Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Na morte de Saramago

José Saramago era um escritor do meu país. Muitos portugueses o leram e ouviram cuidadosamente. Mas Saramago rebelou-se contra o país em que eu e ele nascemos. Achou que o país Portugal era uma parte de um país maior, em que a Espanha era a outra parte. Mas eu e ele nascemos num outro país de que todas as partes são parte integrante: a Morte. Somos todos cidadãos desse Estado, que sempre cobra o seu imposto.
Saramago não era um homem da «Paz e Amor». Esse é um outro país que muitos visitam, e aonde todos querem voltar, sem ter que atravessar a fronteira. A sua última novela chamou-se «Caim». Já muito se disse sobre ela. Caim vem do verbo hebraico «qanah», ou seja, adquirir, obter. Saramago obteve muita coisa na vida, nomeadamente fama, glória, reconhecimento e foi o primeiro Prémio Nobel da Literatura do meu país, que vai de Portugal ao Brasil, de Moçambique a Timor, e de Cabinda a Macau. Saramago não recebeu só isso: como muitos dos seus colegas, tal qual Camões, Fernando Pessoa ou Camilo Castelo Branco, ele recebeu o salário da Inveja, do desprezo, da perseguição. Ao contrário deles, venceu grande parte dessas feras e pôde viver em paz, ao lado de alguém que o amava. Esse foi o seu verdadeiro prémio Nobel e graças a Deus que há muitos premiados desse Nobel, pelo Mundo fora.
Mas Saramago preparava um outro romance, esse certamente bem interessante, em que se interrogava porque é que as fábricas de armamento nunca têm greves. Embora essa suposição não seja inteiramente correcta, a verdade é que Saramago vinha confrontar-nos com esse outro cais de chegada ao Estado acima citado, do qual, ele e eu somos súbditos: a Morte. A indústria da Morte, ou seja a produção e criação da destruição e do aniquilamento. É como se a Humanidade, possuída dum repente de mau génio, de menino malcriado, preferisse deitar as bolachas de chocolate ao chão, pisá-las, borrar-se toda com elas, em vez de as comer. Até o mau jeito e a perversão constituírem uma segunda natureza. E o espelho enfeitiçado nos diz, todos os dias, que o feio é belo e que o mal é livre.
Por isso, José Saramago escolhera esse apelido de uma erva amarga a qual cresce nas montanhas portuguesas. Saramago tinha, desde sempre, um travo amargo na boca e – ao contrário de muita gente – decidiu reter esse travo e expeli-lo, em vez de o engolir. Outras pessoas, amarguradas pela mesma persistência do travo amargo, reconheceram-se comensais desse prato amargo que nos obrigaram a comer, ouvindo «tem de ser» ou «sempre foi assim», «come e cala» e, com ele, Saramago, passaram a virar a mesa ao contrário, a cada sopa de amargor servida aos pobres.
Esperemos por outros tempos que virão, em que não nos teremos que levantar do chão (relembrando uma bonita novela de José Saramago) como quem contraria a força da gravidade, a mesma força da gravidade de Newton, que em vez de fazer tudo cair, faz os planetas e as estrelas rodarem em torno uns dos outros, numa harmonia que nos dá vontade de cantar.
Tempos melhores, onde pessoas como José Saramago não tenham que lutar contra tantas adversidades para verem reconhecido o seu valor, e tenham outros obstáculos além da inveja e da má-consciência. A vaidade é um triste pecado, sobretudo para aqueles que se marimbam tanto, que nem piedade têm, e estouram como bombas de Carnaval quando a impiedade lhes bate à porta. Mas o rancor é como um cão tresloucado que ladra contra o próprio eco. Entre a vaidade e o rancor há uma outra cegueira que Saramago não abordou no seu Tratado.
Camões morreu dizendo (e sabe lá Deus o que ele fez para o conseguir) que «morria na Pátria e morria com ela».
Saramago morreu fora da Pátria que eu sei que ele respeitava, lá no fundo do coração. Houve Portugueses irmãos de espanhóis, amores felizes sobre a fronteira ibérica, caídos portugueses pelas causas de Espanha e caídos espanhóis pelas causas de Portugal. Mas cada Nação tem a sua cruz, cruz de pedra que floresce em rosas quando a Primavera chega, como dois irmãos deserdados que partem, um para Poente, outro para Nascente.
Espero que a morte de Saramago nos faça a todos, profundamente, pedir-lhe desculpa, por não termos tido a coragem de construir para ele, e para outros como ele, um país sem fronteiras onde não tenhamos de nos levantar do chão, a cada manhã.
André

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Meu amor sem nome

Há muitas razões para legalizar o que existe e segue uma certa prática, e mesmo algumas regras. A guerra, que por já várias vezes foi posta fora da lei ou desencadeada para acabar de vez com todas as guerras: não acabou. A droga, que obedece a certas regras e está até na origem da sobrevivência e do desenvolvimento económico de povos e zonas do Mundo: talvez só se drogue quem quer, dizem. A escravatura ou a pirataria, que ainda existem. Quanto à escravatura, há associações dos direitos de quem se submete ao tipo de escravidão sado-masoquista. Temos os vulcões, as catástrofes, as pragas, que obedecem a regras.

O Tribunal europeu dos Direitos do Homem aprovou o conceito de «casamento abrangente» que se alarga ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, à adopção de filhos e que se pode combinar com inseminação artificial. Está em causa ainda o casamento poligâmico ou poliândrico que são costume entre outras culturas, nomeadamente a islâmica, ou mórmon, cujos membros se podem estabelecer entre culturas onde a lei nunca permitiu esse tipo de casamento. Tudo o que é possível passa a ser apenas exigido que venha à luz e se regularize, que seja apreensível pelo cumprimento de certas regras. Assim foi com a guerra, que começou por ser algo onde as regras não existiam e se tornou algo disciplinado. Como a pena de morte. Como a prostituição. Mas não é o facto de seguir regras que faz duma prática algo que nos satisfaz. E o que não nos satisfaz, nós queremos corrigir. Sobre o que é satisfatório ou não, há dois critérios: o que pensa a maioria e o que pensam as pessoas interessadas. Ora, no caso dos casamentos gay, há duas combinações possíveis: há interessados que querem e a maioria aprova. Já o mesmo se não passa com as organizações que perfilham a ideologia fascista: a Constituição diz que a maioria as proíbe embora os interessados as queiram. A igreja satânica pode deparar com um problema semelhante: os interessados querem-na mas a maioria rejeita-a em nome da ordem pública ou dos «bons costumes». Talvez a maioria venha a consentir. O mesmo se passará com o conceito de «Portugal», ou de «Estado», de «Lei», de «Sexo», de «Vida», de «Amor», de «Vida Humana», de «Homem», de «Propriedade», de «Liberdade». Todas as palavras são relativas e quem lhes define o alcance, é a conjuntura, às vezes a Força, da maioria, às vezes a maioria do dinheiro. Quem não tiver força, não poderá resistir, até que arranje força, porque, desse modo, tudo será permitido para alargar o conceito da palavra. Sempre foi assim, dizem.

