quinta-feira, 28 de abril de 2011
O fumo dos outros
Lembram-se quando, há três anos atrás, o processo de aprovação da Lei 37/07, de 14 de Agosto, conhecida como lei "anti-tabaco", foi tema fracturante na opinião pública, maxime na blogosfera? A minha posição balanceou, na altura, entre a aprovação - um bom momento para fazer coincidir o facto de ter deixado de fumar há pouco com a extensão da restrição do consumo de tabaco em locais públicos - e a crítica ao propósito algo higienista que, no meu entender de então, motivou a aprovação da Lei. No final, tendi para a aceitação da nova regulamentação, sobretudo porque o direito ao bem estar e à saúde deve prevalecer perante o direito do consumidor/fumador de ver satisfeita sua adição. O acerto desta tomada de posição veio reforçado com a afirmação dos tremendos benefícios de ter parado de fumar, neste post, um ano depois. Ora, é sabido que, no início, a Lei funcionou razoavelmente, incluindo os sistemas de exaustão. Ainda que a sua homologação só viesse a ser regulamentada posteriormente. Talvez porque o temor de uma visita da ASAE pusesse de sobreaviso os proprietários dos estabelecimentos mais incautos. Com o tempo, veio a impor-se a tradicional "vista grossa" à portuguesa. Isto é: generalização da permissão de fumar em bares, cafés e estabelecimentos de diversão, sem que os sistemas de exaustão cumpram os requisitos legais e ficando mesmo longos períodos desligados, para "economizar" energia; inexistência de áreas destinadas a não fumadores nesses estabelecimentos. Para agravar o cenário, é precisamente na cidade onde vivo - a Guarda - que os abusos mais acontecem. Há dias, durante a quadra pascal, percorri alguns estabelecimentos nocturnos da cidade. Em todos eles, sem distinção, o ambiente de fumo era insuportável. Olhava para o lado e via toda a gente a fumar. E nem um exaustor a funcionar!... Mas enquanto bem sentia nos olhos e nos pulmões o ambiente criado, os fumadores pareciam ignorar os efeitos nocivos do seu consumo. Como se a névoa fizesse parte da mística da noite. Como se, para lá da sua satisfação, mais nada houvesse que respeitar. Devo dizer que esta atitude, mesmo reveladora de um profundo egoísmo, não é a razão principal deste ambiente irrespirável. Afinal, se fumam é porque sabem que o podem fazer. Os verdadeiros responsáveis são os proprietários desses estabelecimentos. Os quais, permitindo fumar, muitas vezes por razões comerciais, não tomaram as devidas precauções impostas pela lei. Os quais, centrados no peso da caixa registadora, ignoram o facto de poderem perder tantos clientes como aqueles que angariam.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
terça-feira, 26 de abril de 2011
Probabilidade
As coisas são possibilidades realizadas contendo inúmeras possibilidades realizáveis.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
sábado, 23 de abril de 2011
Aniversário
Contam-se pelos dedos de uma só mão as vezes que, neste blogue, se fazem postagens como esta. Ora, é sabido que o valor anda de mãos dadas com a raridade. Com umas escapadelas estatísticas pelo meio. Mas vamos ao que interessa. O senhor da fotografia, para quem não sabe, chama~se Américo Rodrigues. Faz hoje precisamente 50 anos. É um amigo dentro e fora deste blogue. E um cúmplice de longa data do escriba, em inúmeros "crimes" de lesa-cultura, nesta cidade da Guarda. Arrasta consigo uma carreira artística e profissional invejável. Mas, não menos importante (vou ter que repetir isto, mas o que é que se há-se fazer?), é o maior responsável pelo facto de a Guarda ter um acesso digno à cultura, ter escapado ao mofo clerical e burguês novecentista, conseguir por vezes um cheirinho de cosmopolitismo, ser uma referência nacional em matéria de política cultural. Não acreditam? Olhem que é mesmo verdade verdadinha! Ora, no dia 25 de Abril vai-lhe ser entregue, pela Ministra da Cultura, a Medalha de Mérito Cultural respectiva. Nem a propósito! Parabéns Américo e que contes muitos!...
