Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Guarda Republicana (2)


Ao longo de três sessões, no passado fim de semana foi apresentado no TMG mais um espectáculo de homenagem à cidade. Assim, depois de "Guarda, Paixão e Utopia" (2006) e "Guarda, Rádio Memória" (2008), eis "Guarda, a República". Compondo desta forma uma trilogia que já se tornou uma referência também a nível nacional. Não só pela evidência da continuidade espacial das produções, como pela sua feição comunitária (quase 400 pessoas em palco), pela notável mobilização das colectividades do concelho, o empenho de todos os participantes e sua coordenação. Mas a singularidade dos espectáculos reside também na sua dimensão epopeica, com grandes movimentações colectivas, ainda que com determinados protagonistas em destaque,  no realismo fantástico, associado a grande parte das sequências, na sátira elegante, no rigor histórico e na utilização de várias linguagens artísticas em modo subsidiário. E, claro está, sempre a memória da cidade, os seus fantasmas, os seus heróis, a sua mitologia particular, como cenário de eleição e motivo inspirador. No entanto, todos os espectáculos mantiveram uma individualidade própria. Nenhum foi igual aos outros. No caso do "Guarda: a República" a conclusão é evidente. Tratou-se, sem dúvida, de uma produção mais vincadamente ideológica. E onde a informação histórica teve um peso mais pronunciado. Todavia, em meu entender, esteve longe de se tratar da apologia de um regime, ou de uma época específica. Fois antes a celebração artística de um projecto político, a recriação cénica  das atribulações de um modelo republicano de organização da sociedade. E como todos os ideais, quando posta em prática, alimenta também os equívocos e os falhanços, em paralelo com os êxitos. No desiderato, tornam-se inevitáveis as analogias com o presente. Pois que a História, longe de ser uma soma de segmentos dispersos, é sobretudo um continuum, um espaço topológico onde um número limitado de questões-chave se repete ciclicamente.

O carro do gajo ontem à noite


Silencio

Así como del fondo de la música
brota una nota
que mientras vibra crece y se adelgaza
hasta que en otra música enmudece,
brota del fondo del silencio
otro silencio, aguda torre, espada,
y sube y crece y nos suspende
y mientras sube caen
recuerdos, esperanzas,
las pequeñas mentiras y las grandes,
y queremos gritar y en la garganta
se desvanece el grito:
desembocamos al silencio
en donde los silencios enmudecen.

Octavio Paz

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A luta de classes

A palavra

"Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), – são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, – em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro -), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, - e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já não se distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas."

Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, ed. “O Oiro do Dia”, Porto, 1983

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Stalker

E pronto...

Hoje é dia de greve geral. Acredito que muita gente tenha razões para estar descontente. E cada um terá as suas. Mas será esta a forma certa de o demonstrar? Os sindicatos tentaram alguma negociação política prévia? Ainda não perceberam que a hora é de austeridade? Aprenderam alguma com os seus congéneres do norte da Europa, predispostos à concertação, mesmo que ela retire benefícios, se o interesse nacional o justificar? Por esse motivo, lá são considerados verdadeiros parceiros sociais, e não instrumentos de interesses político-partidários. Agora pergunto: se há motivo para tal, porque não partir para a desobediência civil? Porque não romper o contrato entre representantes e representados, ou ir mais longe? Não creio que seja desta forma que algo vá mudar. E os especuladores financeiros agradecem...

O passo

Chegamos todos ao ponto em que a vida se esclarece à luz do inferno. Mas ninguém arrisca um passo definitivo.
Raul Brandão, Húmus