Ora não há casamento, matrimónio, marriage, Heirat, etc., sem um esposo e uma esposa, sem um noivo e uma noiva, pelo que não pode haver um casamento entre um Homem e um Homem ou entre uma Mulher e outra Mulher. A palavra foi forçada, porque ninguém quis ouvir que uma palavra tem um conteúdo mais estabelecido do que aquele que lhe queremos dar. Podem inventar uma palavra qualquer para o «casamento gay» mas não será casamento, ou então, o casamento semelhante ao «casamento gay» não será mais um casamento e as pessoas que se querem casar já não o poderão fazer apenas pelo civil, de modo a perceber-se que significado da palavra assumiram se não estavam bêbedos ou forçados. Assim só se estimula que as pessoas adoptem um código de conduta e um significado das palavras que não seja aquele partilhado e debatido pelo público, mas aquele que entenderem, nomeadamente o de seitas fundamentalistas de todos os tipos. É que, o que se diz, não é o que cada um pensa ou o que pensa quem tem a força de impor um significado. Há-de ser um caminho intermédio entre o que cada um pensa e o que a maioria quer. Mas nem o que cada um pensa nem o que a maioria quer são critério para dizer que o céu é «azul» ou que a lua é «branca». Nem mesmo o que todos pensavam, muitas vezes, se revelou ser verdade. Às vezes, um, só, estava certo.

André

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A queda do Murro

Marx disse que o capitalista não trabalha para aquecer, nem por caridade, e que o Capitalismo não recua perante nenhum crime. Mas foi Max Weber que encontrou, no espírito protestante, as raízes desta ganância. Com Marx e com Max, o Mundo ficou Maxi, escuro, frio e ardente. Depois, veio o Comunismo e, porque alguns estavam perdidos ou agarrados a ilusões antigas, tiveram de morrer para escolher o seu campo. Milhões de Homens e Mulheres foram desafiados por um anjo de fogo a escolherem metade de uma coisa que não podia ficar por dividir. E comportaram-se como náufragos no Mar, como se o chão se tivesse liquefeito sob os pés e como se perdessem de repente a memória. O mundo a que chegámos, na Europa e outras zonas onde chegou a civilização moderna, da fornicação e da invenção, foi, portanto, produzido pela violência, pelo massacre, pela fossa comum e pela câmara de gás. Não me considerem pessimista. O mundo de Marx, que era, como todos os mundos antes dele, também negro, foi iluminado como uma noite incendiária, de Nero. Por trás dos amanhãs que cantam, os hoje foram insuportáveis. Todos os sacrifícios e todas as infâmias foram exigidas. Restou alguma coisa? Até os índios do Brasil, Lévy-Strauss descreveu como vivendo numa imensa ternura e liberdade, mas exprimindo uma «alegria animal». Penso que Lévy-Strauss se calou, porque percebeu que tudo o que dissesse, só faria pior. Quem dá o nome a uma nuvem, obriga a que ela se desfaça em chuva, ou então a nuvem obscurecerá o resto do dia. E caiu o Muro de Berlim. Durante algum tempo, os obcecados da luta ardente notaram os outros muros que se levantavam, como o da Cisjordânia, o recuo do muro para Leste, a fronteira sul dos Estados Unidos, a muralha do Mediterrâneo. Mas nem isso rendeu. De repente a Europa passou a ser toda festiva, a comemorar em cada esquina com efemérides como o calendário da Revolução Francesa. Liberdade…e a liberdade fez-se obra, nas mesquitas a abarrotar de gente, nos marines americanos violando uma adolescente iraquiana ou matando um irregular que se fazia de morto no chão, perante a Televisão. Igualdade…nas contas, nos cartões de crédito, nos telefones e nas redes todas escutadas, nas ascensões vertiginosas e nas quedas obscuras. Fraternidade…nas famílias desfeitas, nos sexos pulverizados, nos irmãos mordendo-se como lobos, nas solidões provisórias sustentadas a cirurgia estética e terminadas em morte assistida. Alguém desfez o mito de que a muralha da China, a qual não excede cinco metros de espessura, se via do Espaço. Mas descobriu-se, depois, que era um terço mais comprida do que se julgava. Como uma serpente, a História infame foi rodeada pela cobra, sábia, sobrevivente, venenosa, de olhos de diamante. O Muro de Berlim caiu, deixando entrar os bárbaros meio ébrios, já sem a força de a arrebentar e deram-se todos no pátio de um campo de prisioneiros a que chamaram Liberdade. Como o comunismo, que era apenas um véu sobre a mesma sociedade industrial. De repente, acordámos todos numa fábrica durante uma festa de Natal da empresa. Tínhamos todos sido gaseados devagarinho, durante uma época inteira. E ficámos todos a mais, todos precários e a prazo, presos no recinto da Europa. Como é falsa a ilusão da liberdade em que um dos maiores sábios do Ocidente diz que os índios, civilização perdida dos grandes massacres e fossas comuns, têm uma «satisfação animal». Felizmente que se calou, com as suas euforias de animal. Percebeu que o último Direito Humano é um Dever: o enorme silêncio.

André

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O Tambor

O mundo ia ficar perigoso. E ficou. Obrigado Adriano Moreira por teres sobrevivido a Revolução. Guido Westerwelle é homossexual. Não te agradeço por seres Ministro, nem da Alemanha, nem de lado nenhum. O povo irlandês votou não a uma União Europeia assustadora. E depois votou a favor. Já não sou irlandês. A república checa votou uma União Europeia assustadora. Apenas salvaguardando não ter que pagar aos alemães que foram expulsos. Obama conseguiu sobreviver à crise económica mas o Serviço Nacional de Saúde não passa. Vá lá. Conseguimos ter um Presidente negro no país mais poderoso da terra. Só isso. Não chegámos a acordo sobre o Clima, em Copenhaga. Não faz mal, os velhos feiticeiros continuarão a mandar chover e nós teremos que tremer de cada vez que embarcarmos num avião porque teremos que ganhar o pão muito longe. O Saramago chama «filho da p…» a Deus, o Deus que alguns doentes terminais invocam para minorar a dor, o mesmo Deus que outros invocam para sonharem pela quinquagésima vez que poderão ser felizes ou, ao menos, ter alguma paz. E uma sala acolheu-o em pé, sonhando o seu sonho pérfido de que, se ele não pode ser Presidente da República, pode partir o palco antes de sair. A Dra. Laura Santos, ilustre sabichona, diz-nos que a «Vida é biográfica», já não é biológica. Na Suíça, o Governo federal vai parar com o Turismo da Morte assistida que organiza viagens só de ida para 400 indivíduos por ano, ao país. Um pedófilo pede para que lhe removam os testículos num hospital. Sim. A vida nunca foi biológica. Tivemos que a defender de armas na mão. Tivemos que ser estudantes de teologia nas montanhas, arrancar balas a frio, ser psiquiatras de nós próprios porque, como diz um ditado do deserto: «os loucos viram o dedo de Deus».
Que restará deste mundo organizado em que as pessoas inventam a lenda do «Big Brother» e a executam como as crianças seguindo a flauta de Hamelin? Que restará deste Mundo, onde o Apocalipse dizia que «ninguém poderá vender nem comprar sem ter o número da besta inscrito na testa» e nós temos números impressos em todas as partes do corpo? A nossa sorte é tão irrisória como os milhões de anos inscritos nos esqueletos dos dinossauros que passearam por oceanos verdeazuis como imperadores sem lei.
Mas sigamos para as colinas. Nem que as colinas sejam os altos e baixos das nossas triplas personalidades, entre os ataques de febre das gripes que crescem nos matadouros, onde os bois gritam de terror, sem testemunhas, de madrugada, onde as porcas mordem a cerca com cio, antes de serem inseminadas artificialmente, sem calor, nem amor. Vamos para as colinas. Como Viriato, o sem-nome, o traído, como os bandidos dos pântanos da China medieval.
Uma Nação não é um Povo, nem um território. Uma Nação não é um Império, nem um Mar. Uma Nação é a floresta obscura do último reduto, onde o meu medo e o teu têm o direito de existir. Quem diria que a Coragem é o nome de baptismo do Medo?!
O Medo é o menino-tambor. Onde há coragem nas fileiras, sem o tambor?

