Não sem algum acerto, o manuel a. domingos quis aqui repartir o mal pelas aldeias, no que à questão da crença/não crença diz respeito. Efectivamente, num tempo onde o sujeito perdeu de vista a sua relação com a transcendência e onde a crença ela própria se tornou um assunto privado, fará todo o sentido relativizar a crença em Deus, cuja existência se torna assim indiferente perante ela. Humaniza-se a crença e transforma-se em desejo mágico, uma vez que não só é impossível a certeza como facultativa a sua necessidade. Mas os problemas não acabam aí. Para o sagrado se revelar é preciso que alguém o veja desse modo. Ou seja, manifestar a sua fé. E, em paralelo, quem não queira ver, ou porque nega ou porque explica. Seja como for, é a incerteza do objecto que determina a dimensão (trágica?) do erro em ambos os casos. Por isso, ao contrário do que diz o manuel, não serão aquilo que ele considera como vantagens - fé e dúvida, respectivamente para crentes e não crentes - precisamente as pedras no sapato? É que, salvo melhor opinião, ambas significam não saber as respostas certas. Por acção ou omissão.
Mostrar mensagens com a etiqueta religiões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta religiões. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de maio de 2010
The soundbites delusion
Pelo que tenho lido em alguns locais, desde comentários nos media convencionais até ao Facebook, alguns querem reduzir a questão da espiritualidade a uma espécie de engraçadismo escolar. Ou, amparando-se na citação das headlines de autores como Richard Dawkins, a uma colecção de máximas. Curiosamente, há cerca de dois ano e meio, fiz neste mesmo blogue um comentário alargado à sua obra mais conhecida, "The God Delusion". Na altura, publiquei também um excelente vídeo onde Dawkins expõe as suas teses sobre o assunto. Basicamente, Dawkins propõe-se desmontar a argumentação de S. Tomás de Aquino sobre a existência de Deus e as teses dos criacionistas, de que o princípio do desenho inteligente é exemplo maior. Seja como for, muitos se esquecem da obra de Dawkins até hoje mais polémica: "O Gene Egoísta". Na altura em que o li, foi uma autêntica pedrada no charco. Na sua defesa intransigente do evolucionismo, Dawkins vai muito longe, identificando-se com algumas teses do chamado darwinismo social. E sobretudo deitando por terra aquilo que tomamos como exemplos de elevação sentimental, o altruísmo dos pais em relação aos filhos, etc. De tal forma que o livro foi, na altura em que saiu, bem mais demonizado do que este. Compreende-se porquê. Abolir Deus é bem mais fácil de aceitar, numa sociedade que perdeu a noção quotidiana da transcendência, do que a ideia de que os nossos padrões de humanidade são determinados pela competição de genes que querem produzir e ver bem sucedidas réplicas viáveis de si próprias.
Sobretudo nas sociedades urbanas e industrializadas, a dimensão espiritual da existência é hoje crescentemente assumida enquanto construção, individual certamente, mas também personalizada. É um composto que reúne contributos plurais, mas orgenizando-os num único sentido. Esta tendência, levada ao limite, já se tornou numa caricatura consumista ou num sucedâneo da auto-ajuda. Seja como for, não é com o engraçadismo reinante (o mesmo que levou um humorista da praça a fazer um insuportável trocadilho entre a nuvem de cinzas vulcânicas e os fornos crematórios dos campos de concentração) que se deve brincar com algo simplesmente humano.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
O Irão aqui tão perto
Imaginemos um protesto organizado por uma organização religiosa durante o funeral de um actor celebrizado pelo papel de homossexual reprimido que desempenhou num filme premiado com vários óscares. "Ora bem, isso foi no Irão, na Líbia ou no Sudão?" dirão muitos leitores. Pois bem, isto acontece nos EUA, em 2008. Segundo relata o jornal online brasileiro "Última Hora" (23.01.08), a Igreja Baptista de Westboro, pela voz do reverendo Fred Phelphs, criador da comunidade 'Deus odeia Bichas', em tradução literal, anunciou que o actor Heath Ledger - protagonista de "O Segredo de Brokeback Mountain" - está no "inferno", pois segundo aquela instituição, tratava-se de um "pervertido" e "calunioso". Para já, desconhecem-se as fontes do reverendo, presumindo-se a sua origem diabólica. Não se sabe igualmente porque é que Deus há-se odiar assim tanto as bichas. Será que algum negócio tipo "Gaiola das Malucas" se tornou demasiado popular no Paraíso? Repare-se que o Freddy Baptista poderia perfeitamente afirmar que "Deus odeia quem não tem armas", ou "Deus odeia todos aqueles que têm vindo a fazer crescer o meu par de cornos". A gente acreditava à mesma.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
The God Delusion - 1
"The God Delusion" é a obra mais recente do zoólogo Richard Dawkins, o autor de "O Gene Egoísta". Quando li o livro, há cerca de 17 anos, fiquei definitivamente esclarecido sobre a natureza humana. Em especial sobre aquilo que é tido como comportamento altruísta. Neste excelente vídeo, que poderá ser aqui descarregado, ou visto em widescreen, facilmente se vislumbra o cerne das teses de Dawkins. A análise do livro, cuja tradução (delusion por desilusão não lembra a ninguém) é de tal forma lamentável que li a edição espanhola, virá muito em breve.