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Truz truz na casa do gajo

A velha e a nova Ordem

Sexta-feira haverá eleições para os órgãos sociais da Ordem dos Advogados. Ou seja, sexta à noite serão conhecidos os resultados para o exercício no próximo triénio. Pela minha parte, e repetindo uma escolha anterior, espero que, sem surpresas, Marinho Pinto inicie mais um mandato como Bastonário. Pelo que tem feito em defesa da classe, no seu todo, merece-o. Já certo tipo de declarações públicas seriam de evitar, sobretudo nos casos Casa Pia e Freeport, onde evidenciou uma colagem inadmissível ao socratismo e, no primeiro caso, uma guerra dispensável com as magistraturas.. De acordo com a linhas mestras da lista que encabeça, o exercício de mais um mandato será fundamental em três vertentes: reforma da acção executiva, consolidação do actual sistema do apoio judiciário, contra as tentativas de impor a funcionalização através da criação da figura do Defensor público e a luta contra a desjudicialização da justiça e a massificação da Advocacia.  As outras candidaturas ao Conselho Geral, muito especialmente a de Fragoso Marques, representam os resquícios dos velhinhos interesses instalados. Ou seja, assegura a representatividade, não da maioria da classe, mas de meia dúzia de sociedades predadoras em Lisboa e no Porto. Com o "resto" a aproximar-se, digamos, do limbo paisagístico e periodicamente votante.

domingo, 21 de novembro de 2010

Visões - 7


Conjunto de amanitas muscaria, ontem, num encontro surpreendente na Alameda de Santo André (Guarda)

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sábado, 20 de novembro de 2010

A pastelaria (2)

A reportagem que hoje passou na SIC no jornal da tarde é emblemática. Como pano de fundo, os pouquíssimos manifestantes anti cimeira NATO, reunidos em volta da estátua do Marquês de Pombal. Com muitas bandeiras vermelhas para "encher" o olho e devidamente pastoreados pelos "camaradas responsáveis", ali destacados para a "acção". Em primeiro plano, a entrevista do porta voz dessas "massas". Tratava-se de um antiquíssimo "jovem", com aquele visual algures entre o realismo socialista, um fantasma acabado de sair da Sierra Maestra e a ressaca de uma Festa  do Avante. Estão a ver o género? E que, em vez de perdigotos, lançava no ar os "amplos" sectores ali "representados": organizações  de "jovens", "mulheres", muitos "trabalhadores", é claro. Protestando, "democraticamente", contra a presença da NATO, essa organização "criminosa", que teve o desplante de garantir 65 anos de paz na Europa!... Questionado se era uma manifestação de esquerda, negou, avançando para a faixa 2: qualquer coisa como "que ideia!  Como podem ver, para além da amplitude da representação, esta é aberta a todos os que...", etc. Mais à frente, foi-lhe perguntado se a acção de "protesto" era apoiada por partidos políticos e quais. Embora relutante, lá os nomeou. Pois bem, dou um rebuçado se adivinharem. Pronto, estava difícil! Vão-me obrigar a dizer, seus malandrotes: o PCP e os satélites de sempre. E também, ora deixa cá ver, o partido Humanista! O BE era claramente um intruso tolerado, como se adivinharia pela indumentária pouco sofisticada do personagem, pela notória escassez vocabular e, sobretudo, pela ideia que fez passar de que "algumas forças se colaram", sem contudo as nomear.
Sobra uma conclusão e um desabafo. Primeiro, a conclusão: o mundo virou quase 180º nos últimos 25 anos. Os messianismos foram chumbados irremediavelmente pela realidade. As justificações para a estupidez são cada vez menos toleradas. O comunismo tornou-se uma obsolescência histórica. Só uma coisa permaneceu: os métodos desta gente. Agora o desabafo: apesar de tudo, prefiro mil vezes os manifestantes performativos. Pois esses, ao menos, revelam alguma compreensão do que implica a contemporaneidade.

