Não me surpreende a costumeira indignação dos cry babies saudosos do bom velho agit prop, por causa de uma afirmação de Passos Coelho numa conferência académica acerca da congénita pieguice dos portugueses. Alguns desses portugueses, uns por osmose com catecismos de outros tempos, já em fase de morte assistida, outros por obrigação "revolucionária", outros por ressabiamento, outros porque uma ilusão de que l´air du temps ainda é o seu particular l'air du temps, esganiçaram-se num alvoroço de capoeira contra a recomendação da Passos Coelho. Devo dizer que não me surpreendeu a regulamentar halitosis ideológica propalada pelos chefes da esquerda "revolucionária" com assento parlamentar. No entanto, confesso que a má citação de Camões por Zorrinho, líder parlamentar do PS, me deixou boquiaberto. Seja como for, o 1º ministro acertou em cheio. Juntamente com a inveja, a fome social e o medo da cidadania, a pieguice é um dos sintomas mais graves da degenerescência nacional. Uma coisa é a luta individual, anónima, muitas vezes heróica, de milhões de portugueses, por uma vida digna. Isso é sério e intangível. Outra coisa é a sua caricatura: precisamente a pieguice. Ou seja, o hábito da queixinha, da eterna lamentação, da revolta desperdiçada, do papaguear de catecismos exóticos, decalcados do tempo em que a palavra ainda fundava o poder. Ou seja, um colete de forças letal. Tudo isto enquanto as guitarras tangem e se canta o fado...
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
domingo, 5 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Bolosfera
No interior da vasta galáxia blogosférica existe o planeta futebol. E dentro deste, o asteróide composto pelos blogues benfiquistas, benficófilos e afins. Alguns deles, e não por acaso, estão listados no sidebar deste blogue, em "SLB files". Embora tendo em comum a mesma paixão clubística, todos têm uma linha editorial diferente: ou mais alinhada com o discurso oficial, ou mais crítica em relação ao mesmo. Há também os outsiders, num registo mais irónico e desprendido, onde a marca identitária é claramente a do autor. Mas há um que é um caso especial. Trata-se do "Religião Nacional". Um espaço cujo autor apresenta como de "Crónicas liberais sobre o futebol português". O subtítulo não engana e, na primeira leitura, confirma-se o seu acerto. Um caso onde a paixão clubística não belisca em nada a lucidez, a clarividência e o rigor. O autor não procura a arrumação politicamente correcta, nem os casos de faca e alguidar do futebol. Mas consegue, paradoxalmente, trazer-nos as visões mais desassombradas, polémicas e descomplexadas. O autor escreve artigos, pequenos ensaios. Fora de causa está o comentário fácil, ou os recados que só a bajulação acomoda. Aqui não cabe a inveja social e humores ínvios, que muitos transportam clandestinamente para o futebol. E, de forma excelsa, fala-se deste por aquilo que realmente é: um jogo. Mesmo que com implicações políticas, cada vez mais extensas e muitas vezes opacas. Como exemplo, leiam isto.
A hora
Não. Fica-te, se queres, a ruminar o que foste. Eu parto ao encontro do que sou, do que já começa a ser, meu descendente e antepassado, meu pai e meu filho, meu semelhante dissemelhante. O homem começa onde morre. Vou ao meu nascimento.
Octavio Paz, "Velho Poema", in "Águia ou Sol", Hiena Editora, 1985 (trad. Rui Rosado)
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
6 anos
- O "Boca de Incêndio" faz hoje 6 anos. Parabéns! O que nos podes adiantar sobre a efeméride?
- Olha, tens aí uns trocos? Isto anda mal! Sobre a efeméride, pois... epá, seis anos, os anos de uma só mão!
- Não me digas que as tuas mãos têm seis dedos?
- Não sejas engraçadinho, ó entrevistadeiro! É claro que têm cinco! O sexto veio de um adiantamento da outra mão.
