quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Lido
(clicar para aumentar)
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
A casa (12)
Sol-coração, pedra que lateja, / pedra de sangue que se torna fruto: / as feridas abrem-se a não doem, / minha vida flui semelhante à vida.
E agora, meus olhos cantam. Inclina-te sobre o seu canto, lança-te à fogueira.
Surgem / uns tantos pássaros / e uma ideia negra.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
A ração
Longe vão os tempos da 1ª República. Mas a tropa anda irrequieta com a perspectiva da ração diminuir e começarem as marchas forçadas. E está disposta mesmo a vir para a rua. Parodiando um daqueles desfiles do tipo pronunciamento, tão em voga naquela época. Só que desta vez à paisana, como manda a lei. E repare-se no discurso do porta-voz dos insurgentes, bem à medida do populismo de vão de escada: "vão mas é sacar a esses malandros dos bancos, a culpa é do Governo"..., etc. Sem lhes passar sequer pela cabeça que, em vez de atacar quem é parte da solução, deveriam era voltar-se para os verdadeiros responsáveis pelo problema: os políticos que conduziram o país ao abismo.
sábado, 22 de outubro de 2011
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Hora de ponta
Na Guarda existem alguns dos micro entupimentos de trânsito mais bizarros e estúpidos a que já assisti. Como exemplo, aquele que presenciei anteontem à tarde, junto à escola EB Santa Clara (vulgo ciclo preparatório), à hora da saída. Para quem não sabe, o cenário é uma pequena rotunda onde confluem três vias e o trânsito é mais do que fluido. Pois durante meia hora, no período em questão, havia carros estacionados em 3ª fila, pilotados por papás esperando a saída dos rebentos e receosos que os mesmos andassem mais do que 100 metros! Ora, depois da colecta, como todos queriam sair ao mesmo tempo, gerou-se o caos na rotunda. O trânsito ficou literalmente bloqueado! Nem para trás nem para a frente! Com muitas apitadelas pelo meio e valendo o desenrascanço de circunstância. Eu ia de passagem e fiquei 5 minutos apanhado naquela rede. E nem um polícia sequer para pôr um pouco de ordem nesta "cacofonia", como diria Cavaco. Devem andar mais preocupados em reprimir os "tumultos" e defender as "regalias" de classe...
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
A casa (11)
Caio e ergo-me, / ardo e afogo-me.
Não sou mais que uma pausa entre duas vibrações: o ponto vivo, o agudo, imóvel ponto fixo de intersecção de dois olhares que se ignoram e se encontram em mim.
Sou o espaço puro, o campo de batalha. Vejo através de meu corpo meu outro corpo.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Não às portagens!
Agora parece que é mesmo. Vêm aí as portagens na A23 e A25. Já que os argumentos da racionalidade económica e da coesão nacional não deram frutos, é preciso continuar a luta por outras formas. O interior não pode desaparecer do mapa. Portanto, vamos todos assinar a petição a enviar ao Primeiro-Ministro. Está aqui.
sábado, 8 de outubro de 2011
O prémio
O Governo decidiu suspender os prémios aos melhores alunos do secundário, no valor de 500 Euros. A medida foi anunciada cinco dias antes da entrega dos prémios, cerimónia prevista para o dia 1 de Outubro. O Ministro da Educação justificou a decisão, prometendo que essa verba será "atribuída a projectos de escola, a projectos de apoio aos alunos e não devemos estar simplesmente a distribuir dinheiro". Não podia estar mais de acordo. Poder-se-ia levar esta filosofia de acção um pouco mais longe. Estou-me a lembrar dos generosos subsídios concedidos a associações de estudantes, quer do ensino secundário, mas sobretudo do superior. E também, de um modo geral, às associações juvenis do mais variado tipo que são financiadas pelo IPJ, sem nenhum tipo de supervisão dos gastos. Ou então, se ela existe, é puramente retórica. E acreditem que sei do que estou a falar. Ou seja, esta pródiga subsidiação da juventude, que só obscuras razões - maxime a manutenção e fixação de clientelas eleitorais - explicam a persistência num período de vacas magras, devia acabar de vez. Apertando-se nos recursos financeiros disponíveis e nos critérios utilizados.
