidência da matéria do que pela sua contemplação. Mais pelo aconchego do que pela dissolução. Mas não é caso para pessimismos. Bem pelo contrário. A prová-lo, está este espectáculo. Uma espécie de balanço poético da cidade, onde são convocadas várias linguagens artísticas, vários autores e várias gerações. Com a poesia no centro do eixo da gravidade. E a Guarda como berçário dos lugares da sua percepção. Em suma, um espectáculo que a coloca exactamente no centro das qualidades poéticas que dela irradiam. Ou se preferirem, uma visita guiada, multidisciplinar, por uma espécie de neo Penalva sibilante e encantatória. Por favor, não façam cerimónia...

Esta produção do TMG conta com a coordenação e encenação de Américo Rodrigues, sendo a selecção de textos da responsabilidade deste vosso criado. Por sua vez, o guião foi criado por ambos, em co-autoria. O lote escolhido inclui autores como Alberto Dinis da Fonseca, António Monteiro da Fonseca, Augusto Gil, D. Sancho I, Eduardo Lourenço, João Bigotte Chorão, João Patrício, José Augusto de Castro, José Manuel S. Louro, José Monteiro, Ladislau Patrício, manuel a. domingos, Miguel Torga, Osório de Andrade, Pedro Dias de Almeida, Políbio Gomes dos Santos, entre outros. No palco, como protagonista /narrador, estará José Neves, actor residente do Teatro Nacional D. Maria II. E estarão também músicos e dançarinos. Haverá projecção de um filme e diversos vídeos produzidos especialmente para o espectáculo. Para mais informações, poderão consultar o blogue do TMG.

domingo, 4 de setembro de 2011

Monólogo do Anjo

Estais aí. Desse lado da luz. Quis sempre descobrir-vos, sabeis? Surpreender-vos devagar nesta terra feroz e sumptuosa. Escutar as vossas preces. Comover-me com a doce fragilidade da vossa esperança. Adivinhar-vos os pensamentos. Beber-vos as emoções. Mesmo as mais secretas. Sobretudo as mais secretas. Para mim, cada dia é um caminho diferente. Uma palavra guardada que me espera. Sempre acompanhado do gracioso sussurro das aves, respondendo-vos quando o vosso campo se recusa encher-se de papoilas...
Às vezes, a luz esmorece. Porque as palavras que me procuram são palavras de crianças presas no tempo. Mas deixai-me sentar numa nuvem e dar pontapés na Lua, pois era como eu devia ter vivido a vida toda: dar pontapés até sentir um tal cansaço nas pernas que elas já não me deixassem voar.
Às vezes tenho tonturas. Quando olho para baixo, vejo sempre planícies muito brancas, intermináveis, povoadas por uma enorme quantidade de sombras. Sentado numa nuvem, na lua, ou em qualquer precipício, eu sei que as minhas asas voam para vós e as tonturas que a planície me dá são feitas por mim, de propósito, para irritar aqueles que não sabem subir e descer as montanhas geladas. Mas não quero que me ofereçam sombras. Não quero que me contem as vossas aventuras. Não quero que me escondam a vossa monstruosa inocência. Pois se fordes tocados por toda a beleza do mundo, conhecereis então a imensa crueldade que ele encerra.
Sou um desconhecido movendo-se constantemente no deserto, onde cada pegada deixa bem marcada na areia a imagem dessa outra existência em que a morte e a memória já nada significam. Mas as asas, as asas que sinto bem presas, seguras, essas, ficai a saber, podem ainda esmagar com cuidado, com extremo cuidado, dilacerar suavemente, pois nos olhos está o amor, o misterioso voo das aves que partem para o desconhecido.
Eu sei que para todos vós há um lugar por descobrir, um lugar tenebroso e cantante. Simples como é a claridade, torna-se a coisa mais difícil de encontrar. Talvez porque a distância que nos separa, longa, muito longa, seja a torre de chumbo do vosso próprio isolamento, talvez porque sentir o aparecimento da madrugada seja a origem da música onde a palavra se apaga. Criem-na. Sem medo. E agora, outros mais longe me chamam. Adeus, meus amigos. Estarei sempre, sempre convosco.

(Texto incluído no guião da peça teatral Guarda, Paixão e Utopia, apresentada no TMG nos dias 26 e 27 de Novembro)

