Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Stalker

As portagens (2)

Sob o título "Contra Lisboa, Marchar, Marchar", o último editorial do Jornal "O Interior" (08.12.2011) situa de forma acertada a questão das portagens electrónicas, recentemente activadas nas ex SCUT. O texto pode aqui ser lido na íntegra.

Uma nota, a propósito. É consensual a condenação de como e quando as portagens foram impostas e anunciadas. E do silêncio ensurdecedor dos responsáveis políticos locais. Sobretudo, aquele que veio dos deputados eleitos pelo distrito. Mas, como o director do jornal refere, há que tirar também algumas conclusões sobre a forma como o debate foi conduzido e a contestação foi feita. Neste caso prevaleceu o simples e demagógico "não pagamos". Algo que, embora compreensível, não deveria tomar o lugar da razoabilidade e do bom senso. Sabendo-se até que o pagamento seria inevitável, mais cedo ou mais tarde. Isto é, deveria ter havido uma concertação prévia, cuja ordem de trabalhos passaria pela criação de outras formas de pagamento e da tal tarifa "social" para o interior, a extensão das isenções, etc. A entidade negociadora poderia ser uma uma comissão formada ad hoc por autarcas das regiões envolvidas, agentes económicos e representantes dos utentes. 

Coisas doces


Este é o nirvana possível ao alcance de todos. O verdadeiro Satori na/da beira-Serra. Para combinar as respectivas e excelsas matérias-primas, há quem diga "com". Eu prefiro "e". Na verdade, substituir a preposição pela conjunção redunda num excitante benefício para a degustação semântica. E a papilar, já agora. Tanto mais que se trata de uma preposição... aditiva. Reparem na foto. No aluvião polissacarídeo a escorrer pela alva montanha, até beijar o vale.  Pronto, não é ainda a 8ª maravilha do mundo... Até ser provado pela 1ª vez... Senhoras e senhores, eis o "Requeijão & Doce de Abóbora"!!!

Sarebbe bello vivere una favola - 22

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

As portagens (1)

Quem circula nas 4 ex SCUT - A22, A23, A24, A25 - já sentiu o impacto nas suas contas bancárias das taxas a pagamento desde 8 do corrente. Mas a história ainda vai a meio. A indignação dos utentes e dos cidadãos residentes nas zonas afectadas não irá parar de crescer. As providências cautelares e as acções de protesto multiplicam-se. O entupimento das alternativas (que em rigor não o são em grande parte do percurso, onde o traçado das auto-estradas coincide com o das antigas IP), a confusão total nas fronteiras e postos de venda, a forma vergonhosa como o pós pagamento é feito (nos correios e nos 2 ou 3 pay shops existentes), sem a possibilidade de ser efectuado por MB, mediante referência obtida online, o caos no pagamento de viaturas estrangeiras, são tudo indícios de um autêntica extorsão aos cidadãos/utentes e uma ignomínia para quem nisto consentiu. Até porque não houve nenhum tipo de debate público sério sobre o tema. E muito menos houve qualquer responsabilização política ou criminal dos responsáveis por esta trapalhada. E há razões mais do que suficientes para isso. Como se sabe, as portagens resultam de uma negociação mal feita entre o Estado e as concessionárias. Que culminou na alteração do contrato de concessão, em finais de 2009, quando era Secretário de Estado da tutela Paulo Campos. O mesmo que, sem pestanejar, foi eleito no ano seguinte deputado pelo PS no círculo da Guarda. O objectivo da parceria è óbvio: abrir o caminho para a Ascendi & Cia começar a facturar, rapidamente e em força. E quem iria pagar a conta? Os cidadãos e empresas das zonas mais debilitadas do país, naturalmente. O ponto mais fascinante das alterações produzidas diz respeito à fixação de uma "compensação", a ser paga pelo Estado às concessionárias. Uma espécie de quota de disponibilidade, no valor de vários milhões por ano, liquidada mesmo que nenhum veículo passe pelas "SCUT". O caso é grave e configura vários tipo de ilícito. Nomeadamente participação económica em negócio e administração danosa. O Ministério Público já deveria ter aberto um ou vários inquéritos aos governantes e deputados da Comissão respectiva que negociaram as alterações ao contrato de concessão. Até porque alguns deles tinham interesse directo no negócio, como é sabido...