Relativamente ao episódio dos "prémios de mérito", gostaria ainda de acrescentar algumas reflexões. Qualquer aluno, seja do ensino público ou privado, deveria ter presente que ter boas notas não é mais do que a sua obrigação. E que se forem mesmo muito boas, basta o prémio da sua satisfação e da que proporciona à sua família. Traduzir isso em expressão monetária, com o aval do Estado, é ir por caminhos perigosos. Sobretudo sabendo-se que o actual sistema de ensino prima pelo facilitismo e pela descida da bitola da excelência, atendendo à menorização dos bons alunos, em benefício dos outros e dos "casos problemáticos" e ainda às sacrossantas estatísticas do (in)sucesso escolar. Por outro lado, ser bom aluno, sobretudo no ensino secundário, não quer dizer necessariamente ter as melhores notas. Significa que existe um equilibro entre a expansão do conhecimento e o crescimento como pessoa e como cidadão. Significa que, a haver prémios, não deveriam ir para os marrões, mas para os que sobressaíram enquanto unidade compósita de competências.
Relativamente ao episódio dos "prémios de mérito", gostaria ainda de acrescentar algumas reflexões. Qualquer aluno, seja do ensino público ou privado, deveria ter presente que ter boas notas não é mais do que a sua obrigação. E que se forem mesmo muito boas, basta o prémio da sua satisfação e da que proporciona à sua família. Traduzir isso em expressão monetária, com o aval do Estado, é ir por caminhos perigosos. Sobretudo sabendo-se que o actual sistema de ensino prima pelo facilitismo e pela descida da bitola da excelência, atendendo à menorização dos bons alunos, em benefício dos outros e dos "casos problemáticos" e ainda às sacrossantas estatísticas do (in)sucesso escolar. Por outro lado, ser bom aluno, sobretudo no ensino secundário, não quer dizer necessariamente ter as melhores notas. Significa que existe um equilibro entre a expansão do conhecimento e o crescimento como pessoa e como cidadão. Significa que, a haver prémios, não deveriam ir para os marrões, mas para os que sobressaíram enquanto unidade compósita de competências.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
A casa (10)
Vem voa ascende desperta / Rompe diques avança
Estou parado no meio desta linha / não escrita
Não vimos senão relâmpago / não ouvimos senão o entrechocar de espadas da luz
O viajante é quem mais ordena
Algumas notas, ainda a propósito da recente emissão do programa "O Humor e a Cidade", de José de Pina, dedicado à Guarda, objecto da postagem anterior. Já vi por aí alguns comentários a propósito de o humorista não ter ido aqui e acolá, nomeadamente à Sé. Até já vi questionado o facto de ter ido a Belmonte. Vamos por partes. Esta última objecção reflecte um dos lastros crónicos na mentalidade local: o paroquialismo, as guerras dos "castelinhos", ou das capelinhas, se quiserem. Ou seja, uma visão empobrecedora do que deveria ser uma autêntica dinâmica regional. Conseguida graças a uma composição harmónica das diferenças e não da sua oposição. A primeira crítica, por sua vez, ilustra uma postura territorial e proprietária, muito própria do beirão, mas que abunda em excesso por aqui. Como se a cidade e a Sé fossem "nossas"! Sim, claro, são-no inteiramente, mas só na poesia. Quanto ao resto, quer vivendo ou não na Guarda, pode-se e deve-se certamente amá-la, querer o melhor para ela. Mas sempre na posição de quem usufrui de um espaço urbano como um privilégio. De quem "está" nele numa feliz passagem. E no caso do património, como um depositário do seu significado e da sua integridade. Sejam os cidadãos ou, muito especialmente, as instituições a quem incumbe esse papel, a cumprir esse desígnio. Portanto, a Guarda não é "nossa". É da humanidade. Tal como foi das gerações passadas e sê-lo-á das futuras. Cabe-nos somente assegurar que assim seja.