sexta-feira, 4 de março de 2011

Galo do Entrudo, versão 2.011

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O Galo do Entrudo volta a ser julgado na Guarda a 7 de Março. A Culturguarda EM vai produzir para a Câmara Municipal da Guarda o Julgamento e Morte do Galo do Entrudo. Trata-se de um espectáculo comunitário e de expiação, baseado em tradições da região como o jogo do galo e o enterro do Entrudo. O Galo é julgado e queimado na praça pública sendo-lhe atribuídas as culpas de todos os males do ano que passou. Com a morte do culpado, a esperança é renovada. Estas são as premissas deste Julgamento no qual o réu é o bode expiatório, a defesa de nada serve e a sala de audiências é a Praça Velha.
À semelhança das anteriores edições, este é um espectáculo de características populares, baseado na tradição mas revestido de modernidade. Um ritual comunitário de forte adesão popular. Nesta edição estão envolvidas mais de 400 pessoas, entre colectividades da região, actores, músicos e animadores.
Tudo começa  às 21h30 com o tradicional desfile do Jardim José de Lemos até à Praça Velha, onde nesta edição haverá algumas novidades. No percurso até ao “tribunal”, o galo e os intervenientes do desfile vão ser interpelados. De algumas janelas e edifícios surgirão personagens e novas situações. No desfile, lado a lado com as colectividades, vão desfilar também grupos profissionais de animação dos quais se destacam a Companhia Visitants com o seu espectáculo pirotécnico inspirado no cultivo dos cereais; o Teatrapo com as percussões e as personagens mitológicas do “Bestiário”; a Companhia Kanbahiota com as suas acrobacias e dança aérea (na Praça Velha); a animação circense, o malabarismo e os números com fogo do Bang Circus; o Grupo do Sarrafo com os percussionistas do Pinhal Novo e ainda a Banda Filarmónica Sociedade de Instrução e Recreio de Paços da Serra (com o apoio da INATEL).
Chegados à Praça Velha é a vez do julgamento. Defesa e acusação vão esgrimir argumentos, mas nada disto valerá ao Galo cujo destino já está engendrado: culpado. A sentença dita que ele seja queimado, tendo antes direito a um último desejo. Trata-se de uma surpresa que todos os anos costuma deixar boquiaberto o público que assiste ao espectáculo e que a organização nunca revela antes!
O Julgamento e Morte do Galo do Entrudo tem concepção e coordenação geral de Américo Rodrigues, textos de António Godinho e Daniel Rocha, a concepção e construção do galo é de Agostinho da Silva, a música original da queima do galo do MC guardense B. Riddim e a cenografia é de José Neves e António Gomes.
No elenco, Fátima Freitas é a juíza de serviço no tribunal; Carlos Gil interpreta o general João de Almeida que é também o advogado de acusação; Sá Rodrigues será Manuel Vieira Matos, o advogado de defesa e a Voz do Galo será a de Américo Rodrigues.
José Pereira, Anabela Alexandre, Carlos Morgado, Anabela Chagas, Carla Morgado, Pedro Sousa, Elisabete Fernandes e Ronaldo Fonseca são os actores que complementam este elenco.
Sendo este um espectáculo comunitário, não poderiam faltar as colectividades, que uma vez mais responderam à chamada. Participam neste Julgamento e Morte do Galo do Entrudo de 2011 os seguintes grupos e colectividades da região: Grupo de Concertinas Estrelas da Serra, Associação Cultural, Social e Recreativa da Sequeira, Centro Cultural da Guarda, Grupo de Cantares de S. Miguel da Guarda “A Mensagem”, Grupo “Ontem, Hoje e Amanhã” de Maçainhas”, Grupo de Cantares da Arrifana – Associação Cultural, União de Jovens de Arrifana, Associação Desportiva, Recreativa e Cultural da Rapoula, Gambozinos e Peobardos – Grupo de Teatro da Vela, Raiz de Trinta – Associação Juvenil, Rancho Folclórico de Videmonte, Alunos de Artes da Escola Secundária da Sé, Associação de Jogos Tradicionais da Guarda, Clube de Montanhismo da Guarda, Aquilo Teatro e OfiCena (jovens do curso de teatro do TMG).

Fonte: Página oficial

Nota: mais tarde editarei aqui um texto da minha autoria sobre esta tradição, publicado no Boletim Municipal.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Guarda Republicana (2)


Ao longo de três sessões, no passado fim de semana foi apresentado no TMG mais um espectáculo de homenagem à cidade. Assim, depois de "Guarda, Paixão e Utopia" (2006) e "Guarda, Rádio Memória" (2008), eis "Guarda, a República". Compondo desta forma uma trilogia que já se tornou uma referência também a nível nacional. Não só pela evidência da continuidade espacial das produções, como pela sua feição comunitária (quase 400 pessoas em palco), pela notável mobilização das colectividades do concelho, o empenho de todos os participantes e sua coordenação. Mas a singularidade dos espectáculos reside também na sua dimensão epopeica, com grandes movimentações colectivas, ainda que com determinados protagonistas em destaque,  no realismo fantástico, associado a grande parte das sequências, na sátira elegante, no rigor histórico e na utilização de várias linguagens artísticas em modo subsidiário. E, claro está, sempre a memória da cidade, os seus fantasmas, os seus heróis, a sua mitologia particular, como cenário de eleição e motivo inspirador. No entanto, todos os espectáculos mantiveram uma individualidade própria. Nenhum foi igual aos outros. No caso do "Guarda: a República" a conclusão é evidente. Tratou-se, sem dúvida, de uma produção mais vincadamente ideológica. E onde a informação histórica teve um peso mais pronunciado. Todavia, em meu entender, esteve longe de se tratar da apologia de um regime, ou de uma época específica. Fois antes a celebração artística de um projecto político, a recriação cénica  das atribulações de um modelo republicano de organização da sociedade. E como todos os ideais, quando posta em prática, alimenta também os equívocos e os falhanços, em paralelo com os êxitos. No desiderato, tornam-se inevitáveis as analogias com o presente. Pois que a História, longe de ser uma soma de segmentos dispersos, é sobretudo um continuum, um espaço topológico onde um número limitado de questões-chave se repete ciclicamente.

sábado, 20 de novembro de 2010

Guarda Republicana

                                                                           
                                                              (clicar para ampliar)                                                                     