André

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Adeus a uma frente de batalha. Bom-dia a outra.

Se houver um terramoto, em Bruxelas, se caírem as Instituições Comunitárias, com os seus eurocratas lúbricos e os seus carros potentes, quem se quiser salvar que vá para a Praça do Vieux Marché. Lá ainda se sente que os chefes belgas, de Ambiorix, que resistem aos Romanos, esperam nas florestas sombrias que já não existem senão nos seus olhos mergulhados na cerveja soturna. São tudo gente em fuga da Ásia, gente irmanada no pavor, loira e morena, que foge ao asteróide, despenhando-se do firmamento, para sempre imortalizado na cruz celta. Disse isto um dia a uma mulher grega de rara beleza. E ela, nos seus olhos azuis, como a mármore descendo degrau a degrau à beira-mar, percebeu perfeitamente que somos gente que foge, desesperada, com os filhos nos braços, a um mal inexplicável. Só querem um lugar para se abrigarem, inclusive os loiros resplandecentes, que foram uma vez albinos e que saltam dos Drakkars como cães loucos, porque não podem viver sempre à luz do sol. São os sentimentais, os ingénuos apavorados. Os que atacavam nus as legiões romanas, pintados de azul, como a noite em que se refugiavam, e que venciam ou morriam no primeiro ataque. Os que se entornavam como vinho novo sem taça. Se fores ao Vieux Marché, hás-de lá ver aquela velha vendedora ruiva que fala compassadamente, depois de atravessar a orla da morte, numa trombose. Cada vez que a ouvia, percebia que Bruxelas tem uma força inesgotável. E aquela mulher magrinha de extraordinária beleza e o corpo esquálido de muitas lutas contra a droga, que vai lendo os livros que vende e não vende um livro que esteja a ler. E os comerciantes árabes, gratos a Alá por poderem ter ali um porto do Mediterrâneo onde toda a gente, aos berros e aos corações, se vai entendendo, os laicos que buscam compreensão, os devotos que encontraram na sua fé uma forma de não serem robots, nem dentro, nem fora da mesquita, porque Alá não nos criou máquinas, criou-nos à Sua imagem. Para quem vir o Vieux Marché, perceberá um dia que o mercado nunca foi uma mão invisível amputada, que não nascemos ensinados e que sofremos todos de amnésias passageiras e temos que bater à porta uns dos outros para que nos lembremos de coisas essenciais. Posso entrar? Esqueci-me do meu nome. Podes-me ajudar? Só nas paredes do Vieux Marché vi um cartaz, não assinado, que me respondeu assim: «terroristas são os que criam guerras, para invadirem terras distantes. Terroristas são os que nos obrigam a viver sempre em medo, medo de que o dinheiro não chegue ao fim do mês, medo de não ter os papeis em dia, medo da polícia, medo do trânsito, medo das doenças girando nos canos. Ai dos que julgam que a liberdade é comer um iogurte biológico numa cidade em que os seres humanos são as pedras de um muro!». E, na bruma do Vieux Marché, onde deixei o coração, vejo a sombra fantasmagórica do bom Rei Balduíno, que viveu e reinou estreito no seu povo, deixado preso, por um fio, pelos políticos oportunistas. Vejo-o montar um cavalo velho e o povo que se junta a ele unido como um uivo rouco, na bruma, rondando com ele, em silêncio, pelo Vieux Marché, pelo direito a ter uma alma que custou tanto a preservar. Pelos que caíram, contra os invasores, com nomes flamengos e valões, uns sobre os outros, bendita sejas, Bruxelas, campo de batalha, entre outros, rumor de Ambiorix na floresta, grito ensandecido de Robin Hood voando das árvores, olho do furacão.

André

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Caim

Perguntaste-me, Gil, de que lado me bateria na Guerra Civil de Espanha. Eu, a quem chamavam o «Guerra Civil» e que fui sempre uma Guerra Civil dentro de mim. Respondi-te que achava estranho fazeres-me essa pergunta ao fim de tantos anos. E disse que eles não esperariam por te perguntar. Disse-te que, se não tivesses fugido de madrugada, de manhã estarias encostado ao muro. E eu contigo. E hoje não sei dizer-te quem eram «eles». Por estes dias, há muitos anos, nasceu um cigano, El Pélé, que apostrofou os milicanos quando, em 1936, estes, perto de Lérida, espancavam um cura. Eles prenderam-no e obrigaram-no a que lhes entregasse o terço. Ele não o fez e foi fuzilado de manhã. O «El País» de hoje vem com um artigo relativo à descoberta dos ossos de dois professores primários fuzilados pelos falangistas. Uma delas, Maria de los Desamparados, morreu a rezar e não entregou o marido que era republicano. O chefe falangista, a pedido do filho, poupou a vida ao marido. O filho passou o resto da vida a procurar a cova onde enterraram a mãe.

Houve muitos assassínios, de parte a parte, em Espanha, e eu só desejo que não volte a acontecer. Espero que bascos, castelhanos, catalães e outros se entendam. E se esse entendimento significar o fim de Portugal, o sonho de Nun’álvares, que se batia contra os próprios irmãos e da Ala dos Namorados, os desgraçados sem um tusto para se casarem, que mais baixas sofreram em Aljubarrôta, continuarei a ser português, como um cigano. Ficou-me na cabeça Maria dos Desamparados, professora primária que, antes de saber ao que ia, disse ao filho para dormir em paz e que se não preocupasse. E do Santo Pelé. E lembrei-me que todo o homem é cigano, todo o homem é filho do vento e do fogo que sopram onde nunca se sabe, que nenhum homem tem morada. Não quero matar, se bem que este meu desejo não valha de nada, porque eu sou Caim. E Abel jaz morto e apodrece.

E, se todo o homem é cigano, nenhum homem tem terra, nem boa reputação. Nem sempre vende apenas camisas de contrabando, nem sempre prefere trabalhar a pedir esmola nos semáforos. Nem cigano sou, nem gosto de «Gipsy Kings» mas visto uma camisa Lacoste de contrabando de côr flamejante, e exibo-a com orgulho, porque sou uma tocha a arder na noite escura, pois não sei a que lado pertenço, não sei ao que vou nem ao que venho, só sei que não quero matar.