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

O gajo armado em frankenstein

A mulher objecto

Chama-se "Moeda de Troika". É um programa que passa na RTP I aos domingos à noite. Os convivas são o Herman, a Rita Ferro e uma barbie patetita, tanto quanto sei ligada à moda, mas cujo nome ignoro. Os primeiros fazem as despesas da conversa e marcam o ritmo do programa. Nota-se que ignoram militantemente a terceira. Que de vez em quando "entra" na conversa. E como? Emitindo inanidades diversas, umas vezes repetindo o que ouve, outras fazendo comentários à propos. Num registo de jovialidade esforçada, cujo trade off com algum vestígio de inteligência é mais do que remoto. E faz isto enquanto mexe as pestanas falsas e abana discretamente o decote. Ou seja, Herman e Rita "fazem" o programa. A nossa barbie decora-o. Os primeiros, com polidez, fazem de conta que ela não existe. A segunda valida a sua existência com uns esparsos sms vocais. "Escritos" no jargão apropriado.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Lido

Churchill chorava quando, durante o blitz e sendo aclamado e adorado pela população, visitava as zonas bombardeadas e via as casas destruídas e imaginava o que passariam os east enders pobres e ainda por cima desalojados; Soares, pelo seu lado, fica 'bem disposto' por ter uma manifestação de apoio no aeroporto antes do exílio, indiferente ao facto de os manifestantes serem mimoseados com uma carga policial.

Maria João Marques, no "Cachimbo de Magritte"

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Momentos Zen - 64

Não são as nossas preferências que criam problemas, mas sim o nosso apego a elas.

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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

sábado, 26 de novembro de 2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A poesia aqui tão perto


Da Guarda não saíram, tenho essa amarga suspeita, os melhores poetas da nossa história. No entanto, muitos por ela passaram e não ficaram insensíveis à sua singularidade. Sendo alguns de primeiro plano, é justo dizê-lo. O peso do granito, a densidade da paisagem, a linearidade dos gestos não constituem, na aparência, um apelo poético com um módico de grandeza. E na verdade não são. É que, na Guarda, é bem possível que as contas poéticas não se rejam pela tabuada vulgar. É praticamente certo que a ausência de uma "decoração" confortável, de musas em águas tépidas, de rios que dilaceram e incessantemente criam, de embalos mais gingões, de uma doçura concertada, obriguem a um trabalho suplementar. Não para descobrir coisas onde elas não estão. Não para as esconder. Mas simplesmente chamar a atenção para que a sua única realidade é não serem mais do que aquilo que parecem. Uma poesia assim obtêm-se mais pelo despojamento do que pelo esforço. Mais pela evidência da matéria do que pela sua contemplação. Mais pelo aconchego do que pela dissolução. Mas não é caso para pessimismos. Bem pelo contrário. A prová-lo, está este espectáculo. Uma espécie de balanço poético da cidade, onde são convocadas várias linguagens artísticas, vários autores e várias gerações. Com a poesia no centro do eixo da gravidade. E a Guarda como berçário dos lugares da sua percepção. Em suma, um espectáculo que a coloca exactamente no centro das qualidades poéticas que dela irradiam. Ou se preferirem, uma visita guiada, multidisciplinar, por uma espécie de neo Penalva sibilante e encantatória. Por favor, não façam cerimónia...

Esta produção do TMG conta com a coordenação e encenação de Américo Rodrigues, sendo a selecção de textos da responsabilidade deste vosso criado. Por sua vez, o guião foi criado por ambos, em co-autoria. O lote escolhido inclui autores como Alberto Dinis da Fonseca, António Monteiro da Fonseca, Augusto Gil, D. Sancho I, Eduardo Lourenço, João Bigotte Chorão, João Patrício, José Augusto de Castro, José Manuel S. Louro, José Monteiro, Ladislau Patrício, manuel a. domingos, Miguel Torga, Osório de Andrade, Pedro Dias de Almeida, Políbio Gomes dos Santos, entre outros. No palco, como protagonista /narrador, estará José Neves, actor residente do Teatro Nacional D. Maria II. E estarão também músicos e dançarinos. Haverá projecção de um filme e diversos vídeos produzidos especialmente para o espectáculo. Para mais informações, poderão consultar o blogue do TMG.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

O que é

No planeta há montes, campinas, rios, lagos, etc., mas não há qualquer paisagem.

Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny

A casa (18)

 Estou parado no meio desta linha / não escrita

 Acesa a árvore estremece / Já a noite a circundou / Ao falar com ela falo contigo

Na outra margem o sol cresce / ao contrário

sábado, 19 de novembro de 2011

Lido

"Aquele que pensa em grande tem de errar em grande», disse Martin Heidegger, o teólogo-parodista dos nossos dias (empregando-se o termo «parodista» no seu sentido mais sério). Também aqueles que pensam «em ponto pequeno» podem errar em grande. Esta é a democracia da graça celeste, ou da danação."


Steiner, George (2009), Errata: revisões de uma vida, Relógio D'Água.

Por este rio abaixo

Descobri hoje, via Facebook, este excelente documentário, da autoria de Daniel Pinheiro. E que tem como tema central o rio Mondego, ao longo do seu percurso de 230 Km. Cujo curso superior conheço muito bem. Não podia deixar pois de partilhar estas imagens com os leitores neste espaço. Boa viagem.

Daniel Pinheiro on Vimeo.

Carinha nova

Quem não aceder ao blogue pela primeira vez, reparará  na sua nova apresentação. Com efeito, à semelhança do que tem acontecido em ocasiões anteriores, alterei o layout. A "operação plástica" tem sido, digamos, sazonal. Procurando sempre manter o essencial e privilegiando a coerência gráfica. Espero tê-lo conseguido, mais uma vez.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A casa (17)

 Fala deixa cair uma palavra

 Invisíveis pássaros / Feitos da mesma substância da luz

A infância com suas flechas e seu ídolo e sua figueira

Juventude em marcha

 A revista "Sábado" acaba de efectuar um teste rápido a um painel de 100 alunos de vários estabelecimentos de ensino superior de Lisboa. Ou seja, um vídeo onde são feitas cerca de 12 perguntas de algibeira a que um aluno do 9º ano deveria responder sem hesitações. Contudo, os resultados são verdadeiramente alarmantes e deveriam fazer corar de vergonha os responsáveis pela situação. Alguns exemplos: 
1. Os Maias foram escritos "por um tipo chamado Egas", ou por "aquele que morreu há pouco tempo". 
2. O símbolo químico da água é o PH0. 3. Manoel de Oliveira é escritor, maestro e... cinematógrafo. 
4. Leonardo Di Caprio pintou a Mona Lisa. 
5. Durão Barroso não é, "de certeza", o Presidente da Comissão Europeia. Ou não será antes "aquele francês cujo nome não me lembro"? 
6. A capital dos EUA é variável: Nova Iorque, a Califórnia, ou mesmo... a Inglaterra
7. Vasco Santana protagonizou "O Padrinho", sendo Marlon Brando "um grande escritor". 
8. A Chanceler alemã não é o Mel Gibson "de certeza". Ou então, não será a "merc.. merc... qualquer coisa"?
9. Miguel Arcanjo pintou o tecto da Capela Sistina. 
10. O director da Microsoft ´"foi o senhor que morreu há pouco tempo, Bill qualquer coisa..." 
11. Moisés ou os Apóstolos escreveram o "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Um não sabe porque "não é católico". Outro alvitrou "ninguém", ou mesmo "não sei, pois já foi há muitos anos". Bom, uma coisa é certa: "não foi o Saramago", afirmou alguém... 
Por outro lado, muitos não ligam a "essas coisas" como artes, literatura, religião, política, cinema, informática e cultura geral. Balelas, claro! Em suma, este vídeo bem podia ser um sketch dos "Gato Fedorento". Mas infelizmente não é, superando assim os piores pesadelos. Trata-se da ilustração de como a ignorância pode ser realmente pornográfica. Aposto que grande parte deles foram mesmo "bons alunos" no secundário. O problema não está só no processo de Bolonha. Está no famoso e (aparentemente) premiado sistema de ensino em Portugal. Onde pontuam luminárias desejosas de pôr em prática teorias pedagógicas que ninguém entende, incompetentes de diversa ordem e ilustração, o "deixa andar", o facilitismo. Não vi melhor prova até hoje onde pode levar a obsessão pelo (in)sucesso escolar, o investimento num monstro insaciável que se alimenta de si próprio: à ignorância mais miserável.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A casa (16)

 Contra a água, dias de fogo. / Contra o fogo, dias de água.

A luz despenha-se, / as colunas acordam / e, sem se moverem, dançam.

 A hora é transparente: / se o pássaro é invisível, vemos / a cor do seu canto.

Momentos Zen - 62

Quando nada podes fazer, que podes fazer?

