Só conto isto por uma questão de curiosidade. Rigorosamente mais nada. Medalhas, só de latão! Sim, já que os brindes do bolo-rei foram proibidos. Para desgosto das crianças e dos pobres de espírito de todas as categorias. Mas a fava, ao que parece, ainda continua. E sai a cada vez mais portugueses. Porém, a sua existência é para mim um dado puramente empírico, uma vez que não sou grande apreciador daquela especialidade de confeitaria, própria desta época. O caso é que, aposto que ainda ninguém falava no assunto, mas já neste blogue se badalava acerca deste novo paradigma da globalização chamado Wikileaks. Foi aqui e estávamos no distante ano da graça de 2008!...
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Delfos
Não há que ser demasiado ambicioso com a dor. Não esperar cânticos de redenção. Deixemo-la simplesmente entrar. Como uma visita persistente e incómoda. Que forçou a porta e pôs os cães das redondezas a ladrar. Nada a fazer. Deixá-la entrar. É ela que nos faz levar a sério. É ela que nos reenvia para dentro de uma lucidez circunspecta, exacta. É através dela que nos chegam os sinais de uma natureza que simplesmente nos reflecte. A que diz: "eu sou e tu estás", "podes usar-me como quiseres, mas tudo o que fizeres terá consequências".
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Lido
Jornais, rádios e televisões estão cheios de reportagem, relatos e notícias sobre a pobreza que parece estar por todo o lado. Parece exagerado que, de repente, haja uma epidemia de efeitos, muitas vezes antes sequer das medidas que os provocam começarem a ser implementadas. É verdade que o desemprego já cá está há mais de dois anos (começou antes do início “oficial” da crise pelo nosso preclaro governo…), mas a gravidade do fenómeno acontecerá só quando se esgotarem as almofadas sociais, familiares e públicas, que ainda lhe minimizam os efeitos. E só durante o ano de 2011 é que a quebra abrupta do nível de vida começará em toda a sua gravidade. Por isso, convinha haver alguma contenção, porque a pobreza não é substituir as férias em Cancún por uma semana no Algarve, nem comer menos um bife por semana. É outra coisa muito mais grave, muito mais perigosa e muito menos visível.
Pacheco Pereira, no "Abrupto"
Acorrentados
No seguimento do post anterior, foi igualmente anunciada, pelo Governador Civil da Guarda, a obrigatoriedade do uso de correntes de neve nas viaturas que circulem na via pública da cidade, sempre que as condições climatéricas o aconselharem. Tenho muitas dúvidas acerca da justeza e viabilidade desta medida. Mas antes de explicar porquê, saliente-se que, não estando tal estipulação prevista no Código da Estrada, recorreu-se à postura municipal para lhe emprestar força jurídica. Ora, as minhas dúvidas prendem-se com a previsível arbitrariedade com que as autoridades policiais a irão interpretar. Ou seja, quem avalia com rigor os pressupostos para a sua aplicação? Quem fiscaliza? E quais as sanções previstas? Por outro lado, como será dada a conhecer tal determinação? Afixando painéis pela cidade e estradas do concelho? Outra questão tem a ver com o universo dos destinatários. O mesmo é dizer, será que os visitantes que vêm ver a neve e desconhecem a obrigação, terão tratamento diferenciado em relação aos munícipes? Obviamente, no único local onde esta medida já existe há alguns anos - o percurso entre a Covilhã e a Torre - estas perguntas não teriam cabimento. Uma vez que, nesse caso, bastou colocar barreiras nos acessos respectivos, acompanhadas de painéis informativos. Será possível fazer o mesmo na Guarda? Tenho as minhas dúvidas, devido ao número de acessos, à extensão do território e à limitação dos recursos. Por último, prevendo-se um aumento exponencial da procura, como e onde adquirir as correntes? Para evitar a especulação, não seria aconselhável colocá-las à venda no futuro Centro, a um preço simbólico, "social"?
Limpeza
Uma boa notícia. Segundo tudo indica, o famigerado Centro de Limpeza de Neve da Guarda vai mesmo ser uma realidade, ainda este Inverno. É o que tem vindo a garantir o Governador Civil do Distrito, ao longo da última semana, após reunião com o Ministro da Administração Interna. A Unidade será constituída, segundo o próprio, "por uma viatura limpa neves pesada, um veículo ligeiro para actuar no centro da cidade e também uma pá carregadora para carregamento de sal". O custo do equipamento está orçado em 300 000 Euros, sendo dois terços financiados por verbas comunitárias e o restante por entidades locais.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Petição (2)
O segundo abaixo-assinado tem como lema a "Restituição da Nacionalidade Portuguesa aos Judeus Sefarditas Portugueses". Uma medida justíssima, que reporia a verdade num dos mais dramáticos episódios da nossa História. Sobre o assunto e razões desta petição, recomendo a leitura deste excelente comentário no "Rua da Judiaria".