Este é o ano do centenário dela. Da instalação dela. Das réplicas dela. Da utopia possível com busto generoso e bigode mustafálico que nela irrompeu. Mas sejamos claros. No pasó nada! Uns tirinhos, uns pirolitos, umas proclamações a piscar o olho à eternidade fixa (já que a móvel nada mais é do que o tempo, Platão dixit), umas reformas, como agora se diria, fracturantes, uma participação cívica nunca vista, uma janela para a brutalidade do despontar do séc. XX - a Grande Guerra -, o florescer da modernidade nas artes e nas letras, a nova filosofia portuguesa, a proliferação de jornais e revistas, a laicidade (menos como princípio de organização do estado, e mais como método intimidatório, cego e contra natura), a hipocrisia do sufrágio censitário, os "adesivos" e os "sempre em pé" que fizeram carreira, a tropa, esse viveiro de golpismos, ora sossegada ora mortinha por intervir, a instrução para todos, Egas Moniz, o ensino técnico, a razão possível na míngua de pão e de futuro, quando todos ralham e ninguém cede, Sidónio, o mais carismático, Costa, o animal político, Teófilo, o sonhador, Couceiro, o D. Quixote, os Governos a entrar e a sair em sistema de cama quente, a erupção social e cultural da mulher, o apocalipse  frenético de 100 anos de liberalismo, pois que o respeitinho muito lindo veio a seguir.
Ora, com a tal de República em ano cem,  e com a Guarda (Oppidana para os mais chegados) também aniversariante (811 aninhos bem medidos), tá-se mesmo a ver o que ia acontecer: teatro do bom! Nem podia ser de outra forma. Ou podia? Portanto, e como não há uma nem duas sem três, o TMG chegou-se à frente e aí está a produzir mais um espectáculo certamente memorável. Para não variar, de cariz comunitário (cerca de 400 pessoas em palco, entre actores, músicos e colectividades). O cúmplice da coisa é o mesmo de sempre, o Trigo Limpo Teatro ACERT. A encomenda veio da autarquia guardense, com o apoio do Governo Civil. Numa mescla de ficção e reconstituição história, com o imaginário da cidade como elemento aglutinador, a peça desenrola-se em várias fases. Que acompanham a vida do protagonista Rebeldino, o herói trágico, cujo destino é o mesmo do regime.
O espectáculo tem coordenação geral de Américo Rodrigues, guião de Américo Rodrigues, José Tavares e Pompeu José, textos de Hélder Sequeira, Norberto Gonçalves e deste vosso criado (que também participa como actor), encenação de Américo Rodrigues e Pompeu José. Direcção musical a cargo de César Prata. O cartaz é de Sérgio Currais.
"Guarda: a República" terá apresentações no Grande Auditório do Teatro Minicipal, nos dias 26, 27 e 28 de Novembro. Sexta e Sábado às 21h30 e  Domingo às 16h00. Consultar aqui.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

As visitas começam amanhã!


O projecto "Passos à volta da memória" é uma iniciativa da Culturguarda EM e da Câmara Municipal da Guarda. Graças a ele, entre 22 de Julho e 18 de Setembro, haverá uma série de visitas encenadas ao centro histórico. As sessões serão às 10h e ás 17.30h, todas as sextas e sábados e 1º domingo de Agosto e Setembro, com partida da Praça Velha, junto ao posto de Turismo. Como o nome indica, trata-de uma visita guiada, embora com as características de um espectáculo de rua. O guia / guardião da memória / herói local, será Álvaro Gil Cabral, alcaide da cidade nos finais do séc. XIV. Notabilizado graças à sua recusa em entregar as chaves do castelo ao rei D. João de Castela, pretendente ao trono português. A história é aqui contada mais em pormenor. 
No essencial, trata-se de um percurso pelas artérias do centro histórico, num perímetro bem definido. Onde se pretende recriar cenicamente memórias da cidade, dispersas por várias épocas e vários protagonistas.  Não é de todo uma reconstituição histórica, mas não dispensa o rigor da História. É teatro, mas cujo cenário é a própria cidade e a trama a sua memória. E o guia está longe de ser um cicerone convencional, mas antes um personagem cujas virtudes e fraquezas o tornam singular e próximo, como irão ver.
"Passos à volta da memória" é um espectáculo com coordenação de Américo Rodrigues. Criou o texto este vosso criado. A encenação é de Antónia Terrinha, ficando a interpretação a cargo de João Ventura. Assina o design gráfico Jorge dos Reis. Participarão ainda os figurantes Carlos Gil, Carlos Morgado, Elisabete Fernandes, Luís Paulo e Maria Miguel Figueiredo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Minimamente

foto de ensaio de Armando Neves/TMG

"Minimamente" tem estreia marcada no Pequeno Auditório do Teatro Municipal da Guarda. Será neste sábado, pelas 21h30. A interpretação estará a cargo de Agostinho da Silva, Albino Bárbara, Carlos Lopes, Cristina Fernandes, Filipa Teixeira, Daniel Rocha e deste vosso criado. O apoio à encenação é de Américo Rodrigues e a sonoplastia é de Victor Afonso.
1. O espectáculo. "Minimamente" foi construído a partir de "Histórias Mínimas", do dramaturgo catalão Javier Tomeo. Trata-se de um conjunto de 44 micro histórias desconcertantes, cuja primeira edição é de 1988. São crianças que partem a lua à pedrada, barbeiros que degolam os seus clientes, leões com dentadura postiça, oceanos que cabem numa garrafa, esqueletos que conversam no cemitério, estrelas que se apagam com um sopro. Ou seja, brevíssimas pinceladas escritas com um humor transbordante, com finura, onde o quotidiano se torna uma amostra do absurdo e vice versa. A peça pretende reproduzir este clima, onde as convenções da própria ficção não resistem à derisão de um humor cáustico e arguto. A encenação é atípica, ou seja, sendo colectiva é orientada por Américo Rodrigues. Como curiosidade, esta foi também a peça escolhida para a estreia do grupo "“As boas raparigas vão para o céu, as más a todo o lado”, no início dos anos 90.
2. O grupo. Tintinolho é um cume sobranceiro ao vale do Mondego, a 4 Km da Guarda. Onde existiu um importante castro, ocupado desde a Idade do ferro até à Alta Idade Média e cujos vestígios do imponente recinto muralhado ainda hoje são visíveis à distância. "Tintinolho" foi a designação escolhida para um projecto que reúne um conjunto de amantes do teatro, cujo primeiro objectivo foi levar à cena esta produção colectiva. A experiência teatral dos participantes é a mais diversa. O que não impediu, bem pelo contrário, que esta aventura fosse levada a bom termo. Para já, assenta-lhe bem a designação "grupo informal", ou "projecto". "Companhia" logo se verá...
3. Finale andante. O que posso dizer da minha experiência nesta aventura artística? Em certos momentos, encontrei os meus personagens pelo rasto que deixavam numa paisagem deserta. Era um olfacto canino que os reconstituía e uma memória audaciosa que os colocava no seu lugar provisório. Numa das suas faces, o teatro parte desta brancura imaculada do momento zero, do instante fundador. Uma economia profundamente humana, onde perscruto os meus personagens. Suspensos. Hesitantes. Amantes da música. Prisioneiros da cor do pormenor. Da vida derramada como aguarela num descampado. Onde os faço banhar numa bruma verbal delicadamente irisada. Seres encantadores e ineficazes. Criaturas bizantinas e patéticas. Idealistas inúteis. Sedutores por tédio. Heróis detentores de uma bela verdade humana. Fardo esse que não podem carregar nem evitar carregar. São personagens que tropeçam. Que tropeçam porque olham para as estrelas. Enquanto caminham. Que podiam sonhar, mas não governar.