quinta-feira, 21 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
O espelho
Em alguns blogues de referência da Guarda continuo a detectar um padrão de comentários. Ou seja, na caixa respectiva, os multi identitários anónimos vêm, de mansinho, e a coberto de responsabilidades, lançar a suspeição, a dúvida, o aviltamento. Alimentar autos de fé particulares com mais gasolina. Colocar mais merda no ventilador, como dizem os nossos confrades brasileiros. Os temas são invariavelmente a política e os políticos locais. A dança dos cargos e das sinecuras. As prebendas e as comendas. A transumância das influências e dos notáveis. Se este ou aquele gere bem a sua capelinha. Se a terrinha do anónimo é melhor do que as outras. Porque dotada de líderes clarividentes, bem colocados na roda dos mandarinetes paroquiais em exercício. Medíocres incensados pelas estruturas de veludo partidário. Pequenos e médios orgiastas e régulos avulso, que num país decente não passariam da tarimba e da continência. Porque as tais terrinhas possuem uma dinâmica imparável. Porque são um autêntico berçário de virtudes, diante das quais as terrinhas confinantes deveriam somente praticar a inveja, ou, no limite, a genuflexão regulamentar. A razão profunda para esta pobreza de ideias e de projectos, está onde? Na inveja e na pequenez. Algo que Pacheco Pereira retratou recentemente de forma exemplar no seu blogue: (...) a inveja era um poderoso sentimento nacional, impulsionada pela fome social e pelo ressentimento. (...) não nos enxergamos. (...) o subdesenvolvimento estava na enorme preguiça mental que atravessa tudo, da comunicação social à política. (...) num país em que somos todos primos uns dos outros, é difícil a democracia. (...) os bens são escassos e a fome é muita. Portanto, se o mal é nacional, na Guarda é trágico. A qualidade dos políticos é sofrível. A maioria depende dos cargos que ocupa e das influências e notoriedade (muitas vezes de papelão) que por essa via conseguem. Mas não existe um espaço público onde essa realidade seja discutida olhos nos olhos. Portanto, a solução é ir para as caixas de comentários dos blogues e anonimamente depositar o fel, açaimar o boato, empilhar a suspeição, promover interesses e amigos. Afinal, o anonimato até pode prevenir um futuro convite para o lugarjinho, ou axim. Ou seja, pouco mais do que o reflexo distorcido da mesma realidade que se pretende denunciar. Quando aquilo que falta na Guarda é precisamente a audácia, o destemor, a iniciativa, romper o compadrio, trabalhar, criar mais valias...
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Tragédia em um só acto
Sendo "normal" a vitória de Cavaco Silva nas presidenciais de Dezembro, sem dúvida que Fernando Nobre foi o seu grande protagonista. Pelo capital de esperança que reuniu, pela extraordinária mobilização alcançada, pelo score, por ter "secado" o candidato oficial da esquerda. Mas também pela sensação que ficou a pairar de que a luta iria continuar. Luta em prol de novas formas de intervenção política, para lá dos partidos. Luta pela colocação da solidariedade e da coesão social como motivos centrais na política. Luta para que a cidadania fosse encarada não só como participação passiva, também como uma espécie de direito natural, irredutível, pessoal e exequível por si próprio. A extraordinária novela Michael Kohlhaas, de Heinrich von Kleist (1777-1811), ilustra perfeitamente esta ideia. Todavia, ao aceitar o convite do PSD para cabeça de lista em Lisboa, eis que FN sucumbiu às armadilhas de um sistema que ele tanto criticou. E se o gesto foi um erro colossal, a forma como o tem gerido é absolutamente trágica, cavando para si uma capitis diminutio sem remédio e sem glória. Por várias razões:
1º Logo à cabeça, nunca explicou devidamente aos seus apoiantes a sua inflexão. Ao ter encorajado, no pós eleições, a criação de uma rede informal de cidadania, revelou, ao invés, surpreendentes tiques autistas e um enorme desprezo por quem nele acreditou;
2º Ao envolver-se na vida partidária, hipotecou, de forma inexorável, as hipóteses de sair vencedor nas próximas eleições presidenciais, cuja preparação e "estágio de maturação" deveria ser a sua 1ª prioridade;
3º Materializou-se um receio que já havia pressentido durante a campanha. Ou seja, detectei alguns tiques de culto da personalidade e de um messianismo próximo da irracionalidade de seita. Situações a que sou particularmente sensível e adverso. É certo que, em grande medida, a responsabilidade não foi de FN, mas da sua mensagem por vezes um pouco vácua, proselitista e, por isso, dada ao populismo. Que atraiu esse género de seguidismo quase religioso por uma boa parte dos apoiantes. O que não encaro de forma alguma com leviandade ou censura. A questão é que Nobre não soube estar à altura deste conjunto diversificado de enormes expectativas que muitos depositaram nele. Com esta sua recente deriva, levou a que quem continue a acreditar nele o faça por razões de fé e não como uma opção racional, livre e esclarecida.