Relativamente às opções seguidas no programa e que mereceram as críticas referidas, há algo mais a adiantar e que serve para ambas. Tudo me leva a crer que José de Pina, quando vai a esta ou aquela localidade, já leva o "guião" do programa na sacola. Ou seja, os temas e motivos a abordar já estão previamente definidos. Obviamente que, se o guião já vai feito, o roteiro é alinhado no terreno, como se compreende. Sobretudo quando se trata de visitar determinado restaurante ou estabelecimento nocturno. Mas a trama essencial já vai montada. E nem podia ser de outra forma. O viajante é soberano na sua deambulação. É essa a sua marca genética. Mesmo que, como no caso deste programa, se detecte um padrão nas visitas: idas a restaurantes, uma ou outra particularidade local, seja um monumento, uma tradição ou um simples objecto, muita subjectividade, informalidade, uma incursão pela vida nocturna, etc. Como se vê, o "programa de festas" está longe de corresponder ao de uma abordagem convencional, didáctica, exaustiva, com alguma solenidade pelo meio. É antes uma errância descontraída, bem humorada e naif pelos locais eleitos, mesmo que frequentemente crítica. Ao melhor estilo dos programas congéneres dos canais temáticos de viagens.
Relativamente às opções seguidas no programa e que mereceram as críticas referidas, há algo mais a adiantar e que serve para ambas. Tudo me leva a crer que José de Pina, quando vai a esta ou aquela localidade, já leva o "guião" do programa na sacola. Ou seja, os temas e motivos a abordar já estão previamente definidos. Obviamente que, se o guião já vai feito, o roteiro é alinhado no terreno, como se compreende. Sobretudo quando se trata de visitar determinado restaurante ou estabelecimento nocturno. Mas a trama essencial já vai montada. E nem podia ser de outra forma. O viajante é soberano na sua deambulação. É essa a sua marca genética. Mesmo que, como no caso deste programa, se detecte um padrão nas visitas: idas a restaurantes, uma ou outra particularidade local, seja um monumento, uma tradição ou um simples objecto, muita subjectividade, informalidade, uma incursão pela vida nocturna, etc. Como se vê, o "programa de festas" está longe de corresponder ao de uma abordagem convencional, didáctica, exaustiva, com alguma solenidade pelo meio. É antes uma errância descontraída, bem humorada e naif pelos locais eleitos, mesmo que frequentemente crítica. Ao melhor estilo dos programas congéneres dos canais temáticos de viagens.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
José de Pina na Guarda
Costumo acompanhar esta excelente rubrica. Desta vez, o "routard" Pina veio até à Guarda, com uma incursão a Belmonte. É caso para dizer que já cá tardava. O pior foi o índice de triglicéridos, no final. E mais não digo...
Autopsicografia
O poeta é um fingidor. Só porque o desencanto nunca é filosófico, mas poético. Porque apenas a poesia é capaz de apresentar as contradições sem as resolver. Compondo-as numa unidade superior, elusiva e musical. Enquanto esse desencanto, ao mesmo tempo que corrige a utopia, moderando o seu pathos profético e finalista, reforça o seu elemento fundamental, a esperança. Pois que a esperança não nasce de uma visão do mundo tranquilizadora e optimista, mas sim da dilaceração da existência, vivida e sofrida sem véus. A que cria uma irreprimível necessidade de resgate perante o mal. O mal que é simplesmente a radical insensatez com que se apresenta o mundo. A mesma que exige que a perscrutemos em profundidade. O poeta é um fingidor, nada mais. Porque não hesita em denunciar uma ferida profunda que lhe coloca dificuldades na realização plena. Tanto mais que "ambicionar viver é coisa de megalómanos", como escreveu Ibsen, querendo com isto talvez dizer que só a consciência do árduo e temerário que é aspirar à vida autêntica pode permitir que nos aproximemos dela. Tão completamente que até parece dor a limalha irisada que nos cobre, nesse momento. Como que numa exclamação incontida de glória...
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O Km 90
Agosto de 2003
Setembro de 2011
Duas viagens, duas mochilas, dois tempos, o mesmo Caminho. Descubram as diferenças e as semelhanças.
Quando os bons exemplos não vêm de cima
A curta detenção de Isaltino Morais é dos episódios mais caricatos com que a Justiça brindou o país nos últimos tempos. A juíza de Oeiras que deu a ordem de detenção tornou-se, aparentemente, o bode expiatório desta trapalhada. Mas ninguém ouviu uma palavra ao presidente do STJ, ao PGR (que neste caso aparece realmente como uma Rainha da Inglaterra) e, sobretudo, ao Tribunal Constitucional. Que neste episódio andou muito mal. Ou seja, perante dois recursos na mesma questão, um com efeito devolutivo e outro com efeito suspensivo, decidiu primeiro sobre o primeiro, quando deveria ser ao contrário. O que terá induzido a Juíza em erro, embora não desculpe a desatenção.