sábado, 3 de outubro de 2009

Vamos ao teatro

MENINA ELSE, de Arthur Schnitzler. Adaptação e Encenação de Christine Laurent. Com Rita Durão. Produção: Teatro da Cornucópia. Música: Tzigane Tango in Mi Buenos Aires Querido por Daniel Barenboim Waldszenen; op. 82, 1. Schumann, por Maria João Pires. Hoje pelas 21.30 no Pequeno Auditório do TMG. Portanto, se quem me ler para já estiver na Guarda, ou perto, ainda está a tempo de ver este grande espectáculo.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Mais teatro


Estreia no dia 18, mantendo-se em cena até 20, no Pequeno Auditório do TMG. A encenação é de José Neves, com interpretação do próprio e de Nuno Cardoso. A peça é baseada no texto homónimo de Javier Tomeo, "Amado Monstruo", traduzido por José Bento. Do autor, para quem não sabe licenciado em Direito e Criminologia, só conheço a peça "O Castelo da Carta Cifrada", com edição da Caminho, que li há uns anos. Do Zé Neves só posso dizer que estou ansioso por ver a sua primeira encenação no activo (pelo menos, de que tenha conhecimento), pondo de parte o seu trabalho final apresentado numa edição do projecto Inside Out, há três anos, iniciativa na qual também participei. Trata-se da sétima produção da estrutura de produção teatral do TMG, o Projéc~. Consultar aqui mais informação.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Tábua de marés (30)

Hotel de Província
pelo Teatro das Beiras
Texto: Aleksandr Vampilov (trad. Luís Nogueira)
Encenação: Gil Salgueiro Nave
Pequeno Auditório do TMG, dia 6 de Fevereiro

Alguém sabe o que é um compaginador? A partir desta simples questão, a peça mostra-nos o estrépito do desmoronamento de um edifício complexo e aparentemente imutável: o dos pequenos poderes, exercidos em regime de autocracia, num estabelecimento hoteleiro nos confins da Rússia soviética, pelo respectivo director. O hotel aparece na estrutura dramática como a alegoria de um sistema hierático, asfixiante. Alicerçado em regulamentos absurdos e não menos absurdos sistemas de controlo social: o estalinismo. Ao fim ao cabo, o “local do crime” perfeito, o micro-mundo deveras apetecível para os micro-poderes se imporem, numa espiral de arbítrio e prepotência. Um canto esquecido pela geografia, porém lembrando as virtualidades mais aberrantes do regime. Por sinal, a pesada e labiríntica estratificação da sociedade russa não foi uma invenção do comunismo. Só para dar um exemplo, desde o tempo de Pedro o Grande, os oficiais públicos dividiam-se em 14 patentes e cada nobre poder-se-ia inscrever em 6 registos!
Falar-se em “excesso de zelo”, por parte do funcionário menor que administrava o hotel, é em si mesmo um pleonasmo. É que o zelo pressupõe um permanente equilíbrio na sua condução, um bom senso imanente que nos leva a concluir que a diligência ou existe ou não. O “excesso” de certa forma apaga-o, é já “outra coisa”. Neste caso, transforma-se no delírio persecutório de um “big brother” de província, cuja escala menor não diminui, antes pelo contrário, e seu modus operandi característico. Um delírio que nada respeita, que tudo devassa. Fazendo cumprir uma série de regras kafkianas que se alimentam de si próprias. Que tornam todos os hóspedes reféns de uma contingência ou de um capricho, impostos por um sistema cujo rosto visível é, na circunstância, o do funcionário / administrador. Este, por sua vez, embora detenha o poder supremo no interior do espaço, exerce-o não por si, mas como uma adesão a um conjunto de regras que só de forma caricatural se poderão fazer valer e respeitar. E cuja iniquidade se faz notar particularmente pela subalternidade de quem a executa. Um dia, todo este edifício vai ruir, a partir de uma simples dúvida: a suposta identidade de um hóspede. Quem será? Que poderes representa? Que ameaças pode infligir? O texto original de Vampilov intitulava-se precisamente “Incidente com um compaginador”. O que revela o ênfase dado pelo autor ao caso. E que confere o tom geral de comédia à peça. A partir do nascimento do equívoco, tudo se altera. A incerteza e o medo instalam-se. O funcionário é o seu demiurgo. O tal que chega a renegar o passado e tudo aquilo em que acreditava até aquele momento. Numa sequência alucinante, que mais faz lembrar certas passagens de “A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstoi, do que os dramas de Tchekov, como se anuncia no programa. Significativamente, à medida que o funcionário - aqui “doente imaginário” por empréstimo - tenta salvar a sua alma e colocar-se a salvo de uma hipotética fiscalização promovida pelo “compaginador”, a mentira que ele sustentava acaba por vir ao de cima, numa espécie de catarse mais própria da tragédia.
Sobre o espectáculo, embora de uma indiscutível seriedade, é claro que algumas opções cénicas utilizadas são discutíveis. Na circunstância, fiquei com a impressão de que uma leitura demasiado clássica da peça diminuiu o seu potencial expressivo. Em certos momentos, parecia estar a assistir a uma sessão de teatro de Boulevard fora do contexto, não só devido ao cenário, em contradição com o tema, mas sobretudo por causa do registo da representação. A qual me pareceu bastante desigual e demasiado próxima de tipos, em lugar de personagens. Ou seja, onde se impunha o acentuar do exagero triunfou o tom inexpressivo, e onde a malícia ou a estultícia aconselhariam a versatilidade, imperou o estereótipo.
Em suma, a última produção da Companhia “Teatro das Beiras constitui um momento de teatro bem disposto e competente quanto baste. Mas acaba prejudicado, de alguma forma, pelo registo encontrado.

