Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Petição (2)

O segundo abaixo-assinado tem como lema a "Restituição da Nacionalidade Portuguesa aos Judeus Sefarditas Portugueses". Uma medida justíssima, que reporia a verdade num dos mais dramáticos episódios da nossa História. Sobre o assunto e razões desta petição, recomendo a leitura deste excelente comentário no "Rua da Judiaria".

Para assinar, clicar aqui.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Guarda Republicana (2)


Ao longo de três sessões, no passado fim de semana foi apresentado no TMG mais um espectáculo de homenagem à cidade. Assim, depois de "Guarda, Paixão e Utopia" (2006) e "Guarda, Rádio Memória" (2008), eis "Guarda, a República". Compondo desta forma uma trilogia que já se tornou uma referência também a nível nacional. Não só pela evidência da continuidade espacial das produções, como pela sua feição comunitária (quase 400 pessoas em palco), pela notável mobilização das colectividades do concelho, o empenho de todos os participantes e sua coordenação. Mas a singularidade dos espectáculos reside também na sua dimensão epopeica, com grandes movimentações colectivas, ainda que com determinados protagonistas em destaque,  no realismo fantástico, associado a grande parte das sequências, na sátira elegante, no rigor histórico e na utilização de várias linguagens artísticas em modo subsidiário. E, claro está, sempre a memória da cidade, os seus fantasmas, os seus heróis, a sua mitologia particular, como cenário de eleição e motivo inspirador. No entanto, todos os espectáculos mantiveram uma individualidade própria. Nenhum foi igual aos outros. No caso do "Guarda: a República" a conclusão é evidente. Tratou-se, sem dúvida, de uma produção mais vincadamente ideológica. E onde a informação histórica teve um peso mais pronunciado. Todavia, em meu entender, esteve longe de se tratar da apologia de um regime, ou de uma época específica. Fois antes a celebração artística de um projecto político, a recriação cénica  das atribulações de um modelo republicano de organização da sociedade. E como todos os ideais, quando posta em prática, alimenta também os equívocos e os falhanços, em paralelo com os êxitos. No desiderato, tornam-se inevitáveis as analogias com o presente. Pois que a História, longe de ser uma soma de segmentos dispersos, é sobretudo um continuum, um espaço topológico onde um número limitado de questões-chave se repete ciclicamente.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

As visitas começam amanhã!


O projecto "Passos à volta da memória" é uma iniciativa da Culturguarda EM e da Câmara Municipal da Guarda. Graças a ele, entre 22 de Julho e 18 de Setembro, haverá uma série de visitas encenadas ao centro histórico. As sessões serão às 10h e ás 17.30h, todas as sextas e sábados e 1º domingo de Agosto e Setembro, com partida da Praça Velha, junto ao posto de Turismo. Como o nome indica, trata-de uma visita guiada, embora com as características de um espectáculo de rua. O guia / guardião da memória / herói local, será Álvaro Gil Cabral, alcaide da cidade nos finais do séc. XIV. Notabilizado graças à sua recusa em entregar as chaves do castelo ao rei D. João de Castela, pretendente ao trono português. A história é aqui contada mais em pormenor. 
No essencial, trata-se de um percurso pelas artérias do centro histórico, num perímetro bem definido. Onde se pretende recriar cenicamente memórias da cidade, dispersas por várias épocas e vários protagonistas.  Não é de todo uma reconstituição histórica, mas não dispensa o rigor da História. É teatro, mas cujo cenário é a própria cidade e a trama a sua memória. E o guia está longe de ser um cicerone convencional, mas antes um personagem cujas virtudes e fraquezas o tornam singular e próximo, como irão ver.
"Passos à volta da memória" é um espectáculo com coordenação de Américo Rodrigues. Criou o texto este vosso criado. A encenação é de Antónia Terrinha, ficando a interpretação a cargo de João Ventura. Assina o design gráfico Jorge dos Reis. Participarão ainda os figurantes Carlos Gil, Carlos Morgado, Elisabete Fernandes, Luís Paulo e Maria Miguel Figueiredo.