- Já estou a perder a paciência! Queres dizer alguma coisa sobre a data ou não?
- O importante é a rosa!... Sobre o blogue, olha, se faz seis anos já está em boa idade para ir desaprender alguma coisinha para a escolinha.
- E então?
- Então, acho que o Facebook fez estragos a sério na blogosfera. Houve quase que uma migração em massa. Eu tenho segurado este pelas pontinhas. Não sei até quando. Até já esteve para acabar... Mas consegui repartir o "mal" pelas aldeias. Em matéria de redes sociais, fica o FB para a notícia e o blogue para o comentário. O primeiro para a autofagia comunicacional e o segundo para as caminhadas onde o fôlego é tudo.
- E projectos?
- Vários. Mas um em especial, de âmbito literário, vai deixar em breve de ser surpresa. Olha, pagas-me um fino e uma sandocha de presunto?
A casa (22)
Esta noite invoquei todas as potências. Ninguém respondeu. Caminhei ruas, percorri praças. interroguei portas, sondei espelhos. Desertou a minha sombra, abandonaram-me as recordações.
A memória é um presente que nunca acaba de passar. espreita, colhe-nos de improviso entre as suas mãos de fumo que não soltam.
A água do tempo escorre lentamente neste vazio gretado, cova onde apodrecem todas as palavras hirtas.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Balanxo 2011
Como vem sendo hábito, pelo Ano Novo, o Américo Rodrigues convida uma série de figuras ligadas à Guarda, entre os quais o escriba, para escreverem um balanço da realidade local do ano que passou. Os vários depoimentos são depois publicados no seu blogue, "Café Mondego". Para abreviar o intróito, foi assim que "vi" a Guarda em 2011:
"Um apanhado do que na Guarda se passou no ano transacto tem que ser necessariamente breve. Realmente, não se passou grande coisa. Há anos que não se passa, a bem dizer, nada que suscite a curiosidade ou a comoção do cidadão médio. Neste desiderato, já se sabe e especial relação entre as excepções e a regra. Numa equipa de futebol normal, um treinador dura em média três anos. E sai quer por defenestação ou pelo pórtico da glória. Passado esse período, entra-se na fase da institucionalização, com o seu cortejo de vícios e compromissos. Na Guarda, os treinadores têm uma espécie de bênção vitalícia. Certos interesses instalados têm a caução da eternidade. Criaram, e bem, um pântano cívico, onde a vacuidade e o medo prevalecem. Luzindo na impunidade, a salvo do escrutínio, na adoração de si e dos cúmplices a que dedicaram os seus dias, atingiram a bem aventurança em vida. Os cidadãos estranhos ao círculo são mantidos na periferia, em resultado de uma cautela mansa, habilmente acumulada, que se serve sem servir. Estes têm, digamos, uma utilização decorativa: no todo, com funções legitimadoras, de pretensa higiene democrática, tropas prescindíveis; na parte, sem função alguma.
Por outro lado, o pecadilho da desatenção e um módico de prudência aconselham à brevidade. Impossível passar em revista, sem parcimónia, o que o ano trouxe à cidade. Ou seja, este é um balancete e não um inventário. Para minha tranquilidade e para não tomar ao leitor o seu precioso tempo. Assim sendo:
Para cima:
- Por uma questão de economia de espaço, subscrevo e incluo os activos culturais e cívicos já aqui assinalados.
- O precioso papel desempenhado pelo TMG na criação de uma massa crítica na cidade. O qual não passa só pela programação de espectáculos, como é sabido.
- O funcionamento razoável da ULS e do novo Centro de Saúde.
- A melhoria da rede de transportes urbanos
- As novas áreas comerciais.
- O novo traçado da linha Lusitânia Expresso (Lisboa - Madrid) via Beira Alta, com paragem na Guarda.
- As zonas verdes da cidade.
- O novo Hospital
Para baixo:
- Tudo o que se disse na introdução
- A venda não devidamente explicada do Hotel Turismo.