3º Materializou-se um receio que já havia pressentido durante a campanha. Ou seja, detectei alguns tiques de culto da personalidade e de um messianismo próximo da irracionalidade de seita. Situações a que sou particularmente sensível e adverso. É certo que, em grande medida, a responsabilidade não foi de FN, mas da sua mensagem por vezes um pouco vácua, proselitista e, por isso, dada ao populismo. Que atraiu esse género de seguidismo quase religioso por uma boa parte dos apoiantes. O que não encaro de forma alguma com leviandade ou censura. A questão é que Nobre não soube estar à altura deste conjunto diversificado de enormes expectativas que muitos depositaram nele. Com esta sua recente deriva, levou a que quem continue a acreditar nele o faça por razões de fé e não como uma opção racional, livre e esclarecida.
4º A desastrosa declaração de que a sua eleição como deputado seria uma simples formalidade para ser nomeado como Presidente da AR. Descartando assim essa qualidade se não for eleito 2ª figura do Estado. Pior a emenda do que o soneto. E que revela várias coisas, igualmente preocupantes: passar por cima dos mecanismos de representação democrática e da sua génese; querer alcançar pela porta do cavalo o que não atingiu numa eleição; desconhecimento total da natureza do cargo que pretende assumir e dos consensos necessários para a designação; não ter em conta os anti-corpos que criou na classe política durante a campanha eleitoral; dar de barato que "os fins justificam os meios", mas esquecendo-se de que, não havendo fins, a não ser a possível nomeação para um estéril cargo regimental, os meios se justificam a si próprios. Da pior maneira possível, como soe fizer-se. Espero bem que a causa da "vida política para além dos partidos" tenha, no futuro, líderes mais nobres.
domingo, 17 de abril de 2011
sábado, 16 de abril de 2011
Vento
Só a música define o indefinido, sem ele deixar de ser indefinido; e a matemática calcula o que permanece incalculável; e a poesia canta o silêncio, que se conserva silencioso.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
Além
Os penedos não são felizes. Vede-os contraídos numa trágica forma em que sobressai o vazio ponderável da sua massa empedernida. E a montanha de que o penedo é uma parte? E o planeta que é um prolongamento da montanha? E o Universo? E depois?
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Lido
(...) não é líquido que aquilo que fez muita gente abjurar de Sócrates não seja também uma ilusão: que, deitando Sócrates abaixo, se impedirá muita austeridade. Que papel tem a ilusão de que as coisas serão melhores, como por milagre, removendo o “mau”? Ou que, pelo menos, serão adiadas medidas duras, dentro da velha máxima que enquanto o pau vai e vem folgam as costas? É que o outro lado da nossa desgraça é que não existe uma verdadeira força endógena para a mudança que suporte os melhores, que dê suporte eleitoral ao que é difícil mas necessário. Depois não vale a pena andarmos-nos a queixar dos maus políticos. São aqueles que escolhemos.
