Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quarta-feira, 24 de março de 2010

O Museu



Dois exemplos de obras expostas no Museu Nacional do Azulejo, que (re)visitei recentemente. Um espaço magnífico, dos mais emblemáticos da capital, graças ao acervo artístico que encerra, maxime a vista panorâmica de Lisboa antes do terramoto, à localização privilegiada e ao notório dinamismo. Além disso, a permanência por alguns momentos no novo espaço de cafetaria, com abertura para o claustro, é um verdadeiro regalo. Pude ver também a exposição temporária "Casa Perfeitíssima", a propósito dos 500 Anos da Fundação do Mosteiro da Madre de Deus, (onde o Museu se situa), pela Rainha D Leonor, patente até 11 de Abril.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Tábua de marés (34)

“Passos Perdidos”
José Teixeira
Exposição patente na Galeria de Arte do TMG
De 17 de Janeiro a 8 de Março

Só para quem não sabe: José Teixeira licenciou-se em Escultura e realizou o Mestrado em Teorias da Arte na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa. Local onde lecciona, actualmente, a cadeira de Artes Plásticas. Como escultor expõe regularmente desde 1980, dedicando-se à medalhística a partir de 1995, disciplina onde tem vindo a ser consagrado internacionalmente. Já viveu e estudou na Guarda.
Até agora, da obra do autor só conhecia algumas esculturas, a sua intervenção no Café concerto do TMG, há dois anos, a colaboração gráfica para a revista “Boca de Incêndio” e parte das suas medalhas. Portanto, a minha expectativa em relação a esta mostra era elevada. Todavia, antes da apreciação do evento, é fundamental lançar uma advertência: esta não é uma avaliação especializada nem deverá ser entendida como tal. É uma apreciação crítica, sim, mas ancorada na sensibilidade e no despojamento possíveis de quem a expressa.
Ora, a meu ver, esta exposição enferma de um problema de concepção e de organização do espaço. O que significa isto? A mostra é constituída por quatro blocos distintos: desenhos, esculturas, instalação e uma tapeçaria instalada numa plataforma, reproduzindo um labirinto. Os primeiros estão expostos ao longo da sala. As segundas aparecem à entrada da sala principal, a maioria das quais à esquerda. Com excepção do conjunto “Passagem a” e Passagem z” encostado a cada um dos lados da parede do hall. A instalação está na sala do fundo. Por último, a tapeçaria encontra-se ao fundo da sala grande, encostada à direita. Percorrido o espaço, é notória a descontinuidade entre os vários módulos. Não se trata, claro está, do seu mérito intrínseco, mas do modo como se relacionam, do desequilíbrio criado entre as várias linguagens, da ocupação excessiva do espaço. Portanto, com este acervo, em vez de uma, justificavam-se duas intervenções: a) uma instalação composta por dois módulos distintos, em espaços contíguos, mas individualizados, num a tecelagem e no outro, mantendo-se a instalação “The road to nowhere”; b) uma outra, constituída pelas obras pictóricas e escultóricas. Porquê? Para responder, para além das razões expostas, incluiria mais duas: 1) por um lado, a tapeçaria, pelo seu magnetismo, pela sua completude e pela capacidade evidenciada em criar perspectivas ilusórias, ganharia muito em “respirar” plenamente, sem nada à volta que a perturbasse. De modo que cada um a pudesse percorrer ainda antes de a pisar. Ou ser enganado pelo seu desenho. Ou atraído pelo seu mistério, como se nele repousasse a “forma do seu destino”, nas palavras de Borges, citadas na folha de sala; 2) por outro lado, a densidade e a verticalidade das esculturas aconselharia a uma visibilidade plena, sem objectos estranhos e sem constrangimentos. Portanto, esta exposição parece-me ser um exemplo claro onde a evidente qualidade das obras apresentadas ficou prejudicada pela sua organização e disposição. Aparte este “pormenor”, esta exposição de José Teixeira constitui um grande acontecimento artístico na cidade.

Publicado no jornal "O Interior", em 5 de Março

sábado, 20 de dezembro de 2008

Saatchi

Zhang Xiaogang, "A Big Family"
Sun Yuan e Peng Yu, "Old Person's Home"