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Visões

O tema hoje é a crendice e a superstição. Dois rios tumultuosos, cuja ira pode arrastar tudo à sua frente. Nada melhor, então, do que avançar com dois exemplos de peso.
Por um lado, temos Fátima. Não o produto, a marca. Que, aliás, o investimento considerável na nova catedral veio consolidar. Na inauguração, as palavras do cardeal Bertone contra a sociedade aberta pressagiam o apetite ainda não saciado da hierarquia católica pelos autos de fé. Palavras que não surpreendem, mas preocupam. Sobre o tema, o "Irmão Lúcia" dedicou um conjunto de postagens intitulado grande gala 'azinheira spoken word'. Trata-se de um convite dirigido a 13 bloguistas, correspondido, para escreverem sobre Fátima. O resultado foi notável. Gostei sobretudo da hipótese, não despicienda, de os três pastorinhos terem sido apreciadores do Psilocybe cyanescens, um cogumelo muito dado a visões.
Noutro segmento iconográfico, temos a incrível e rocambolesca história das mãos de Che Guevara. A relíquia mais bem guardada da Igreja comunista. Ler aqui. (via "Água Lisa").
Por um lado, temos Fátima. Não o produto, a marca. Que, aliás, o investimento considerável na nova catedral veio consolidar. Na inauguração, as palavras do cardeal Bertone contra a sociedade aberta pressagiam o apetite ainda não saciado da hierarquia católica pelos autos de fé. Palavras que não surpreendem, mas preocupam. Sobre o tema, o "Irmão Lúcia" dedicou um conjunto de postagens intitulado grande gala 'azinheira spoken word'. Trata-se de um convite dirigido a 13 bloguistas, correspondido, para escreverem sobre Fátima. O resultado foi notável. Gostei sobretudo da hipótese, não despicienda, de os três pastorinhos terem sido apreciadores do Psilocybe cyanescens, um cogumelo muito dado a visões.
Noutro segmento iconográfico, temos a incrível e rocambolesca história das mãos de Che Guevara. A relíquia mais bem guardada da Igreja comunista. Ler aqui. (via "Água Lisa").
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
O regresso das trevas
Há dias passou na RTP 2 um excelente documentário sobre as seitas fundamentalistas cristãs que proliferam nos EUA. Assumem-se como a consciência moral da América. Fazem coincidir, ad nauseum, os valores que defendem (ao fim ao cabo, um programa político ultra-conservador) com os pilares básicos da Nação. Incluindo, porventura, não permitirem a entrada nos seus templos a homossexuais e a mulheres que praticaram aborto. Um cristianismo de fino recorte, como se nota. Mas os cabecilhas não dormem em serviço. Ao pé deles, a tropa de choque da Igreja Católica - a Opus Dei - parece constituída por escuteiros:
são lobistas legítimos em Washington, onde organizam campanhas impressionantes sempre que está em causa a discussão de legislação "sensível", assumindo-se como bloco eleitoral de facto. Durante as campanhas eleitorais, distribuem panfletos pelos crentes, aconselhando o voto nos candidatos com perfil cristão. Invariavelmente republicanos, está bom de ver (ficou assim a conhecer-se a verdadeira razão por que Bush ganhou as últimas presidenciais). Organizam assembleias religiosas que parecem um misto de estúdio televisivo em hora de reality show, sessão de brainstorming intensivo e campanha de marketing agressivo e pseudo-espiritual. Assustador. A verdadeira espiritualidade está ausente, é claro. Substituída por uma transcendência de supermercado, a que democraticamente todos podem aceder, sem demasiadas perguntas. Para a juventude, organizam uns concertos "tipo MTV" onde, a páginas tantas, um assanhado grupo rapper se transforma num coro de querubins trazendo a boa nova. Os líderes têm invariavelmente um ar gorduroso, repelente, com reminiscências pedófilas. E contas bancárias recheadas, com toda a certeza.