Pacheco Pereira, no "Abrupto"
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Crimes banais
Uma das características principais dos mistificadores, muitas vezes confundidos com os sonhadores, é quererem, à força, ver nas coisas o que lá não está, nem nunca estará. Arrastando os outros nessa vertigem. Muitas vezes o engano só serve para a composição da paz interior, para o sossego da própria mente. As consequências do facto, comprovadas pela História, são devastadoras. Pelo contrário, os verdadeiros sonhadores, um pouco como os piratas, são terrivelmente pragmáticos. Ou seja, distinguem-se por verem nas coisas o que já lá está, mas os outros ainda não viram. "Roubando" descaradamente a percepção aos que os rodeiam, para depois distribuir o saque e repartir a ambição. Todavia, se nessa matéria estamos conversados, noutro desiderato contíguo é mais difícil a arrumação. Refiro-me à tendência para vermos nos outros qualidade e atributos que não têm. Justamente para ilustrar um tese ou rendilhar uma mentira útil. Só conheço uma coisa ainda mais nociva: conseguir ver nesses outros unicamente os seus defeitos e limitações imaginários, mas não descortinar os reais.
sábado, 9 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
A arte da fuga
A fuga tem duas predestinações mais ou menos aceites pelo imaginário popular: a evasão penitenciária e o itinerário da consumação plena de alguma paixão fulgurante, que não espera pela aprovação das circunstâncias onde nasceu. Ambas são depositárias da rêverie romântica, ao jeito de Dumas, ou Camilo, respectivamente. No entanto, só a segunda encerra o núcleo essencial do amor trovadoresco. Ou seja, a representação do amor tal como o Ocidente o conhece, nascida algures na Provença do séc. XII. O maior problema destas movimentações, antes feitas a cavalo e hoje perfeitamente motorizadas, é que ninguém fala do local de chegada. Nada se sabe do que aconteceu "depois". Ou seja: o normal é dizer-se: "fulano e sicrana (ou fulano e sicrano, ou sicrana e fulana, sim, é melhor ampliar as variáveis politicamente correctas, não vão as associações "do sector" cair-me em cima) fugiram os dois anteontem, abandonando tudo". Descontado o pleonasmo da última parte, raramente o local de chegada, ou o desenvolvimento da história romanesca, são tema de conversa, ou mesmo objecto de curiosidade. Porque será? Pudor? Seria bom demais. Desinteresse? A proliferação de romantismo de cordel e das revistas cor de rosa desmentem a hipótese. A minha aposta vai para outra possibilidade, aparentemente menos óbvia: o mito do "foram felizes para sempre" impõe aqui a sua cortina de silêncio cúmplice. É que, se a fuga denota arrojo, também comporta um risco. E quem se arrisca não o faz sem uma determinação acima do cálculo e à margem da decepção. E não é menos verdade que o heurístico "happy end" é a homenagem possível que a resignação videirinha dedica à grandeza. Ou que uma curiosidade indisciplinada consagra ao que já pertence a uma ficção demasiado próxima da realidade. Portanto, para todos os efeitos, "viveram felizes para sempre". Porquê? Don't ask, don't tell!. Caso encerrado.
Rating de veludo
É como tudo. Até mesmo os apertos financeiros, que empurram o país para uma espécie de protectorado da boa vontade internacional, têm o seu lado positivo. Vejamos porquê. As conversões, as iluminações, as combustões espontâneas, as apostasias, as revelações místicas, as hierofanias inexplicáveis e outros fenómenos congéneres têm, quase sempre, um tronco comum. Acreditemos que sim. Ainda que, neste caso, encimado por uma carinha laroca... Aconteceu à hora de almoço. No meio do habitual zapping, deparei com a proverbial TVI. Exactamente no momento em que irrompeu a Marta, correspondente da Agência Financeira, por entre as resmas de pixels do ecrã. Ah, momento sublime!!! Ah, perdição que tomaste conta de mim!!! Como foi possível? Ah, o doce desespero, a altura, o mar, a soberania do acaso... Coisas não fechadas, abertas de par em par, como se o peito rebentasse... Quando me recordo do eco, que antes palavras como "ratings", "flutuações cambiais", "índice Dow Jones", "abrir em baixa", "cair em alta", "títulos transaccionados", "praça de Tóquio", tinham em mim!... Quedas consentidas, subidas fulgurantes, lances virtuais que compunham uma linguagem fantasmática, estéril, que produzia tantas emoções no meu ser como um algoritmo matemático ou a leitura das indicações terapêuticas de um anti-inflamatório. Ou seja, o mesmo que uma ladainha numa língua ininteligível. Uma cifra cuja repetição cadenciada induzia a memorização da forma, a neutralidade do fonema oco. Uma frenética liturgia do capital, sem templos nem genuflexões, ampliada pelos holofotes do espectáculo. A narrativa possível para o vazio. Mas tudo isso acabou, mal vi a Marta... O que era asséptico tornou-se um sopro e um arrepio, o que era inatingível ficou ao alcance da mão... Enfim, das trevas nasceu a luz, essa é a mais pungente realidade, meus amigos. Apesar dos seus "espirros", das amoráveis hesitações, dos "portantos", do à vontade esforçado... Mas será que a verdadeira beleza dispensará uma ligeira imperfeição para se fazer anunciar? E pronto, já só ambiciono ser o corretor preferido das suas primícias... Ah, crise bendita!