sábado, 17 de abril de 2010

Macaronésia

Por uma vez, concordo com Mário Soares. Diferendo de opiniões, note-se. Que não belisca sequer o reconhecimento da linhagem sólida, que distingue os grandes políticos, de que Soares faz parte. Não é preciso um grande esforço para o imaginar preteritamente nos magníficos jardins de Sanssouci, disputando acaloradamente a voltagem do iluminismo, em amena tertúlia com Frederico o Grande. Ou até mesmo na fantástica biblioteca circular do "petit palais", elegido pelo monarca como sua residência de Verão. Um local onde, afortunadamente para Soares, abundam os livros e escasseiam os dossiers... A coisa aconteceu num colóquio efectuado ontem no ISCTE, em Lisboa. O ex-exilado em S. Tomé defendeu, inequivocamente, que Cabo Verde nunca deveria ter alcançado a independência. Para isso, aponta conhecidas razões de ordem histórica: a ausência de uma tradição independentista no arquipélago, a exigência de um referendo sobre a questão, que não se chegou na altura a concretizar e, sobretudo, não ser a independência um objectivo político declarado das elites locais de então. Efectivamente, as vantagens da criação de uma Macaronésia nacional (obviamente excluindo as Canárias) que englobasse também Cabo Verde, seria um trunfo económico e geo-estratégico de valor incalculável para Portugal. E, acredito, Cabo Verde só teria a ganhar se incluído no espaço económico e social europeu, ainda que com o estatuto de região ultra-periférica. Last but not least, aduziria uma razão de carácter particular para esta tomada de posição: garanto-vos que, se Cabo Verde fosse (ainda) território nacional, era lá que me encontrariam certamente.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Por acaso

O nascimento do romance, enquanto forma original de criação literária, está intrinsecamente ligado ao triunfo de um corpo político feito à medida da nova sociedade burguesa, em meados do séc. XVII. Refiro-me ao Ocidente, claro está. Pois que, entre outros exemplos, o Japão do séc. XI já nos havia presenteado com o fabuloso "Romance do Genji". Ora, esse corpo político pressupõe: 1º que a segurança seja assegurada pela delegação da força nas mãos do Estado, em regime de exclusividade; 2º que os indivíduos, para quem a vida pública se manifesta sob o disfarce da necessidade, adquiram um renovado interesse pela sua vida privada e pelo seu destino pessoal, eliminadas as antigas conexões naturais com os seus semelhantes; 3º que esses mesmos indivíduos só possam julgar a sua vida pessoal comparando-a com a dos outros, tomando essa relação a forma de concorrência; 4º que, implicitamente - e porque dotados todos eles pela natureza de igual capacidade e protegidos uns dos outros pelo Estado, que regulamenta os negócios públicos e os interesses em presença sob a justificação da necessidade - apenas o acaso seja apto a decidir quem vencerá.
Significativamente, esta elevação do acaso à posição de árbitro decisivo da vida viria a atingir o seu ponto mais alto no séc. XIX. Como resultado, surgiu um novo género de literatura, que acompanhou o declínio do drama: o romance. É que o drama perdeu o sentido num mundo sem acção, enquanto o romance podia tratar adequadamente os destinos das pessoas, fossem elas vítimas da necessidade ou favoritas da sorte. Balzac, de quem li recentemente "O Pai Goriot" (1834), demonstrou todo o alcance do novo género. E chegou a apresentar, nas 88 obras que compõe a sua "Comédia Humana", as paixões humanas como o destino do homem: sem vício nem virtude, nem razão, nem livre-arbítrio. Só o romance, na sua completa maturidade, podia pregar o novo evangelho da paixão do homem pelo seu próprio destino. E através dela, o criador literário tentava traçar uma distinção ente si e os outros, proteger-se contra a desumanidade da boa e da má sorte, desenvolver, em suma, todos os dons da sensibilidade moderna. Tão desesperadamente necessária à dignidade humana. Mas exigindo que um homem seja, pelo menos, uma vítima, se não puder ser outra coisa.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

A regra

(clicar para aumentar)

Imagem obtida numa exposição no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O pronunciamento

A República foi instaurada há 99 anos. Os anos de violência e demagogia que se seguiram mais parecem um guião para um filme de terror. Não é que eu tenha uma especial simpatia pela causa monárquica, mas cada vez mais sinto que, nesta data, nada encontro que me empurre para o entusiasmo de uma comemoração, ou para a simpatia com um suposto movimento regenerador. Que produziu algumas reformas de vulto e pouco mais. Portanto, exaltem-se os heróis, dignifiquem-se os visionários, aprenda-se com os erros e lembrem-se as vítimas. E é tudo...

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Leituras

Acabei de ler esta obra monumental. Valeu bem a pena, mais pela vastidão das fontes consultadas pelo autor do que pela análise macro dos factos em presença. Mais pelo tratamento minucioso da informação do que pelas teses apresentadas. Como exemplo, Gilbert procura sempre dar um rosto, um nome, aos factos descritos. Sejam eles um acto de heroísmo, ou de barbárie. Deste modo dificultando a intervenção do esquecimento. Tudo isto na melhor tradição anglo-saxónica. No fundo, trata-se de um excelente artigo jornalístico escrito por um excelente historiador. Deixo-vos com dois episódios que não resisti a transcrever:
1º Na véspera de Natal de 1944, com o III Reich já perto do fim e com a frente ocidental às portas do Reno, "os alemães lançaram um ataque final de bombas voadoras V2 contra a Inglaterra. As bombas, além da carga explosiva, continham cartas de prisioneiros de guerra britânicos, que se espalhavam no ar como confetti, na altura em que as bombas rebentavam. 'Querida', dizia numa delas, 'Aqui vai uma carta extra que inesperadamente fomos autorizados a escrever, mandando os nossos votos de Natal." (pág. 806);
2º No início de 1945, desenhava-se o assalto final à Alemanha, estando para breve o encontro das frentes leste e oeste. "Na noite de 15 de Janeiro, Hitler regressou de comboio do seu quartel-general do Ocidente para a Chancelaria do Reich, em Berlim. Enquanto o comboio avançava na direcção da Alemanha, um coronel SS do seu Estado-Maior observou, de maneira a ser ouvido por Hitler: 'Berlim será para nós o quartel-general mais prático; em breve, bastará apanharmos o autocarro para chegarmos da frente Ocidental à Frente Oriental!' Hitler começou a rir" (pág. 815). Após este fugaz momento de humor, desconhece-se o destino do coronel...