- Muitos pavimentos em estado lastimável e passeios construídos de forma errática.
- A não solução para o edifício do ex-matadouro e para os antigos Paços do Concelho.
- O pântano em que se tornou o CyberCentro (com a página oficial em manutenção ad aeternum) e as ligações políticas suspeitas da Guarda Digital.
- A fraca mobilização cívica para uma contestação às portagens nas ex SCUT que não passe pelo demagógico e simples “não pagamos”.
- A transferência de serviços para outras bandas e o anunciado fecho da maternidade.
- Os líderes políticos locais e os deputados eleitos pelo círculo.
- O estado deplorável de algumas zonas do Centro Histórico e da Praça Velha em particular.
- A situação preocupante do IPG
- O novo Hospital."
"Um apanhado do que na Guarda se passou no ano transacto tem que ser necessariamente breve. Realmente, não se passou grande coisa. Há anos que não se passa, a bem dizer, nada que suscite a curiosidade ou a comoção do cidadão médio. Neste desiderato, já se sabe e especial relação entre as excepções e a regra. Numa equipa de futebol normal, um treinador dura em média três anos. E sai quer por defenestação ou pelo pórtico da glória. Passado esse período, entra-se na fase da institucionalização, com o seu cortejo de vícios e compromissos. Na Guarda, os treinadores têm uma espécie de bênção vitalícia. Certos interesses instalados têm a caução da eternidade. Criaram, e bem, um pântano cívico, onde a vacuidade e o medo prevalecem. Luzindo na impunidade, a salvo do escrutínio, na adoração de si e dos cúmplices a que dedicaram os seus dias, atingiram a bem aventurança em vida. Os cidadãos estranhos ao círculo são mantidos na periferia, em resultado de uma cautela mansa, habilmente acumulada, que se serve sem servir. Estes têm, digamos, uma utilização decorativa: no todo, com funções legitimadoras, de pretensa higiene democrática, tropas prescindíveis; na parte, sem função alguma.
Por outro lado, o pecadilho da desatenção e um módico de prudência aconselham à brevidade. Impossível passar em revista, sem parcimónia, o que o ano trouxe à cidade. Ou seja, este é um balancete e não um inventário. Para minha tranquilidade e para não tomar ao leitor o seu precioso tempo. Assim sendo:
Para cima:
- Por uma questão de economia de espaço, subscrevo e incluo os activos culturais e cívicos já aqui assinalados.
- O precioso papel desempenhado pelo TMG na criação de uma massa crítica na cidade. O qual não passa só pela programação de espectáculos, como é sabido.
- O funcionamento razoável da ULS e do novo Centro de Saúde.
- A melhoria da rede de transportes urbanos
- As novas áreas comerciais.
- O novo traçado da linha Lusitânia Expresso (Lisboa - Madrid) via Beira Alta, com paragem na Guarda.
- As zonas verdes da cidade.
- O novo Hospital
Para baixo:
- Tudo o que se disse na introdução
- A venda não devidamente explicada do Hotel Turismo.
- Muitos pavimentos em estado lastimável e passeios construídos de forma errática.
- A não solução para o edifício do ex-matadouro e para os antigos Paços do Concelho.
- O pântano em que se tornou o CyberCentro (com a página oficial em manutenção ad aeternum) e as ligações políticas suspeitas da Guarda Digital.
- A fraca mobilização cívica para uma contestação às portagens nas ex SCUT que não passe pelo demagógico e simples “não pagamos”.
- A transferência de serviços para outras bandas e o anunciado fecho da maternidade.
- Os líderes políticos locais e os deputados eleitos pelo círculo.
- O estado deplorável de algumas zonas do Centro Histórico e da Praça Velha em particular.
- A situação preocupante do IPG
- O novo Hospital."