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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Acidente poético fatal

Américo Rodrigues volta à poesia "escrita", após as suas estimulantes deambulações pela poesia sonora. Há quem diga spoken words, mas o significado das designações não é exactamente o mesmo. A obra reúne textos publicados no seu blogue pessoal, "Café Mondego". Os quais reflectem algumas das obsessões poéticas caras ao autor: a perda, o corpo, a dilaceração das certezas, o apelo indesmentível da matéria, o fulgor das onomatopeias, o grito, as memórias ardentes, a corrosão, as baterias assestadas à loucura da "normalidade".  Ingredientes agora temperados com uma ironia nova, visceral. E vestidos com algumas inovações ao nível da forma, sobretudo do ritmo, que surpreenderão certamente alguns. Suspeito que, com estas liberdades, o autor transportou para a poesia "convencional" a sua experiência performativa na poesia sonora, o apego a sonoridades cadenciadas e guturais.
 "Acidente poético fatal" é editado pela Associação Luzlinar, sendo a capa e paginação de Tiago Rodrigues. A apresentação decorrerá na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, a 17 de Dezembro, pelas 18 horas. Está prevista a leitura pública de alguns poemas, pelo autor, no Café Concerto do Teatro Municipal, pelas 23.00h.

Teorias

A mais recente obra poética de manuel a. domingos estará disponível a partir da próxima semana. O autor poderá ser contactado a partir do seu blogue. Trata-se de uma edição com tiragem única de 100 exemplares. Aguardo pela sua leitura.
manuel a. domingos é natural de Manteigas. Vive em Coimbra. É professor. Iniciou a sua carreira literária no DNJovem, onde foi colaborador.  Publicou Entre o Silêncio e o Fogo (poesia, 2002) Mapa (poesia, 2008) e Eu queria encontrar aqui ainda a terra, (teatro, 2009, em parceria com este vosso criado). Traduziu Xavier Queipo, Árctico (2009), Ethelbert Miller (2010) e Charles Bukowski, Ham On Rye: Pão com fiambre (2010). Poderá aqui ser consultada um entrevista sua ao portal PTNET literatura, em 05.10.2010.

Dois pesos, duas medidas (2)

(continuação)
Por outro lado, a administração da RDP, por instâncias do Governo, decidiu suspender, desde 1 de Junho, a emissão em onda curta do serviço internacional. Chamado a prestar declarações à Comissão para a Ética, Cidadania e Comunicação da Assembleia da República, o Ministro da tutela, Miguel Relvas, veio justificar a medida. Para o efeito, baseou-se em três argumentos: redução de custos, sendo a onda curta uma "tecnologia obsoleta e muito cara" (sic); baixos índices de audiência, conclusão retirada da ausência de protestos pela interrupção circunstancial da emissão nessa frequência, devido a uma avaria, ocorrida anteriormente; por último, ser o fecho da onda curta uma prática seguida por estações radiofónicas de referência, dando na circunstância o exemplo da Deutsche Welle. Entretanto, o tema mereceu forte contestação da comissão de trabalhadores da RDP e da oposição parlamentar. Por seu turno, o Provedor do Ouvinte da RDP, Mário Figueiredo, tem contestado energicamente a decisão. Quer nas suas comunicações difundidas nas emissões, quer na audição junto da Comissão referida da AR. Onde chegou a afirmar que o encerramento do serviço tinha por detrás a especulação imobiliária dos terrenos onde funciona o emissor. O Provedor desmontou, um por um, os argumentos do Ministro. A saber:  
1º a emissão em onda curta não custa, nem de perto nem de longe, o que diz Relvas. Se se quer reduzir nos custos, não é fechando uma emissão que decorre da própria concessão de serviço público e que é um imperativo constitucional. Até porque, há dois anos a empresa fez um investimento considerável no emissor de Pegões. Não foi certamente pensando em encerrá-lo a seguir.
2º  A avaria mencionada foi breve e só privou da audição das emissões uma pequena parte de África. Não se esperaria que o facto motivasse uma manifestação dos cidadãos prejudicados à frente da sede da Administração da RDP. A alegada ausência de protestos vale pois o que vale.
3º É falso que a Deutsche Welle tenha encerrado as emissões em onda curta. Pelo contrário, desde há pouco, dispõe igualmente de emissões em português. A BBC segue as mesmas pisadas,desconhecendo-se qualquer desinvestimento na matéria por parte deste colosso.
4º O universo alcançado pela RDP Internacional abrange as comunidades nacionais pelo mundo e os países lusófonos. Significa isto que a audiência é vastíssima. E que, caso se concretize o fecho da emissão, ficará, em muitos casos, privada do único meio disponível de informação e de ligação a Portugal. Trata-se pois de um serviço público na acepção plena do termo: insubstituível, intransmissível e universal. E sobretudo de um poderosíssimo meio de difusão da língua e cultura nacionais. O seu fim é um verdadeiro crime.