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Gavotte (5)


Até agora, a análise da obra cingiu-se ao universo da narrativa, ao enredo, às perplexidades de um tempo e de um regime: o nacional-socialismo. Faltava ainda colocar a pergunta fundamental: como foi possível "aquilo" no país que amava Schubert e idolatrava Goethe? O que levou a que a Bildung, ou seja, a seriedade e o radicalismo espiritual da cultura alemã, a sua modernidade, tenham conduzido à barbárie? Para tentar responder, necessário se torna tomar algumas precauções. É que uma coisa é falar do colapso moral de Auschwitz e outra, bem distinta é descrever uma tradição literária e moral que desaguou em Auschwitz. Mas que podia ter originado outra experiência, menos radicalizada do que o fantasma totalitário que se apoderou da Europa durante os anos 30 do século passado. Da Europa e não só da Alemanha, é bom repetir. As conexões entre causa e efeito colocam sempre uma questão muito delicada na construção do relato histórico. Em primeiro lugar, porque tendem a introduzir um elemento de necessidade onde impera, se não a liberdade, pelo menos o acaso. Depois, porque levam a que todo um processo apareça retroactivamente sobrevalorizado por um facto que essa sobrevalorização encara como fatalidade. O excesso de telos retrospectivamente reconstruído distorce o sentido típico, aleatório, polivalente, dos fenómenos que o presente vai produzindo. Convertendo essa vastidão numa imensa flecha que converge num único lugar: o grande centro de gravidade que se apodera do relato e, quiçá, da sua própria veracidade. É um trabalho de grande perspicácia aquele que se exige ao historiador: distinguir entre as causas realmente relacionadas, os elementos contingentes e os elementos completamente livres que configuram a base das suas hipóteses. Salvando-se assim do poder de atracção que certos factos exercem sobre esse material. Não há fatalismos na História. As tendências anteriores aos factos devem ser interpretadas com muita cautela. Sobretudo se essas tendências implicam uma leitura tendenciosa. Talvez seja desta tentação que a obra nos pretende prevenir. Usando de uma suprema elegância romanesca. Auschwitz e o nazismo funcionam, sem dúvida, como um campo magnético, capaz de condicionar muitas leituras. Mas é esse precisamente o triunfo póstumo dos nazis. Sobre o qual haverá que reflectir sem preconceitos. Não porque, de facto, se trate de uma vitória póstuma, mas porque é de acolher a possibilidade de que uma coisa - a cultura literária e moral alemã dos séculos XVIII e XIX - não tenha nada a ver com outra - o holocausto, o totalitarismo e a guerra de extermínio. E aqui convém distinguir: uma coisa é a afirmação de Adorno acerca da impossibilidade da poesia depois de Auschwitz e outra, bem diferente, é a obscuridade que Auschwitz projecta antes de si, retroactivamente. Transformando a construção da modernidade cultural na Alemanha como um caminho até ao holocausto. Essa sobredeterminação dos factos em função de um fim, tão monstruoso quanto ilógico, converte-os em algo que participa dessa irracionalidade, em algo inútil do ponto de vista da visão da Bildung alemã como um processo com potencial civilizador. Na verdade, esta não tinha esse propósito, no sentido pacificador, pluralista e democrático a que tendemos a associar a ideia de civilização. Uma ideia supostamente francesa, que aparece contraposta a um conceito bem alemão: a Kultur. Ora, a função desta não era tornar as pessoas melhores, satisfazer a utopia de uma cultura emancipadora, humanista, mas sim tentar evitar que algumas delas não soçobrassem no processo de individuação e socialização.