Publicado no jornal "O Interior", em 12 de Fevereiro

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Tábua de marés (26)

VLCD
Produção: Teatro Meridional (http://teatromeridional.net)
Direcção cénica: Nuno Pino Custódio
Actores: Carla Maciel, Fernando Mota, Luciano Amarelo, Miguel Seabra
Pequeno Auditório do TMG, 24 de Janeiro

O nome da peça é, ele próprio, uma abreviatura de “velocidade”. Uma palavra que não se deixa dizer, portanto. Por falta de tempo. Por causa da respiração ofegante. Porque é inútil. É precisamente isto que torna VLCD! um espectáculo diferente e único. Consegue captar, de forma particularmente feliz, a ânsia do vazio das pessoas que não têm tempo. Ou seja, como define acertadamente o encenador, “anda em torno do sentimento de que quando chego a um sítio já não estou lá, estou noutro.” Algo que poderia ser o subtítulo desta peça. Recordo-me de um livro de Kundera que li há uns anos. Chamava-se “somente” “A Lentidão”, talvez porque o pudor do autor o impediu de colocar “O Elogio” à frente. E qual o tema da obra? A velocidade, pois claro. Ou melhor, o vínculo secreto entre a lentidão e a memória, entre a velocidade e o esquecimento. Para Kundera, a velocidade tornou-se a obsessão característica do homem moderno, a sua marca distintiva, a vertigem que lhe resta. Nada que não me tivesse ocorrido enquanto na assistência.
Nesta peça, o cenário é simples e de uma eficácia notável: uma arena vermelha, que faz lembrar aquelas onde os toureiros se exercitam, rodeada por malas. De todos os tamanhos e feitios. Que as personagens transportam, abrem, empilham, percutem, tocam, manipulam, extraem sons e objectos. Objectos com que recriam permanentemente o espaço cénico. A circularidade é aqui, com propriedade, a medida do tempo. Mas também a marca de um espaço exíguo, de onde é impossível fugir. A não ser voando. As malas são os sinais da errância, da insatisfação. Ou então, como explica acertadamente Nuno Custódio, “da incapacidade de estar no aqui e agora”. Um conceito muito new age. Mas que, todavia, se adequa perfeitamente a esse frenesi que se instala desde o primeiro momento, que perturba, que lança o desconcerto, que diverte com reserva, mas que contagia inevitavelmente o espectador. Cujas gargalhadas não afastam nunca a incomodidade e uma subtil identificação. Talvez por isso, o único personagem a quem resta alguma “humanidade”, promove às tantas o brechtiano “efeito distanciador”. Ai interpelar o público sobre o que está a presenciar. Em português. Uma opção que, por vezes, soa a deja vu, mas que aqui tem alguma razão de ser. Não é, pois, impunemente que se recria esta agitação absurda e inconsequente, onde o homem urbano vai buscar o seu alimento e a sua razão de ser. Mas onde, demonstra-o este espectáculo à exaustão, vai buscar também uma linguagem incompreensível, um patético frenesi comunicacional cheio de equívocos e fragmentos absurdos. E onde os sentimentos e a empatia, quando brotam, são imediatamente boicotados pelo que melhor representa o tempo, ou seja, aquilo que no caso, nos dispensa dele. Refiro-me à utilização de gadgets improvisados: gravatas, carimbos, telefones, tesouras, cabides, balões, chapéus, etc.
Saliento, por sua vez, o “género” a partir do qual se criou o espectáculo. Ou seja, o recurso à técnica inconfundível do “clown”. Aqui enriquecida pela ausência de texto convencional, substituído na ocasião por uma “língua de babel”, ficcionada, onomatopeica. Uma opção destinada a reforçar o absurdo, o cómico e a estranheza das várias situações que se vão sucedendo, balizadas pela música: o local de trabalho, um bar, um par de namorados, o comboio, um estabelecimento comercial, etc. Em suma, esta última produção do “Teatro Meridional” corporiza um grande momento de teatro. Que nos fala da velocidade. Mas sempre sem tempo, sempre a fugir.