André

sábado, 8 de agosto de 2009

Espanha

Vi um programa sobre como passam os espanhóis as férias de Verão, no país que tem a maior taxa de desemprego da União Europeia. O programa fala das pessoas simples, dos imigrantes, africanos, chineses e mouros que se passeiam pelas praias vendendo mercadoria de contrabando, a 20 Euros por dia, ou que consertam os carrinhos de choque, nas feiras, ou que vivem em caravanas de feira e tentam fazer delas um lar. Dos evangélicos que escolhem um riozito com pouca água, perto de Toledo e vão vestidos de branco, para ser baptizados, com as suas guitarras espanholas, cantando hinos a um Deus de Amor. Vejo a gente pobre galega que vai colher percebes proibidos às ravinas das rias e, depois de fugirem à Polícia, mudam rapidamente os fatos impermeáveis para irem vender este marisco raro, aos restaurantes. Ou dum grupo de jovens que compõe uma orquestra de feira e viaja de uma cidade para outra, divertindo multidões, com as dançarinas mudando os seus vestidos vaporosos de 10 Euros, num vão de escada, em quatro minutos antes da próxima canção. Vejo-os a sorrir, se bem que durmam na camioneta, há seis anos, todos os Verões, contando pelos dedos os dias que tiveram de férias. E ainda encontram tempo para cantarem uma canção uns aos outros, que fala de paixão e de amor. Não são as pessoas que aparecem na capa da revista «Hola», se bem que também esses tenham a sua pobreza, muitas vezes bem mais difícil de vencer. E vejo o cartaz perdido de um cantor cigano, Rafael de Alcalá, que ninguém conhece, que não deve mais ter que o calor da sua voz e da sua guitarra, numa noite perdida. Do seu rosto marcado, de queixo erguido, vejo que a riqueza não tem cotação.

Vejo então o filme «por quem os sinos dobram», com Cary Grant e Ingrid Bergman, em que a cena final é a do voluntário norte-americano, do lado republicano que, depois de ter dinamitado uma ponte aos nacionalistas, se sai mal e tem de se despedir da rapariga espanhola por quem se apaixonou. De perna partida encosta-se uns instantes à metralhadora com que vai vender cara a vida. Pensa na sua querida América, pensa em Madrid, colorida e, por fim pensa na rapariga que partiu, dizendo: estar contigo foi sempre presente e, na Eternidade, não existe mais que o presente.

Não odeio ninguém de Espanha, nem republicanos, nem falangistas, nem os Grandes dela que querem comprar o meu Povo, o qual se continua a endividar para não parecer pobre. Os sinos dobram por nós, por nós todos, na Eternidade, mesmo que ninguém os queira ouvir.

André

terça-feira, 28 de julho de 2009

"A Aversão", de André de Melo (4ª parte)

O Director do “Europa” descia agora a rua, consumido. À transparência da sua distracção fugidia, com um olhar desperto, ia sondando o passeio.
Não faltavam rostos conhecidos do jornalismo, pela Avenida da Liberdade abaixo e acima. Não seria capaz de contratar um matador mas, se a ocasião se prestasse, iria pôr um à prova. Àquela hora, os jornalistas do “Quotidiano” vinham a decompor a feijoada pela rua abaixo com os olhos meio vidrados de álcool. Tinham ficado barrigudos e teimavam em usar aqueles bigodes revolucionários, agora pelados e grisalhos, enquanto não se compunha o salário com “ganchos” noutros jornais, e o “Quotidiano” se confinava a um esconso do salão político. Não era um certo radicalismo que os reduzira àquele canto do espectro (político). Afivelavam até uma opção moderada, quando todos eram revolucionários, em sabatinas de radicalidade, numa linha da qual ele se sentira sempre correlegionário. Tomava era a precaução de não a revelar e cuidar meticulosamente das influências de que dispunha antes de se confidenciar. Mas Roma não paga a precursores. Quanto a eles (aí vinham, em grupo, meio amparados uns aos outros, como uma cáfila) todos rodeando uma rapariga mais nova, certamente estagiária, de calças de ganga e camisa fina com as pontas atadas acima do umbigo. (ler mais)

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sexta-feira, 17 de julho de 2009

Elogio de dois hispânicos

Ninguém se apercebeu do destino de Adolfo Suárez, o Primeiro Ministro da transição em Espanha que fundou a União do Centro Democrático, a qual desapareceu ante o projecto do Partido Popular dum vaidoso Aznar. Suarez vive mais ou menos escondido tendo apenas aparecido ano passado para apoiar a candidatura do seu filho à Região de Castela.
Suarez começou como ambicioso jovem do Movimento Nacional de Franco que conjugava a Falange-JONS, os réquétés, outros monárquicos e as Direitas espanholas autónomas. Acabou por herdar de Arias Navarro, o Primeiro-Ministro espanhol que alinhou a divisão de élite espanhola na fronteira com Portugal, no Verão quente de 1975, e acabou por ter de se demitir. A ele pertence um daqueles monumentos da Política em que só se começa a reparar, ao fim de muitos anos. Quando a Guardia Civil entrou dentro do Parlamento, aos tiros, só dois homens não se baixaram. Um general e Suárez que, como Presidente do Governo permaneceu imóvel e em silêncio, no podium, em frente aos microfones. Diz-se que foi um dos discursos políticos mais importantes da História de Espanha, pronunciado em absoluto silêncio, durante cerca de duas horas. Alguém insinuou que a sua verticalidade tinha a ver com compadrio com os golpistas. Suárez sabia que se o matassem, os gritos da sua juventude de falangista sairiam anacrónicos. Se gritasse pela Democracia, alguém se riria dele. Ficou o seu enorme silêncio, porque a cruz enorme que carregamos, não se vê. E ele levou-a ao seu lugar.

Morreu Palma Inácio, esse homem corajoso muitas vezes, gentil, louco, humilde. Foi ele que inventou os desvios de avião e, como aqueles anarquistas russos que, se a bomba que tinham posto matava inocentes, se apresentavam depois na esquadra da polícia, quem me dera que Palma Inácio fosse o mecânico do avião da Air France que caiu. Este mecânico aeronáutico representa esse estranho povo, os Citinos, que se instalaram no Algarve e obrigaram o Rei de Portugal a juntar ao título, o de «Rei dos Algarves». São gente grácil, misteriosa, obcessiva, livre até a Liberdade se esfarrapar e dissolver no Universo. Não se pode confiar neles mas apenas no Deus cigano e luminoso que os incendeia. Morreu sem dinheiro para pagar o lar onde a sua alma ia passando para um Paraíso inconsciente. Ficará o Luar, ao qual atacava, roubava, fugia, como Zé do Tilhado, como Robin Hood.

De ambos me lembra a frase do Padre António Vieira: «Se cumpriste o teu dever e o Estado te tratou mal, tu fizeste o que tinhas de fazer e o Estado fez o que é de esperar».