Zhan Wang, "Ornamental Rock no. 71

Para encerrar os destaques da mais recente incursão a Londres, falta referir a Saatchi Gallery. Uma instituição já com créditos firmados e que acaba de reabrir junto a Slone Square, em Chelsea. Instalada no palácio do Duque de York, um magnífico espaço rodeado por uma extensa zona verde. A galeria exibe exclusivamente arte contemporânea. Sejam obras de artistas consagrados, quer emergentes. Apresentando-se como um espaço interactivo, mantém ainda uma carteira de artistas escolhidos on line, divulgando as suas obras, entre outras iniciativas. A seguir à Tate Modern, a Saatchi é provavelmente o grande centro de divulgação de arte contemporânea em Londres. Quando lá estive, pude disfrutar a notável e polémica exposição consagrada a um naipe de "novíssimos" artistas chineses, patente até Março. Mais informações, incluindo catálogo, disponíveis na página do site oficial, também em português. O panorama geral prima pelo arrojo, num espaço pensado, pela sua plasticidade e volume, para este tipo de exposições. Destaco as figuras estilizadas de Yue Minjun, o anjo caído de Cang Xin, a provocação política de Shi Xinning, as construções de Shen Shaomin, que utiliza mateiais pouco convencionais, e a a bizarra instalação de Sun Yuan e Peng Yu, "Old Person's Home", o momento iconográfico deste catálogo. Trata-se uma série de cadeiras para deficientes motores, "tripuladas" por figuras representando um conjunto de líderes políticos mundiais em estado de completa senilidade. As cadeiras vão-se movendo aleatoriamente, podendo chocar entre si. Todavia, não embatem nos visitantes que circulam no espaço, pois dispõe de sensores apropriados. Uma curta sequência da instalação poderá ser visionada aqui.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Tábua de marés (18)

Ar da Guarda
Exposição colectiva de artistas do concelho da Guarda
Organização: CMG - NAC
Galeria do Paço da Cultura
Entre 17 de Novembro e 3 de Janeiro de 2009


Em Dezembro de 2004, era editado, pelos mesmos organizadores deste evento, um caderno colectivo intitulado "Ar Livro", contendo textos e imagens, e no qual também colaborei. Nessa publicação, num texto a propósito intitulado "Ares da Guarda", escreveu Eduardo Lourenço o seguinte: vendê-los, em casa, imitar como podíamos os eternos Davos-Platz dos outros, oferecê-los aos que sofriam do "mal" de um século em vias de urbanização acelerada, lavar-lhes os pulmões nesse ar ainda não poluído da nossa provincial "montanha mágica". (...) A Guarda não se converteu na cidade onde se vinha a ares. Mas tomou consciência, e a tradição dura até hoje, que os seus "ares" eram, para quem os procurava, uma aposta de vida. Precisamente: encarar, em grande medida, a Guarda como um destino espiritual, uma finisterra purificadora. Sendo o bem mais precioso - o ar – o elemento central deste conceito. E onde os objectivos imediatos, associados às virtudes desse elemento – terapêuticos, turísticos, desportivos, científicos, a ausência de ácaros, segundo me disseram - mais não seriam do que meios para esse objectivo último e que atrás mencionei.
A tentação de classificar o “Ar da Guarda” como marca registada já passou pela cabeça de muita gente. A representação é apelativa, diga-se de passagem. É claro que estamos em presença de um bem que não é escasso, até ver. O que significa que só metaforicamente se chegará à consciência, não tanto dos seus benefícios, pois esses conhecidos sobejamente, mas das suas aplicações, numa visão ampla de longo prazo. Aquilo a que chamaria “Ar da Guarda 2.0”. A imagem de marca para uma verdadeira aposta de vida. Acontece que, nesse sentido, a primeira acção pública e as subsequentes deveriam ter como suporte mais idóneo a arte, ou, mais propriamente, o manifesto artístico. E seria a sua força expressiva que teria que ser usada na linha da frente. E foi exactamente isso que foi feito. A propósito das excelsas virtudes terapêuticas da atmosfera guardense, lembro-me de uma acção conduzida há uns anos pelo NAC, numa das exposições da série "A Memória das coisas", e que consistia basicamente na criação e exibição de pequenos boiões contendo ar da Guarda. Com rotulagem criada para o efeito. Eis um feliz exemplo de arte pop, ao serviço de uma ideia com todas as condições para vingar. E que constitui o antecedente directo da exposição agora patente.
A primeira constatação é de que esta reúne artistas de várias gerações, sensibilidades e dimensão curricular. O que, desde já, me parece a aposta certa, em função dos resultados artísticos desejados. Começando pelo catálogo, tornou-se evidente que cumpriu o que lhe competia. De realçar a qualidade superlativa das fotografias de algumas das obras expostas, as quais francamente favorecem. Relativamente aos critérios seguidos na instalação das obras e sua interacção com o espaço, notei algumas falhas. A mais grave tem a ver com a arrumação das três esculturas na mesma sala. Acontece que qualquer uma delas pressupõe que sejam exibidas de forma personalizada, sem elementos externos que possas perturbar o seu desfrute. Neste caso, a notável instalação de Rui Miragaia obedece a uma lógica diversa das outras obras presentes. E, sobretudo, a iluminação intermitente diminui a percepção destas. Justificava-se, portanto, a sua mostra num espaço individualizado. Por outro lado, notei uma qualidade desigual nos trabalhos expostos. E uma fidelidade também desigual de cada artista àquilo a que habituou o público. Havendo, nalguns casos, uma linha de continuidade e noutros uma ruptura. Por outro lado, se na maioria das obras (incluindo algumas criadas especialmente para a mostra) se nota a dedicação exclusiva ao tema proposto, noutras já isso não é tão claro. O que empobrece, de alguma forma, o resultado final. Por último, e como nota informal, cabe ainda destacar, pela positiva, os trabalhos de alguns dos artistas representados: Carlos Adaixo, Teresa Oliveira, Kim Prisu e, noutro registo, José Vieira, Pedro Renca e Rui Miragaia.