Publicado no jornal "O Interior", em 22 de Janeiro

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

"Eu queria encontrar aqui ainda a terra": o livro


A peça estreou em Maio do ano passado, apresentada no âmbito do Projéc~. Produziu-a o TMG para a Câmara Municipal da Guarda e Centro de Estudos Ibéricos. Segue-se agora o livro. Ou melhor, o décimo caderno da colecção TMG, assim é que é. Os autores, ou seja, manuel a. domingos e este que vos escreve, agradecem a todos aqueles que tornaram possível esta edição, em especial ao director do TMG. E mais declaram aos costumes estar mortinhos (ia a dizer "em pulgas", mas assim fica mais... mais... quitoso, pronto) por manusear um exemplar. “Eu queria encontrar aqui ainda a terra” procura situar vários encontros, intensos, irónicos e por vezes desconcertantes: da memória recente da cidade com dois passageiros ilustres: Eduardo Lourenço e Vergílio Ferreira; de duas gárgulas de granito que são o mesmo e o diferente, a matéria e o espírito; de duas personagens em trânsito num ambiente exótico, cujas perguntas são maiores do que as respostas e estas provêm do inesperado.
A apresentação será no Sábado, dia 10 de Janeiro, no Café Concerto, pelas 21h30. A entrada é livre. Estão convidados.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Tábua de marés (19)

"Gil e Vicente – Uma viagem de barca ao inferno"
Associação Mau Artista (
http://www.mauartista.blogspot.com/ Encenação: Paulo Calatré
Interpretação: Nuno Preto e Pedro Damião

Café Concerto do TMG, 11 de Dezembro, pelas 22h00

Para quê colocar dois actores desmultiplicando-se nos vários personagens que povoam a maior alegoria moral escrita por Gil Vicente? A este desafio respondeu a Associação Mau Artista, uma estrutura dinâmica que, embora formada há três anos, já produziu 10 espectáculos numa perspectiva iconoclasta. Apresentando agora ao público guardense esta sua mais recente produção. Ora, há quem aponte ao “Auto da Barca do Inferno” o mesmo propósito moral da “Divina Comédia”. Há alguns ingredientes comuns, é certo: a expressividade pictórica, a alusão aos sete pecados capitais, a morte como destituição das hierarquias e marca do efémero, a (in)justiça terrena analisada como suporte narrativo. E talvez, em certa medida, o cenário. Mas as semelhanças acabam aqui. Vicente apresenta-nos uma tragédia com sabor a comédia. Uma alegoria, é certo, mas atravessada pelo picaresco especificamente peninsular. Onde os personagens tentam iludir o Anjo e o Diabo acerca das suas virtudes. A viagem que os espera será feita através de um “braço de mar” no qual estão ancoradas duas barcas: uma que conduz Paraíso e outra ao Inferno; aquela tripulada por um Anjo, esta pelo Diabo e seu companheiro. O cenário é, cósmico, já que trata do destino das almas. Toda a dramaturgia é organizada em função de dois mundos em comunicação: o terreno e o sobrenatural. Todos os personagens conservam na memória a sua autenticidade terrena e ainda estão comprometidos com o seu estilo de vida, social ou profissional, envergando objectos “emblemáticos” a eles associados. A barca é, assim, símbolo de travessia, de viagem, e constitui, ela própria, uma alegoria do destino. Por outro lado, os vários candidatos á justiça divina, mesmo individualizados, de que o onzeneiro, o parvo, o corregedor, o fidalgo, o frade ou a Brígida. valem sobretudo como tipos sociais ou psicológicos. Aqui, nada de novo. E os dois barqueiros estão longe de ser imparciais. “Gil e Vicente, Uma Viagem de Barca ao Inferno”, é um espectáculo que tanto funciona para um público escolar, como em ambientes e espaços não convencionais, onde garante o interesse do público em geral. Onde se inclui o esforçado trabalho físico desenvolvido pelos actores, a óbvia intencionalidade clownesca e a adaptação à linguagem da companhia. Por sua vez, o cenário, simplificado, mas eficaz, é um ponto de partida para a improvisação. Uma bicicleta, um escadote de madeira e malas de viagens a abarrotar de adereços / memórias serão, aos olhos dos actores e dos personagens, o cais, as barcas e ajudarão na identificação dos personagens. Assim como o escadote será a barca do inferno, para logo de seguida ser a barca do paraíso, um funil poderá ser o chapéu do parvo. Um texto clássico, a que este grupo acrescentou significados novos e estimulantes.

Publicado no jornal "O Interior", em 19 de Dezembro

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Tábua de marés (16)

Guarda: rádio memória
Coordenação geral e dramaturgia: Américo Rodrigues
Encenação e dramaturgia: José Rui Martins
Direcção musical: César Prata
Cenografia e adereços: Marta Fernandes da Silva e Pedro Santos
Co-produção do Teatro Municipal da Guarda e Trigo Limpo Teatro ACERT
Dias 21, 22 e 23, no Grande Auditório do TMG.