Gavotte (6)


Ainda e sempre a propósito de "As Benevolentes", cabe desenvolver um pouco mais e concluir a análise do significado particular da Bildung alemã.
Antoine Berman, em Bildung et Bildungsroman, ("Formação cultural e romance de formação"), fornece as pistas. Segundo ele, "A palavra alemã Bildung significa, genericamente, "cultura" e pode ser considerado o duplo germânico da palavra Kultur, de origem latina. Porém, Bildung remete para vários outros registos. Utilizamos Bildung para falar no grau de "formação" de um indivíduo, um povo, uma língua, uma arte. E é a partir do horizonte da arte que ela se determina, a maioria das vezes. A palavra alemã tem uma forte conotação pedagógica e designa a formação como processo. Por exemplo, os anos de juventude de Wilhelm Meister, no romance de Goethe, são os seus Lehrjahre, onde ele aprende somente uma coisa, sem dúvida decisiva: aprende a formar-se (sich bilden)". Nem de propósito, o processo de formação intelectual e moral de Max, até um certo ponto, parece decalcada da obra de Goethe. A vastidão do seu conhecimento é surpreendente, como mais atrás referi. Todavia, a Bildung aparece igualmente associada à noção de trabalho. No sentido que, mais tarde, Hannah Arendt deu à palavra labor. Ou seja, a acção prática. Como salienta o autor citado, " Enquanto trabalho, Bildung é formação prática, formação de si pela formação das coisas. No famoso capítulo da Fenomenologia do espírito de Hegel, a dialética do Senhor e do Escravo, a consciência escrava liberta-se por um processo de formação: à medida que a consciência trabalha formando as coisas em seu redor, ela forma-se a si mesma."
Retomando o tema central, não creio que seria apropriado apelar ao wagnerianismo de Hitler. Mas se prescindirmos desse tópico, poderia sempre pensar-se que Hitler não viu nas óperas de Wagner o que há realmente nelas. Que o seu olhar empobrecido pelo anti semitismo - esse "socialismo para idiotas", como alguém lhe chamou - não captou tudo o que Wagner colocava nelas. O espantoso caso alemão consiste, porventura, em forçar a perplexidade humanista até convertê-la numa espécie de argumento para uma narrativa histórica. Como é possível que os alemães, tão cultos, incorressem na barbárie e no extermínio de milhões de pessoas? Essa continua a ser a pergunta básica desta análise. Todavia, ela encerra um pressuposto perverso: se a cultura implica (ou deveria fazê-lo) elevação moral, então poderíamos considerar todas as pessoas incultas como moralmente irresponsáveis, ou inferiores, ou simplesmente incapazes. A cultura e a moral são variáveis que não têm necessariamente que justificar-se entre si. E nem sequer são realidades que tenham que cruzar-se. Todos os que estranham que se faça um link de Schubert a Auschwitz pensam provavelmente que alguém inculto seja mais apropriado para fazer de algoz. Devem então escandalizar-nos menos as matanças do Ruanda, em 1993, do que a "solução final", só porque foram praticadas por gente sem a Bildung ocidental e humanista? Esse é um caminho muito perigoso, que permite o regresso de fórmulas racistas, encapotadas de boa consciência. É como se assumíssemos que é próprio de bárbaros ser bárbaros. Mas nós, que somos tão civilizados, como pudemos chegar a "isto"? Simplesmente porque a lógica cultural acompanha a barbárie, mas não a pode impedir. O que impede a barbárie é outra coisa. A bondade e a generosidade não passam por Schubert. Claro que este não as exclui. Todavia, não as consegue garantir. Os juízos morais não dependem, nem se nutrem, da sensibilidade estética. Respondem a outra ordem de coisas, não direi mais complexa, mas substancialmente diferente. Portanto, o assombro não é como se parte de Beethoven e se chega a Auschwitz, mas por alma de quem se há-de concluir que o facto de alguém gostar de Beethoven ou de Novalis deveria torná-lo melhor pessoa! Hannah Arendt, num artigo intitulado precisamente "A crise da cultura" explica muito bem a história do filisteísmo cultural. A certo passo, refere que o grande erro de uma burguesia cultivada foi crer que, realmente, a poesia, o teatro, a filosofia, a música, a poderia tornar melhor do que era. A anti-arte, preconizada pelo dadaísmo em 1917, fora já um aviso de que essa cultura filisteia só havia ensinado melhor aos burgueses a morrer e a matar em massa. O nacional-socialismo veio dar-lhes toda a razão, da forma trágica que se conhece. E se é verdade que Hitler disse nos seus últimos dias que "o povo alemão demonstrou não ser digno de mim", então pode afirmar-se que o síndrome do artista incompreendido derramou o seu último fulgor, de uma aberrante e profunda coerência. Bem no centro da devastação produzida pelo seu pior sonho: o Estado como obra de arte totalitária.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Gavotte (6)


