De 22 Set. a 21 Out.
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Poder
Deus não sabe como se chama!
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
A casa (8)
A hora é transparente / se o pássaro é invisível, vemos / a cor de seu canto.
Duma palavra à outra /o que digo desvanece-se
A noite torna enorme a janela / Não há ninguém / a inominada presença rodeia-me
Medida por medida
Ocasionalmente, interessam-me as jogadas políticas locais da cidade onde vivo. Mas importa esclarecer que o tema me interessa por simples curiosidade antropológica e não para alinhar jeremiadas placebas. Por sua vez, a curiosidade é a mesma que sinto diante de um palco onde loucos se digladiam por chegar ao poder e depois conservá-lo a todo o custo. Ao poder que eles tomam como tal, entenda-se. Pois na Guarda é notória a baixíssima qualidade dos actores políticos, que a valia do tal teatro épico, grosso modo, acompanha. Mas será que se pode falar de verdadeiro combate político nesta cidade? Um combate em cujo centro estão os modelos, as propostas concorrentes e não os cabeças de cartaz? Um combate onde o ponto de focagem está na mobilização e não na arregimentação? A resposta é negativa, com excepção de umas épicas eleições locais nos idos de 80. Tomemos agora como exemplo o que se assiste nos dois únicos partidos com expressão eleitoral local - PS e PSD. É certo que, desde sempre, a política sempre foi para mim muito mais do que o mundo dos partidos políticos, epifenómenos em vias de extinção. Mas, por conveniência narrativa, centro-me por ora neles. Comecemos pelo PSD. A estrutura local deste partido pouco tem a ver com o que se passa a nível nacional. Ou seja: ausência de debate político-ideológico; resistência à modernidade; discurso voltado para eleitores de uma ruralidade em extinção, de um conservadorismo anacrónico e de um tecido empresarial incipiente; tiques populistas, como se viu com a recente polémica onde um dirigente local compara a actividade cultural ao "circo". Ou seja, o PSD local esquece-se de um pormenor essencial: ser de direita, hoje em dia, é estar do lado da modernidade, do desenvolvimento e da liberdade. É por de lado as respostas conceptuais perante a realidade em que a esquerda ainda continua enredada. Passarei agora ao PS. Aqui a situação adquire uma dimensão trágica. Paredes meias com o grau zero da política. A façanha, embora com antecedentes propícios, foi conseguida pela actual direcção distrital, comandada por esse case study de nome José Albano. Um ilustre desconhecido que, tendo sido eleito deputado da Nação, renunciou ao mandado por um cargo dirigente local. E tendo-se recandidatado na legislatura seguinte, como número dois da lista, viu os seus intentos gorados, graças aos piores resultados da história do partido no distrito. De cuja estrutura já era o responsável máximo. E pensam que daí retirou algumas consequências? Não, limitou-se a apoiar Seguro, o senhor que se seguiu à frente do partido. Depois de ter feito juras de amor eterno a Sócrates. E a confirmar o seu deserto de ideias e propostas para a região. E a promover os seus fiéis. Comportando-se como um simples chefe de facção. É de gente como esta que a Guarda precisa para dirigentes políticos? Adivinha-se a resposta. Em síntese, chega de produtos do aparelho, candidatos a caudilhos, distribuidores de lugares e favores. O que a Guarda necessita, urgentemente, é de políticos mobilizadores, esclarecidos, ousados, atentos ao pulsar da cidade e da região. Só assim prevalecerá o melhor das capacidades instaladas, as boas práticas da administração e a atractividade.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
A casa (7)
Olhos de água de sombra / olhos de água de poço / olhos de água de sonho.
Mas já a luz irrompe com passos de leopardo / E a palavra levanta-se ondula cai / E é uma longa ferida e um silêncio cristalino.
A infância com suas flechas e seu ídolo e sua figueira.
Alquimia
Há vivos que têm a ciência dos mortos. Há vivos que vivem a morte como nós vivemos a vida. Eles vivem onde nós morremos. Voam tão alto como o nosso imaginar.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
Luz
O sol bate-nos nos olhos como nós batemos a uma porta que não se abre.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
A casa (6)
Se tu és o bosque das nuvens / eu sou o machado que as corta
Como o bosque em seu leito de folhas / tu dormes em teu leito de chuva / tu cantas em teu leito de vento / tu beijas em teu leito de chispas.
A água levanta-se e pergunta a hora / O vento levanta-se e pergunta por ti
Um ou vários?