O nome pode induzir em erro. Não se trata de um espectáculo de teatro radiofónico, como seria de supor. E porquê? Desde logo, porque a rádio é claramente o motivo, o suporte dramatúrgico da peça. O seu papel é muito mais significativo do que o do coro grego, por exemplo. Uma vez que, nesse caso, ele é ora o impulsionador, ora o comentador distanciado da acção dramática. Pois aqui a acção passa-se no interior da própria rádio. Que transmite aquilo que é recriado cenicamente. Portanto, a rádio é, nesta peça, o narrador que comanda a acção e a reproduz. Servindo o palco como uma extensão, uma projecção daquilo que se passa no estúdio. Em suma, convidando-nos a olhar para ela como se se tratasse daqueles personagens que Rembrandt incluía em alguns dos seus quadros, olhando para o espectador e tornando-se cúmplice do que ele próprio assiste. Portanto, a rádio funciona aqui de duas formas: como meio de projecção e circulação da mensagem proposta e como instrumento agregador e simplificador no processo dramatúrgico desenvolvido. No segundo caso, resolveu um problema sentido no anterior espectáculo, “Guarda, paixão e utopia”, quanto às transições entre as diversas cenas. O tal fio condutor. No primeiro, abriu possibilidades infinitas no que toca à escolha dos temas. Por outro lado, a dimensão impressionante da ficha técnica pode induzir noutro erro: encarar este espectáculo enquanto produção megalómana. O que aconteceria se o passo pretendido fosse superior às pernas. Ou se o TMG se tivesse transformado num estúdio da Paramount Pictures durante a rodagem de um épico de Cecil B. de Mille. Ironia à parte, o que impediu a passagem da ténue linha para um gigantismo descontrolado não foi a contenção nem a limitação dos meios envolvidos. Mas sobretudo a fidelidade ao conceito original: contar histórias da Guarda, por gente de Guarda e para a Guarda. Celebrar a casa comum. Orquestrar um conjunto polifónico de vozes, ao serviço de um projecto artístico de qualidade e com projecção universal. Instrumentar a memória, sem deixar de questionar o presente. E tudo isto através do teatro e da linguagem teatral. No fundo, o mesmo desenho criado para o espectáculo de há dois anos, já referido, e para o qual vale muito do que aqui se diz. E em relação ao qual posso, no entanto, estabelecer algumas diferenças: o agora apresentado foi menos poético e simbólico; por outro lado, foi notório o acento dado à direcção de cena, em lugar da encenação propriamente dita. No primeiro caso, pese embora o impacto poético da cena 6 (“Pedras Escritas”) e da cena 9, com o diálogo entre Alberto Diniz da Fonseca e D. Quixote, a poesia foi a grande ausente. No segundo caso, privilegiando-se a sucessão de efeitos visuais e os movimentos colectivos, em lugar da representação propriamente dita. O que, se inculcou ritmo televisivo ao espectáculo, fê-lo perder tensão dramática. Compreende-se que o tempo e o espaço eram escassos para “encaixar” tantos recursos humanos. Mas não deixa de ser verdade que a História tem actores. E o teatro não pode prescindir deles. Devo dizer ainda que me desagradou o maniqueísmo redutor de algumas sequências, nomeadamente das cenas 7 e 8, a propósito da fábrica Renault e do 25 de Abril. A roçar o comício puro e simples. O que evidencia uma opção ideológica que, tal como outra qualquer aplicada directamente à arte, faz dela desaparecer o essencial: a pluralidade de sentidos. E tudo reduz a uma mescla de propaganda com correcção política. Em quase tudo o resto, as soluções encontradas revelaram-se perfeitamente ajustadas e equilibradas. Com alguns rasgos verdadeiramente brilhantes. Quanto aos temas elegidos para formar esta epopeia, tal como das obras que hipoteticamente fossem escolhidas e reunidas numa antologia, pouco haverá a dizer. Procurou-se e conseguiu-se que esses temas não repetissem os “clássicos” utilizados na peça anterior. Decerto outros poderiam ter sido considerados, mas essa avaliação pouco interessa agora. Em suma, um grande espectáculo que dignifica a Guarda, a sua memória, a sua criatividade e a sua dinâmica cultural.

Publicado no jornal "O Interior", de 27 de Novembro

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Guarda, memória e tudo

A.G.
E pronto! É hoje a estreia de "Guarda: rádio memória", mais uma grande produção teatral que, em tempo de aniversário (809 invernos), celebra a memória e as gentes da Guarda. Desta vez, em formato de epopeia radiofónica, com personagens e situações surpreendentes. Tal como em "Guarda, Paixão e Utopia", este espectáculo é uma co-produção do Teatro Municipal e do Trigo Limpo Teatro ACERT para a Câmara Municipal da Guarda. Tem a coordenação geral de Américo Rodrigues, a dramaturgia de Américo Rodrigues e José Rui Martins, a partir de textos de Américo Rodrigues, António Godinho, Helder Sequeira, Honorato Esteves, José Rui Martins, Norberto Gonçalves, Osório de Andrade e Rui Isidro. Encenação de José Rui Martins, direcção musical de César Prata e cenografia da autoria de Marta Fernandes da Silva e Pedro Santos. Hoje, Sexta-feira, às 21h30 no Grande Auditório do TMG. Até domingo. Para mais informações, ver aqui, ou aqui.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Guarda, memória e tudo


Dois anos depois de "Guarda - Paixão e Utopia", está quase a chegar o segundo espectáculo de "celebração colectiva sobre o imaginário guardense". Nele participam mais de três centenas de pessoas, entre criadores, técnicos e participantes individuais - entre os quais este vosso criado - ou integrando várias colectividades do concelho. Irá ter uma orquestra ao vivo. A estreia é no dia 21, no Grande Auditório do TMG, mantendo-se até 23 de Novembro. À semelhança do espectáculo anterior, esta criação sui generis, pela envolvência associada, resulta de uma co-produção do Teatro Municipal e do Trigo Limpo - Teatro ACERT para a Câmara Municipal da Guarda. Para celebrar o 809º aniversário da cidade. Tantos? Ver aqui mais informação, em actualização.

Nota: este post será republicado diversas vezes até à estreia da peça, podendo conter informação adicional.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Tábua de marés (11)

Duques de Bergara unplugged
Direcção: Sergi Faustino
Interpretação: Mònica Muntaner e David Espinosa
Auditório do Teatro das Beiras, Covilhã, 1 de Novembro, 21h30
Festival Y#6, 2008 (http://www.quartaparede.pt)

