Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Chocolate

A "Livraria Académica", nome técnico para a lendária papelaria do sr. Casimiro, acaba de fechar as suas portas, no centro da cidade da Guarda. Foi assim, com as vitrinas tapadas com cartão que a encontrei, na sexta-feira à noite. O facto não me surpreendeu, nem se calhar à maioria daqueles que por lá passavam amiúde. A decadência era notória e a abertura do Vivavi terá precipitado a decisão do encerramento. Vamos então por partes. As memórias que cada um associa a este estabelecimento é uma questão, em grande medida, geracional. Local de tertúlia, de liberdade, quando a opressão política e clerical reinavam, de encontro com os livros. Mas também foi, para muitos, entre os quais me incluo, "mais" uma papelaria, onde se acorria no frenético início das aulas e onde, mais tarde, se encontrava esta ou aquela edição interessante. E era só "ali", naquela "ilha", quando os livros eram preciosos objectos de contrabando. Para quem desconhece a importância da livraria na cultura local, lembro a sua notável evocação, feita numa das exposições do ciclo "A memória das coisas", há uns anos atrás no Paço da Cultura. Todavia, as questões que agora (e para o futuro) se colocam são de outra ordem. Ideias para o espaço? O Américo Rodrigues já deu algumas, bem interessantes, embora não escondendo alguns sinais de descrença quanto à sua viabilidade.
Quanto a mim, o encerramento de um local tão emblemático, quer para a memória local, quer para algumas personalidades ilustres que por lá passaram, deveria motivar uma séria reflexão sobre o modelo de desenvolvimento que se quer para a cidade e, em particular, o papel aí desempenhado pelo chamado comércio tradicional. A propósito, não resisto a invocar aqui um filme extraordinário, a que assisti há una anos. Chamava-se "Chocolate" (2001), de Lasse Hallström, com um notável desempenho de Juliette Binoche. A obra relata, em síntese, a persistência da protagonista em manter uma loja especializada em chocolate, numa povoação dos confins da província. Vencendo obstáculos e resistências de toda a ordem, consegue, por fim, afirmar o seu estabelecimento. E torná-lo, perdoem o trocadilho, o créme de la créme local. "Onde pretendo chegar?", perguntarão os leitores. "Ao verdadeiro cerne da questão", responderei. A reconversão de espaços comerciais de referência devolutos, em áreas vitais das cidades, em novos estabelecimentos, apresentando modelos inovadores e apelativos, é hoje em dia uma opção funfamental, na requalificação do centro das cidades. Na qual participam, naturalmente e em complementaridade, entidades públicas e privadas. O fecho da papelaria do sr. Casimiro tem todas as condiões para se tornar um teste ao empreendorismo, à ambição e à audácia gerados na Guarda. E refiro-me quer à autarquia, quer aos investidores. Como se, parafraseando o célebro quadro de Dali, a persistência da memória fosse aqui uma questão de primeira necessidade.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Vivaci