Para assinar, clicar aqui.
Petição (1)
De uma assentada, duas petições. Esta primeira destina-se à criação de uma unidade específica de combate a intempéries invernais da Guarda. Tem como causa imediata a ineficiência e alarmismo evidenciados pelo Serviço de Protecção Civil, no decurso do nevão da semana passada. Que não cuidou do que é básico nestas circunstâncias: manter a cidade a funcionar e potenciar a neve como seu principal cartaz turístico. O tema já aqui havia sido comentado. Ver também este texto, no "Café Mondego". Impõe-se assim a constituição de uma unidade profissionalizada e dotada dos meios adequados, vocacionada especificamente para estas ocorrências.
Assinar neste local.
sábado, 4 de dezembro de 2010
O milagre
O Poeta e o Herói são dois milagres; contradizem a Natureza, como duas pedras que voassem.
Aforismos, Teixeira de Pascoaes, selecção e organização de Mário Cesariny
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
A igualdade segundo César
Como se sabe, o eterno Presidente do Governo Regional doa Açores acaba de isentar os funcionários regionais dos cortes impostos na função pública pelo PEC 2.
Sobre o assunto, escreve João Gonçalves no "Portugal dos Pequeninos": "o pequeno Kim dos Açores veio dizer que a sua "medida regional" - compensar três mil funcionários públicos tão portugueses como os de Faro, da Guarda ou do Funchal, por exemplo, dos cortes gerais que entram em vigor daqui a umas semanas - é dele e que nem o Querido Líder tem nada a ver com isso. Acresce, diz, que tal coisa não custa nem um cêntimo a ninguém. Ai não? Então o dinheiro brotará das fumarolas? Ainda estou para saber o que é que Medeiros Ferreira "viu" nesta criaturinha politicamente abjecta, saída directamente de um livro de Orwell para contribuir para o esterco em que tudo isto se tornou."
Sá Carneiro por Pulido Valente
«Trabalhei dia a dia desde o princípio de 1979 até Dezembro de 1980 com Sá Carneiro; primeiro como adjunto no partido e membro do Governo-sombra, a seguir como secretário adjunto no Governo propriamente dito. Até há pouco tempo, julguei que sabia o que ele pensava da política portuguesa e que tinha uma ideia aproximada do que ele se propunha fazer. Erro meu. Hoje, trinta anos depois do desastre que o matou, apareceram dúzias de íntimos, que nunca vi na altura perto dele e filósofos que explicam numa prosa arrevesada e solene o verdadeiro pensamento do homem. Compreendo que a ocasião é boa para ganhar uns cêntimos ou para ajudar carreiras tremelicantes. Mas não consigo deixar de me espantar com revelações que não revelam nada e com a transposição anacrónica para a cabeça de Sá Carneiro de coisas que manifestamente não o preocuparam ou que nem sequer imaginava. Assim se escreve a história e o jornalismo que se diz de “referência”. No meio dessa mistura de alhos com bugalhos, convém perceber que os fins de Sá Carneiro eram dois. Primeiro, levar a direita (o PPD e o CDS) ao poder e, segundo, acabar com a tutela militar a que Portugal estava submetido. Talvez seja inútil explicar que se o poder ficasse indeterminadamente nas mãos da esquerda que se opusera à ditadura, e só nas dela, não tardaria que se criasse a ideia de que não assistia ao PSD e ao CDS qualquer legitimidade para governar e o regime democrático ficava à partida liquidado. As maiorias de 1979 e de 1980 e a genérica moderação da AD (que se absteve de perseguir fosse quem fosse e respeitou meticulosamente a lei) legitimaram a direita em definitivo. O que simplificou a vida a Diogo Freitas do Amaral, ao PS e a Mário Soares, quando, pouco a pouco, resolveram reduzir os “revolucionários” de 1974 e 1975 ao pequeno papel que, num país civilizado, lhes cabia. Sá Carneiro queria apressar este processo, que, na prática, durou até ao colapso do PRD. O plano (se merece o nome) era eleger Presidente da República um general conservador e provocar, com o apoio dele, um referendo sobre a Constituição. Infelizmente, esta estratégia não passava de uma fantasia. Em 1980, o eleitorado da direita andava pelos 47 por cento e não bastava para submeter a esquerda. Pior ainda, a AD proclamara na campanha para as legislativas que “governara bem”, com Eanes, e ninguém aceitaria, como não aceitou, a súbita necessidade de correr com Eanes para garantir que dali em diante não governaria mal. Sá Carneiro morreu e o candidato da AD, como se previa, perdeu. Muita gente não se consolou deste desastre. Acontece que um desgosto, que do coração partilho, não substitui a evidência histórica.»