A casa (9)
Negro o céu / Amarela a terra / O galo rasga a noite
Acesa a árvore estremece /Já a noite a circundou / Ao falar com ela falo contigo
O céu esmaga-nos, / a água sustém-nos.
domingo, 2 de outubro de 2011
A mostra paleontológica
Os comunas lá desceram ontem à rua. Muito protesto e tal dos "trabalhadores", ressabiados do costume e gente que, de um modo geral, ainda não descobriu que o exemplo da diferença parte de cada um de nós. E que já não existe riqueza excedentária para redistribuir! Mas Aleluia! Com "movimentos de massas" desta dimensão, Portugal ficará a um passo de ultrapassar as trapalhadas financeiras em que se afundou, graças ao modelo alucinado de desenvolvimento posto em prática por políticos irresponsáveis nos últimos 30 anos. Estas "manifs" são como que um passe de mágica! Graças ao fulgor geriátrico destes desfilantes patuscos fósseis! Ah, mas o inevitável factotum Silva (Carvalho para os "camaradas") esteve lá. E até adiantou "númbaros": à volta de 180 mil en la calle, diz ele. Ups, tantos!... Não será efeito do Viagra?
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
O buraco
Uma das características mais irritantes e empobrecedoras dos portugueses é o seu secreto fascínio pelo mando e por quem o exerce. Que cria uma original desigualdade na apreciação de um mesmo comportamento, consoante quem o pratica. Reparem que falo em mando e não em poder. Essa tendência anda de mãos dadas com episódicos actos de barbárie, mais próprios da turbamulta descontrolada. Como exemplo maior, temos o fascínio pelos autos de fé, ou o tristemente célebre massacre de judeus em Lisboa, em 1503, por instigação de um cristianíssimo frade dominicano. Essa bipolaridade, na forma como são encarados os vilões consoante o seu poderio, é só aparente. Ou seja, esse fascínio que mencionei revela-se por vezes das formas mais caricatas. Veja-se o que se passa com a "descoberta" do buraco orçamental da Madeira. É claro que o régulo Jardim se limitou a reproduzir os tiques despesistas e os modelos de desenvolvimeto dos seus émulos políticos do continente. Começando, por exemplo, em Cavaco Silva. Refiro-me, obviamente ao que nos foi vendido de há 25 anos para cá: "desenvolvimento" baseado no betão e na despesa pública descontrolada que o dinheiro fácil da UE tornou possível. Todavia, essa venalidade paga por todos adquiriu aí uma dimensão terceiro-mundista, num território onde não funcionam os mecanismos tipicamente democráticos de controlo, fiscalização e alteridade do poder. Exposta perante a opinião pública esta gestão danosa dos dinheiros públicos, a reacção não se fez esperar: Jardim passou a bode expiatório de todas as trapalhadas onde andamos metidos. Quando na verdade o homem é simplesmente um bom aprendiz de feiticeiro. O mesmo que tirou partido da conjuntura favorável, das lealdades partidárias, dos votos "vendidos" na AR, de ter prosperado numa coutada por si criada, onde a democracia foi "suspensa" ad eternum e, sobretudo, da vista grossa de quem já há muito deveria ter denunciado o regabofe. É isto que é preciso ser dito. Responsabilizando-o politica e, sendo o caso, criminalmente, pela "façanha". Voltemos agora ao início desta reflexão. Perante essa exigência da saúde democrática do regime que é apear Jardim e sua clique, apareceram logo as consciências de aluguer do costume: comentadores avulso (do programa "contraditório" da Antena 1, por exemplo) que não "alinham no coro das críticas" a Jardim, uma "excelente pessoa", acrescentam; políticos menores, que não perdem uma oportunidade de ter um microfone estendido (Morais Sarmento, por exemplo, critica o "linchamento público" do rei do Carnaval madeirense). E a que se deve esta originalidade desculpadora? Em minha opinião, precisamente ao tal fascínio pelo mando e por quem o exerce. Se se descobrisse que um simples cidadão tinha feito umas habilidades com dinheiros públicos, ninguém poria a mão no fogo por ele, nem nenhuma instância ou comentador levantaria o princípio sagrado do in dubio pro reu. É precisamente esse mesmo fascínio que leva, a quem por ele é tomado, a passar por cima de normas básicas de comportamento. A justificar nos outros a afirmação do "triunfo", do "sucesso". A buscar nos outros um poder alucinado, demencial. Apagando em si o que resta da empatia e da vitalidade indispensáveis ao amor. Afinal, o verdadeiro poder.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Poder
Deus não sabe como se chama!