Publicado no jornal "O Interior", em 4 de Dezembro

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Um ar sem ácaros


Desde dia 17 de Novembro, está patente na Galeria do Paço da Cultura a exposição “Ar da Guarda”, uma colectiva de pinturas e esculturas feitas a partir de um desafio da Câmara Municipal da Guarda aos artistas plásticos da região, com o objectivo de representar o ar da Guarda. Gracinda Costa, José Vieira, Evelina Coelho, Carlos Adaixo, João Reis, Barreira Pires, Luís Rebelo, António Godinho, Menne, Teresa Oliveira, Rui Miragaia, João Currais, Kim Prisu, Maria Lino e Pedro Renca são os artistas que aceitaram o desafio da autarquia e desenharam, pintaram, esculpiram ou escreveram o “Ar da Guarda”. Como se sabe, o ar da Guarda, só por si, deveria ser uma marca, uma sigla de excelência e de renovação. O motivo principal para fazer da cidade um destino não só turístico mas espiritual. Pena que o catálogo da exposição, sem desprimor para os convidados, seja tão pobre e inclua um quadro com referência ao recém-inaugurado centro comercial. Ver aqui mais informações.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A ver navios

A notícia chegou-me através do Américo Rodrigues: António Piné acaba de doar a sua colecção de arte à Associação Nacional de Farmácias. O espólio, que inclui um desenho de Picasso, é preenchido com obras de artistas plásticos contemporâneos, ligados a várias correntes artísticas do séc. XX. A lista dos autores representados pode ser aqui consultada. Segundo o DN Online, as 44 obras consideradas mais representativas da colecção estarão expostas na sede daquela instituição, a partir de dia 11. Que, para quem não sabe, se situa num local de eleição: as portas de Santa Catarina, em frente do jardim com o mesmo nome, à Bica. A colecção, avaliada para efeitos de seguro em 3 milhões de euros, havia sido prometida a Pinhel, terra natal de Piné. Por outro lado, este tinha proposto à Câmara da Guarda a aquisição da colecção, a fim de ser exposta em local adequado. Quer num caso quer noutro, segundo o próprio explicou, as negociações chegaram a um impasse, nunca desfeito. Até agora, e pelas piores razões. Embora o desfecho da história se adivinhasse, graças às hesitações da autarquia. A indignação e o desapontamento que sinto é comum a todos os guardenses. E não só. A cidade ficou assim privada de um acervo artístico que, exposto e tratado em local condigno, faria entrar a Guarda no roteiro internacional da arte contemporânea. Como diz o o Director do TMG, seria a cereja no cimo do bolo. Quanto à sua gorada localização, remeto para as sugestões que o mesmo adianta. Acrescentando que o modelo institucional mais apropriado teria sido o da criação de uma fundação que gerisse o conjunto. Em qualquer caso, a comparticipação financeira e técnica do Ministério da Cultura seria indispensável. Desperdiçar esta oportunidade terá um preço muito alto para a Guarda e região e irá certamente hipotecar o seu desenvolvimento. A todos os níveis e não só o referente à criação de uma excepcional mais-valia cultural. Que agora foi esbanjada, sem honra e sem glória.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

UBU

UBU WEB é uma janela com vista para o que de mais importante se experimentou artisticamente ao longo do séc. XX. Estão lá representados os movimentos de vanguarda e os artistas que criaram e fizeram perdurar a modernidade nas artes plásticas, na música, na literatura, na poesia sonora, no vídeo, no cinema. Cujos trabalhos poderão ser visionados in loco e/ou descarregados para o computador. Gostaria de destacar um ou dois nomes, mas tal seria inútil, dada a profusão de obras e autores reunidos nesta cyber babilónia da arte experimental. E também porque a cumplicidade que mantenho com boa parte dos conteúdos tornaria tal escolha risível. Em conclusão, um site incontornável.

(thanks Ana)