Ler anterior
Ainda e sempre a propósito de "As Benevolentes", de Jonathan Littel, cabe desenvolver um pouco mais e concluir a análise do significado particular da Bildung alemã.
Antoine Berman, em Bildung et Bildungsroman, ("Formação cultural e romance de formação"), fornece as pistas. Segundo ele, "A palavra alemã Bildung significa, genericamente, "cultura" e pode ser considerado o duplo germânico da palavra Kultur, de origem latina. Porém, Bildung remete para vários outros registos. Utilizamos Bildung para falar no grau de "formação" de um indivíduo, um povo, uma língua, uma arte: e é a partir do horizonte da arte que se determina, mais das vezes, Bildung. A palavra alemã tem uma forte conotação pedagógica e designa a formação como processo. Por exemplo, os anos de juventude de Wilhelm Meister, no romance de Goethe, são seus Lehrjahre, onde ele aprende somente uma coisa, sem dúvida decisiva: aprende a formar-se (sich bilden)". Nem de propósito, o processo de formação intelectual e moral de Max, até um certo ponto, parece decalcada da obra de Goethe. A vastidão do seu conhecimento é surpreendente, como mais atrás referi. Todavia, a Bildung aparece igualmente associada à noção de trabalho. No sentido que, mais tarde, Hannah Arendt deu à palavra labor. Ou seja, a acção prática. Como salienta o autor citado, " Enquanto trabalho, Bildung é formação prática, formação de si pela formação das coisas. No famoso capítulo da Fenomenologia do espírito de Hegel, a dialética do Senhor e do Escravo, a consciência escrava liberta-se por um processo de formação: à medida que a consciência trabalha formando as coisas em seu redor, ela forma-se a si mesma."
Retomando o tema central, não creio que seria apropriado apelar ao wagnerianismo de Hitler. Mas se prescindirmos desse tópico, poderia sempre pensar-se que Hitler não viu nas óperas de Wagner o que há realmente nelas. Que o seu olhar empobrecido pelo anti semitismo - esse "socialismo para idiotas", como alguém lhe chamou - não captou tudo o que Wagner colocava nelas. O espantoso caso alemão consiste, porventura, em forçar a perplexidade humanista até convertê-la numa espécie de argumento para uma narrativa histórica. Como é possível que os alemães, tão cultos, incorressem na barbárie e no extermínio de milhões de pessoas? Essa continua a ser a pergunta básica desta análise. Todavia, ela encerra um pressuposto perverso: se a cultura implica (ou deveria fazê-lo) elevação moral, então poderíamos considerar todas as pessoas incultas como moralmente irresponsáveis, ou inferiores, ou simplesmente incapazes. A cultura e a moral são variáveis que não têm necessariamente que justificar-se entre si. E nem sequer são realidades que tenham que cruzar-se. Todos os que estranham que se faça um link de Schubert a Auschwitz pensam provavelmente que alguém inculto seja mais apropriado para fazer de algoz. Devem então escandalizar-nos menos as matanças do Ruanda, em 1993, do que a "solução final", só porque foram praticadas por gente sem a Bildung ocidental e humanista? Esse é um caminho muito perigoso, que permite o regresso de fórmulas racistas, encapotadas de boa consciência. É como se assumíssemos que é próprio de bárbaros ser bárbaros. Mas nós, que somos tão civilizados, como pudemos chegar a "isto"? Simplesmente porque a lógica cultural acompanha a barbárie, mas não a pode impedir. O que impede a barbárie é outra coisa. A bondade e a generosidade não passam por Schubert. Claro que este não as exclui. Todavia, não as consegue garantir. Os juízos morais não dependem, nem se nutrem, da sensibilidade estética. Respondem a outra ordem de coisas, não direi mais complexa, mas substancialmente diferente. Portanto, o assombro não é como se parte de Beethoven e se chega a Auschwitz, mas por alma de quem se há-de concluir que o facto de alguém gostar de Beethoven ou de Novalis deveria torná-lo melhor pessoa! Hannah Arendt, num artigo intitulado precisamente "A crise da cultura" explica muito bem a história do filisteísmo cultural. A certo passo, refere que o grande erro de uma burguesia cultivada foi crer que, realmente, a poesia, o teatro, a filosofia, a música, a poderia tornar melhor do que era. A anti-arte, preconizada pelo dadaísmo em 1917, fora já um aviso de que essa cultura filisteia só havia ensinado melhor aos burgueses a morrer e a matar em massa. O nacional-socialismo veio dar-lhes toda a razão, da forma trágica que se conhece. E se é verdade que Hitler disse nos seus últimos dias que "o povo alemão demonstrou não ser digno de mim", então pode afirmar-se que o síndrome do artista incompreendido derramou o seu último fulgor, de uma aberrante e profunda coerência, bem no centro da devastação produzida pelo seu pior sonho: o Estado como obra de arte totalitária.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Gavotte (5)