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
A casa (8)
A hora é transparente / se o pássaro é invisível, vemos / a cor de seu canto.
Duma palavra à outra /o que digo desvanece-se
A noite torna enorme a janela / Não há ninguém / a inominada presença rodeia-me
Medida por medida
Ocasionalmente, interessam-me as jogadas políticas locais da cidade onde vivo. Mas importa esclarecer que o tema me interessa por simples curiosidade antropológica e não para alinhar jeremiadas placebas. Por sua vez, a curiosidade é a mesma que sinto diante de um palco onde loucos se digladiam por chegar ao poder e depois conservá-lo a todo o custo. Ao poder que eles tomam como tal, entenda-se. Pois na Guarda é notória a baixíssima qualidade dos actores políticos, que a valia do tal teatro épico, grosso modo, acompanha. Mas será que se pode falar de verdadeiro combate político nesta cidade? Um combate em cujo centro estão os modelos, as propostas concorrentes e não os cabeças de cartaz? Um combate onde o ponto de focagem está na mobilização e não na arregimentação? A resposta é negativa, com excepção de umas épicas eleições locais nos idos de 80. Tomemos agora como exemplo o que se assiste nos dois únicos partidos com expressão eleitoral local - PS e PSD. É certo que, desde sempre, a política sempre foi para mim muito mais do que o mundo dos partidos políticos, epifenómenos em vias de extinção. Mas, por conveniência narrativa, centro-me por ora neles. Comecemos pelo PSD. A estrutura local deste partido pouco tem a ver com o que se passa a nível nacional. Ou seja: ausência de debate político-ideológico; resistência à modernidade; discurso voltado para eleitores de uma ruralidade em extinção, de um conservadorismo anacrónico e de um tecido empresarial incipiente; tiques populistas, como se viu com a recente polémica onde um dirigente local compara a actividade cultural ao "circo". Ou seja, o PSD local esquece-se de um pormenor essencial: ser de direita, hoje em dia, é estar do lado da modernidade, do desenvolvimento e da liberdade. É por de lado as respostas conceptuais perante a realidade em que a esquerda ainda continua enredada. Passarei agora ao PS. Aqui a situação adquire uma dimensão trágica. Paredes meias com o grau zero da política. A façanha, embora com antecedentes propícios, foi conseguida pela actual direcção distrital, comandada por esse case study de nome José Albano. Um ilustre desconhecido que, tendo sido eleito deputado da Nação, renunciou ao mandado por um cargo dirigente local. E tendo-se recandidatado na legislatura seguinte, como número dois da lista, viu os seus intentos gorados, graças aos piores resultados da história do partido no distrito. De cuja estrutura já era o responsável máximo. E pensam que daí retirou algumas consequências? Não, limitou-se a apoiar Seguro, o senhor que se seguiu à frente do partido. Depois de ter feito juras de amor eterno a Sócrates. E a confirmar o seu deserto de ideias e propostas para a região. E a promover os seus fiéis. Comportando-se como um simples chefe de facção. É de gente como esta que a Guarda precisa para dirigentes políticos? Adivinha-se a resposta. Em síntese, chega de produtos do aparelho, candidatos a caudilhos, distribuidores de lugares e favores. O que a Guarda necessita, urgentemente, é de políticos mobilizadores, esclarecidos, ousados, atentos ao pulsar da cidade e da região. Só assim prevalecerá o melhor das capacidades instaladas, as boas práticas da administração e a atractividade.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
A casa (7)
Olhos de água de sombra / olhos de água de poço / olhos de água de sonho.
Mas já a luz irrompe com passos de leopardo / E a palavra levanta-se ondula cai / E é uma longa ferida e um silêncio cristalino.