André

sábado, 11 de julho de 2009

Longa Marcha

No fim dos anos vinte havia gente boa na China que achava que era melhor morrer de armas na mão do que morrer aos bocados na rua, de ópio, de fome, de exploração. Tinham começado por ser republicanos, por desespero contra a traição do Imperador manchú face aos japoneses. Tinham-se depois tornado comunistas porque acreditavam num último esforço da Justiça. E revoltaram-se em Shanghai onde o nacionalista chinês Chiang Kai-Shek, que amava a sua Pátria ao seu modo, os decapitou às centenas na rua. E fugiram. Fugiram. Para o Norte, para Oeste. Marcharam pelos terrenos mais difíceis do Mundo, morreram de fome sem pilharem os camponeses. De cada dez, à partida, chegou apenas um. Muitos ficaram para trás, morrendo torturados. Uma delas foi a primeira mulher de Mao Zedong. Os chineses chamam-lhe «um tempo para lembrar». Entre eles ia um homem pequenino, que se embriagava sempre que podia, que os outros gozavam e a quem chamavam Deng Xiaoping, a «pequena garrafa Deng». Mais tarde, esta pequena garrafa, achou que não importava se o gato era preto ou branco, desde que caçasse ratos, os ratos da miséria da sua gente e, quando morreu, pediu que o queimassem e deitassem as cinzas dele ao mar. Do outro lado do mar, um actor amado pelas mulheres que fora toda a vida homossexual, Rock Hudson, morrendo em sofrimento, pediu a mesma coisa.
Hoje vejo que uma maioria de gente, oprimida e humilhada nas suas crenças e na sua cultura, acha por bem correr a rua de uma cidade no meio do deserto e matar à paulada uns imigrantes internos. E depois, vejo que os imigrantes internos se acham no direito de, no dia seguinte, correrem as ruas e vingarem os seus companheiros inocentes que morreram no dia anterior. No meio deles vejo os polícias chineses e ao cimo vejo um mundo que diz «eu não sou polícia», como Caim dizia a Deus, depois de matar Abel, « eu não sou guarda do meu irmão».
Que a Longa Marcha guarde estes polícias. Ninguém tem o direito de andar a matar à paulada. Que o espírito de Sun Tzu, aquele General que achava que a maior vitória era aquela em que se não derramava uma gota de sangue, encha de alegria o trabalho destes polícias mal equipados, mal pagos e com um sentido inato de que as coisas têm um modo de ser feitas. O mundo em que vivemos será mesmo esse, aquele em que nos viraremos para a direita e veremos a torre de uma mesquita, nos viraremos para a esquerda e veremos alguém que acelera ruidosamente um carro que não queremos e contra o qual votámos. Olharemos em frente e teremos alguém que pensa e sente de um modo diferente daquele que aprendemos. Olharemos para trás e alguém nos olha com mau-querer.
E que tenhamos a coragem, se a situação se tornar insustentável, de começar a Longa Marcha, pelos terrenos mais difíceis do Mundo e do Espírito, morrer de sede sem roubar uma maçã pendurada do ramo de algum pobre. Só para que o Mundo seja menos feio, como na coreografia de Michael Jackson em «Beat it», onde a violência se transformou em Dança e a dança é a vitória sobre os demónios, pelo Amor e pela Harmonia. Que os Polícias da China, num sítio onde o Céu é muito alto e o Imperador está muito longe, dancem como os guerreiros de Qia Long, enterrados, numa noite de Lua Cheia.

André

quarta-feira, 8 de julho de 2009

"A Aversão", de André de Melo (3ª parte)

A Si tinha ficado a falar com o Director do “Europa”. Este deixara-se enterrar numa poltrona com os joelhos completamente juntos e os pés cada vez mais afastados.
De vez em quando punha as mãos entre as pernas e olhava para a sala semi-vazia, um pouco desolado. A contracção em que vivia - o prestígio também, é certo - como Director do órgão oficioso do Estado (o que era diferente de Governo), a religião do colarinho branco e dos fatos muito respeitáveis em que tinha sempre vivido, deixavam-no, por vezes, de rastos. O pior era quando antecipava os pequenos gestos de contracção próprios da intimidade e lhes começava a soçobrar ainda em público. Fazia uma triste figura, ele, que enganara tanta gente com o seu queixo sem pescoço sempre apoiado num firme colarinho engomado e as meias pretas longas compradas em sítios que se segredavam como os fornecedores de droga ou de charutos havanos de imitação. Tinha a roupa toda engelhada à volta das pernas, contraídas num frémito de aflição e o casaco pendurado no palmo de ombros como a sobrecasaca do grilo dos desenhos animados. Ficara um bocado como o marido da Mi, o negociante francês (estão a lembrar-se, certamente) mas não era já um mergulho de cabeça na depressão porque toda a figura estava patinada de claro e dava um certo ar primaveril. Era antes um murro no estômago do ânimo, o que condizia, aliás, com a sua posição, curvado, de cotovelos no umbigo. Ficaram juntos, ele e a Si, por algum meneio que esta deu ao corpo grande onde já adornava um sortido razoável de hospitalidades. (ler mais)

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terça-feira, 30 de junho de 2009

"A Aversão", de André de Melo (2ª parte)

A meio da manhã, foi fazer compras. Atravessou o jardim até à garagem pela trilha de pedras, como se caminhasse já pela rua central de Cascais. Olhou de relance o jardim e viu a piscina onde o filtro mergulhava como um animal pré-histórico a beber. Achou que assim estava bem, deixava a casa numa perfeita tranquilidade ( “pax tranquilla libertas est” já dizia o Cícero). Sentiu-se agradecida a Deus por viver naquele sossego, longe da brutalidade de Lisboa. No entanto, quando punha o carro a trabalhar, subiu-lhe uma comoção profunda pela cana do nariz e desaguou num pranto inexorável. Baixou a cabeça de modo a que o chapéu de aba larga lhe ocultasse a cara e... chorou mesmo. “Meu Deus! Como é possível!?”, bramiu, enquanto desferia os punhos no volante. Sentir-se observada daquela maneira, esquadrinhavam-na a cada canto da sua vida íntima, a perseguiam-na a cada segundo!”. Será que a inveja pairava no ar, era o anjo da Morte dos primogénitos, depois das pragas da brutalidade e da falta de educação generalizadas?! Porque é que a perseguiam daquele modo quando escrevia? Sentia os dentes de predadores rangendo nas obscuridades daquela Lisboa de falhados, sentia o catarro de aves absurdas preparando-se para romperem o silêncio, à gargalhada. Tinha a alucinação de que passava numa floresta de espinhos em camisa de noite e uma das fímbrias prendia-se, ela não conseguia libertá-la, ficava nua e esfarrapada à vista das árvores ululantes ( devia andar a ver demasiados vídeos...). (ler mais)

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domingo, 28 de junho de 2009