Vasco Pulido Valente, no "Público"
A tempestade
Caiu mais um nevão na Guarda. And so what? Uma ocorrência perfeitamente banal, que nada tem de extraordinário, como é sabido. Aliás, a neve é um elemento crucial na iconografia da cidade. No entanto, sempre que aparece, dá ideia de que caiu o Carmo e a Trindade. A cidade pára. As escolas, sem excepção, fecham. As repartições estão a meio gás. Os compromissos cedem. Os eventos agendados são adiados sine die. Um manto de displicência, irresponsabilidade e catastrofismo parece ter-se abatido sobre a cidade, em vez de cristais de água. Repare-se que, preferencialmente, encerra tudo o que é público. As entidades privadas, no geral, estão a funcionar. E o que fazem as autoridades? Sobretudo comunicados. O Serviço de Protecção Civil, em vez de actuar como uma central de operações, resume-se a aparecer como uma central de comunicações redundante. Onde a inspiração parece vir inteirinha de Monsieur de La Palisse (o tal que 5 minutos antes de morrer ainda estava vivo). Podem ouvir-se coisas como: "saiam à rua bem agasalhados", "cuidado a circular nos passeios", "se andarem de carro, levem o todo o terreno", "não se prevê que a a circulação se altere nas próximas horas", "prevêem-se melhorias para amanhã", etc. Por outro lado, não se vêem viaturas próprias para remover a neve e o gelo das vias. Não se vêem equipas a trabalhar, mas tão só os jeeps da Protecção Civil a fazerem a ronda e nada mais. Afinal, esta gente é paga para quê? E ainda por cima, ao serem criticados pela opinião pública, reagem como se estivessem isentos de avaliação. Para quando a Estação de Limpeza de Neve, prometida há anos? Conheço países onde a neve faz parte do quotidiano, sendo portanto encarada não como um elemento perturbador, mas eventualmente poético. Na minha cidade, é todos os anos mais do mesmo. Salvem-se as fotografias, o divertimento, a poesia. E o silêncio.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Guarda Republicana (2)
Ao longo de três sessões, no passado fim de semana foi apresentado no TMG mais um espectáculo de homenagem à cidade. Assim, depois de "Guarda, Paixão e Utopia" (2006) e "Guarda, Rádio Memória" (2008), eis "Guarda, a República". Compondo desta forma uma trilogia que já se tornou uma referência também a nível nacional. Não só pela evidência da continuidade espacial das produções, como pela sua feição comunitária (quase 400 pessoas em palco), pela notável mobilização das colectividades do concelho, o empenho de todos os participantes e sua coordenação. Mas a singularidade dos espectáculos reside também na sua dimensão epopeica, com grandes movimentações colectivas, ainda que com determinados protagonistas em destaque, no realismo fantástico, associado a grande parte das sequências, na sátira elegante, no rigor histórico e na utilização de várias linguagens artísticas em modo subsidiário. E, claro está, sempre a memória da cidade, os seus fantasmas, os seus heróis, a sua mitologia particular, como cenário de eleição e motivo inspirador. No entanto, todos os espectáculos mantiveram uma individualidade própria. Nenhum foi igual aos outros. No caso do "Guarda: a República" a conclusão é evidente. Tratou-se, sem dúvida, de uma produção mais vincadamente ideológica. E onde a informação histórica teve um peso mais pronunciado. Todavia, em meu entender, esteve longe de se tratar da apologia de um regime, ou de uma época específica. Fois antes a celebração artística de um projecto político, a recriação cénica das atribulações de um modelo republicano de organização da sociedade. E como todos os ideais, quando posta em prática, alimenta também os equívocos e os falhanços, em paralelo com os êxitos. No desiderato, tornam-se inevitáveis as analogias com o presente. Pois que a História, longe de ser uma soma de segmentos dispersos, é sobretudo um continuum, um espaço topológico onde um número limitado de questões-chave se repete ciclicamente.
