Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Viagens - 4

A Anadenanthera colubrina ( variedade Cebil ) é um árvore que pode crescer até 20 metros de altura, e que aparece no noroeste da Argentina, nas provincias de Tucumán, Salta e Jujuy. Com uma copa bastante grande, a árvore produz grandes vagens com 6 a 12 sementes cada uma, planas e que chegam a medir o equivalente a uma moeda de um cêntimo. Por sinal, parece que foram mesmo usadas como moedas em antigas culturas indígenas. As flores são muito pequenas, mas curiosas, dispostas em pequenas cabeças esféricas.
O uso do cebil transporta a um breve mas intenso mergulho até se vestir a pele do jaguar cósmico: o grande afinador que amplifica a audição, colocando nos terminais nervosos uma luminosidade subterrânea que, não obstante, não priva a contemplação celeste. Onde as poucas visões nítidas irrompema com uma clareza sobrehumana, proporcionando perspectivas que baralham completamente o leme da vontade. É a bússola do caçador místico. É a visão que define as acções concretas. É a exploração das espantosos grutas onde todos os tempos se renovam. As lutas do mundo dos espíritos, as intuições extáticas vêm do crepúsculo, habitadas por um som poderoso, ritmado pela pulsação do que está à volta.

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sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Viagens - 3

O cactus San Pedro compreende várias espécies de um género antes chamado Trichocereus e agora foi reunido dentro do género Echinopsis. São pelo menos 3 espécies principais: a E. pachanoi é originária do Equador e norte do Peru, estendendo-se até Huarás e Huánuco; a E. peruvianus começa no departamento de Lima e vai até Cuzco; a E. bridgesii corre ao redor do lago Titicaca e chega a La Paz. No sul da Bolívia e no norte da Argentina há mais umas duas ou três espécies que não se conhecem muito bem. São bastante diferentes entre si: enquanto umas medem de 5 a 6 metros, outras nunca passam de 1,5m; algumas têm troncos de 30 cm de espessura e outras de apenas 7 cm; há espécies com 4, 5 ou até 12 segmentos ou divisões laterais. A quantidade de espinhos também varia muito. Mas todas as espécies contêm o mesmo princípio activo, a mescalina.
O uso do San Pedro provoca a ascensão lenta e perseverante a uma grande montanha solar: os ventos modelam visões sobre as texturas naturais (falésias, blocos de pedra), a terra abre o seu amor pleno e nutriente, convidando à subida, sem esforço, até ao topo onde se respira o céu. O olhar da ave e os passos do felino são oa melhor maneira de conduzir o corpo nessas alturas crescentes. Desde a alvorada ao anoitecer, o San Pedro abre e harmoniza as frequências de um organismo que busca a purificação e a ligação ao sol que sustem este mundo, a origem do fogo vital. Aflora o instinto animal, retido pela contemplação maravilhada das formas. A alma germina em contacto com Gaia (de forma mais terrestre do que a inigualável ayahuasca). As lutas do mundo dos espíritos ou as percepções extáticas atravessam o dia, vertidas em cada brilho, cada gesto.

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quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Viagens - 2

A Psychotria viridis (na foto) é um arbusto da selva amazónica que os índios usam na preparação da ayahuasca. Existem cerca de 700 espécies de Psychotria na América, muitas delas frequentes na bacia amazónica. São arbustos ou árvores pequenas de folhas simples, opostas e inteiras. No Peru chamam yajé a uma variedade de Psychotria viridis de 2 a 3 metros de altura, com folhas de 10 a 20 cm de longitude, por 5-7 cm de largura. São lanceoladas ou ovaladas. As flores deste arbusto são pequenas e de cor branca.
Descobriu-se DMT no cérebro humano, pelo que se a sua simples possessão fosse ilegal todos seríamos delinquentes. Mesmo sendo a DMT ilegal, as plantas que a contêm são legais e algumas podem ver-se nos parques e jardins públicos, como varias espécies de Acácia, muito comuns e apreciadas na jardinagem ornamental. Todos os anos descobre-se um novo vegetal que contem dimetil triptamina (DMT), pelo que se torna inútil a erradicação desta substância.
Com o uso da ayahuasca, fala-se da purificação e conexão à fonte regeneradora da saúde, atravessando as profundidades inconscientes até à iluminação que desfaz abismos. É como aprender a nadar com a consciência expandida nos fractais da criação, no tecido pulsante de todas as interacções presentes. Confluem os sinais do corpo, do lugar e das mentes que que vagueiam nesse momento. Um local amplo, à noite, são factores propícios a esta experiência terapêutica e visionária, que se expande a partir da quietude e se articula através do canto, por exemplo. O grande vazio criador mostra as suas energias, a que se pode atribuir vários nomes (Lao Tsé preferiria o de Tao, ou Mãe do Universo). As lutas do mundo dos espíritos, as meditações extáticas povoam a noite, despoletadas por cada som, cada gesto mais longínquo.

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Viagens - 1

Existem três triptamínicos cujo uso alternado funciona como uma espécie suprema tridade enteógena. São eles a ayahuasca, o S. Pedro e o cebil. Ainda que compartam uma mesma base cognitiva, cada um desempenha funções específicas, segundo o seu âmbito específico, momento adequado e resultado final.
A ayahuasca conduz a uma imersão nocturna no coração da vida. O S.Pedro activa uma abertura diurna aos caminhos do sol através das profundidades da terra. O cebil plana velozmente no culminar da contemplação. As três plantas maestras partilham uma sacralidade comum, própria do êxtase mistérico - são afinadores cósmicos - mas cada uma serve diferentes fins, condicionados pelo tipo de experiência, duração, efeito psicofísico característico e propriedades intrínsecas.
As breves observações que se seguirão são produto da experiência e da busca para optimizar o uso dos vegetais sagrados, tendo em vista um equilíbrio dinâmico. Propôr os três usos, relacionados com os benefícios espirituais e práticos decorrentes, significa encontrar os rituais próprios a partir de um uso consciente para casos concretos, quer em função de práticas curativas quer na ampliação de estados de consciência.


(continua)