Podemos recorrer a vários critérios para arrumar os blogues. Repare-se que falo dos blogues, não do perfil dos bloguistas, embora uma coisa desemboque inevitavelmente na outra. E o universo em análise é determinado por um patamar mínimo, firmado na qualidade e pertinência dos conteúdos. De fora estarão naturalmente os blogues institucionais. Utilizarei então o diapasão mais simples: os números. Quantos bloguistas fazem um blogue? A resposta determina, por conseguinte, dois tipos, os unipessoais e os colectivos.
- Os primeiros são, à partida, mais consistentes: têm a marca pessoal do autor gravada no seu ADN; traduzem uma estratégia onde um determinado modelo se torna mais facilmente perceptível, onde os sobressaltos são a excepção; exprimem uma disponibilidade e uma vastidão discursiva que um espaço partilhado não acomoda; permitem um tom confessional que uma pluralidade de vozes anularia e uma total liberdade na gestão do ritmo das actualizações, do modelo, dos comentários e do próprio fim. São, em suma, o meio mais característico e irredutível da intervenção dos cidadãos no ciberespaço.
- Os colectivos podem ter qualquer uma das características apontadas. Todavia, como que aparecem diluídas. Não se dá tanto por elas. Neste tipo, é o resultado compósito, a regularidade, o que relamente interessa. Mais até do que a assinatura das postagens. É óbvio que cada blogue encerra uma história particular. Sendo que, nos colectivos, tenho descoberto duas formas típicas de associação. Por um lado, aqueles que nasceram e cresceram à volta de uma projecto editorial, jornalístico, científico, ou artístico, de um movimento de opinião, de uma determinada actividade, da defesa de determinada causa, entre outras razões similares. Por outro lado, aqueles em que os seus autores quiseram dar expressão, no ciberespaço, a uma sólida afinidade pessoal e/ou ideológica. Que não é incompatível, bem pelo contrário, com uma colaboração pontual ou intermitente. Ora, quer num caso quer noutro, abundam blogues de referência, espaços incontornáveis na blogosfera lusa. Mas se a união faz a força, pode não produzir a qualidade que se esperaria. Tenho visto inúmeros casos de blogues colectivos onde desapareceu a homogeneidade (diferente de uniformidade). Onde os próprios autores polemizam entre si, percebendo-se que as suas posições são inconciliáveis e o debate prima pela aridez. Onde, no oposto, abundam as reacções corporativas. Onde a unidade gráfica degenerou numa manta de retalhos. Onde o pulsar de várias vozes descambou numa apagada e vil cacofonia.
Quer tudo isto dizer que sugiro a existência de uma graduação de valor entre as duas categorias? A resposta é claramente negativa, nem a questão é essa. Afirmo, isso sim, que começa a ver-se na blogosfera um fenómeno transportado dos meios de informação convencionais: a concentração como estratégia e condição de visibilidade. Mas, se nuns casos o gregarismo é eficaz, noutros traduz a transformação dos blogues em simples newsgroups, salas de redacção que muitos só utilizam porque sabem que têm uma audiência que num projecto pessoal não alcançariam. Isto é, a descaracterização do todo como reflexo do comodismo das partes.
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
A casa (5)
Na porta proibida / gravar o nome do teu corpo / até que a lâmina da minha navalha / sangre
Esfrego as pálpebras: / o céu anda na terra.
Se tu és a torre da noite / eu sou o cravo ardendo em tua fronte
domingo, 18 de setembro de 2011
Paisagem
O Português é indeciso e inquieto, como as nuvens em que as suas montanhas se continuam e as ondas em que as suas campinas se prolongam.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
domingo, 11 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
Monólogo do Anjo
Estais aí. Desse lado da luz. Quis sempre descobrir-vos, sabeis? Surpreender-vos devagar nesta terra feroz e sumptuosa. Escutar as vossas preces. Comover-me com a doce fragilidade da vossa esperança. Adivinhar-vos os pensamentos. Beber-vos as emoções. Mesmo as mais secretas. Sobretudo as mais secretas. Para mim, cada dia é um caminho diferente. Uma palavra guardada que me espera. Sempre acompanhado do gracioso sussurro das aves, respondendo-vos quando o vosso campo se recusa encher-se de papoilas...Às vezes, a luz esmorece. Porque as palavras que me procuram são palavras de crianças presas no tempo. Mas deixai-me sentar numa nuvem e dar pontapés na Lua, pois era como eu devia ter vivido a vida toda: dar pontapés até sentir um tal cansaço nas pernas que elas já não me deixassem voar.