O cantil do gajo

Dois pesos, duas medidas (1)

Duas recentes medidas gevernamentais merecem total repúdio. Em comum, têm por trás o Ministro Miguel Relvas,  bombeiro de serviço / eminência parda deste executivo.
A primeira delas foi a extinção liminar da Inspecção-Geral da Administração Local. Trata-se do único órgão com competência fiscalizadora plena das autarquias. Ou como se diz na página respectiva, tem como objecto "o exercício da tutela administrativa e financeira a que se encontram constitucionalmente sujeitas as autarquias locais". A motivação da medida é óbvia. O emagrecimento das transferências financeiras, as restrições ao endividamento das Câmaras, a diminuição de vereadores e a fusão (para já) de Juntas de Freguesia não foram propriamente boas notícias para o Poder Local. Os lobbies respectivos, com o inefável e eterno Ruas à frente, mexeram logo os cordelinhos para suavizar a dieta. Nem que fosse para ocupar os batalhões de funcionários que se passeiam pelos edifícios camarários por esse país fora. Muitos deles recrutados graças a fidelidades partidárias e clientelares. Logo na primeira investida, o Governo cedeu no mais óbvio: ir desencantar receitas extraordinárias. E onde? Ao IMI, naturalmente. O imposto passa agora a ser arrecadado pelas Câmaras. Adivinhem o que veio a seguir. Exactamente. Aumentou a taxa que incide sobre os imóveis actualizados já no próximo ano. De uma assentada, matam-se assim dois coelhos. Ou seja, por um lado, satisfaz-se o apetite voraz das autarquias, em jeito de prémio de consolação. E quem paga a festa? Os proprietários dos imóveis, é claro. Cuja esmagadora maioria é constituída por cidadãos com modesta capacidade económica. E que vêm no escasso rendimento que obtém do património um justo retorno das poupanças que investiram. Muitas vezes fruto de uma vida de trabalho. E que já foram sucessivamente objecto de taxação. Ao agravar a pressão fiscal sobre o património, para satisfazer clientelas autárquicas, o Governo andou pessimamente. Continuando a alimentar os vícios públicos com as virtudes privadas. Por outro lado, com a extinção da IGAL oferece às autarquias o "prémio" da abertura das portas da impunidade e do afrouxamento do escrutínio público. Adivinha-se o regabofe que aí vem. Por sinal, o Presidente do IGAL, juiz-desembargador Orlando dos Santos Nascimento, publicou no site respectivo uma carta com a sua posição, fortemente crítica da extinção do serviço. Pois o Ministro demitiu-o e fechou o site, criando um novo, para que ninguém acedesse à carta. Mesmo assim, mão amiga fez-me chegar o documento. O qual, graças à sua frontalidade e clareza, merece aqui uma leitura atenta.
(continua)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A casa (15)

 Imóvel /entre os altos girassóis / és / uma pausa da luz

 O mundo é verdadeiro / Vejo / habito uma transparência

O dia / é uma grande palavra clara / palpitação de vogais

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O homem que não viu passar os comboios

Como muitos já descobriram pelos piores motivos, hoje há greve nas empresas públicas de transporte de passageiros e mercadorias. Esta precisão é importante, pois não tenho conhecimento que nas empresas privadas de transporte rodoviário o mesmo tenha acontecido. Desta vez, com a particularidade de, no caso da CP, alguns comboios já terem parado na véspera. Mais uma vez, boa parte do país parou. Sobretudo nas grandes cidades. Isto porque um número considerável dos trabalhadores dessas empresas (com emprego estável e que estão longe de viver na miséria, é bom lembrar), através dos seus "representantes" sindicais, resolver ir prá frente com mais uma "jornada de luta". As razões invocadas são basicamente a reestruturação do sector e o pacote de austeridade da troika. Medidas que a esmagadora maioria do país encara como "males" necessários. Prejudicados? Os mesmo de sempre. Sendo grande parte trabalhadores. Para os quais fazer greve é, precisamente, um luxo... Bom, mas pelo meu lado, não me posso queixar. Em 10 minutos a pé estou onde é preciso na cidade. Enfim, vantagens de viver na província... A juntar ao rol que num destes dias hei-de publicar.