E no segundo dia da Criação, fui ao Vivaci. Para quem não sabe, o recém-inaugurado mega espaço comercial da Guarda. Antes de qualquer apreciação, é bom começar pelo seguinte: sempre encarei positivamente a existência de um espaço deste tipo na cidade. Por diversas razões: criação de uma nova centralidade, de que o tecido económico pode beneficiar; um novo pólo de atracção para a urbe; um gerador de auto-estima para os guardenses; finalmente, a existência de um espaço polivalente, confortável, prático, seguro, o que pode fazer a diferença numa cidade com um clima tão agreste. Todavia, sempre discordei da sua localização. Uma vez que fica "entalado" numa zona pré edificada, não respira nem deixa que a zona adjacente o faça. Já me disseram que, ao ser construído junto da zona histórica, vai ter um efeito dinamizador, ainda que indirecto, nessa área vital da cidade. Reproduzindo um pouco o que se passou no Chiado. Mas o argumento não convence. Tanto mais que esse efeito só se notará, provavelmente, numa maior afluência aos estabelecimentos de diversão nocturna. A profusão de comércio e restauração de qualidade, que deveriam ser as âncoras da zona histórica, obedece a uma lógica distinta. Neste caso, só aproveitariam um período mais alargado de funcionamento. Ora, voltando às impressões recolhidas na "nova catedral", como diz o Américo Rodrigues: agradou-me o desenho das escadas rolantes, como linhas que se entrecruzam, vistas do andar de cima e reflectidas na cúpula envidraçada; a livraria Bertrand parece ter cumprido os objectivos; os espaços âncora tradicionais estão à altura; não entrei em nenhuma sala de cinema; o parking funciona razoavelmente; o hipermercado, com um traçado incomum, i.é., mais profundo do que largo, surpreendeu-me pela enorme variedade de produtos. Por sua vez, desagradou-me a tacanhez da área da restauração: um espaço reduzido, sem zonas diferenciadas, sem uns ornamentos "verdes", sem aberturas para o exterior. É certo que muitos estabelecimentos ainda não abriram, mas já deu para perceber as enormes limitações do perímetro. Outro aspecto: na saída de cima e até à Porta da Estrela, o caos é permanente e generalizado. Sem um corredor para os peões, com o espaço praticamente ocupado por carros e uma circulação ininterrupta, é penoso atravessar uns simples 200 metros. Para terminar, é desolador assistir à enorme quantidade de espaços comerciais que ainda não abriram as portas. O que acentua a sensação que toma conta do visitante: estar num bunker. Mesmo sabendo que esse receio advem de o centro estar a meio gás, temo que vá para além disso e subsista como uma marca negativa do edifício.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Já falta pouco!

O Centro Comercial VIVACI, o maior investimento privado na Guarda das últimas décadas, sempre irá abrir no próximo dia 5 de Novembro, segundo notícia difundida pela Rádio Altitude. Para este novo (e polémico) espaço comercial, contribuiu um investimento na ordem dos 33 milhões de euros. Irá albergar 90 lojas, entre as quais uma livraria, 12 restaurantes, um supermercado e várias salas de cinema.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Domingo à tarde

Vão discutir-se amanhã, na A.R., três projectos de lei referentes ao horário de abertura dos hipermercados (área superior a 2 000m2) aos domingos e feriados. Como se sabe, actualmente, e ao abrigo da portaria 153/96 de 15 de Maio, os hipermercados estão proibidos de abrir ao público aos domingos e feriados entre os meses de Janeiro a Outubro, podendo contudo abrir entre as 08:00 e as 13:00 de igual período. Neste momento, corre na blogosfera uma petição contra a abertura. Coincidência ou não, as propostas do BE e do PCP vão no sentido do encerramento aos domingos e feriados, extensível a todos os estabelecimentos de venda ou público ou prestação de serviços, embora a última abra algumas excepções. A justificação é a "defesa do comércio de proximidade" e a inversão da "desertificação dos centros das cidades". A proposta do PSD, invocando a liberdade de comércio e a desregulamentação, prevê a abertura desses estabelecimentos, incluindo os localizados em centros comerciais. No entanto, remete essa decisão para as autarquias respectivas. É que, se em alguns casos, um período de funcionamento alargado poderá ser benéfico para os consumidores e criar mais emprego, noutros poderá afectar gravemente o comércio tradicional. E serão as Câmaras aquelas que melhor avaliação poderão fazer destas situações. Esta proposta parece ser a mais equilibrada. Não faz qualquer sentido impor administrativamente um horário de funcionamento restritivo para determinados estabelecimentos, não aplicável a outras superfícies com praticamente a mesma área. Por outro lado, é bom começar a acabar com o mito do coitadinho e honrado comércio tradicional. Ou metê-lo a todo no mesmo saco. Há sectores e estabelecimentos onde se nota um notável esforço de reconversão, de especialização da oferta, abertura de lojas gourmet, fixação de horários de abertura diferenciados, oferta de serviços complementares, pensando no bem estar dos clientes, etc. A falta de imaginação, de conhecimento e de esforço são os maiores inimigos do comércio tradicional. Alguém, no seu perfeito juízo, acredita que será o encerramento dos hipermercados aos domingos e feriados que o irá salvar?
Uma nota curiosa: sectores ligados à Igreja tomaram posição contra a abertura dos hipermercados ao domingo. A razão invocada é a defesa da família. Sinceramente, não sei que tipo de tentações demoníacas poderão atacar o consumidor que, por não haver mais nada aberto, ou porque o domingo é um dia propício às compras semanais, se desloca a uma grande superfície nesse período. Será que a dona de casa que vai ao hiper da zona será por isso uma mãe de família pecaminosa? Enfim, quando é que a Igreja aprende a não se intrometer na liberdade e na autonomia de cada um, seja ou não cristão? E que tal se esta promovesse a abertura de estabelecimentos de aconselhamento e conforto espiritual nos centros comerciais, abertos ao domingo? Faço esta proposta com toda a seriedade que ela merece. Depois queixem-se de que o rebanho está a diminuir...

