Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Como era aquela frase do G. B. Shaw?

O respeito pelos eleitores também se mede por coisas destas. Marcos Perestrello, o aparelhista chique do partido do governo, era há um ano vice-presidente da C.M.L, o primeiro depois de Costa. Há pouco mais de quinze dias protagonizou a candidatura do dito partido à câmara de Oeiras e foi eleito vereador. Agora é secretário de Estado da tropa ao lado do ministro S. Silva. A D. Dalila Araújo (quem?) era há um ano a governadora civil de Lisboa. Largou para ser candidata a vereadora de Costa e, como tal, foi eleita também há menos de quinze dias. É secretária de Estado de qualquer coisa. O sr. Vasco Franco, quase eterno vereador da habitação da C.M.L nos tempos de Sampaio e do Joãozinho, foi retirado ao jazigo de família para ser secretário de Estado de outra coisa qualquer. Regresso, pois, à frase inicial. Se calhar os eleitores - aqueles que votaram nisto - não merecem mais respeito do que este. Isto é, nenhum.

João Gonçalves, no "Portugal dos Pequeninos"

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O paraquedismo como uma das belas artes

Francisco Assis será o novo líder parlamentar do PS

O deputado Francisco Assis vai substituir Alberto Martins na liderança da bancada do PS. Regressado de cinco anos no Parlamento Europeu, Assis repete assim as funções que já desempenhou durante os governos de António Guterres. O nome será anunciado pelo secretário-geral socialista, José Sócrates, numa reunião com os deputados agendada para as 12.30. Francisco Assis irá depois a votos no grupo parlamentar.
Fonte: DN online

Vou tentar reconstituir a trajectória estonteante do deputado: Assis veio da gamela de Estrasburgo. Fez escala no Porto, para reabastecimento. Passou de rompante pela Guarda, lançado a grande altitude, onde convenceu algumas almas enternecidas a votarem nele. E chegou finalmente ao seu destino, como se comprova na notícia. A nomeação é a merecida "ajuda de custo" pelas duas ou três deslocações à Guarda (que maçada!). Entretanto, jurou a pés juntos que o centro da sua vida política seria no Porto. Então, nesse caso, porque não aproveitar a oportunidade para testar as virtualidades do "choque tecnológico"! Muito simples: comunicando o novo líder parlamentar com os seus pares em S. Bento, a partir da Invicta, através do "Skype", ou em sistema de videoconferência!... Agora pergunto: no meio desta dança de sinecuras, o que ganhou a Guarda? O que vai ganhar? Vale aqui o supremo acerto do adágio de Bernard Shaw (injustamente ofuscado pelo outro, mais célebre, de Churchill): a democracia é o sistema pelo qual garantimos ser governados como merecemos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Sapo, qual sapo?

Os deputados do PSD-Madeira acabam de aprovar a suspensão administrativa de um deputado, seu par, na Assembleia legislativa daquela região autónoma. Ao arrepio da Constituição e do Estatuto respectivo, como já salientaram os especialistas. Entretanto, Cavaco Silva, que tem poder de dissolução sobre aquele órgão, lavou as mãos do assunto, melhor ainda do que Pilatos. A justificação é surrealista. Baseando-se em informações que lhe foram transmitidas pelo representante da República, o qual tem dialogado imenso com o presidente da Assembleia, não hesitou em garantir que que a situação "tende para a normalidade". E que, quanto a uma ameaça ao regular funcionamento de uma instituição, nada pode fazer. Ver aqui a notícia completa. "Extraordinário!", é o que os portugueses que acreditam num estado de direito democrático poderão dizer. Repare-se que a situação "tende". O que significa que, logicamente, este movimento para a normalidade pressupõe uma anormalidade anterior. E que os bons ofícios para essa reposição resultarão necessariamente de uma intervenção divina. Assombroso é assistir a esta tendinite aguda, onde o PR emite declarações de fé sobre um assunto que, pela sua gravidade, só admite a sua intervenção célere e exemplar. Sobre o prestígio do regime estamos conversados. Depois admirem-se de ouvir dizer que no tempo do Salazar é que era bom.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Lido

As democracias, quando frágeis, são porta aberta para as mais ferozes reacções. Crer que os homens comuns dão valor à liberdade em desordem, à angústia de não saber o que fazer com os direitos abstractos, com as constituições, com a liberdade de imprensa e a separação de poderes é acreditar que o bom-senso, a razão e a boa-vontade comandam as sociedades. Mas não, nas sociedades modernas - atomizadas, individualistas, reivindicativas - o indivíduo comum sente-se ultrapassado, isolado e em perpétua competição pelo reconhecimento das suas qualidades. Quando se esgota, culpa a liberdade dos outros pelo seu fracasso e volta-se para as soluções holísticas. (...) As pessoas andam com medo, combalidas e angustiadas; em suma, as pessoas não gostam da liberdade nem sabem o que ela vale.

Miguel Castelo-Branco, "O Fim da primeira globalização da era contemporânea", no "Combustões"

sexta-feira, 11 de abril de 2008

A liberdade em forma de tocha

campanha reporters sans frontières

Gordon Brown acaba de anunciar que também não estará presente na cerimónia de inauguração dos Jogos Olímpicos de Pequim. Angela Merckel já o tinha feito. Aposto que Sócrates não deixará de pontuar na comitiva oficial. Tudo por causa de mais uma negociata de amendoins que ficaria em risco. Uma ditadura corre o risco de cair por causa de uma chama olímpica. Uma vingança helénica com 2500 anos. Entretanto, o incansável Jerónimo foi a Luanda visitar o amigo do peito José Eduardo dos Santos. Sentindo-se em casa, louvou esse grande "país em construção, livre e soberano", onde não sentiu a corrupção "como um fenómeno instalado e em desenvolvimento". Que ideia! Corrupção em Angola? Mentiras propagadas pelo torpe imperialismo e pelo venal capitalismo! Ler aqui a entrevista na íntegra. Recorde-se que o PCP foi o único partido na Assembleia da República que se recusou condenar a violência no Tibete. O PC chinês também andava assim a modos que distraído. Até levar com uma tocha em cima! Acontece...

terça-feira, 10 de julho de 2007

O sangue dos outros

"Ninguém dá lições de democracia ao PS", vociferava há dias na AR o chefe do grupo parlamentar daquela força política. Aconteceu durante o debate realizado a propósito de conhecidos casos de perseguição, por via disciplinar, de funcionários que alegadamente cometeram delito de opinião. A suprema arrogância desta frase diz-me praticamente tudo acerca de quem nos governa. Condensa duzentos anos de equívocos e de sombras jacobinas. Bem andou Kant, quando detectou na possibilidade de uma acção poder ser ou não universalizada o fundamento para o único padrão ético.
Como prova de que a invocação de uma paródica superioridade moral anda de mãos dadas com a leviandade, apetece citar um excerto de um sugestivo texto de José Gomes André, no "Bem pelo Contrário". Isto a propósito das vaias e assobios dirigidos à Estátua da Liberdade, durante a Gala das 7 Maravilhas do Mundo, realizada há dias:

O mundo ocidental está tão farto de si mesmo, tão cheio da sua felicidade e simplicidade e comodidade, que olvidou os seus pilares morais, o sangue que outros derramaram em seu nome e as suas referências históricas. E não percebe que essas conquistas exigem que as estimemos e as preservemos com todo o cuidado. No dia – e esse dia está demasiado próximo – em que as esquecermos por completo, poderemos ter uma triste surpresa, e descobrir que aquilo que sempre demos por adquirido não passava, afinal, de uma frágil realidade, e a partir desse dia, talvez demasiado distante para ser recuperada.