Silencio
brota una nota
que mientras vibra crece y se adelgaza
hasta que en otra música enmudece,
brota del fondo del silencio
otro silencio, aguda torre, espada,
y sube y crece y nos suspende
y mientras sube caen
recuerdos, esperanzas,
las pequeñas mentiras y las grandes,
y queremos gritar y en la garganta
se desvanece el grito:
desembocamos al silencio
en donde los silencios enmudecen.
Octavio Paz
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
A palavra
"Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), – são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro -), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas."
Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, ed. “O Oiro do Dia”, Porto, 1983
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
E pronto...
Hoje é dia de greve geral. Acredito que muita gente tenha razões para estar descontente. E cada um terá as suas. Mas será esta a forma certa de o demonstrar? Os sindicatos tentaram alguma negociação política prévia? Ainda não perceberam que a hora é de austeridade? Aprenderam alguma com os seus congéneres do norte da Europa, predispostos à concertação, mesmo que ela retire benefícios, se o interesse nacional o justificar? Por esse motivo, lá são considerados verdadeiros parceiros sociais, e não instrumentos de interesses político-partidários. Agora pergunto: se há motivo para tal, porque não partir para a desobediência civil? Porque não romper o contrato entre representantes e representados, ou ir mais longe? Não creio que seja desta forma que algo vá mudar. E os especuladores financeiros agradecem...
O passo
Chegamos todos ao ponto em que a vida se esclarece à luz do inferno. Mas ninguém arrisca um passo definitivo.
Raul Brandão, Húmus
terça-feira, 23 de novembro de 2010
A velha e a nova Ordem
Sexta-feira haverá eleições para os órgãos sociais da Ordem dos Advogados. Ou seja, sexta à noite serão conhecidos os resultados para o exercício no próximo triénio. Pela minha parte, e repetindo uma escolha anterior, espero que, sem surpresas, Marinho Pinto inicie mais um mandato como Bastonário. Pelo que tem feito em defesa da classe, no seu todo, merece-o. Já certo tipo de declarações públicas seriam de evitar, sobretudo nos casos Casa Pia e Freeport, onde evidenciou uma colagem inadmissível ao socratismo e, no primeiro caso, uma guerra dispensável com as magistraturas.. De acordo com a linhas mestras da lista que encabeça, o exercício de mais um mandato será fundamental em três vertentes: reforma da acção executiva, consolidação do actual sistema do apoio judiciário, contra as tentativas de impor a funcionalização através da criação da figura do Defensor público e a luta contra a desjudicialização da justiça e a massificação da Advocacia. As outras candidaturas ao Conselho Geral, muito especialmente a de Fragoso Marques, representam os resquícios dos velhinhos interesses instalados. Ou seja, assegura a representatividade, não da maioria da classe, mas de meia dúzia de sociedades predadoras em Lisboa e no Porto. Com o "resto" a aproximar-se, digamos, do limbo paisagístico e periodicamente votante.
domingo, 21 de novembro de 2010
Visões - 7
Conjunto de amanitas muscaria, ontem, num encontro surpreendente na Alameda de Santo André (Guarda)
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sábado, 20 de novembro de 2010
A pastelaria (2)
A reportagem que hoje passou na SIC no jornal da tarde é emblemática. Como pano de fundo, os pouquíssimos manifestantes anti cimeira NATO, reunidos em volta da estátua do Marquês de Pombal. Com muitas bandeiras vermelhas para "encher" o olho e devidamente pastoreados pelos "camaradas responsáveis", ali destacados para a "acção". Em primeiro plano, a entrevista do porta voz dessas "massas". Tratava-se de um antiquíssimo "jovem", com aquele visual algures entre o realismo socialista, um fantasma acabado de sair da Sierra Maestra e a ressaca de uma Festa do Avante. Estão a ver o género? E que, em vez de perdigotos, lançava no ar os "amplos" sectores ali "representados": organizações de "jovens", "mulheres", muitos "trabalhadores", é claro. Protestando, "democraticamente", contra a presença da NATO, essa organização "criminosa", que teve o desplante de garantir 65 anos de paz na Europa!... Questionado se era uma manifestação de esquerda, negou, avançando para a faixa 2: qualquer coisa como "que ideia! Como podem ver, para além da amplitude da representação, esta é aberta a todos os que...", etc. Mais à frente, foi-lhe perguntado se a acção de "protesto" era apoiada por partidos políticos e quais. Embora relutante, lá os nomeou. Pois bem, dou um rebuçado se adivinharem. Pronto, estava difícil! Vão-me obrigar a dizer, seus malandrotes: o PCP e os satélites de sempre. E também, ora deixa cá ver, o partido Humanista! O BE era claramente um intruso tolerado, como se adivinharia pela indumentária pouco sofisticada do personagem, pela notória escassez vocabular e, sobretudo, pela ideia que fez passar de que "algumas forças se colaram", sem contudo as nomear.