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Frimário


(de 21 de Novembro a 20 de Dezembro)

A pastelaria (1)

De acordo com uma notícia da SIC, as lojas da Baixa de Lisboa estão a proteger as suas montras devido aos protestos anti-NATO. Cabe perguntar: serão estes os pacifistas de que o Bloco tanto gosta? Aposto que a sua porta-voz televisiva mais qualificada, a ciclotímica regateira Joana, não vai conseguir dormir por estes dias. Sabem porquê? Os sonhos lúbricos vão-se suceder, como uma vertigem. Povoam-nos jovens audazes, barbudos, mascarados, de pau na mão, vestidos de preto com roupa desenhada por costureiros da causa. Argonautas intrépidos, e-trogloditas, neo-ludditas e por aí adiante... Nada de quasímodos tropicais com sabor a charuto! Que ideia! Trata-se de tribos criadas no seio do bem-estar, que tresandam a ócio, mobilizadas para a violência pura e dura. Todavia caucionada pela esquerda do costume como "acção de protesto". E que ninguém toque no assunto! Os mesmos que, em vez de entrar na pastelaria e dizer que o leite está azedo, seguindo a sugestão de Cesariny, preferem partir a montra sem aviso. E assim estragar a vida de quem verdadeiramente luta e trabalha. Ou de quem gosta simplesmente de um pastel de nata bem quentinho...

Guarda Republicana

                                                                           
                                                              (clicar para ampliar)                                                                     

Este é o ano do centenário dela. Da instalação dela. Das réplicas dela. Da utopia possível com busto generoso e bigode mustafálico que nela irrompeu. Mas sejamos claros. No pasó nada! Uns tirinhos, uns pirolitos, umas proclamações a piscar o olho à eternidade fixa (já que a móvel nada mais é do que o tempo, Platão dixit), umas reformas, como agora se diria, fracturantes, uma participação cívica nunca vista, uma janela para a brutalidade do despontar do séc. XX - a Grande Guerra -, o florescer da modernidade nas artes e nas letras, a nova filosofia portuguesa, a proliferação de jornais e revistas, a laicidade (menos como princípio de organização do estado, e mais como método intimidatório, cego e contra natura), a hipocrisia do sufrágio censitário, os "adesivos" e os "sempre em pé" que fizeram carreira, a tropa, esse viveiro de golpismos, ora sossegada ora mortinha por intervir, a instrução para todos, Egas Moniz, o ensino técnico, a razão possível na míngua de pão e de futuro, quando todos ralham e ninguém cede, Sidónio, o mais carismático, Costa, o animal político, Teófilo, o sonhador, Couceiro, o D. Quixote, os Governos a entrar e a sair em sistema de cama quente, a erupção social e cultural da mulher, o apocalipse  frenético de 100 anos de liberalismo, pois que o respeitinho muito lindo veio a seguir.
Ora, com a tal de República em ano cem,  e com a Guarda (Oppidana para os mais chegados) também aniversariante (811 aninhos bem medidos), tá-se mesmo a ver o que ia acontecer: teatro do bom! Nem podia ser de outra forma. Ou podia? Portanto, e como não há uma nem duas sem três, o TMG chegou-se à frente e aí está a produzir mais um espectáculo certamente memorável. Para não variar, de cariz comunitário (cerca de 400 pessoas em palco, entre actores, músicos e colectividades). O cúmplice da coisa é o mesmo de sempre, o Trigo Limpo Teatro ACERT. A encomenda veio da autarquia guardense, com o apoio do Governo Civil. Numa mescla de ficção e reconstituição história, com o imaginário da cidade como elemento aglutinador, a peça desenrola-se em várias fases. Que acompanham a vida do protagonista Rebeldino, o herói trágico, cujo destino é o mesmo do regime.
O espectáculo tem coordenação geral de Américo Rodrigues, guião de Américo Rodrigues, José Tavares e Pompeu José, textos de Hélder Sequeira, Norberto Gonçalves e deste vosso criado (que também participa como actor), encenação de Américo Rodrigues e Pompeu José. Direcção musical a cargo de César Prata. O cartaz é de Sérgio Currais.
"Guarda: a República" terá apresentações no Grande Auditório do Teatro Minicipal, nos dias 26, 27 e 28 de Novembro. Sexta e Sábado às 21h30 e  Domingo às 16h00. Consultar aqui.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Stalker

ao lado...

Sempre as mesmas coisas repetidas, as mesmas palavras, os mesmos hábitos. Construímos ao lado da vida outra vida que acabou por nos dominar. Vamos até à cova com palavras.