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A cidade e as serras

Lembram-se ainda da figura do coleccionador? Esse mesmo, um tipo meta-humano que prospera na blogosfera. E cujas carências básicas ao nível cultural se escondem atrás de um vertiginoso up to date de informação acessória. Já recomendava Eugénio de Andrade: não colecciones dejectos / o teu destino és tu. Ele lá sabia porquê. Entretanto, abriu mais uma loja FNAC em Viseu. Este tipo de estabelecimentos, juntamente com os índices dos livros, a literatura promocional que acompanha os Cds, os DVDs, os recortes noticiosos e o Wikipédia, é o habitat natural do coleccionador. Mas nada de confusões. Claro que o panorama da oferta de bens de consumo na área da cultura, em Portugal, se pode dividir entre o pré e o pós FNAC! Claro que, depois da Fnac, nada voltou a ser como era. Claro que as vantagens para o público são inúmeras. Especialmente em localidades onde nem sequer há uma livraria ou uma loja de venda de audiovisuais dignas desse nome! Mas não é disso que aqui se trata. Quando vou a uma FNAC - tenho uma predilecção pela loja do Fórum de Almada, a mais cuidada e diversificada, em termos de oferta, na área da Grande Lisboa - levo sempre na cabeça uma lista de aquisições pré-definida. Deixando uma margem de 1/3 para os amores imprevistos, à primeira vista. Os coleccionadores, pelo contrário, vejo-os em êxtase contínuo, zombies capazes de um orgasmo múltiplo a qualquer momento...
Voltando ao tema, recebi um email anunciando a abertura da tal loja no Palácio do Gelo, em Viseu. Sobra porém uma outra questão, esta talvez mais séria. O cabeçalho do email diz: a FNAC chegou a Viseu. Como se dissesse: foi inaugurado mais um troço da estrada que levará a civilização até ao interior recôndito e arcaico. Como se assim fosse debelado, por momentos, o síndrome da altitude de que o desenvolvimento padece neste país. E de que a organização aparece como lídima mensageira. Ora, a Fnac é uma empresa privada. Poder-lhe-á ser censurado o facto de só abrir lojas onde há população e poder de compra que o justifique? É claro que não. Mas se a cadeia fosse realmente tão ambiciosa como quer dar a entender, não poria nunca de lado a ideia de abrir uma loja nas capitais de distrito onde elas ainda não existem. Seria um risco calculado e com resultados surpreendentes. Refiro-me não ao habitual formato megastore, mas com uma dimensão mais modesta, semelhante à loja que existe no Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa: reduzida, oferecendo o indispensável, embora mantendo a diversidade, a acessibilidade e o preço. E o Estado, e as autarquias, podiam ter algum papel neste processo? É claro que sim. Negociando contrapartidas sensatas e exequíveis. Até já.

NOTA: sobre este tema, embora num registo diferente, ver este texto do Américo Rodrigues, no "Café Mondego".

