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terça-feira, 11 de julho de 2006

Bolas, isto é cultura...


Diariamente, é difundida, a partir da RDP-Centro, a rubrica "Centro Cultural", apresentada pelo inefável Sansão Coelho. Trata-se de uma versão minimalista e radiofónica do saudoso "Acontece", onde são divulgadas as realizações culturais na região Centro. Mas entre a intenção e o resultado a distância é abissal. Para já, fica-se sempre com a ideia que quase tudo acontece em Coimbra. O resto é paisagem. Por exemplo, quem não dispusesse de outras fontes, pensaria que aqui na Guarda nada se passaria em termos culturais.
Depois, a locução do mítico Coelho resulta num meio termo entre a célebre caricatura do Herman do repórter da rádio e um apresentador de uma casa de fados para turistas. O homem só não declama um poema logo ali, em louvor do Penedo da Saudade ou do Choupal, porque o tempo é escasso. O fraseado rebuscado, tipicamente coimbrão, não engana ninguém.
Mas o que é pior, ao ouvir este programa, fica-se com a sensação de que a cultura serve exclusivamente para passar os "tempos livres". Que a cultura do evento é rainha, revelando-se como uma melíflua e prosélita epifania, na voz anasalada de Sansão pós-desbaste capilar. Como uma conveniência apaziaguadora das fundamentais diferenças, das tensões éticas. Como o carrocel da indiferenciação acrítica. Tudo o resto, a cultura como fermento de novos modelos de vida, de diferentes percepções do mundo, fica de fora da canónica agenda. Em nome, claro está, das louvaveis iniciativas para matar os "tempos livres". Não vá o diabo tecê-las.

Publicado no jornal "O Interior"

2 comentários:

  1. Cópia de uma carta anteriormente remetida ao Provedor do Ouvinte da RDP:

    De: absilveira
    Enviada: ter 11-07-2006 2:25
    Para: zenuno@rdp.pt
    Assunto: Não se pode referir o Expresso mas pode-se fazer publicidade...

    Ex.mo Sr.
    José Nuno Martins
    Provedor do Ouvinte da
    Rádio e Televisão de Portugal, SGPS, S.A.

    Desculpe-me se lhe dirijo estes desabafos. Porém, face ao autismo de quem preside aos destinos da Rádio Pública, Vossa Excelência arrisca transformar-se – a breve trecho – no muro de todas as lamentações...

    Mas deixemos os preliminares e avancemos para o essencial.Segunda feira (10/07) ouvia eu o Noticiário das 20h00 na Antena 1. A propósito do “caso Casa Pia”, um repórter divulgava palavras de uma testemunha do Processo, Felícia Cabrita, tendo o cuidado de a identificar (por duas vezes) apenas como jornalista de um “orgão da Comunicação Social escrita”. Como sei perfeitamente que a Felícia Cabrita é do Jornal Expresso, estranhei que o órgão de informação a que ela pertence não fosse identificado.
    Principalmente, porque foi nas páginas daquele semanário que pude ler as primeiras informações sobre toda esta escandaleira.Numa primeira fase admiti tratar-se de orientações internas que pudessem levar a que um título de jornal fosse considerado uma espécie de marca comercial e, portanto, não passível de divulgação aos microfones de uma Rádio de Serviço Público. Depois, caí em mim: não pode ser... eles passam a vida a referir nomes de editoras, de hotéis e até de outras empresas...

    E lembrei-me até de (na passada semana) ter ouvido abundante propaganda a uma empresa alemã que terá disponibilizado a sala onde a Antena 1 realizou uma série de emissões do Mundial. Não... não sonhei - devem existir registos disso e pode (re)ouvir - lembro-me perfeitamente de escutar diversas referências do Sr. António Macedo a essa empresa, identificando-a sempre através da sua designação comercial.

    Conseguiu até tratar, uma organização privada que exerce uma actividade (legítima e respeitável) de captação de investimentos dos emigrantes portugueses para projectos imobiliários, como se de um organismo benemerente e não lucrativo se tratasse - tantas (e de tal tipo) foram as referências à empresa alemã. Um português, representante local dessa firma, foi alvo de entrevistas em dois dias subsequentes e, obviamente, aproveitou para fazer a propaganda da sua actividade e da rendibilidade dos negócios que propunham à comunidade portuguesa na Alemanha...

    E isto, pasme-se, na Rádio Pública que não pode identificar o jornal Expresso.As referência a essa entidade privada violaram claramente (pelo menos) dois dos princípios legais e éticos que o Serviço Público de Rádio deveria respeitar: um tem a ver com o desrespeito por regras de concorrência, com o Operador Público de Radiodifusão a privilegiar uma empresa em detrimento de todas as outras que prestam idênticos serviços no ramo imobiliário; outro radica no facto de as referências feitas serem claramente de carácter promocional - descrevendo em pormenor o objecto de negócio, os serviços prestados, o grau de satisfação dos cliente, etc. etc. etc. Mais grave ainda: tudo isto envolto numa roupagem discursiva que poderia levar a pressupor não estarmos perante uma situação de acessoria(?) de transação comercial mas sim perante algum mecanismo de apoio e aconselhamento da emigração ...!!!

    Espero que ninguém tenha a lata de argumentar que aqueles minutos de publicidade (numa rádio onde ela é liminarmente vedada) constituíam a contrapartida pela cedência de instalações onde se sediaram aquelas emissões. Isto, a ser verdade, seria ainda mais grave. Porque, se à Antena 1 está vedada a venda (ou simples comercialização) de publicidade, ela está também impedida de praticar qualquer tipo de permuta publicitária. E mesmo, em casos especiais de apoio institucional a uma qualquer sua realização, esse suporte terá de ser claramente identificado e não camuflado através de enviesadas entrevistas.

    Aliás, face aos montantes que vieram a público relativamente aos gastos Rádio e Televisão de Portugal com o Mundial de Futebol, é quase ridícula, e amesquinhante, a situação de trocar umas entrevistas pela disponibilização de um espaçozito para albergar a emissão dos programas da RDP... Até porque, na Taxa para o Audiovisual que nos cobram no recibo da electricidade, já devem estar dinheiros que cheguem para estas coisas... Ou então, acabe-se com o financiamento público e a Antena 1 que procure sobreviver à custa do mercado, como as privadas...

    Em síntese, não consigo perceber porque é que não se pode dizer que a Felícia Cabrita é do Expresso mas se pode divulgar os negócios desenvolvidos pela tal empresa alemã onde a RDP se aboletou para as emissões do campeonato do Mundo. Razão que me dá a ousadia de incomodar Vossa Excelência, buscando, através de si, o esclarecimento destas tão estranhas relações de "peso e medida"

    Respeitosamente,
    António Brito J. Silveira

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  2. Cara mafalda:

    O comportamento denunciado integra uma clara violação do código da publicidade e do contrato de serviço de público da RDP. Neste caso, basta cumprir a lei.

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