Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O vómito (2)

Neste texto levantei algumas questões que tiveram eco aqui e aqui (João Tunes fala, com propriedade, em "fuzilaria contra os blogues"). Todavia, gostaria de acrescentar mais qualquer coisa. Esse imperativo surgiu com novo visionamento do programa da SIC em causa, quando deparei na obsessão de MST em que fosse exigida a identificação a quem registasse um blogue. Quanto ao patético desempenho a que Moita Flores e Rogério Alves se prestaram, sob a batuta do apresentador, insistir no episódio é pura redundância. Voltemos a MST. Afinal, de que é que este senhor tem medo? Para responder, convem começar um pouco atrás. No séc. XIX e primeira metade do séc. XX, a notoriedade pública nos meios intelectuais acontecia, em grande medida, ou depois de um percurso solitário e em ruptura com o cânone, ou através do filtro da polémica, de um movimento concertado, com forte pendor ideológico. É claro que notoriedade não significava, então como agora, o mesmo que qualidade. Essa encontra-se sobretudo através do decurso do tempo. Seja como for, essa notoriedade pública tinha também uma projecção social. Pelas mesmas razões porque a afirmação social necessitava quase sempre de uma caução "cultural". Em qualquer caso, a notoriedade não era nunca um processo imediato, pois passava por vários crivos. Hoje, tudo se passa de modo diferente. Numa sociedade aparentemente aberta, onde a velocidade dita as sua regras sem concorrência, a meritocracia continua a ser um padrão anglo-saxónico e nórdico, ainda com pouco significado no nosso país. Aqui, a paroquialidade é genética e a ambição proporcional à dimensão espacial. Portanto, não é difícil alguém fazer-se notar onde, por um lado a complacência e o elogio mútuo das capelinhas, por outro a inveja sibilina e mortífera, funcionam como as duas faces da mesma moeda. A notoriedade é hoje, em todo o lado, uma característica intermitente e sujeita a constante validação. Não se adquire e pronto! A especificidade nacional encontra-se tanto no seu modo de aquisição, onde a intervenção da reverência e das influências domina, como na forma como ela se preserva. E aqui desempenham um papel fundamental os modos de legitimação operados pela crítica. Trata-se de um universo onde prevalece a categoria dos provadores. Ou seja, aqueles que assentam e legitimam os seus juízos no seu próprio gosto ou paladar artístico ou ideológico. Gosto disto, não gosto daquilo: os seus argumentos, logicamente, remetem-nos para as suas sensações e impressões. Para este tipo de críticos, a literatura, a arte e o comentário jornalístico reduzem-se a um simples intercâmbio de privacidades e a sua função reduz-se a estimular ou travar o consumo. Como o gosto pode ser bastante menos pessoal do que o narcisismo nos poderá fazer crer, o gosto destes críticos coincide, quase sempre, com o gosto dominante. Abundam e sobrevivem bem no mercado, sobretudo se conseguem – tarefa não fácil – associar um tom radical à expressão do seu gosto, mas que, ao mesmo tempo, não questione o gosto hegemónico. Podem ser encontrados um pouco por todo o lado, nos media, nas tribunas, nas cátedras, nos próprios blogues. (ler mais)

2 comentários:

  1. O Sousa Tavares ficou ressabiado desde que o acusaram de plágio. O problema está em que, sendo uma figura pública e não sendo propriamente estúpido, devia ter mais sentido de humor e jogo de cintura. Deve ser por ser adepto daquela coisa do Dragoum.

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  2. Quem tem nome de família odeia a meritocracia. Bem visto

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