Às vezes tenho tonturas. Quando olho para baixo, vejo sempre planícies muito brancas, intermináveis, povoadas por uma enorme quantidade de sombras. Sentado numa nuvem, na lua, ou em qualquer precipício, eu sei que as minhas asas voam para vós e as tonturas que a planície me dá são feitas por mim, de propósito, para irritar aqueles que não sabem subir e descer as montanhas geladas. Mas não quero que me ofereçam sombras. Não quero que me contem as vossas aventuras. Não quero que me escondam a vossa monstruosa inocência. Pois se fordes tocados por toda a beleza do mundo, conhecereis então a imensa crueldade que ele encerra.
Sou um desconhecido movendo-se constantemente no deserto, onde cada pegada deixa bem marcada na areia a imagem dessa outra existência em que a morte e a memória já nada significam. Mas as asas, as asas que sinto bem presas, seguras, essas, ficai a saber, podem ainda esmagar com cuidado, com extremo cuidado, dilacerar suavemente, pois nos olhos está o amor, o misterioso voo das aves que partem para o desconhecido.
Eu sei que para todos vós há um lugar por descobrir, um lugar tenebroso e cantante. Simples como é a claridade, torna-se a coisa mais difícil de encontrar. Talvez porque a distância que nos separa, longa, muito longa, seja a torre de chumbo do vosso próprio isolamento, talvez porque sentir o aparecimento da madrugada seja a origem da música onde a palavra se apaga. Criem-na. Sem medo. E agora, outros mais longe me chamam. Adeus, meus amigos. Estarei sempre, sempre convosco.
Às vezes tenho tonturas. Quando olho para baixo, vejo sempre planícies muito brancas, intermináveis, povoadas por uma enorme quantidade de sombras. Sentado numa nuvem, na lua, ou em qualquer precipício, eu sei que as minhas asas voam para vós e as tonturas que a planície me dá são feitas por mim, de propósito, para irritar aqueles que não sabem subir e descer as montanhas geladas. Mas não quero que me ofereçam sombras. Não quero que me contem as vossas aventuras. Não quero que me escondam a vossa monstruosa inocência. Pois se fordes tocados por toda a beleza do mundo, conhecereis então a imensa crueldade que ele encerra.
Sou um desconhecido movendo-se constantemente no deserto, onde cada pegada deixa bem marcada na areia a imagem dessa outra existência em que a morte e a memória já nada significam. Mas as asas, as asas que sinto bem presas, seguras, essas, ficai a saber, podem ainda esmagar com cuidado, com extremo cuidado, dilacerar suavemente, pois nos olhos está o amor, o misterioso voo das aves que partem para o desconhecido.
Eu sei que para todos vós há um lugar por descobrir, um lugar tenebroso e cantante. Simples como é a claridade, torna-se a coisa mais difícil de encontrar. Talvez porque a distância que nos separa, longa, muito longa, seja a torre de chumbo do vosso próprio isolamento, talvez porque sentir o aparecimento da madrugada seja a origem da música onde a palavra se apaga. Criem-na. Sem medo. E agora, outros mais longe me chamam. Adeus, meus amigos. Estarei sempre, sempre convosco.
(Texto incluído no guião da peça teatral Guarda, Paixão e Utopia, apresentada no TMG nos dias 26 e 27 de Novembro)
sábado, 3 de setembro de 2011
A casa (4)
Todas as noites desce ao poço / e pela manhã reaparece / com um novo réptil entre os braços.
Ergui a cara para o céu, / imensa pedra de puídas letras: / nada me revelaram as estrelas.