A infância com suas flechas e seu ídolo e sua figueira.
Alquimia
Há vivos que têm a ciência dos mortos. Há vivos que vivem a morte como nós vivemos a vida. Eles vivem onde nós morremos. Voam tão alto como o nosso imaginar.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
Luz
O sol bate-nos nos olhos como nós batemos a uma porta que não se abre.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
A casa (6)
Se tu és o bosque das nuvens / eu sou o machado que as corta
Como o bosque em seu leito de folhas / tu dormes em teu leito de chuva / tu cantas em teu leito de vento / tu beijas em teu leito de chispas.
A água levanta-se e pergunta a hora / O vento levanta-se e pergunta por ti
Um ou vários?
Podemos recorrer a vários critérios para arrumar os blogues. Repare-se que falo dos blogues, não do perfil dos bloguistas, embora uma coisa desemboque inevitavelmente na outra. E o universo em análise é determinado por um patamar mínimo, firmado na qualidade e pertinência dos conteúdos. De fora estarão naturalmente os blogues institucionais. Utilizarei então o diapasão mais simples: os números. Quantos bloguistas fazem um blogue? A resposta determina, por conseguinte, dois tipos, os unipessoais e os colectivos.
- Os primeiros são, à partida, mais consistentes: têm a marca pessoal do autor gravada no seu ADN; traduzem uma estratégia onde um determinado modelo se torna mais facilmente perceptível, onde os sobressaltos são a excepção; exprimem uma disponibilidade e uma vastidão discursiva que um espaço partilhado não acomoda; permitem um tom confessional que uma pluralidade de vozes anularia e uma total liberdade na gestão do ritmo das actualizações, do modelo, dos comentários e do próprio fim. São, em suma, o meio mais característico e irredutível da intervenção dos cidadãos no ciberespaço.
- Os colectivos podem ter qualquer uma das características apontadas. Todavia, como que aparecem diluídas. Não se dá tanto por elas. Neste tipo, é o resultado compósito, a regularidade, o que relamente interessa. Mais até do que a assinatura das postagens. É óbvio que cada blogue encerra uma história particular. Sendo que, nos colectivos, tenho descoberto duas formas típicas de associação. Por um lado, aqueles que nasceram e cresceram à volta de uma projecto editorial, jornalístico, científico, ou artístico, de um movimento de opinião, de uma determinada actividade, da defesa de determinada causa, entre outras razões similares. Por outro lado, aqueles em que os seus autores quiseram dar expressão, no ciberespaço, a uma sólida afinidade pessoal e/ou ideológica. Que não é incompatível, bem pelo contrário, com uma colaboração pontual ou intermitente. Ora, quer num caso quer noutro, abundam blogues de referência, espaços incontornáveis na blogosfera lusa. Mas se a união faz a força, pode não produzir a qualidade que se esperaria. Tenho visto inúmeros casos de blogues colectivos onde desapareceu a homogeneidade (diferente de uniformidade). Onde os próprios autores polemizam entre si, percebendo-se que as suas posições são inconciliáveis e o debate prima pela aridez. Onde, no oposto, abundam as reacções corporativas. Onde a unidade gráfica degenerou numa manta de retalhos. Onde o pulsar de várias vozes descambou numa apagada e vil cacofonia.
Quer tudo isto dizer que sugiro a existência de uma graduação de valor entre as duas categorias? A resposta é claramente negativa, nem a questão é essa. Afirmo, isso sim, que começa a ver-se na blogosfera um fenómeno transportado dos meios de informação convencionais: a concentração como estratégia e condição de visibilidade. Mas, se nuns casos o gregarismo é eficaz, noutros traduz a transformação dos blogues em simples newsgroups, salas de redacção que muitos só utilizam porque sabem que têm uma audiência que num projecto pessoal não alcançariam. Isto é, a descaracterização do todo como reflexo do comodismo das partes.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
A casa (5)
Na porta proibida / gravar o nome do teu corpo / até que a lâmina da minha navalha / sangre
Esfrego as pálpebras: / o céu anda na terra.