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Menos
O infinito é ele menos o metro em que avultamos; a eternidade é ela menos a hora em que vivemos...
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
O eco
A vida é uma queda da energia brutal, sorriso que ficou da gargalhada, reflexo de um incêndio longínquo.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
terça-feira, 5 de abril de 2011
A mentureira
Já quando andava no Liceu, a matemática era para mim um pesadelo. Mais tarde, já na Faculdade, as assombrações continuaram, por via das disciplinas da área económica. Sempre detestei a Economia. Uma ciência tão inútil como a morte. Mas que, no essencial, não deixa de ser uma realidade perfeitamente... paralela. Vai daí, soube hoje que, por aplicação da tabela das agências internacionais de rating, estas fizeram descer a notação financeira de Portugal, de 'A3' para 'Baa1'. O País fica assim a três degraus da classificação de "lixo"! A sunny junk country, man! Note-se que essas mesmas agências são as que, em 2008, antes da "bolha", avaliavam o tóxico subprime com a classificação AAA. Vejam o magnífico documentário "Inside Job" e perceberão como o esquema circular funcionava. Portanto, estamos à beira de acabar num anódino quintal das traseiras do mundo financeiro, convenientemente escondido dos convidados da boda. O que custa, no meio desta excitação pré-insolvente, é perceber que os investidores de Wall Street ou de Singapura conhecem melhor a nossa realidade económica do que os cidadãos deste cantinho à beira mar enxertado. Um realidade demasiado dura para a nossa mansidão e que os Governos têm vindo, piedosamente, a ocultar. Talvez pensando, que, como eu, os portugueses não gostem de fazer contas...
segunda-feira, 4 de abril de 2011
O espectáculo da populaça
Só para se ajuizar da qualidade informativa dos nossos meios de comunicação, basta ver o que se está a passar nas televisões esta noite. Em vez de cumprirem a sua obrigação - informar, divulgar, recrear - estão centradas nas comemorações de uma vitória, ao que parece, no mundo do futebol. As hordas com as cores de uma conhecida agremiação de bairro mais a norte eram mostradas ad nauseum. Enquanto vociferavam e grunhiam como se tivessem ganho o euromilhões. Manifestações festivas? Não! Expressão de ódio, chauvinismo e incultura cívica. Na cidade onde vivo, a escassez dos cidadãos que se juntavam em comitivas automóveis era compensada pelo ruído que produziam. Que ultrapassou as horas legalmente permitidas para tal. Entretando, as TVs iam convidando notáveis dessa agremiação regional dada à corrupção, para debitarem inanidades avulsas. Ou seja, a prova de como o insucesso escolar é premiado quando se trata de distrair os papalvos. Em síntese, é espantoso como as TVs da praça dão ampla cobertura a este espectáculo degradante. Como se nada mais se passasse no universo. Uma vergonha!...
quarta-feira, 30 de março de 2011
De onde?