E nos abismos de sua luz caímos / Música despenhada / E ardemos e não deixamos rasto.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Tábua de marés (44)
"Deus, Pátria, Autoridade". Trata-se de um documentário de Rui Simões, produzido em 1975 a partir de imagens de arquivo. E que pretende ilustrar a marcha da história no Portugal do séc. XX, especialmente a partir do declínio do Estado Novo. O título advém da invocação da célebre trilogia durante um discurso de Salazar, em 1936. Este registo constitui uma pérola da propaganda difundida por círculos ligados ao PCP, durante o PREC. O conteúdo programático não deixa lugar a dúvidas. Lê-se como um livro aberto. A ganga marxista está lá toda: a luta de classes, onde o "povo" aparece sob a forma de anjos imaculados arrotando palavras de ordem e palitando os dentes depois de uma sande de coiratos; a "burguesia" como uma galeria de personagens sinistras, fúteis, sádicas, que vivem para explorar o "bom selvagem" proletário. Os mesmos que detêm os "meios de produção" e tomaram conta da superestrutura política e ideológica (o Estado Novo e o "façismo"). Os mesmo que sustentaram uma guerra colonial destinada a assegurar os "lucros" de meia dúzia de exploradores e colonialistas sanguinários (neste ponto é curioso estabelecer uma comparação entre o rigor e a competência do documentário "A Guerra", de Joaquim Furtado e esta peça propagandística). Uma fábula onde só há os "bons" e os "maus". E com um final feliz, para sossego das consciências: a "evidência" da superação do materialismo dialéctico, o créme de la créme da vulgata marxista. Como? Pois bem, através do "fim da luta de classes", da marcha inexorável da história, conduzida na altura pela V Divisão, os governos do General Vasco Gonçalves e um vasto lumpen ululante, devidamente pastoreado pelos factotum comunistas. Era este o cenário que se perfilava no momento. Uma peça para um único personagem, "o povo escolhido", isto é, o proletariado. Formado pelo operariado fabril, intelectuais "progressistas", camponeses pobres", assalariados rurais e alguns burgueses transviados, depois de feito o indispensável acto de contrição. Neste ponto, a pequena-burguesia foi convenientemente silenciada, pois esperava-se que fosse a reboque dos actores privilegiados da História. Também a saga reivindicativa que hoje subsiste nos meios ligados ao PCP: os culpados são sempre os outros, o ressabiamento, a menoridade cívica, a endogamia. Para os comunistas, o uso das capacidades próprias e a iniciativa individual como factores de criação de riqueza são olhadas com desprezo; a essência dos indivíduos é determinada pela sua existência social, enquanto actores colectivos, convenientemente ensaiados para um só palco, a História pré-determinada e finalista. Depois, há pormenores deliciosos, como a desconfiança perante a autogestão, vista como um perigoso desvio pela ortodoxia pró-soviética. Ou os momentos em que é dada a voz ao bom povo, que papagueia um guião tosco e "normalizado", generosamente fornecido pelos agentes do aparelho comunista e engages avulso em voga na altura. O expediente mais não é do que uma forma insidiosa de paternalismo, ideologicamente orientado. Por último, a ira de um agricultor ribatejano, depois de lhe terem tirado a posse da sua terra, após uma questão judicial. Se a equipa de realização estivesse mais atenta, daria conta de que os desabafos perante as câmaras deste João Semana têm a ver unicamente com uma disputa de propriedade, cujo direito ele invoca urbi et orbi. Ora, segundo os comunistas, a propriedade é um roubo, uma indignidade. Enfim, distracções... Esta obra é, digamos, um poderoso registo acerca da cartilha marxista-leninista aplicada com fervor à revolução em curso em 1975. Está lá tudo o que é preciso saber sobre uma doutrina e uma prática política que quase triunfaram em Portugal. Não sem alguma ironia, um filme com propósitos documentais acabou por ser o melhor testemunho do ambiente político e ideológico que o determinou.quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Exercício
"Convidado à força" é a última produção da Warner, A realização é de Juan Toino, argumento de Pablo Sánchez. Curiosamente, nota-se a identidade do produtor Erwin Loninger neste projecto. Que apesar de não apresentar o fascínio visual a que nos habituou, retrata um ambiente onde o sobrenatural e a realidade percorrem em paralelo por entre o enredo. Todo o argumento permite diversas perspectivas, desde as mais crentes às mais apreciadoras de realismo, sem que com isso perca coerência e impacto para o espectador.
Não é, mas podia ser.
Não é, mas podia ser.
A casa (3)
Fecha os olhos e abre-os: / Não há ninguém nem sequer tu próprio / O que não é pedra é luz
Entre as pétalas de argila /nasce, sorridente, / a flor humana.
A luz não pestaneja, / o tempo esvazia-se de minutos, / um pássaro deteve-se no ar.
Ser poeta
Erram os que me consideram poeta, pois não o sou, infelizmente; e erram os que me consideram poeta, porque o sou, infelizmente.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
terça-feira, 30 de agosto de 2011
A casa (2)
Ao fechar os olhos vi-me: / espaço, espaço / onde estou e não estou.
O poema ainda sem rosto / O bosque ainda sem árvores / Os cantos ainda sem nome.