Se tu és a torre da noite / eu sou o cravo ardendo em tua fronte
domingo, 18 de setembro de 2011
Paisagem
O Português é indeciso e inquieto, como as nuvens em que as suas montanhas se continuam e as ondas em que as suas campinas se prolongam.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
domingo, 11 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
Monólogo do Anjo
Estais aí. Desse lado da luz. Quis sempre descobrir-vos, sabeis? Surpreender-vos devagar nesta terra feroz e sumptuosa. Escutar as vossas preces. Comover-me com a doce fragilidade da vossa esperança. Adivinhar-vos os pensamentos. Beber-vos as emoções. Mesmo as mais secretas. Sobretudo as mais secretas. Para mim, cada dia é um caminho diferente. Uma palavra guardada que me espera. Sempre acompanhado do gracioso sussurro das aves, respondendo-vos quando o vosso campo se recusa encher-se de papoilas...Às vezes, a luz esmorece. Porque as palavras que me procuram são palavras de crianças presas no tempo. Mas deixai-me sentar numa nuvem e dar pontapés na Lua, pois era como eu devia ter vivido a vida toda: dar pontapés até sentir um tal cansaço nas pernas que elas já não me deixassem voar.
Às vezes tenho tonturas. Quando olho para baixo, vejo sempre planícies muito brancas, intermináveis, povoadas por uma enorme quantidade de sombras. Sentado numa nuvem, na lua, ou em qualquer precipício, eu sei que as minhas asas voam para vós e as tonturas que a planície me dá são feitas por mim, de propósito, para irritar aqueles que não sabem subir e descer as montanhas geladas. Mas não quero que me ofereçam sombras. Não quero que me contem as vossas aventuras. Não quero que me escondam a vossa monstruosa inocência. Pois se fordes tocados por toda a beleza do mundo, conhecereis então a imensa crueldade que ele encerra.
Sou um desconhecido movendo-se constantemente no deserto, onde cada pegada deixa bem marcada na areia a imagem dessa outra existência em que a morte e a memória já nada significam. Mas as asas, as asas que sinto bem presas, seguras, essas, ficai a saber, podem ainda esmagar com cuidado, com extremo cuidado, dilacerar suavemente, pois nos olhos está o amor, o misterioso voo das aves que partem para o desconhecido.
Eu sei que para todos vós há um lugar por descobrir, um lugar tenebroso e cantante. Simples como é a claridade, torna-se a coisa mais difícil de encontrar. Talvez porque a distância que nos separa, longa, muito longa, seja a torre de chumbo do vosso próprio isolamento, talvez porque sentir o aparecimento da madrugada seja a origem da música onde a palavra se apaga. Criem-na. Sem medo. E agora, outros mais longe me chamam. Adeus, meus amigos. Estarei sempre, sempre convosco.
Às vezes tenho tonturas. Quando olho para baixo, vejo sempre planícies muito brancas, intermináveis, povoadas por uma enorme quantidade de sombras. Sentado numa nuvem, na lua, ou em qualquer precipício, eu sei que as minhas asas voam para vós e as tonturas que a planície me dá são feitas por mim, de propósito, para irritar aqueles que não sabem subir e descer as montanhas geladas. Mas não quero que me ofereçam sombras. Não quero que me contem as vossas aventuras. Não quero que me escondam a vossa monstruosa inocência. Pois se fordes tocados por toda a beleza do mundo, conhecereis então a imensa crueldade que ele encerra.
Sou um desconhecido movendo-se constantemente no deserto, onde cada pegada deixa bem marcada na areia a imagem dessa outra existência em que a morte e a memória já nada significam. Mas as asas, as asas que sinto bem presas, seguras, essas, ficai a saber, podem ainda esmagar com cuidado, com extremo cuidado, dilacerar suavemente, pois nos olhos está o amor, o misterioso voo das aves que partem para o desconhecido.
Eu sei que para todos vós há um lugar por descobrir, um lugar tenebroso e cantante. Simples como é a claridade, torna-se a coisa mais difícil de encontrar. Talvez porque a distância que nos separa, longa, muito longa, seja a torre de chumbo do vosso próprio isolamento, talvez porque sentir o aparecimento da madrugada seja a origem da música onde a palavra se apaga. Criem-na. Sem medo. E agora, outros mais longe me chamam. Adeus, meus amigos. Estarei sempre, sempre convosco.