Suponhamos que a ideia de performance, no que se refere ao trabalho do actor, signifique a produção de sentidos através de procedimentos técnicos que exijam dele uma condição física específica e um desejo de exposição social. Parto deste conceito de performance, como uma prática teatral que implica uma experiência de vida, cada vez que é aberto o processo de representação. Entendida esta aqui não como uma simples apresentação de um texto frente a um público determinado, mas sim como uma prática colectiva de construção. De uma apresentação cénica que supõe uma ritualidade específica, uma demonstração interactiva. Ausente esse propósito nivelador, será mais apropriado falar, neste espectáculo, de uma instalação teatral. E porquê? São várias as razões: em primeiro lugar, a obra não obedece a nenhum tema central nem pretende transmitir nenhuma mensagem. O que ali se passa pertence ao quotidiano. Por outro lado, trata-se de teatro de texto, mas onde a estrutura narrativa não é linear, mas fragmentária. Quando os dois actores descrevem simultaneamente, de forma obsessiva e pormenorizada, o hall do hotel, não vejo aí um simples jogo, mas um discurso polifónico que cria um efeito de estranheza e de incomunicação. E que apaga qualquer evidência de um sentido por detrás de tanta informação. Porque é precisamente o excesso de sentido o produto mais óbvio de um discurso sôfrego e vácuo, que diariamente é veiculado pelos media. Em terceiro lugar, e como resultado, a peça é sobretudo uma comédia, onde a derrisão triunfa em toda a linha.
Existem neste espectáculo características particulares: o minimalismo cénico, que ressalta do princípio ao fim; por outro lado, aquilo que me pareceu ser uma quota generosa de improvisação, utilizada, a espaços, pelos actores. Que por vezes poderá causar algum gaguejar do ritmo, mas que, no geral, me pareceu ser uma opção convincente do encenador. Todavia, embora próxima da comédia de texto tradicional, não faltará quem aponte a sua frivolidade, ou o seu conservadorismo. Mas é precisamente essa ambiguidade que a torna uma criação tão consistente, sem que seja possível determinar a sua exacta natureza. Onde descubro uma mescla de formalismo com uma intensa poética do vazio, digamos assim. Vazio material pela ausência de cenografia e vazio dramático pela falta de acção e evolução dos personagens.

Publicado no jornal "O Interior", em 6 de Novembro

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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Tábua de marés (6)


Quadrar a Roda
Concepção, encenação e interpretação: Jens Altheimer (http://leocartouche.com)
Pequeno Auditório do TMG, 17 de Outubro de 2008, 21h30

O espectáculo veio encerrar a edição deste ano do Festival de Teatro Acto Seguinte, que decorreu no TMG. O seu criador, Jens Altheimer, aliás, Leo Cartouche, começou a sua carreira artística como malabarista, no início dos anos 80. Altura em que também se iniciou no teatro de rua. E não foi impunemente. Mais tarde haveria de reunir estas duas formas de expressão artística num único conceito de espectáculo. Em 1987, fixa-se em Portugal, onde é professor no Chapitô e pioneiro do Novo Circo, de que a criação da “Sem Rede - Rede Nacional de Programação de Novo Circo” é um exemplo. O denominador comum das suas propostas é, como se disse, a busca de uma linguagem onde as técnicas do circo e do teatro se fundam, dando origem a espectáculos estimulantes. Na sua última produção, “Survivor”, fixou-se num único tema: um concurso televisivo. Nesse trabalho carregado de humor negro e irreverente, ao mesmo tempo trágico e cómico, consegue criar uma sátira às relações sociais baseadas nos níveis de rendimento dos indivíduos. Que, por sua vez, encaram os programas televisivos como o que é recriado na peça como referências supremas, relativamente à sua vida quotidiana. Pois bem, em “Quadrar a Roda” o autor reincide no objecto narrativo. Pretende igualmente promover uma crítica bem-humorada à arbitrariedade e ao absurdo, num universo onde as relações humanas estão cada vez mais mediatizadas por máquinas e sistemas telemáticos. Aqui, depois de várias peripécias, o protagonista entra numa área de acesso reservado, mas que também poderia ser a sua casa. E é imediatamente compelido a participar num jogo/concurso com várias fases e onde o grau de dificuldade vai aumentando progressivamente. Todavia, o herói consegue desenvencilhar-se sempre das dificuldades. Recorrendo, inevitavelmente, a uma habilidades operadas com maquinismos singulares, surpreendentes. Construídos a partir de vários materiais reciclados para a sua nova função. E onde o herói nunca deixa de ser uma espécie de Mac Gyver clownesco. Com uma solução pronta e engenhosa para cada novo desafio. Talvez o autor tenha querido ridicularizar o espectáculo na sua dimensão política. Os sinais estavam lá. Mas seria preciso mais. Porém, conseguiu atingir um objectivo artístico: Colocar em evidência a forma como a máquina atirou os indivíduos para fora do espaço natural onde constroem a sua humanidade. Como se deixassem de ser actores do seu próprio destino e de poder ler os objectos e maquinismos à sua volta, dos quais dependem. E assim ficassem diminuídos, padecendo de uma espécie de iliteracia técnica. Mas o autor mostrar que esse processo pode ser reversível. Graças ao seu engenho reciclador, a uma capacidade de improvisação que tem tanto de teatral como os artifícios expressivos têm de circense, Altheimer conseguiu repor o homem no centro. Afim de poder dominar os instrumentos de que se serve para viver. E para se divertir. Até porque tudo o que constitui o espaço cénico, maquinismos fixos e móveis, está lá literalmente para que ele se sirva deles. Num processo de reconstrução mútua. Noutro plano, já mais no que diz respeito à interpretação, pareceu-me que, por vezes, o autor abusou do circo e esqueceu-se do teatro. Nomeadamente, no prolongamento excessivo do malabarismo com as bolas. O que retirou algum ritmo ao espectáculo, mesmo que os danos fossem mínimos. Juntando malabarismo e manipulação de objectos ao movimento e interacção com o público, Altheimer abre a porta a um universo estranho e bizarro, e também muito pessoal, onde reinam o perigo, amor, ambição e riso, grandes falhas e pequenos triunfos. Sobre este trabalho, poderia concluir desta forma: Vamos ao circo? Claro! Vamos ao teatro? Também. E ninguém se enganaria.

Publicado no jornal "O Interior", em 23 de Outubro