Esta ultradireita religiosa chegou a colaborar na propagação do terror, no pós 11 de Setembro, através do envio de cartas contaminadas com antrax. Mas a "coisa" vende. Progride nos Estados do Sul e do Midwest. Pode tornar-se um sério embaraço num país que, embora invocando sempre Deus, criou o estado secular e o primado da lei. Estes "cristãos" descendem directamente do Arcebispo Cirilo de Alexandria. O tal que, em 415, incitou os seus monges e a chusma a matarem a derradeira cientista pagã da Biblioteca de Alexandria, Hipátia. Cirilo foi santificado, é claro. E aposto que Hipátia foi massacrada não por ser pagã, mas por ser mulher da ciência. São epígonos de Ireneu (130-202), um padre da Igreja que proclamava que os gnósticos e os pagãos tinham sido identificados como agentes de Satanás e que praticavam actos de canibalismo. O clima é o mesmo, sendo as nuances determinadas pelas diferentes possibilidades trazidas pela tecnologia: impor as ideias ao próximo por amor (Vd. Arno Gruen, Falsos Ídolos). Este fim justificava e continua a justificar o emprego de todo o tipo de violência. É a génese do espírito inquisitorial, do medo e das trevas. Com Deus fora do baralho.
Nota: sobre o tema, embora centrado na questão artística, recomendo a leitura de um excelente artigo de Camille Paglia, Religion and the Arts in America. Brevemente editarei uma postagem sobre a autora.
são lobistas legítimos em Washington, onde organizam campanhas impressionantes sempre que está em causa a discussão de legislação "sensível", assumindo-se como bloco eleitoral de facto. Durante as campanhas eleitorais, distribuem panfletos pelos crentes, aconselhando o voto nos candidatos com perfil cristão. Invariavelmente republicanos, está bom de ver (ficou assim a conhecer-se a verdadeira razão por que Bush ganhou as últimas presidenciais). Organizam assembleias religiosas que parecem um misto de estúdio televisivo em hora de reality show, sessão de brainstorming intensivo e campanha de marketing agressivo e pseudo-espiritual. Assustador. A verdadeira espiritualidade está ausente, é claro. Substituída por uma transcendência de supermercado, a que democraticamente todos podem aceder, sem demasiadas perguntas. Para a juventude, organizam uns concertos "tipo MTV" onde, a páginas tantas, um assanhado grupo rapper se transforma num coro de querubins trazendo a boa nova. Os líderes têm invariavelmente um ar gorduroso, repelente, com reminiscências pedófilas. E contas bancárias recheadas, com toda a certeza.
Esta ultradireita religiosa chegou a colaborar na propagação do terror, no pós 11 de Setembro, através do envio de cartas contaminadas com antrax. Mas a "coisa" vende. Progride nos Estados do Sul e do Midwest. Pode tornar-se um sério embaraço num país que, embora invocando sempre Deus, criou o estado secular e o primado da lei. Estes "cristãos" descendem directamente do Arcebispo Cirilo de Alexandria. O tal que, em 415, incitou os seus monges e a chusma a matarem a derradeira cientista pagã da Biblioteca de Alexandria, Hipátia. Cirilo foi santificado, é claro. E aposto que Hipátia foi massacrada não por ser pagã, mas por ser mulher da ciência. São epígonos de Ireneu (130-202), um padre da Igreja que proclamava que os gnósticos e os pagãos tinham sido identificados como agentes de Satanás e que praticavam actos de canibalismo. O clima é o mesmo, sendo as nuances determinadas pelas diferentes possibilidades trazidas pela tecnologia: impor as ideias ao próximo por amor (Vd. Arno Gruen, Falsos Ídolos). Este fim justificava e continua a justificar o emprego de todo o tipo de violência. É a génese do espírito inquisitorial, do medo e das trevas. Com Deus fora do baralho.
Nota: sobre o tema, embora centrado na questão artística, recomendo a leitura de um excelente artigo de Camille Paglia, Religion and the Arts in America. Brevemente editarei uma postagem sobre a autora.
segunda-feira, 18 de setembro de 2006
Falsos ídolos - 3
Para melhor compreender as recentes declarações do Papa sobre o Islão, leia-se este post. Brilhante e esclarecedor, sem dúvida. Mesmo que se trate de uma tempestade num copo de água. No entanto, o texto suscita alguns apontamentos.