sábado, 5 de novembro de 2011

A silhueta do gajo

Arrumações

que estás aqui a fazer? saí de casa. mudaram de local. as instalações, caros clientes e amigos. para onde para onde? querida, vamos começar a ver casas? essa frase é minha. sou só sem nada, sou só sem nada, tatatararara raran. não é nada filho, não é nada, é só o terror a descer devagarinho, a escorrer pelas paredes. ai, agora temos tudo só para nós. vocês sabem lá! quero chegar depressa, quero chegar depressa, a sede no deserto e tal. afinal o que somos devêmo-lo a isso, à... e também ao... aos... pois. a isso. olha, vamos dormir querida, sim? ao cansaço, sim ao cansaço. e foi a minha vez de fazer uma surpresa. a sério?

A casa (14)

 O poema ainda sem rosto / O bosque ainda sem árvores / Os cantos ainda sem nome

 Mas já a luz irrompe com passos de leopardo

E a palavra levanta-se ondula cai / E é uma longa ferida e um silêncio cristalino

Os gregos

Tenho recebido algum junk mail e lido comentários enaltecendo as virtudes da capacidade de contestação dos gregos, face às medidas de austeridade. O evidente propósito desta prosa é, a contrario sensu, realçar pela negativa um alegado conformismo nacional, face a idênticas medidas, tomadas no âmbito do acordo da troika. É com esta vulgata populista que muitos se entretêm e decidiram entreter os outros. Ou seja, derramar lágrimas pela perda de uma fatia dos rendimentos pelos trabalhadores por conta de outrem. Estes incontinentes são os mais fidedignos cães de guarda de um edifício que já ninguém pode pagar. Porque o sector privado produtivo já não gera riqueza que suporte o chamado estado social. Um colosso que certamente nos ancora numa zona de conforto de onde é penoso sair. Mas que, provavelmente, serão ainda os nossos bisnetos a pagar. Obviamente, a lição grega é fundamental para sabermos para onde queremos ir. Diria mais. Se queremos ou não conservar a soberania. Ficámos a saber, por exemplo, que a dimensão dos protestos na rua é indiferente: limita-se a criar ondas de fumo espalhadas pelos media e ocupar os analistas de serviço. Que a abordagem feita ao "caso grego" (que está longe de ser o "milagre" dos tempos helénicos) é puramente empírica - de sujeito para sujeito, de favor - ou convencional - do sujeito limitado pelo objecto. Longe uma visão que compare, que enquadre, que realce o que (ainda) lá não está. Tal e qual como na apreciação que se faz de um objecto artístico. Os gregos já perderam muito mais do que nós. Tanto mais que lá o descontrolo das contas públicas era crónico e "colossal". E o clientelismo um modo de vida, numa cleptocracia tolerada por Bruxelas e Berlim. Arriscam-se agora a serem banidos da zona euro. Portanto, cada vez têm menos a perder. E nós?

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Stalker

A fábula do pavão

A escola do filho de Sócrates em Paris: ex-primeiro-ministro foi posto na ordem em França.  É este o título de uma história deliciosa ocorrida recentemente na escola frequentada pelo filho do ex primeiro ministro. Contada por Paulo Pinto Mascarenhas na coluna "Correio Indiscreto", no "Correio da Manhã". Há um célebre ditado onde se diz que "burro velho não aprende línguas". Pelos vistos, Sócrates nunca irá perder os seus traços de carácter mais detestáveis. Tolerados durante demasiado tempo por um país que levou à ruína. Saibam aqui todos os pormenores.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A casa (13)

 O salto da onda / mais branca / cada hora / mais verde / cada dia / mais jovem / a morte

 Os lábios e as mãos do vento / o coração da água

A meio da noite / verte, / no ouvido de seus amantes, / três gotas de luz fria.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Fruta da época

Lido

A primeira consequência da publicação da notícia da tentativa de Sócrates em influenciar o voto no OE2012 é que António José Seguro optará pela abstenção. Não existe outra possibilidade pois, se votasse contra, a sua liderança ficaria abalada pela dúvida sobre, afinal, quem manda no partido. A segunda consequência é o desgastar crescente da liderança de Seguro, aproximando-se cada vez mais o dia em que subirá à liderança um dos fiéis do socratismo.

Alexandre Homem Cristo, em "O Cachimbo de Magritte"