O que significa "ser" deste ou daquele sítio? Ou melhor, o que significa anunciar urbi et orbi que se é daqui ou de acolá? Antes de mais, convém isolar o enunciado "sou de tal sítio" do contexto onde aparece. O qual só ao autor do enunciado diz respeito. Pois é nessa declaração, e só nela, que vou pegar. Ora, o sentimento de pertença a um grupo, a um território, a uma cultura, a um corpo de representações colectivas comuns é, sem dúvida alguma, um elemento definidor da identidade do sujeito. Onde participam elementos subjectivos e objectivos, é claro. Mas nos quais não me vou agora deter. A existência social dos indivíduos é determinada, segundo Pascoaes, em primeiro lugar pela família a que pertencem, vindo depois a comunidade, associada a um território e, depois, a nação. Abstraindo do fundo de maneio ideológico que subjaz a esta construção, diria que, embora cada um se possa descartar de algumas destas filiações, dificilmente o poderia fazer em relação a todas elas. Centro-me agora na segunda, pois é dela que aqui cuido. O sentimento de pertença a um lugar é um laço identitário tão forte quanto relativo. Uma vez que pode não ser determinado pela naturalidade, mas pelas circunstâncias da existência, pela afinidade, por ser aí que se adquiriu a notoriedade, o conhecimento, a felicidade. Em suma, é um local adoptado que também nos adoptou, o que sinaliza uma verdade que uma ficção administrativa não pode fazer subsistir. Significativamente, na Idade Média e durante o Renascimento, era comum as pessoas serem conhecidas simplesmente por dois nomes: o próprio e o da cidade onde viviam, ou onde se notabilizaram. Erasmo de Roterdão e João de Ruão são só dois exemplos. Tudo isto para chegar onde? É menos importante o local de onde se é do que aquele onde se está. Claro está que, se ambos coincidirem e se para o sujeito essa ligação for importante, nada mais haverá a crescentar. Mas há mesmo. Porque existe uma relação inversamente proporcional entre o local de pertença formal que se invoca e a substância do seu conhecimento. Ou seja, quanto maior a veemência da afirmação do local de onde "somos", menos lá estamos, ou estivemos, efectivamente. Claro que, para muitos, esta questão nem se põe, uma vez que a sua identidade cultural passa por outras representações. Para esses, "ser" e "estar" são realidades simultâneas, nómadas e, porventura, risíveis, quando vistas em conjunto. No meu caso, posso adiantar que, estando fora de Portugal sou português, se isso vier à tona, e estando dentro sou prioritariamente "do mundo". Quando se trata de referir qualidades próprias, ou exemplos particulares, da Guarda. Na cidade, simplesmente "estou". Ou melhor, "vou estando". O que permite ficar dispensado de declarações redundantes e apropriações nefastas. "Tásse"? "Ora bem"!
segunda-feira, 28 de março de 2011
O centro
O homem só é verdadeiro quando se julga incógnito. Se tem de representar a sua pessoa, a arte absorve-o e desvia-o do seu próprio ser.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
sábado, 26 de março de 2011
O assalto
João Gonçalves, autor do "Portugal dos Pequeninos", é uma figura incontornável da blogosfera nacional. Aguerrido, alheio às nebulosas informativas onde pontuam os spin doctors, sem medo de afrontar os poderes e as convenções, sabe desmontar como ninguém os jogos da política lusa e os micro fascismos do politicamente correcto. Visões que, em grande medida, partilho com o autor. Em Junho de 2009 publicou "Portugal dos Pequeninos". Como o nome indica, trata-se de uma compilação de textos do blogue, um "best of" com a chancela da Bertrand. O livro foi na altura lançado com pompa e circunstância e apresentado por Pacheco Pereira. E eis que, no dia 24 deste mês, foi tornada pública a sua última obra, intitulada "Contra a Literatice e afins", edição "Guerra & Paz". Na cerimónia, a apresentação coube a Pedro Mexia. Ora, do próprio título retira-se o programa desta edição. Sem cerimónia, privilegiando determinadas "figuras, autores e acontecimentos", o autor comenta a obra de algumas "vacas sagradas" da literatura nacional, mais ou menos "light", como José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto, Eduardo Pitta, Maria Filomena Mónica e Miguel Sousa Tavares. E fá-lo fora dos vínculos e das vassalagens feudais que minam a crítica literária em Portugal. Ao estilo do saudoso João Pedro George, que tão bem desmascarou as toupeiras e as coutadas literárias. Neste clip da rubrica "Estante dos Livros", do "DN", veja-se uma breve referência crítica ao livro. O qual se recomenda sem restrições.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Logo à noite
Sim, lá estarei na mesa. Mas lateja-me aquela frase: "hoje há muita gente que escreve poemas, mas escasseiam os poetas". Aparece sempre no meio de um desejo de quietação. De uma responsabilidade que não se pode descartar. De uma oportunidade que a grandeza concede à dúvida. Mas o que estou a dizer? Será assim tão certa a rarefação? Haverá uma ordem directamente proporcional nesta fatalidade? Talvez. A dissolução sem medida, ou a clausura ardente não é para todos. Mas não é preciso exagerar. Os poemas desses poetas que não dispensam o estilo ou a feroz candura, como que inoculam uma espécie de dislexia nos seus hospedeiros. Muito tempo e nenhuma pressa. Fazem devorar a realidade mais depressa do que esta se consegue regenerar. Abrem brechas, túneis e alçapões. Onde a luz nunca se esconde. Os tais poemas desses tais poetas nunca estão no mesmo local. São poemas portáteis, negociados entre poetas nómadas. A impiedade é a sua arma de sobrevivência. O seu recesso amoroso. A sua moeda de troca.