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A farsa continua

A operadora de telemóvel que utilizo acaba de me mandar um sms, lembrando-me das n mensagens grátis que posso utilizar no dia de S. Valentim, especificando-se o radioso destino: a "cara-metade". Foi a gota d'água. Já não bastava o marketing ter adoptado mais uma tradição bastarda para estimular o negócio, expandir o consumismo, com as montras entupidas de souvenirs, as redes sociais na net oferecendo todo o tipo de serviços hi tech, o brain storming publicitário. Faltavam ainda os pacotes de sms para se reenviarem as mensagens "muita giras" recebidas nos anos anteriores, ou sacadas nos serviços de valor acrescentado que disponibizam aos valentinos e às valentinas todo o tipo de lirismo de ocasião. Repare-se que, de acordo com a correcção totalitária em curso, nem se fala em namorado ou namorada, mas "cara-metade". Um asséptico e abrangente eufemismo que nada significa. E porque não à amante? À acompanhante das férias? Mas que merda é esta? Cara-metade? E a inocência, fausta e magnífica? E os corpos nus indissociáveis? E os pequenos gato ávidos, que partilham o pão, o sol e a morte? ? E o sabor a sal, depois de termos nadado no mar como focas? E as nossas corridas no bosque, como raposas, quando rolávamos no chão? E quando não sabia onde nenhum de nós começava ou acabava, casal de serpentes entrelaçadas? Cara metade? Até onde nos querem reduzir?

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

A cena do queijo - 2

Ontem fui mais uma vez ao Serra Shopping, na Covilhã. Já aqui tinha dado conta das impressões recolhidas no local, numa outra incursão. Como nessa ocasião, embora mudando o objecto da procura, o meu propósito era bem preciso: comprar uma camisa branca, umas calças e um queijo de mistura. As segundas-feiras são o dia ideal para este tipo de actividades nos grandes espaços comerciais. O corropio das famílias acabou. As lojas estão vazias. As pessoas têm um ar vagamente nostálgico dos excessos do fim-de-semana. Nas mulheres pesa mais o corpo do que a direcção do olhar. A deriva tem o sabor do retorno à infância. Existe um vagar nos gestos, na atenção concedida aos outros, propícios a grandes negócios. Comecei então pelo vestuário, ao que visitei várias lojas especializadas. Em todas elas aconteceu o insólito: não encontrei nada que me agradasse. Sobretudo porque as "clássicas " Levi Strauss eram objecto desconhecido nas prateleiras. Em contrapartida, abundavam calças pseudo usadas, pseudo remendadas, de marcas com nomes impronunciáveis. Ainda perguntei numa delas, num acesso de curiosidade, se tinham fatos de macaco. Enfim, sempre teriam alguma utilidade. O mesmo se diga das camisas. Resmas delas. Algumas até interessantes, pelo design apresentado. Só que as brancas, para além de raras, primavam pela ausência no tamanho pretendido. Parecia uma conspiração. Não diria de mau gosto, mas de um gosto pouco prático, que atribui uma importância exagerada aos consumidores juvenis de todas as idades. Decidi então ir comprar o queijo. Que encontrei, tal como esperava, numa loja de produtos tradicionais, produzido com leite de cabra e de ovelha. Um regalo. Em seguida, passei pela livraria, desafiando a circunspecção e o saber com o odor honesto do queijo. O que lá encontrei ocasionou mais uma decepção: destaque excessivo dado às edições de ficção "histórica" (que, em rigor, deveria ser arrumada na secção de astrologia, ou de jardinagem), pouca variedade nos títulos apresentados, com algumas editoras pura e simplesmente ausentes e, sobretudo, o nível de preços praticados. Como exemplos, “A Ronda da Noite”, de Agustina Bessa-Luís, custava 19 Euros; "As Origens do Totalitarismo", de Hannah Arendt, 32 Euros; "Uma História da Guerra", de John Keegan, 33 Euros... Nada mau para um país onde o salário mínimo equivale a 403 Euros. Decidi imediatamente fazer uma visita a alguns alfarrabistas de Lisboa, quando lá for. Ou à Livraria Cervantes, em Salamanca, já que a qualidade, o atendimento, a variedade e o preço valem o esforço. Entretanto, encontrei algumas pessoas conhecidas, quer no estabelecimento, quer fora dele. Por fim saí, acompanhado do fiel lacticínio. Devidamente acolitado por 6 garrafas de "Sá de Baixo", Douro Tinto, reserva de 2003. Eleito como um dos melhores nectares nacionais pela crítica especializada. Que encontrei a um preço tão inacreditável que tenho vergonha em dizer aqui. Moral da história, se é que podemos encontrar alguma: é quase sempre mais importante o que se encontra do que o que se procura. E pronto. Ala, que se fez tarde.