(Texto incluído no guião da peça teatral Guarda, Paixão e Utopia, apresentada no TMG nos dias 26 e 27 de Novembro)
sábado, 3 de setembro de 2011
A casa (4)
Todas as noites desce ao poço / e pela manhã reaparece / com um novo réptil entre os braços.
Ergui a cara para o céu, / imensa pedra de puídas letras: / nada me revelaram as estrelas.
E nos abismos de sua luz caímos / Música despenhada / E ardemos e não deixamos rasto.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Tábua de marés (44)
"Deus, Pátria, Autoridade". Trata-se de um documentário de Rui Simões, produzido em 1975 a partir de imagens de arquivo. E que pretende ilustrar a marcha da história no Portugal do séc. XX, especialmente a partir do declínio do Estado Novo. O título advém da invocação da célebre trilogia durante um discurso de Salazar, em 1936. Este registo constitui uma pérola da propaganda difundida por círculos ligados ao PCP, durante o PREC. O conteúdo programático não deixa lugar a dúvidas. Lê-se como um livro aberto. A ganga marxista está lá toda: a luta de classes, onde o "povo" aparece sob a forma de anjos imaculados arrotando palavras de ordem e palitando os dentes depois de uma sande de coiratos; a "burguesia" como uma galeria de personagens sinistras, fúteis, sádicas, que vivem para explorar o "bom selvagem" proletário. Os mesmos que detêm os "meios de produção" e tomaram conta da superestrutura política e ideológica (o Estado Novo e o "façismo"). Os mesmo que sustentaram uma guerra colonial destinada a assegurar os "lucros" de meia dúzia de exploradores e colonialistas sanguinários (neste ponto é curioso estabelecer uma comparação entre o rigor e a competência do documentário "A Guerra", de Joaquim Furtado e esta peça propagandística). Uma fábula onde só há os "bons" e os "maus". E com um final feliz, para sossego das consciências: a "evidência" da superação do materialismo dialéctico, o créme de la créme da vulgata marxista. Como? Pois bem, através do "fim da luta de classes", da marcha inexorável da história, conduzida na altura pela V Divisão, os governos do General Vasco Gonçalves e um vasto lumpen ululante, devidamente pastoreado pelos factotum comunistas. Era este o cenário que se perfilava no momento. Uma peça para um único personagem, "o povo escolhido", isto é, o proletariado. Formado pelo operariado fabril, intelectuais "progressistas", camponeses pobres", assalariados rurais e alguns burgueses transviados, depois de feito o indispensável acto de contrição. Neste ponto, a pequena-burguesia foi convenientemente silenciada, pois esperava-se que fosse a reboque dos actores privilegiados da História. Também a saga reivindicativa que hoje subsiste nos meios ligados ao PCP: os culpados são sempre os outros, o ressabiamento, a menoridade cívica, a endogamia. Para os comunistas, o uso das capacidades próprias e a iniciativa individual como factores de criação de riqueza são olhadas com desprezo; a essência dos indivíduos é determinada pela sua existência social, enquanto actores colectivos, convenientemente ensaiados para um só palco, a História pré-determinada e finalista. Depois, há pormenores deliciosos, como a desconfiança perante a autogestão, vista como um perigoso desvio pela ortodoxia pró-soviética. Ou os momentos em que é dada a voz ao bom povo, que papagueia um guião tosco e "normalizado", generosamente fornecido pelos agentes do aparelho comunista e engages avulso em voga na altura. O expediente mais não é do que uma forma insidiosa de paternalismo, ideologicamente orientado. Por último, a ira de um agricultor ribatejano, depois de lhe terem tirado a posse da sua terra, após uma questão judicial. Se a equipa de realização estivesse mais atenta, daria conta de que os desabafos perante as câmaras deste João Semana têm a ver unicamente com uma disputa de propriedade, cujo direito ele invoca urbi et orbi. Ora, segundo os comunistas, a propriedade é um roubo, uma indignidade. Enfim, distracções... Esta obra é, digamos, um poderoso registo acerca da cartilha marxista-leninista aplicada com fervor à revolução em curso em 1975. Está lá tudo o que é preciso saber sobre uma doutrina e uma prática política que quase triunfaram em Portugal. Não sem alguma ironia, um filme com propósitos documentais acabou por ser o melhor testemunho do ambiente político e ideológico que o determinou.
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