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Até agora, a análise de "As Benevolentes", de Jonathan Littel cingiu-se ao universo da narrativa, ao enredo, às perplexidades de um tempo e de um regime: o nacional-socialismo. Faltava ainda colocar a pergunta fundamental: como foi possível "aquilo" no país que amava Schubert e idolatrava Goethe? O que levou a que a Bildung, ou seja, a seriedade e o radicalismo espiritual da cultura alemã, a sua modernidade, tenham conduzido à barbárie? Para tentar responder, necessário se torna tomar algumas precauções. É que uma coisa é falar do colapso moral de Auschwitz e outra, bem distinta é descrever uma tradição literária e moral que desaguou em Auschwitz. Mas que podia ter originado outra experiência, menos radicalizada do que o fantasma totalitário que se apoderou da Europa durante os anos 30 do século passado. Da Europa e não só da Alemanha, é bom repetir. As conexões entre causa e efeito colocam sempre uma questão muito delicada na construção do relato histórico. Em primeiro lugar, porque tendem a introduzir um elemento de necessidade onde impera, se não a liberdade, pelo menos o acaso. Depois, porque levam a que todo um processo apareça retroactivamente sobrevalorizado por um facto que essa sobrevalorização encara como fatalidade. O excesso de telos retrospectivamente reconstruído distorce o sentido típico, aleatório, polivalente, dos fenómenos que o presente vai produzindo. Convertendo essa vastidão numa imensa flecha que converge num único lugar: o grande centro de gravidade que se apodera do relato e, quiçá, da sua própria veracidade. É um trabalho de grande perspicácia aquele que se exige ao historiador: distinguir entre as causas realmente relacionadas, os elementos contingentes e os elementos completamente livres que configuram a base das suas hipóteses. Salvando-se assim do poder de atracção que certos factos exercem sobre esse material. Não há fatalismos na História. As tendências anteriores aos factos devem ser interpretadas com muita cautela. Sobretudo se essas tendências implicam uma leitura tendenciosa. Talvez seja desta tentação que a obra nos pretende prevenir. Usando de uma suprema elegância romanesca. Auschwitz e o nazismo funcionam, sem dúvida, como um campo magnético, capaz de condicionar muitas leituras. Mas é esse precisamente o triunfo póstumo dos nazis. Sobre o qual haverá que reflectir sem preconceitos. Não porque, de facto, se trate de uma vitória póstuma, mas porque é de acolher a possibilidade de que uma coisa - a cultura literária e moral alemã dos séculos XVIII e XIX - não tenha nada a ver com outra - o holocausto, o totalitarismo e a guerra de extermínio. E aqui convém distinguir: uma coisa é a afirmação de Adorno acerca da impossibilidade da poesia depois de Auschwitz e outra, bem diferente, é a obscuridade que Auschwitz projecta antes de si, retroactivamente. Transformando a construção da modernidade cultural na Alemanha como um caminho até ao holocausto. Essa sobredeterminação dos factos em função de um fim, tão monstruoso quanto ilógico, converte-os em algo que participa dessa irracionalidade, em algo inútil do ponto de vista da visão da Bildung alemã como um processo com potencial civilizador. Na verdade, esta não tinha esse propósito, no sentido pacificador, pluralista e democrático a que tendemos a associar a ideia de civilização. Uma ideia supostamente francesa, que aparece contraposta a um conceito bem alemão: a Kultur. Ora, a função desta não era tornar as pessoas melhores, satisfazer a utopia de uma cultura emancipadora, humanista, mas sim tentar evitar que algumas delas não soçobrassem no processo de individuação e socialização. (continuação)

segunda-feira, 21 de abril de 2008

A mentira em edição de luxo

Julgava eu que, do lado dos comunistas, já nada me podia surpreender. Incluindo, sobretudo, a falsificação da História. Eis que deparei, agora mesmo, com algo que supera a mais febril alucinação: o anúncio de uma edição especial do "L' Humanité" - o órgão oficial do PC gaulês, como é sabido - intitulada "Mai 68, le grand tournant" (Maio de 68, a grande viragem). Contem 132 páginas, abundantes declarações de estudantes e assalariados envolvidos, e faz-se acompanhar de um DVD. Repare-se no hirsuto manifestante, quiçá após um tirocínio na Sierra Maestra, tentando assemelhar-se aos seus heróis. Além disso, desfila (bem) acompanhado por uma moçoila que, por contraste, parece saidinha de um filme do Godard. Só falta um "pormenor" nesta imagem antológica: empunhar o protagonista um puro habano, em vez de uma bandeira.
Os comunistas estão na fase de tomar como seus todo o tipo de ícones que sinalizem movimentos sociais e políticos. É um autêntico processo de usurpação. Neste caso, a história é conhecida. O Maio de 68 nasceu em meios estudantis politizados, em grande parte fora dos circuitos marxistas. Pretendia-se uma forma nova de combate político, pela afirmação de uma liberdade integral, da espontaneidade, da imaginação. Os meios sindicais ortodoxos, controlados pelo PCF, cedo perceberam que esta não era a sua luta. Que passava já só pela adesão à sociedade de consumo e nunca por outro tipo de reivindicações. E, naturalmente, só por razões tácticas a elas pareceram aderir. O que quer dizer que, só em meios operários ligados ao anarco-sindicalismo, ou onde a influência dos comunistas era residual, o apoio e a participação nas revoltas teve alguma expressão. No final, conta-se que foram mesmo os comunistas que traíram a "revolução", tudo fazendo para que definhasse um movimento por definição inorgânico, não controlável. Entregando-o aos pés de de Gaulle. Esta estratégia já dera frutos durante a Guerra Civil Espanhola, com a jovem República e, sobretudo, com os anarquistas catalães, repetindo-se aqui. Portanto, esta apropriação de um movimento de contestação sem paralelo no Ocidente é tão incongruente como sinistra. Como se os algozes se quisessem desculpar, tomando como seu o discurso das vítimas. Por outro lado, nos tempos que correm, o comunismo não se poderá descredibilizar unicamente por via política ou doutrinal. Esse trabalho competirá à História e só a ela.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Os comissários da memória