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
Breves (3)
1.Por causa de uma crónica a propósito da emissão do programa "Prós e Contras" a partir de Angola, o jornalista Pedro Rosa Mendes foi "dispensado" pela direcção de informação da RDP 1, onde colaborava na rubrica "Este Tempo" com as suas crónicas. O acto de censura resulta de uma crítica contundente ao espectáculo propagandístico oferecido à cleptocracia angolana e ao "nauseante e grosseiro exercício de propaganda e mistificação" (sic) do referido programa. Aqui poderão aceder à nota publicada no "Público", a propósito do tema.
2. As virgens ofendidas do costume andam indignadas por causa de um desabafo do Presidente da República acerca da sua reforma. É claro que Cavaco Silva pode ser criticado por vários motivos. Do meu ponto de vista, como homem educado no regime anterior, está demasiado marcado por uma prudência imobilista e incapaz de retirar peso ao Estado. É bom não esquecer que a deriva despesista que nos tem em apertos começou com ele. Seja como for, circulam pela net panegíricos inflamados condenando Cavaco à execração. Esquecendo talvez que o seu trunfo maior é a identificação com o português comum, que sobe a pulso, com sacrifício, avesso a rupturas. Nas redes sociais, o fait-divers com Cavaco atinge proporções pantagruélicas. Desde peditórios a músicas, há para todos os gostos. Mas vê-se também a arruaça de tasca, do tipo "segurem-me senão vou-me a ele". E com isto andamos a perder um tempo precioso. Que deveria servir para aproveitar a crise da única maneira possível: desfazermo-nos de hábitos consumistas e de um individualismo sem futuro. Novas formas de convivialidade, de participação cívica, de solidariedade. O caminho é esse. Não é continuar a dar importância aos mesmos actores de sempre.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Breves (2)
1. O Ministério Público prevê para este ano um aumento da criminalidade violenta. Jurem! Pensem bem! O que levou à crise não foi também uma forma de criminalidade? Suave, asséptica, pautada pelo rito oficial da democracia, ou seja, o sorriso regulamentar dos políticos. Dotada de um perfume hedonístico como álibi perfeito. Com carta branca para actuar, depois de anos e anos em que o bom povo, comovido com o anúncio da boa nova, deu o voto a quem pagaria os cheques e uma ilusão de prosperidade. Só espero que esta nova criminalidade, ao contrário da outra, não fique impune.
2. A polémica nomeação de Celeste Cardona para o C.G. da EDP já motivou uma reacção da visada. Ora, em jeito de balanço existencial, a criatura diz que “não foi ministra”, simplesmente desempenhou “um cargo ministerial”, não foi banqueira, “trabalhou na sua área de especialidade na CGD” e “não será conselheira da energia”, mas irá tão só "exercer as competências previstas no Regulamento do Conselho Geral da EDP". A jeremiada impressiona, mas não comove uma pedra, nem faria nascer no regaço de Isabel de Aragão uma única rosa. “En passant”, é bom lembrar que, no desempenho das supracitadas funções ministeriais na pasta da Justiça, esta senhora, autêntico gremlin da política nacional, cometeu o maior crime de lesa majestade na área, desde os memoráveis tempos do prof. Varela opinando sobre a dissolução dos costumes devida ao surgimento do divórcio em 1977. Refiro-me à reforma da acção executiva, hoje transformada num pantanal povoado por crocodilos vorazes (os agentes de execução) e de onde é muito difícil sair. A nova conselheira é pois um caso de sucesso. Provando que a estupidez, para além de atrevida, também é multidisciplinar no seu "desempenho".
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Breves (1)
1. Talvez graças a algum desígnio celeste, as edições dos jornais "A Bola" e "Record" do dia 16 deste mês tinham exactamente o mesmo título em destaque na capa: "O título por um canudo". A notícia referia-se ao jogo do dia anterior entre Braga e Sporting. O propósito, como já adivinharam, foi óbvio: criar um trocadilho de circunstância. Coincidência? É pouco crível. Ou seja, tão provável como acertar no euromilhões à 1ª. Concorrência desleal? Conhecerem ambos os directores as capas do concorrente e lançaram-se numa corrida frontal para ver quem se desviava 1º do choque? Será que os respectivos corpos redactoriais têm poderes telepáticos? Simples incompetência? Falta de imaginação? Aceitam-se mais sugestões...