Oração do espantalho

Desta ideia de que «sai para a rua» e tudo se resolverá, se estende uma sombra medonha. Não é um filme de terror, nem digo isto para me comprazer em dizer mal da Democracia. Em Teerão, as pessoas sabem tão bem como nós o branqueamento que acompanha as Revoluções. Mussavi, em fato escuro, com a mulher cheia de títulos académicos, pela mão, sabe melhor que ninguém que não escaparia a um tribunal dos Direitos Humanos. Nem o Ocidente. O miliciano que matou Neda, tinha cerca de quarenta anos, o que quer dizer que era um adolescente quando muito provavelmente foi combater para os campos de minas, na pior guerra que o Ocidente encomendou sobre o Irão. Uma juventude perdida é igual a um desvio de pontaria. O primeiro dever dum Estado e de todos os Estados é a Vida e a Morte. E, no meio disto tudo, deleitamo-nos decadentes com Farrah Fawcett há uns anos, quando ainda tentava ganhar dinheiro à conta daquilo que depois tentaria vencer, a exploração do seu corpo na ribalta. Com David Carradine, a busca de um moral budista, como desculpa, num actor filho de Hollywood, deixou-o morrer infame num hotel de Banguecoque. Com Michael Jackson, basta vê-lo no videoclip «I’m bad» para perceber o demónio, ardendo no Inferno, em que o tornaram. E, sobre os cadáveres dançam os desgraçados do «gay pride», festejando o fim de uma civilização que provavelmente teve o seu «Titanic» no avião da Air France sobre o Atlântico. Que guerra se seguirá? Frustrados por não termos tido a morte em directo dos três ícones, temos a de Neda, em Teerão. E prometem-nos que a crise se comporá, como não podia deixar de ser. Como se interrogou um general romano face a um centurião espantado com a carga de uns bárbaros sobre as legiões: estes deviam saber quando vão ser esmagados. Deviam?! Apetece-me gritar que o que vai triunfar é isso mesmo: o Socialismo e não a Democracia. Os derrotados de Waterloo não sabiam que morriam pelo futuro, um futuro em que os pés-descalços também tinham direito à cidadania. Sim, viva o socialismo, mesmo o socialismo por quem Niccoló Bombacci morreu de punho erguido ao lado de Mussolini e dos super-fascistas. Um socialismo onde o Bem Comum seja o nosso dever, o nosso Orgulho, a nossa realização. E que nisso, nessa certeza, nos seja finalmente dada a paz interior. S. Pedro, deixa-me entrar, pois fiz o melhor que pude para que todos pudéssemos entrar aqui um dia. E trago o meu canário, o meu gato e o meu cão, o meu vizinho irritante, o meu irmão desavindo e este espantalho em farrapos que fui eu, que me crucifiquei ao sol para que a seara florisse…

André

quarta-feira, 24 de junho de 2009

"A Aversão", de André de Melo (1ª parte)

Antes do sol nascer, já dói o fígado a quem tem de se levantar.
Se espreitar pela janela descobrirá, então, um pequeno dia, completo, entre as casas. Às vezes há também a neblina que convém num frio atrevido e pica o novelo dos olhos estremunhados, convocando um espirro como uma bala na câmara.
Por outro lado, o arfar – primeiro, compassado, depois sem ordem - dos autocarros, já tinha atravessado o sono há muito tempo, ainda era noite cerrada, até o deixar exangue de anjos e prenúncios. Os boémios vinham esconder-se à pressa, por trás da porta vacilante antes de o sol - se viesse - cerrar o punho flamejante sobre a avenida, onde as manhãs não cantam, nem assobiam.
Longe dali, há orvalho e sarças, vegetação espinhosa, ainda ao alcance do mar. E a manhã pede licença. Os besouros e as cigarras cantam até mais tarde e há sempre alguém percorrendo um carreiro entre a vegetação que, a certo ponto, julga estar sozinho e começa a assobiar... ou até a dar até uns passinhos de dança. Ao longe escuta-se a sirene de um comboio. (ler mais)

"A Aversão" (introdução)

É já no próximo post! Abram alas! Vai começar a publicação de "A Aversão", de André de Melo. Trata-se de um romance cuja acção se desenrola nos anos 90. O autor, de quem os leitores já conhecem alguns textos, uma vez que é colaborador regular deste blogue, onde assina "André", abalança-se assim numa produção mais extensa. A obra será publicada em fascículos, no "Boca de rodapé", para onde haverá sempre uma chamada e link a partir deste blogue. A edição propriamente dita - que inclui a revisão de texto, ordenação e numeração - é da minha responsabilidade. Segue-se uma sinopse da obra, enviada pelo autor:
"Anos noventa. Lisboa. Uma mulher de um político e universitário famoso, resolve dedicar-se a escrever romances mais ou menos de cordel, com cobertura de um Editor amigo. Tem ambiente para isso, visto que não trabalha, vive na Linha de Cascais numa mansão vigiada, longe do bulício da cidade, onde os restos da Revolução de Abril vão dando lugar à periferia da Europa. Apesar de ter três filhos na idade malandra, não lhe falta uma criada cabo-verdiana, submissa e analfabeta, para poder livremente dispersar-se.(ler mais).

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Morreu hoje José Calvário

José Calvário, maestro, morreu hoje. E eu, hoje cantei, no meu caminho difícil. Não cantei nenhuma canção difícil, como a «Internacional», ou «Dizem que amor de Estudante». Ouvi canções brasileiras. Porque a minha alma quer cantar. Cantam os homens no trabalho diário, cantam os que vão ser fuzilados, cantam os que resistem em Teerão. Cantam os pássaros contra a noite. José Calvário já estava em estado vegetativo desde o fim do ano passado e ia passeando de hospital em hospital até que alguém lhe desligasse a máquina. Certamente que quem o amava, lhe fazia companhia e imaginava que naquele corpo arfante, em respiração artificial, se geravam canções como «E depois do Adeus» ou essa canção tão bela «No teu poema». José Calvário orquestrou essa coisa maravilhosa que se chamava «Canção portuguesa» e que outros chamaram nacional-cançonetismo mas que mesmo assim milhares de nós cantámos nessas jornadas em que fomos todos um, apesar das desconfianças, das ingenuidades, das santas estupidezes e que foi o 25 de Abril. Nesse tempo amávamos, amávamos de flor na boca, com um coração paciente, duradouro, tenaz, capaz de esperar e de dar, de renunciar até ao Amor por um Amor maior. Nesse tempo éramos todos como o Fernando Rocha, que conta piadas ordinárias, mas sobre quem o Espírito Santo soprou, pois, uma dia destes salvou um homem de morrer afogado no Rio Douro, o mesmo Rio Douro onde ele, catraio, saltava para apanhar moedas aos turistas. José Calvário era pequeno, franzino e irritável. Não foi um génio. Tinha um rosto belo como esse rosto dos portugueses que ardem sempre sem fim, em busca de uma Paz que nem a História, nem o Destino lhes dá. Um rosto belo como o de Ana Zanatti, que confessou a sua homossexualidade (e não o seu lesbianismo) ao fim de tantos anos, certamente amargos e que me deixou, pelo menos a mim, desgostoso, por um rosto tão belo não ter sido amado por quem o merecesse. José Calvário conduziu a orquestra do Portugal que se recusa a deixar de cantar. Não inventou as canções, não as revolucionou. Apenas as trouxe até nós para que as pudéssemos cantar.
E, hoje, pensando em José Calvário, canto em silêncio neste Mundo bárbaro, com os que marcham em silêncio em Teerão. Que lhes cresça por dentro essa força sem fim, que é a força do Mar, que vai e vem e que perdura, sempre generoso e humilde, sempre inesgotável e sempre lá, quer o dia seja radioso ou a chuva rasgue o Universo. Ele chamava-se Zé Calvário e vós sois um Povo que se prepara para o subir. Povo Calvário, vamos por ali acima, pela aquela ladeira medonha, mas vamos a cantar.