Sobra uma conclusão e um desabafo. Primeiro, a conclusão: o mundo virou quase 180º nos últimos 25 anos. Os messianismos foram chumbados irremediavelmente pela realidade. As justificações para a estupidez são cada vez menos toleradas. O comunismo tornou-se uma obsolescência histórica. Só uma coisa permaneceu: os métodos desta gente. Agora o desabafo: apesar de tudo, prefiro mil vezes os manifestantes performativos. Pois esses, ao menos, revelam alguma compreensão do que implica a contemporaneidade.
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A pastelaria (1)
De acordo com uma notícia da SIC, as lojas da Baixa de Lisboa estão a proteger as suas montras devido aos protestos anti-NATO. Cabe perguntar: serão estes os pacifistas de que o Bloco tanto gosta? Aposto que a sua porta-voz televisiva mais qualificada, a ciclotímica regateira Joana, não vai conseguir dormir por estes dias. Sabem porquê? Os sonhos lúbricos vão-se suceder, como uma vertigem. Povoam-nos jovens audazes, barbudos, mascarados, de pau na mão, vestidos de preto com roupa desenhada por costureiros da causa. Argonautas intrépidos, e-trogloditas, neo-ludditas e por aí adiante... Nada de quasímodos tropicais com sabor a charuto! Que ideia! Trata-se de tribos criadas no seio do bem-estar, que tresandam a ócio, mobilizadas para a violência pura e dura. Todavia caucionada pela esquerda do costume como "acção de protesto". E que ninguém toque no assunto! Os mesmos que, em vez de entrar na pastelaria e dizer que o leite está azedo, seguindo a sugestão de Cesariny, preferem partir a montra sem aviso. E assim estragar a vida de quem verdadeiramente luta e trabalha. Ou de quem gosta simplesmente de um pastel de nata bem quentinho...
Guarda Republicana
(clicar para ampliar)
Este é o ano do centenário dela. Da instalação dela. Das réplicas dela. Da utopia possível com busto generoso e bigode mustafálico que nela irrompeu. Mas sejamos claros. No pasó nada! Uns tirinhos, uns pirolitos, umas proclamações a piscar o olho à eternidade fixa (já que a móvel nada mais é do que o tempo, Platão dixit), umas reformas, como agora se diria, fracturantes, uma participação cívica nunca vista, uma janela para a brutalidade do despontar do séc. XX - a Grande Guerra -, o florescer da modernidade nas artes e nas letras, a nova filosofia portuguesa, a proliferação de jornais e revistas, a laicidade (menos como princípio de organização do estado, e mais como método intimidatório, cego e contra natura), a hipocrisia do sufrágio censitário, os "adesivos" e os "sempre em pé" que fizeram carreira, a tropa, esse viveiro de golpismos, ora sossegada ora mortinha por intervir, a instrução para todos, Egas Moniz, o ensino técnico, a razão possível na míngua de pão e de futuro, quando todos ralham e ninguém cede, Sidónio, o mais carismático, Costa, o animal político, Teófilo, o sonhador, Couceiro, o D. Quixote, os Governos a entrar e a sair em sistema de cama quente, a erupção social e cultural da mulher, o apocalipse frenético de 100 anos de liberalismo, pois que o respeitinho muito lindo veio a seguir.
Ora, com a tal de República em ano cem, e com a Guarda (Oppidana para os mais chegados) também aniversariante (811 aninhos bem medidos), tá-se mesmo a ver o que ia acontecer: teatro do bom! Nem podia ser de outra forma. Ou podia? Portanto, e como não há uma nem duas sem três, o TMG chegou-se à frente e aí está a produzir mais um espectáculo certamente memorável. Para não variar, de cariz comunitário (cerca de 400 pessoas em palco, entre actores, músicos e colectividades). O cúmplice da coisa é o mesmo de sempre, o Trigo Limpo Teatro ACERT. A encomenda veio da autarquia guardense, com o apoio do Governo Civil. Numa mescla de ficção e reconstituição história, com o imaginário da cidade como elemento aglutinador, a peça desenrola-se em várias fases. Que acompanham a vida do protagonista Rebeldino, o herói trágico, cujo destino é o mesmo do regime.