Mas como chegámos aqui? Amputada do seu berçário imemorial, a cosmogonia, a poesia banalizou-se. Sucumbiu à vertigem da individuação massificada. Abandonou a contenção. Deixou de ter um crivo a separar a escória do minério. Passou a ter boas maneiras. Longe, muito longe, a monitorização do apelo visceral. Adquiriu propriedades ansiolíticas ou euforizantes, para escravos e hibernantes. E o que fazem os escrevinhadores de poemas à poesia? Epitáfios bem intencionados, nada mais. Refinados ou pré-lavados produtos do ócio, da venalidade, da desatenção. Anseios de reconhecimento e, não raras vezes, de simples comiseração.
Jogar à Benfica
Um golo de sonho de Nico Gaitán, a finalizar uma jogada do mais alto nível. Um hino ao futebol, composto por 16 toques! Para ver e rever sempre. O momento foi destaque do jornal desportivo espanhol "Marca". Que afirma ter o Benfica dado "un auténtico festín en su visita a Paços Ferreira. De los cinco goles logrados por los lisboetas destacó el tercero, obra de Nico Gaitán, que culminó una excepcional jugada de equipo, recordando al más puro estilo Barça por los toques de calidad." Notícia e comentários aqui.
A cobrança
Percebe-se muito bem que são os contribuintes alemães que, em grande medida, estão a financiar a nossa dívida pública. E, ao que tudo indica, irão continuar a fazê-lo por longos anos. Na quinta-feira, Ângela Merckl, em pleno Bundestag, criticou com dureza o chumbo do PEC 4 na Assembleia da República. Ou seja, pôs em causa uma deliberação de um órgão de soberania de um outro Estado. É certo que questionou a oportunidade política daquela, mais do que a sua legitimidade. Mas o problema mantém-se: a chanceler alemã ultrapassou claramente as fronteiras da coexistência e do respeito mútuo entre sujeitos do direito internacional dotados de soberania. Condicionando os mecanismos do debate político de outro estado membro da União Europeia e menosprezando a vontade dos representantes do povo português. Perdeu-se a intangibilidade da nossa soberania. Fixem a data.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Lido
O governo - ou o que resta dele - trata o parlamento como se aquilo fosse as "novas fronteiras" socráticas. Os ministros - ou que resta deles - actuam como se estivessem em comícios do PS e não enquanto membros do governo de Portugal. Ou seja, comportam-se como se estivessem diante de serviçais dependentes e acéfalos sempre dispostos à banha da cobra (que Sócrates vai "vender" às tvs como um vulgar publicitário depois de ter ignorado a AR). É preciso mais provas?