O Professor Rosas desdobra-se numa inusitada indignação por causa da presença da Fanfarra do Exército na cerimónia oficial da evocação do regicídio e da memória de D. Carlos, no próximo dia 1. O seu partido já apresentou mesmo um protesto em letra de forma no hemiciclo. O que levou o Ministro da Defesa a não autorizar a participação de unidades do Exército no evento. Pelos vistos, certa esquerda ainda se julga dona do regime e da História, sem perceber que se vai sumindo no limbo da insignificância emplumada. Desta vez, nos saldos das causas de ocasião, comprou uma guerra que já teve os seus dias de glória: Monarquia versus República. Para esse sector, repetir o óbvio é simplesmente redundante: a evocação do regicídio tem um significado, digamos, humanitário, antes de qualquer apropriação política. É um tributo público à memória dos que pereceram no atentado. Limpo, sem fantasmas. Quem os quer lá pôr são aqueles que não conseguem viver sem os agitar.
Esta polémica transporta-me para um episódio que hoje vivi. Quando me dirigia para casa, após os afazeres profissionais, sou abordado por uma equipa de reportagem da TVI. Perguntaram-me se estava disposto a responder a algumas questões. Porque não? Ora bem, para começar, adivinhem, se sabia distinguir a República da Monarquia. Depois, qual dos dois regimes preferia. À primeira lá gemi, bem espremidinho, o vulgo de Lineu. Quando à segunda, o caso foi mais complicado. Fiquei com aquela sensação por que todos passaram perante a sacramental pergunta a que nenhuma criança escapou: "então gostas mais do pai ou da mãe?" "Há monarquias onde não me importava de viver e certas repúblicas de que fugiria como um tigre da água e vice-versa. Portanto é só uma questão de fazer contas." Lá consegui dizer à menina. Tenho dúvidas que este "depoimento" seja incluído na reportagem, igual a tantas outras acerca do que pensa a populaça sobre isto e aquilo, a propósito de uma tema da actualidade.
Voltando ao caso da fanfarra, quem andou bem, mais uma vez, foi o historiador Rui Ramos. Eis alguns excertos da sua crónica de hoje no "Público". Chama-se "O nosso outro passado" e está lá o essencial.

domingo, 20 de janeiro de 2008

O fim da ironia

Há dias, no "Combustões":
Com Sir Edmund Hillary, agora levado pela Parca, já poucos heróis trágicos restarão. Que me lembre, Neil Alden Armstrong, com 77 anos, é um sobrevivente dessa raça de gigantes que passou de moda. Os tempos de glória - glória mercenária, glória para marketing - ou vão para os gladiadores dos tempos modernos (os futebolistas, os motoqueiros, os corredores da Fórmula 1) ou para os santos laicos das ditas grandes causas que se profissionalizaram na arte de condoer o coração dos telespectadores. Não os considero, porém, heróis, mas angariadores de pífias cruzadas em que o Zé Ninguém descarrega em outrem a responsabilidade de curar as feridas da consciência colectiva. Os Life Aid, os Médicos disto e daquilo, as ONG's, os profetas do descalabro ambiental, todos eles, são a negação dessa heroicidade que se fazia de rasgos individuais de ousadia extrema. Os horizontes fecharam-se para as grandes aventuras individuais, todo o planeta deixou de ser mistério: há estradas, telefones, internet e hotéis no Tibete e nas estepes da Ásia Central, paquetes de luxo nos mares do Ártico, turismo exótico no Pólo Sul, para ver baleias e focas, Massai de telemóvel em riste no Quénia, heliportos no coração da Amazónia, satélites e GP'S para navegadores solitários perseguidos pela CNN. O mundo perdeu a magia e o feitiço. A geração dos gigantes e dos heróis passou à história...