Antes de mais, devo dizer que as minudências teológicas me escapam completamente. Em matéria de religião, sou agnóstico. Com uma enorme simpatia pelo budismo. Precisamente porque não é uma religião convencional, com uma galeria de deuses, imposições, códigos de conduta, espectros, medos, castigos, dualidades, algo que nos infantiliza a ponto de a oração se resumir a pedir prendinhas ao Pai Natal. Encaro-o mais como uma filosofia, uma prática, onde se exige tudo do próprio, e a vida se reduz ao que ela é: uma relação permanente, mas transitória, de causa-efeito. De qualquer forma, depois de ler o "Tratado de História das Religiões" de Mircea Eliade, percebi que, do ponto de vista antropológico, a religião é um fenómeno poderoso. Mas que não esgota, nem de perto nem de longe, a verdadeira espiritualidade. Que pode também ser encontrada na arte, no erotismo, na contemplação da natureza, na meditação, ou no consumo de determinados alucinogéneos. Aliás, veja-se a recente tentativa de reatar a discussão sobre o creacionismo por parte da Igreja. Só esta aberração diz bem do estado a que chegaram as coisas. Sem retirar a inefável qualidade literária à história de Adão e Eva, é claro.
Quanto ao radicalismo islâmico e luta anti-terrorista, as minhas posições são conhecidas: tolerância zero. Subtilmente, o texto transmite a ideia de que o Ocidente é o agressor e de que a Jihad é justificável num contexto de auto-defesa. A tal inversão da vítima e do carrasco de que falei aqui outro dia. Ora este pensamento é inaceitável. Será que já se esqueceram do 11 de Setembro? O amor que é referido no post é algo respeitável. Mas de que amor se fala? Aos terroristas também é fornecida uma galeria de inimigos para liquidar a ainda se amarem por isso. É em nome do amor que querem destruir a nossa civilização. E em nome de Deus, ainda por cima. Com cobertura nos complexos de culpa coloniais ainda presentes no Ocidente, nos idiotas de serviço que estão em todas, num anti-americanismo primário que parece ter revigorado a esquerda cataléptica pós queda do muro de Berlim. Deus pode ser Razão para os verdadeiros crentes. Mas não duvidem que, para estas turbas de fanáticos, Deus é somente uma conveniência segura para exerceram o seu ódio e a sua sede de poder.
Ver anterior
Antes de mais, devo dizer que as minudências teológicas me escapam completamente. Em matéria de religião, sou agnóstico. Com uma enorme simpatia pelo budismo. Precisamente porque não é uma religião convencional, com uma galeria de deuses, imposições, códigos de conduta, espectros, medos, castigos, dualidades, algo que nos infantiliza a ponto de a oração se resumir a pedir prendinhas ao Pai Natal. Encaro-o mais como uma filosofia, uma prática, onde se exige tudo do próprio, e a vida se reduz ao que ela é: uma relação permanente, mas transitória, de causa-efeito. De qualquer forma, depois de ler o "Tratado de História das Religiões" de Mircea Eliade, percebi que, do ponto de vista antropológico, a religião é um fenómeno poderoso. Mas que não esgota, nem de perto nem de longe, a verdadeira espiritualidade. Que pode também ser encontrada na arte, no erotismo, na contemplação da natureza, na meditação, ou no consumo de determinados alucinogéneos. Aliás, veja-se a recente tentativa de reatar a discussão sobre o creacionismo por parte da Igreja. Só esta aberração diz bem do estado a que chegaram as coisas. Sem retirar a inefável qualidade literária à história de Adão e Eva, é claro.
Quanto ao radicalismo islâmico e luta anti-terrorista, as minhas posições são conhecidas: tolerância zero. Subtilmente, o texto transmite a ideia de que o Ocidente é o agressor e de que a Jihad é justificável num contexto de auto-defesa. A tal inversão da vítima e do carrasco de que falei aqui outro dia. Ora este pensamento é inaceitável. Será que já se esqueceram do 11 de Setembro? O amor que é referido no post é algo respeitável. Mas de que amor se fala? Aos terroristas também é fornecida uma galeria de inimigos para liquidar a ainda se amarem por isso. É em nome do amor que querem destruir a nossa civilização. E em nome de Deus, ainda por cima. Com cobertura nos complexos de culpa coloniais ainda presentes no Ocidente, nos idiotas de serviço que estão em todas, num anti-americanismo primário que parece ter revigorado a esquerda cataléptica pós queda do muro de Berlim. Deus pode ser Razão para os verdadeiros crentes. Mas não duvidem que, para estas turbas de fanáticos, Deus é somente uma conveniência segura para exerceram o seu ódio e a sua sede de poder.
Ver anterior
Subscrever:
Mensagens (Atom)