João Gonçalves, no "Portugal dos Pequeninos"
Bola ao centro
Na segunda feira à noite foi perpetrado um ataque contra a comitiva do Benfica que se deslocou a Paços de Ferreira, no regresso a Lisboa. Para além dos danos no autocarro, o carro de Luís Filipe Vieira foi "abalroado" por um saco de pedras, lançado do único viaduto não vigiado da auto estrada que liga a "capital do móvel" ao Porto. Daí resultando ferimentos ligeiros no Presidente do SLB. Para além da incidência criminal do acto - o qual configura claramente um crime contra a segurança de transporte rodoviário, com perigo de vida ou para a integridade física, previsto e punido no art. 290º, nº 2 do Código Penal - interessa ir mais além e deslindar a estratégia que está por detrás. Ora, o sucesso desportivo do Benfica na época passada provocou muito receio nas hostes da agremiação regional de Contumil, também chamado FCP. Receio de que duas décadas de medo, intimidação e fraude fossem suplantados pela simples verdade desportiva. Ou seja, ganham os melhores, sem fruta, sem favores e sem tráfico de influências. Esse receio foi rapidamente transformado em pânico. Pois que o retorno do "investimento" feito em duas décadas de impunidade ficaria muito aquém das expectativas. Que maldade! Então o que seria da rede tentacular? Qual o futuro da nebulosa montada para falsear resultados, outorgar regulamentos, inventar castigos, influenciar nomeações, comprar responsáveis do aparelho judiciário e político, determinar a progressão dos árbitros, impor jogadores à Selecção Nacional, "afastar" do caminho vozes incómodas, denegrir o Benfica e apoucar os seus dirigentes, manter uma corte de avençados sempre às ordens na comunicação social, enfim, ter como modalidade "desportiva" secundária a exploração de casas de alterne? O assunto era sério demais para o Papa e seus acólitos! O "sistema" tinha que se manter no activo e apresentar resultados, fosse por que meios fosse. Vai daí, antes de mais, importava assegurar a vitória na Liga. Que começou da forma que se conhece, com arbitragens altamente prejudiciais para o Benfica. É evidente que não explicam o mau arranque de época da equipa da Luz, mas deram o sinal de que o polvo estava de volta. O fosso pontual então cavado nunca mais viria a ser recuperado. Graças aos expedientes que se conhecem: arbitragens escandalosas amparando os resultados do FCP, com penaltis só para um lado, de modo que a Liga Sagres se poderia chamar, com propriedade, Penalti Cup; quando a perseguição do segundo ao primeiro estava a causar alguns sobressaltos em Contumil, a mui célebre palhaçada de Braga, que entrará seguramente para o livro negro do futebol em Portugal. Mas ganhar a Liga não bastava. Era necessário desestabilizar a equipa, de que os elogios do padrinho a Jesus é um bom exemplo. Criar um ambiente de hostilidade contra o Benfica nas restantes equipas, mediante empréstimos de jogadores pro bono e infiltração de agentes provocadores. Mas, sobretudo criar um clima de guerrilha verbal e física, elevar a temperatura até níveis escaldantes. O propósito é claro. Provocar incidentes entre os adeptos e equipas no próximo jogo da Luz. De modo a que o Benfica seja associado à violência e práticas anti-desportivas e veja o seu estádio interditado. Forçando assim a que a meia-final da Taça de Portugal se jogue em campo neutro. Na blogosfera benfiquista e não só, têm-se amontoado, faiscantes, palavras como vingança, lei do Talião, batalha campal, "dar-lhes" forte e feio, promessas de "tirar a tosse" e outros mimos. Vamos lá ter calma, pessoal! Não entrem num jogo com regras viciadas! Não caiam na armadilha montada por quem se sabe. Bem sei que a indignação é muita. Mas é nestas alturas que a contenção saberá marcar uma diferença, diria, civilizacional.
Ao que parece, em Braga, mas sobretudo no Dragão, quando o speaker apresenta as equipas, refere-se sempre ao Benfica como o "adversário". O intuito provocatório é óbvio. Mas é importante que os benfiquistas saibam declinar tão amável estatuto. Pois, como diz acertadamente Diego Armês no "227218" (por sinal um dos meus blogues preferidos do universo benfiquista), é bom acreditar que, «num mundo normal, "o adversário do Porto" só pode referir-se a uma equipa da PJ ou a um colectivo de juízes».
segunda-feira, 21 de março de 2011
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