2. A sigla SOPA designa uma proposta que recentemente foi rejeitada no Congresso americano, onde seria permitido às autoridades federais encerrarem sites, imporem regras apertadas ás redes sociais e devassarem o tráfego na Web, sob o pretexto da luta contra a “pirataria”. Um vídeo ilustrativo pode ser acedido no Youtube, em . A proposta em discussão revela todo um programa. No limite, um angélico clip de um bébé editado no Youtube pode ser censurado só porque se ouve uma música de fundo protegida por "direitos" de "autor". É a permissão para actuar dada a um novo Santo Ofício cibernético, que vela pelos interesses pouco santos da indústria de conteúdos. É o terror, a delação, a auto-censura, a vigilância dos novos zelotas que irão pôr em causa a própria internet. A fome de lucros da indústria encontrou um aliado precioso na agenda oculta do Poder. Nunca como neste caso ficou tão nítida a divergência entre a partilha livre de ideias, acções e objectos de cultura e os interesses das multinacionais e seus capatazes encarregues do lobbing. Depois desta tentativa abortada, o Megaupload (o maior sítio de descargas da web) foi encerrado por ordem do Estado da Virgínia, a pedido da holding Universal. As corporações não desmobilizam, como se vê. Todavia, no final, ver-se-á quem ganha a guerra.
sábado, 21 de janeiro de 2012
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Música
O Universo é um ruído a converter-se em harmonia, um corpo a mostrar a alma.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
A casa (21)
Não há ninguém acima, nem abaixo; não há ninguém atrás da porta, nem no quarto vizinho, nem fora da casa.
Para quê gravar com um punhal ferrugento sinais e nomes sobre a pele reluzente da noite?
sábado, 7 de janeiro de 2012
Sempre a Amante Ultrapassa o Amado
O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A sua dificuldade reside no que é complicado. A própria vida, porém, tem a dificuldade da simplicidade. Só tem algumas coisas de uma dimensão que nos excede. O santo, declinando o destino, escolhe estas coisas por amor a Deus. Mas que a mulher, segundo a sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, isso evoca a fatalidade de todos os laços de amor: decidida e sem destino, como um ser eterno, fica ao lado dele, que se transformará. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. A sua entrega quer ser sem medida: esta é a sua felicidade. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: exigirem-lhe que limitasse essa entrega.
Rilke, "As Anotações de Malte Laurids Brigge"
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
A casa (20)
Damos voltas e voltas no ventre animal, no ventre mineral, no ventre temporal. Encontrar a saída: o poema.
Pelas ameias da tua fronte o canto alvorece. A justiça poética incendeia de opróbio: não há sítio para a nostalgia, o eu, o nome próprio.
Falar por falar, arrancar sons à desesperada, escrever o que diz o vôo da mosca, enegrecer. O tempo abre-se em dois: hora do salto mortal.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Palavras de que gosto
"Doravante". Um dos advérbios menos utilizados da nossa língua. Uma tremenda injustiça. Pois o termo, para além de uma peculiar musicalidade, resulta provavelmente de uma corruptela, ou seja, uma forma abreviada de "daqui em diante". Uma evolução que não precisou de nenhum "acordo" "ortográfico" ou alarvidade semelhante. Para colmatar a injustiça, sirvo-me dela abundantemente. Especialmente em requerimentos forenses. "Daqui em diante", "daqui para a frente", "futuramente", têm o selo de uma arrogância potestativa, de um furioso dedo em riste. Ao invés, "doravante" soa quase a um recado cúmplice, sem que isso lhe retire a firmeza...
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