Acrescento que não é o homem que escolhe o seu destino, mas sim o destino que escolhe o homem. É nesta visão do heroísmo individual que assenta o teatro grego. O profundo significado da tragédia está simplesmente na ironia: ela trata não dos pontos fracos dos protagonistas, mas dos seus méritos. O herói é empurrado sem apelo para a metáfora trágica não pelos seus defeitos mas pelas suas virtudes. Será que já esquecemos este legado fundamental?

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O pêndulo

A evolução do anti-semitismo na Europa ao longo do séc. XX é deveras curiosa. Até à década de 30, esta corrente entrou em franco declínio. A partir dessa data e até final, como reacção à doutrina nacional-socialista, o anti-fascismo e o internacionalismo foram o terreno do anti anti-semitismo. O ódio aos judeus estava monopolizado, em grande parte, pelos nacionalistas étnicos, antagonistas do Outro. Nas últimas duas décadas, não obstante, o anti-semitismo foi corporizado pelas correntes "humanitárias", cujo auto proclamado papel é precisamente defender o Outro. Os judeus já não são denunciados pela sua vocação cosmopolita, mas porque a traíram. O que assinala o regresso do anti- sionismo. No mundo árabe, estes termos são sinónimos inter comunicáveis. Nomes possíveis para o ódio. A negação do Holocausto é um dos seus corolários lógicos. É bom não esquecer que a obra Mein Kampf, de Hitler, está há anos no topo de vendas nos países árabes. Mas há um facto sistematicamente ignorado pela historiografia politicamente correcta: o Grande Mufti de Jerusalém, Haj Amin al-Husseini, refugiou-se em Berlim durante a Segunda Guerra. Onde pressionou Hitler a matar o maior número possível de judeus. Como se Hitler precisasse de um mentor para o efeito! Esse dirigente palestiniano, tio de Yasser Arafat, ajudou inclusivamente no recrutamento de muçulmanos bósnios que serviram nas Waffen SS. E esta, ó Rosas!

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

O Mito de Outubro

"Outubro faz noventa anos, mas está menos agonizante do que por vezes aparenta. Na superação do seu legado – e dos grandes equívocos que produziu – encontra-se, provavelmente, a única forma de interromper a deriva autoritária e intolerante que a esquerda antineoliberal contemporânea tem sido incapaz de apagar das suas agendas." Lê-se na introdução ao primeiro de uma série de textos que Rui Bebiano está a dedicar ao tema, no "A Terceira Noite". Leitura recomendada, por supuesto.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

O véu

Esta imagens não resultam de uma montagem. Foram registadas durante uma entrevista realizada recentemente pela jornalista da RTP Márcia Rodrigues ao Embaixador do Irão. Pergunta-se: deveria a jornalista apresentar-se em fato de banho, ou com um decote hollywoodesco? A resposta é não. Será que o traje que enverga, conforme à sharia, se destinou a despertar a familiaridade do Embaixador, de forma a obter alguma cacha? Não me parece. Evoca mais facilmente um número dos Gato Fedorento, uma capitulação, uma exposição particularmente aviltante, um sintoma de cobardia e de amnésia, face ao longo caminho que no Ocidente a conquista da liberdade teve que percorrer, face às teocracias e aos mercadores do invisível. De resto, um tema já aqui referido. Os seus inimigos agradecem.

terça-feira, 10 de julho de 2007

O sangue dos outros

"Ninguém dá lições de democracia ao PS", vociferava há dias na AR o chefe do grupo parlamentar daquela força política. Aconteceu durante o debate realizado a propósito de conhecidos casos de perseguição, por via disciplinar, de funcionários que alegadamente cometeram delito de opinião. A suprema arrogância desta frase diz-me praticamente tudo acerca de quem nos governa. Condensa duzentos anos de equívocos e de sombras jacobinas. Bem andou Kant, quando detectou na possibilidade de uma acção poder ser ou não universalizada o fundamento para o único padrão ético.
Como prova de que a invocação de uma paródica superioridade moral anda de mãos dadas com a leviandade, apetece citar um excerto de um sugestivo texto de José Gomes André, no "Bem pelo Contrário". Isto a propósito das vaias e assobios dirigidos à Estátua da Liberdade, durante a Gala das 7 Maravilhas do Mundo, realizada há dias:

O mundo ocidental está tão farto de si mesmo, tão cheio da sua felicidade e simplicidade e comodidade, que olvidou os seus pilares morais, o sangue que outros derramaram em seu nome e as suas referências históricas. E não percebe que essas conquistas exigem que as estimemos e as preservemos com todo o cuidado. No dia – e esse dia está demasiado próximo – em que as esquecermos por completo, poderemos ter uma triste surpresa, e descobrir que aquilo que sempre demos por adquirido não passava, afinal, de uma frágil realidade, e a partir desse dia, talvez demasiado distante para ser recuperada.