André

domingo, 14 de junho de 2009

O Naufrágio do «Titanic» num avião

E se a queda do avião no Atlântico fosse o naufrágio do Titanic da nossa civilização? A última sobrevivente do Titanic morreu nesse mesmo dia, a 1 de Junho, salva de um naufrágio por excesso de velocidade. Quando foi salva era um bebé. E, nas 228 pessoas que morreram agora, ia um único bebé. O acidente ocorreu no dia 1-6 de 2009, em que os algarismos somados dão todos 9, no voo 447, que somado dá 6, num modelo A-330, que dá soma 6, sendo que a soma dos passageiros dá três. Temos, portanto, um nove, ou seis invertido, ao lado de dois seis quando se precipita um conjunto de inocentes que é três, o número de Deus. O número da besta, cabriolando, ao lado do número de Deus. Bom! Tudo isto podem ser lucubrações de uma mente que não gosta de andar de avião, «o meio de transporte mais seguro do Mundo», como a Energia atómica é a «mais segura» ou a Democracia «o menos mau dos regimes» mas o que se sabe do acidente é que ele foi fundamentalmente devido às insuficiências da técnica face a uma Natureza que temos sistematicamente ferido e provocado com a nossa ganância. A Primeira Guerra Mundial rebentou três anos depois do Titanic e os EUA entraram na Guerra depois dos alemães lhe afundarem o navio de passageiros «Lusitânia». O que estava em causa era fazer do Atlântico uma mar pacífico de comércio, unificar o hemisfério Norte e, por isso, os EUA entraram na Guerra. Por outro lado, se a Primeira Guerra foi também precedida de orgias dos sentidos, a Segunda Guerra Mundial foi precedida de movimentos de massas, de eleições, de partidos e Frentes que levaram os Bolcheviques, mas também Hitler e Mussolini ao poder. As eleições como forma de legitimação nem sequer eram utilizadas pela pequena democracia elitista de Atenas, que decidia as coisas muitas vezes ao acaso entre iguais, os quais se substituíam no comando e era isso o que queria dizer «sufrágio», ou seja uma pedrinha com uma marca pessoal que se metia num chapéu e se tirava à sorte. É claro que Ahmedinejad venceu, por muito que os jovens modernos de Teerão não queiram. O outro candidato tinha histórias de pouca seriedade e quem vota no Irão, desde que Khomeini implementou o sufrágio universal, são milhões de pessoas rurais e muito pobres que sofreram a pior guerra regional do Séc.XX, imposta por um Iraque armado pelo Ocidente. E Chávez vencerá e Evo Morales também! A Democracia realmente tornou-se universal e as pessoas ressentidas, sedentas de vingança querem o poder da maioria. Nós não imaginamos ainda o mal que os neo-conservadores norte-americanos, com o seu elitismo judaico, aliados à Esquerda bem alimentada na Europa, fizeram ao equilíbrio da Humanidade. Manifestando a mais completa Loucura ou uma dissimulação criminosa, deixaram-nos a ideia de que a Guerra é justa quando se destina a implementar os Direitos Humanos. Ora não há Direitos quando dispersamos os nosso deveres de ajudar, na Bolsa e em carros caros, ou desperdiçamos o nosso tempo em jogos de computador e shows de Televisão. Será que a parte obstinada e macabra da Loucura humana nos está a preparar uma Guerra? Há 2.500 anos, Sun Tzu, general, dizia:« A Guerra é o assunto mais grave do Estado. É assunto de vida e de morte». Repito: o assunto mais importante de um Estado não é a Liberdade. É a Vida e a Morte.

André

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Democracia como um furto

A expressão é um factor de vida e de alívio. Em circunstâncias de medo ou de destruição da personalidade, a expressão é diminuída ao mínimo e adiada para um momento obscuro. Uma olhada pelas banquetas do mercado e há frutos de todo o lado, com as suas virtudes medicinais embora a velha medicina chinesa nos aconselhe a comer o que dá o lugar onde estamos e na época do ano que passa. Uma olhada por um resumo de notícias e convivem em fracções de segundo cadáveres de um acidente, com euforias eleitorais, com notícias financeiras e transferências de jogadores. Uma olhada pela política e é a mesma coisa: convivem as coisas todas num momento presente. Como noutros tempos aconteceu com outras palavras, a palavra «Democracia» serve para franquear estas formas de expressão todas. Um dia, quando examinarem os restos arqueológicos da Democracia, como hoje fazemos com a democracia ateniense, veremos todas as monstruosidades que a palavra branqueava. E será sem surpresas, porque tudo o que é antigo, é muitas vezes arcaico e rude. Está visto que a Democracia comporta um excesso de expressão, em que a ideologia da competição constante lá faz o seu caminho, gerando também uma certa composição. Nesta opressão dos sentidos é claro que é difícil convencer uma pessoa eufórica de que poderá, a seguir, cair na mais profunda das depressões. O espantoso destas eleições é que, quanto mais pequena participação tiverem, mais euforia geram pois quem não votou não tem expressão, e sobretudo no rescaldo das eleições. No fundo, as eleições geram um momento de competição para empregos interessantes e bem pagos, e tal ocupa tanto a nossa mente como um bom show de televisão ou um concurso. Sabemos que as situações mais deprimidas economicamente florescem em jogos e casinos. Portanto, as eleições e a Democracia-ladra poderão continuar por muito tempo, como o banditismo ou a pirataria. Mas o que é que me leva a chamar «ladra» à Democracia? A Democracia rouba as nossas esferas privadas e põe-nas à votação, põe-nas no mercado e na Bolsa. Quem não trabalha, não está. Em vez do movimento de rotação e de translação da terra, a Democracia quer gerar a sua própria cosmogonia, os seus solstícios e equinócios, o seu próprio calendário. Um dia se compreenderá que um Ditador como Saddam Hussein também tinha os seus direitos, como o de partir para o exílio. Que um Tirano é também culpa de um Povo, de uma História vivida conscientemente. Que, muitas vezes não é apenas um que oprime, mas muitos, ou que a opressão de um nasceu como reacção à opressão de muitos. Um dia se compreenderá que o verdadeiro significado de Liberdade permitirá o convívio e a tolerância de formas de existência política que se não medem, nem podem medir, pela mesma malha, onde o caduco e o sonhador, enterrarão a escravatura. Um dia compreenderemos que alguns fascistas que pereceram heroicamente e alguns anarquistas que caíram do mesmo modo, apesar de inimigos, contribuíram com a sua derrota muito mais para a nossa Paz do que pensamos. Compreenderemos porque é que milhões de pessoas abandonadas pelo desleixo de uns ou exploradas pela arrogância de outros, pegam em armas em nome de Deus e preferem morrer em pé do que viver de joelhos. E a virtude desta crise horrível, desta época de perseguição é a de nos obrigar, como Humanidade, a gerar forças espirituais, para construir um Mundo em que o Rei antigo destituído, ou um Príncipe assassinado, ou ainda o selvagem incapaz de vender o seu bosque ou o seu bairro sem pegar em armas, possam todos coexistir. Porque a Vida são as forças todas que resistem à Morte mesmo aquelas que se não expressam.