Duma palavra à outra/o que digo desvanece-se./Sei que estou vivo/entre dois parêntesis.
A fronteira
Há duas fases bem distintas na existência do comum dos mortais. Na primeira, crê-se que as regras são constrangimentos que oprimem. Na segunda, sabe-se, de ciência certa, que elas existem para nos libertar. Refiro-me, naturalmente, às regras enquanto padrões culturais, mais do que normas legisladas. Sendo que, aquelas cuja convicção de obrigatoriedade é mais poderosa, resultam de uma sageza e de uma rotina de polimento negociada através dos tempos. De modo a que, na maior parte das vezes, surjam em contextos com funções e sentidos bastante diferenciados. Percebi também que, perante a evidência, só há duas atitudes possíveis:
1. A sua deposição não concertada, num dado momento, a que se segue a correspondente substituição por uma "nova ordem" redentora. Pelo menos, para as vanguardas esclarecidas, é claro. Como se a narrativa da História que sustenta tal praxis se resumisse a uma longa marcha até ao seu fim, ao fim da História.
2. Ou, então, perceber que essas regras tem elas próprias uma marca genética, a que se poderia chamar caducidade latente. Actuar sobre as regras significaria uma de duas coisas: apressar-lhe o prazo de validade ou, sendo possível, validá-las enquanto forma para uma situação política e social distinta. Mudança que, sendo impossível sem a subsistência da muitas dessas regras, nunca aconteceria a partir delas.
Escusado será dizer que, no primeiro estádio referido, encontramos o marxismo, o fascismo e seus derivados e subprodutos. Trata-se de uma fase embrionária da acção política. Na segunda fase estão os que, como eu, não ignoram que a liberdade é uma filigrana que requer o cuidado de muitas gerações. Precisamente porque esse trabalho, humilde e verdadeiramente audacioso, poderá nunca ficar concluído.
1. A sua deposição não concertada, num dado momento, a que se segue a correspondente substituição por uma "nova ordem" redentora. Pelo menos, para as vanguardas esclarecidas, é claro. Como se a narrativa da História que sustenta tal praxis se resumisse a uma longa marcha até ao seu fim, ao fim da História.
2. Ou, então, perceber que essas regras tem elas próprias uma marca genética, a que se poderia chamar caducidade latente. Actuar sobre as regras significaria uma de duas coisas: apressar-lhe o prazo de validade ou, sendo possível, validá-las enquanto forma para uma situação política e social distinta. Mudança que, sendo impossível sem a subsistência da muitas dessas regras, nunca aconteceria a partir delas.
Escusado será dizer que, no primeiro estádio referido, encontramos o marxismo, o fascismo e seus derivados e subprodutos. Trata-se de uma fase embrionária da acção política. Na segunda fase estão os que, como eu, não ignoram que a liberdade é uma filigrana que requer o cuidado de muitas gerações. Precisamente porque esse trabalho, humilde e verdadeiramente audacioso, poderá nunca ficar concluído.
A casa (1)
Pessoas, palavras, pessoas. / Duvidei um instante: / a lua no alto, sozinha.
Vivem a nosso lado, / ignoramo-los e ignoram-nos. / Às vezes conversam connosco.
Não o que pôde ser: / mas o que foi. / E o que foi está morto.
Nota: e assim dou início à publicação neste blogue de um portefólio dedicado à minha velhinha casa. Excepto quando assinalado, os textos são excertos de poemas de Octavio Paz.
Pecado original
Muitos participaram nas habituais transumâncias estivais de e para as ocidentais praias lusitanas, durante os meses de Julho e Agosto. São manadas e manadas entupidoras do comércio, da areia, da paciência, das estradas, dos mercados, das ruas, dos cafés, dos serviços, do sossego. Há quem chame isto de férias... Alguns já declararam mesmo, para os devidos efeitos, o fim do Verão. Talvez porque se sintam ainda aquém da Taprobana. Ou porque quiseram transformar o fim do "seu" Verão numa categoria universal. Tudo hipóteses (de trabalho), é claro. Seja como for, está aí à porta o magnífico e inspirador mês de Setembro. Propício a delíquos poéticos, caminhadas redentoras com a vieira a orientar, longas exposições aos tons dourado-acastanhados pré outonais e leituras a propósito. O mês onde, como bem notou Eugénio de Andrade, "tudo estava calmo / céu, lábios, areias...". A demora convém ser longa. Sem esquecer uma passagem furtiva pela vinha, ou pelo pomar. Espreitar a sua úbere e perfumada generosidade. Trincar a maçã. Dar graças por esta trégua momentânea entre os homens e Deus.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Mãe
Faz hoje um ano que a minha mãe se foi deste mundo. Nada do que possa aqui dizer mudará esse facto, ou afastará esse vazio. Por isso, limitar-me-ei a passar de novo o que no dia da sua morte escrevi. Sabendo talvez que estas palavras me hã-de escrever para sempre.