O espectáculo tem coordenação geral de Américo Rodrigues, guião de Américo Rodrigues, José Tavares e Pompeu José, textos de Hélder Sequeira, Norberto Gonçalves e deste vosso criado (que também participa como actor), encenação de Américo Rodrigues e Pompeu José. Direcção musical a cargo de César Prata. O cartaz é de Sérgio Currais.
"Guarda: a República" terá apresentações no Grande Auditório do Teatro Minicipal, nos dias 26, 27 e 28 de Novembro. Sexta e Sábado às 21h30 e Domingo às 16h00. Consultar aqui.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
ao lado...
Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos hábitos. Construímos ao lado da vida outra vida que acabou por nos dominar. Vamos até à cova com palavras.
Raul Brandão, Húmus
Casa pronta
que estás aqui a fazer? saí de casa. mudaram de local. as instalações, caros clientes e amigos. para onde para onde? querida, vamos começar a ver casas? essa frase é minha. sou só sem nada, sou só sem nada, tatatararara raran. não é nada filho, não é nada, é só o terror a descer devagarinho, a escorrer pelas paredes. ai, agora temos tudo só para nós. vocês sabem lá! quero chegar depressa, quero chegar depressa, a sede no deserto e tal. afinal o que somos devemo-lo a isso, à... e também ao... aos... pois. a isso. olha, vamos dormir querida, sim? ao cansaço, sim ao cansaço. e foi a minha vez de fazer uma surpresa. a sério?
Cartaz turístico
Ontem de madrugada, na fronteira de Vilar Formoso, foi detido e recambiado para a origem um grupo de "simpáticos" jovens finlandeses. Revistado o autocarro, foi encontrado diverso material propagandístico, destinado a uma acção de protesto contra a cimeira da NATO. Para acentuar a veemência revolucionária, vinham também alguns bastões, entre outros "argumentos" que fariam corar Gandhi e Tolentino de Mendonça. Obviamente, a "peregrinação" destes simpáticos nórdicos foi largamente subsidiada pelo generoso estado social do país da Nokia e dos mil lagos. O mesmo "estado social" que o patusco candidato Alegre diz ir defender com umas bengaladas acaciano-ditirâmbicas, caso seja eleito. "Trás, que é para aprenderem! Tomem disto, já que esta é a ditosa pátria minha amada e eu não tenho medo!" Mas voltemos ao tema principal: "o turismo religioso em período de cimeiras da nato no sudoeste peninsular". E aqui, confesso à puridade que este título dava uma tese de doutoramento e pêras! Ora, segundo o BE, o "nosso" grupo de agitadores finlandeses, armados até às orelhas, não passa, afinal, de um grupinho de objectores de consciência. Uma deputada daquela força política veio logo repudiar, em letra de forma, a "detenção e tratamento arbitrários". Comovente, não acham, caros leitores e leitoras? Sim, rapaziada escuteira e assim! Afinal, só vinham exercer o seu direito de protesto!... Mas talvez fosse bom lembrar-lhes que, se não fosse a NATO, hoje seriam simplesmente uma província russa. Apesar da bravura com que os seus antepassados se bateram contra o Exército Vermelho no início da II Guerra. Quanto à esquerda caviar, para mim é um caso perdido. A ignorância da História, aliada à demagogia e ao ressentimento social, só pode trazer maus resultados.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
sábado, 13 de novembro de 2010
Anunciação
Cucu! Taran! Alô pêssuau! Damen und Herren! Olá meninas a precisar de um rubor nas faces! Tapem os ouvidos das criancinhas! Corram a avisar o senhor prior! Pimba! Tremei sabichões de garagem! Tomem notas, ó notáveis da paróquia! Façam as últimas orações, ó cibernautas pusilânimes! Tau! Façam fila! Dançai à luz da lua! Esvaziai as pipas! Cantai até a voz faltar! Sonhai sem medo e estarei lá com ustedes à chegada! Zás! Fumo branco, fumo branco! Estou de volta!
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