André

sábado, 6 de junho de 2009

Pó e botas velhas

Chang Kwai Caine deu-me a ideia, quando era mais novo, que, na violência da vida, há formas não violentas de resolver uma existência cheia de angústias. Mas a não-violência não é um impulso, uma coisa fácil, ou um entusiasmo. Implica esforço, renúncia, muita ajuda de fora de nós e de fora do nosso Pensamento. Assim, lembro-me de duas cenas do filme «Kung Fu», com o qual a personalidade de David Carradine se confundiu: uma em que ensina os pacifistas Mormon, que renunciaram a pegar em qualquer tipo de armas, a tirarem as armas aos agressores e outra em que, sentindo um desejo de carinho e companhia de uma mulher casada e sozinha, esse homem solitário e perseguido que Carradine representava, passando uma noite de insónia num estábulo, renuncia humildemente e conforma-se com o seu longo caminho de peregrino, despedindo-se na manhã seguinte, dessa mulher, com um gesto de paz, em que ambos sabem que têm de renunciar, deixando, ainda assim, mais um gesto de paz entre dois seres que são a Humanidade inteira. E lembro-me neste mundo do espectáculo e da expressão, em que nos esquecemos tantas vezes que as palavras se movem e ondulam como o nosso corpo, do sorriso sempre bonito de Cat Stevens, agora no rosto do velho Yussuf Islam, algures num disco que editou e onde repete muitas vezes «dust and boots, boots and dust».
E quando ouço alguém arriscar tanto numa Universidade do Cairo, vejo os limites das palavras. Todos as vêem mas, entre elas, como umas pedras do chão, algumas hão-de servir para construir uma barreirita contra o vento, ou para fazer um fogo na noite fria e não apenas para atirar à cabeça duma pobre somali, que, uma vez tendo sido violada por homens armados quando ia visitar a mãe, se queixou à polícia e foi acusada de adultério. E hão-de servir, para perceber que não somos todos iguais e que o nosso tempo nesta terra é como o trajecto de uma avião que não teve sorte, e que nem todos gostam de andar nus e talvez se sintam melhor com um lenço na cabeça que escolheram de uma longa tradição em que confiaram. É que a liberdade não me pode ser imposta, como uma não-violência violenta, que cada um tem o seu tempo e o seu caminho e que, como posso ser livre, se não confio naquilo que escolho e faço meu? E sei também que os que tentam conciliar interpretações de Deus tão diferentes, dum mesmo Deus que serve de desculpa para tantos entusiasmos violentos, se arrisca, com o seu bom coração, a tê-lo atravessado por uma bala, sem que nada tivesse mudado entretanto e o amor egoísta da multidão o esqueça depressa, trocando-o por um outro amor qualquer, em permanente excitação. Pelo que, depressa aquele que esteve no topo, entre palmas e foguetes, uma noite escura ficará sozinho e pedirá a Deus «Pai, afasta de mim este cálice… Mas se é essa a Tua vontade…». E, então, o avião Airbus, apesar da sua perfeição técnica, não se conseguirá mais levantar. Na noite escura, tão escura «qui nem é bom fálá», o meu coração duvida de Deus e o meu coração junta-se àqueles que, não crendo em Deus, são tocados pela loucura e pelo desespero, sendo guiados por um grito mudo ao Céu. Algures numa paisagem cheia de poeira onde «Kung fu» Caine volta a partir sozinho e perplexo, olho as minhas botas caminhando pelo pó. Yussuf Islam, Cat Stevens…reza por mim esta noite.

André

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Viver para contar

Acho que a Democracia é um erro, um erro monstro. E é-o por muitas razões, tantas quantas aquelas que achamos que deviam ser as coisas belas da vida e das quais desistimos porque achamos que nunca se realizarão. Por isso dizemos que a Democracia é o menor dos males. E esquecemo-nos de perguntar quem somos nós para dizer o que é o menor dos males. Não, o Povo não tem razão. Nós não temos razão. Morreram duas centenas de pessoas sobre o Atlântico. Temos a noção que foi um mal terrível. Será o menor dos males se não foram assassinadas por terroristas e se tivessem morrido sem dor. Não se pode dizer que ninguém sabe. Sabem mas não querem dizer porque destruiriam uma indústria que enche os bolsos a ricos e enche o prato a pobres e, pior, que mistura as pessoas todas umas com as outras, acabando com o racismo, dizem. Como se as pessoas não fossem diferentes porque estão ligadas a um certo lugar. Mas aqueles que precisam de enganar o mundo inteiro porque já ninguém acredita neles, no lugar onde nasceram, não param enquanto não impuserem a sua vontade ao mundo, enquanto não tiverem calado os outros todos. Eu já passei um voo assim. O meu avião entrou dentro dum furacão. A voz dos pilotos tremia. Eu estava sentado atrás e a fuselagem ondulava como uma barraca de palha. E, por cada ondulação o avião estalava com pancadas terríveis. Uma senhora com os filhos chorava. Os filhos perguntavam ao pai se iam cair. O Pai, corajosamente, berrava com eles a dizer uma coisa que não é verdade: que as coisas só acontecem aos aviões ao aterrar ou descolar. Ao meu lado, um veterano da Guerra colonial já deixara há muito de dizer que sobrevivera a aviões muitos piores quando fora transportado como soldado, para lugares onde alguns dos que sobreviveram ao voo, morreram em tiroteios, em emboscadas, ao calcar minas. Ao fim, em paz, depois de pairarmos sobre um mar calmo onde se reflectia a lua, os pilotos e as hospedeiras alinharam todos em silêncio, de chapéu na mão enquanto saíamos. Não se ouvia um zumbido. Como crianças grandes, deste pesadelo chamado Democracia, todos fugiram envergonhados, salvos mais uma vez, para as suas casas. E eu voltei a voar, a sofrer horrivelmente, a rezar à descolagem e à aterragem, a imaginar o meu Amigo Júlio Santos como um cavaleiro medieval, coberto de sangue levantando uma asa e um anjo enorme levantando a outra. Desfiz-me em fraternidade com os meus companheiros de viagem, tão diferentes, fui irmão, fui pai, fui filho, chorei, ri-me, sobrevivi para contar. Entreguei a alma ao criador, entreguei todos os meus bens, sonhei pela última vez com alguém que amei e que me não correspondeu, ajeitei como um anjo a roupa da cama à minha filha adormecida, troquei as últimas indicações de casa com a minha mulher de que me separei, afaguei a fronte do meu pai doente e da minha mãe sofrida. Disse ao meu irmão para não se preocupar e amei sinceramente, sem dúvidas, a Humanidade inteira. Vi Jesus estendendo os braços sobre o Mundo. Vi Buda sorrindo no Sol, senti os braços de Alá segurando o Universo que me rodeavam. Sobrevivi. Mas uma sociedade que assassinou estes passageiros todos duma forma tão bárbara sobre um lugar tão frio e inóspito que só uma certa raça de gente, e não qualquer um, a pode percorrer, não vou perdoar. A Democracia, a Técnica, a soberania absoluta dos votos e da liberdade de expressão, não são o melhor dos possíveis. A Democracia que dá a Soberania a nós todos, retirando-a a tantas coisas que existiram e existirão além de nós, não é o menor dos males. É o maior mal dos menores. E lembro-me de um ditado chinês com milhares de anos: nascer e morrer numa aldeia, ter acordado dias sem conta com o latir dos cães da aldeia vizinha. E nunca a ter visitado. Não sofremos já todos demasiado para nos tratarmos delicadamente, com carinho, com Amor, como se o nosso Próximo fosse o último?

André