Uma mãe não é só a árvore de onde brota a seiva. Não é só a luz que teima em brilhar no fundo da escuridão. Não é só o amor/combate. O amor que nunca chega tarde. O amor tantas vezes desperdiçado. Tantas vezes deste reino e, por isso, de outro mundo. Tantas vezes vagueando pelas áleas pejadas de folhas outonais e sorrindo pelos prados primaveris. Tantas vezes estendido como um lençol tão grande que a nossa alma nunca irá abarcar. Tantas vezes uma rendição incondicional sem vencedores nem vencidos. Uma mãe é a única lição conhecida. O discreto esplendor da delicadeza. O farol que guia e mesmo apagado não descansa. O poema que uma vida não basta para escrever. E todas as lágrimas não chegam para lembrar.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
A imagem íntima da luz...
Representamos o objectivo e o subjectivo, a quantidade e a qualidade, o número cardinal e o ordinal, a desordem corpuscular e a música das esferas, a fatalidade e a liberdade. Representamos tudo isso, num cenário sólido, líquido e gasoso. E, por isso, comemos, bebemos, e respiramos; - três virtudes do fôlego animado, porque muda o que come, em sensações, o que bebe em sentimentos e o que respira em ideias claras ou obscuras, conforme é límpido o ar ou enevoado… É de sólida origem a sensação; o sentimento é já de origem fluídica; e, então, o pensamento é só cor azul ou imagem íntima da luz…
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
Nota. neste mês estive em Amarante, terra-natal do poeta. Foi impossível visitar o solar da família. Como compensação, pude "visitar" algumas obras do pintor Amadeo de Souza-Cardoso, no Museu Municipal com o mesmo nome.
domingo, 21 de agosto de 2011
terça-feira, 16 de agosto de 2011
O meu querido mês de Agosto
As festarolas de aldeia (e não só) que por aí pululam em Agosto nesta enormíssima província... Ora aí está um belo tema para abordar. Abordar? Confesso que esta palavra, com curso legal no eduquês e na preguiça disfarçada de escolês com trejeitos de erudição, me deixa fora de mim. Ei malta, 'bora abordar??? Ó Raquel, deixa-me colocar mais acima, para abordar melhor a tua orografia! Ora agora abordo eu, ora agora abordas tu... Pronto, já chega! Neste desiderato, só conheço um tipo de abordagem. Essa sim, um caso sério. Ou seja, o seu uso em contexto náutico. Imaginem então a selvajaria e inpiedade de um assalto a um navio por flibusteiros como Calico Jack, Capitão Kidd, Anne Bonny, ou Henry Morgan. Vá lá, não façam cerimónia com a a imaginação. E digam lá se, neste quadro, a palavra abordagem não adquire o seu legítimo e pleno significado... Ah, mas estava a falar de quê? Pois, as festas "populares" de Verão. Confesso que, sobre o tema, há muito pouco a dizer. Ou se há, eu ou alguém já o fez com acerto. E não me apetece adiantar seja o que for a propósito.
Proporção
Quanto mais estranhos, mais íntimos
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Três
Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.
Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.
Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?
Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.
Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m'espanto às vezes, outras m'avergonho.
Que, tornando ante vós, senhora, tal,
Quando m'era mister tant' outr' ajuda,
de que me valerei, se alma não val?
Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.
Sá de Miranda
Nota: e pronto, para fechar o tríptico, nada como um grande poema de amor
Outro
Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos"
De volta
Eu estou só
Eu falo de quem fala de quem fala que estou só
Eu sou apenas um pequeno ruído eu tenho vários em mim
Um ruído amassado gelado na intersecção das ruas
despejado no pavimento húmido aos pés dos homens
precipitados correndo com as suas mortes
À volta da morte que estende os seus braços
Sobre o relógio sozinho respirando ao sol.
Tristan Tzara, in "L'Homme approximatif"
quinta-feira, 21 de julho de 2011
terça-feira, 12 de julho de 2011
Movimento
Um murmúrio imperceptível durante o dia, enche toda a penumbra nocturna.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
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