Raul Brandão, Húmus

Casa pronta

que estás aqui a fazer? saí de casa. mudaram de local. as instalações, caros clientes e amigos. para onde para onde? querida, vamos começar a ver casas? essa frase é minha. sou só sem nada, sou só sem nada, tatatararara raran. não é nada filho, não é nada, é só o terror a descer devagarinho, a escorrer pelas paredes. ai, agora temos tudo só para nós. vocês sabem lá! quero chegar depressa, quero chegar depressa, a sede no deserto e tal. afinal o que somos devemo-lo a isso, à... e também ao... aos... pois. a isso. olha, vamos dormir querida, sim? ao cansaço, sim ao cansaço. e foi a minha vez de fazer uma surpresa. a sério?

E que tal?

Cartaz turístico

Ontem de madrugada, na fronteira de Vilar Formoso, foi detido e recambiado para a origem um grupo de "simpáticos" jovens finlandeses. Revistado o autocarro, foi encontrado diverso material propagandístico, destinado a uma acção de protesto contra a cimeira da NATO. Para acentuar a veemência revolucionária, vinham também alguns bastões, entre outros "argumentos" que fariam corar Gandhi e Tolentino de Mendonça. Obviamente, a "peregrinação" destes simpáticos nórdicos foi largamente subsidiada pelo generoso estado social do país da Nokia e dos mil lagos. O mesmo "estado social" que o patusco candidato Alegre diz ir defender com umas bengaladas acaciano-ditirâmbicas, caso seja eleito. "Trás, que é para aprenderem! Tomem disto, já que esta é a ditosa pátria minha amada e eu não tenho medo!" Mas voltemos ao tema principal: "o turismo religioso em período de cimeiras da nato no sudoeste peninsular". E aqui, confesso à puridade que este título dava uma tese de doutoramento e pêras!  Ora, segundo o BE, o "nosso" grupo de agitadores finlandeses, armados até às orelhas, não passa, afinal, de um grupinho de objectores de consciência. Uma deputada daquela força política veio logo repudiar, em letra de forma, a "detenção e tratamento arbitrários". Comovente, não acham, caros leitores e leitoras? Sim, rapaziada escuteira e assim! Afinal, só vinham exercer o seu direito de protesto!... Mas talvez fosse bom lembrar-lhes que, se não fosse a NATO, hoje seriam simplesmente uma província russa. Apesar da bravura com que os seus antepassados se bateram contra o Exército Vermelho no início da II Guerra. Quanto à esquerda caviar, para mim é um caso perdido. A ignorância da História, aliada  à demagogia e ao ressentimento social, só pode trazer maus resultados.

sábado, 13 de novembro de 2010

Anunciação

Cucu! Taran! Alô pêssuau! Damen und Herren! Olá meninas a precisar de um rubor nas faces! Tapem os ouvidos das criancinhas! Corram a avisar o senhor prior! Pimba! Tremei sabichões de garagem! Tomem notas, ó notáveis da paróquia! Façam as últimas orações, ó cibernautas pusilânimes! Tau! Façam fila! Dançai à luz da lua! Esvaziai as pipas! Cantai até a voz faltar! Sonhai sem medo e estarei lá com ustedes à chegada! Zás! Fumo branco, fumo branco! Estou de volta!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Adeus até ao meu regresso...

É verdade, algum dia haveria de chegar este momento. Quatro anos e meio depois de ter surgido, mais mês menos mês, este blogue vai entrar em modo stand by. Mas vamos ter calma. Não é ainda um fim, mas uma pausa para respirar. Não é a maturação de um epílogo, mas uma retirada para reabastecimento. O que significa que, por tempo indeterminado, as actualizações virão a espaços, assegurando os serviços mínimos. Ou seja, sempre que algum assunto público justifique uma tomada de posição. Ou um gesto de solidariedade não possa esperar. Ou a necessidade de um desabafo seja incontornável. Não é por acaso que a mudança ocorre no dia do equinócio de Outono. Ocasião onde os acenos da renovação e do recolhimento são impossíveis de ignorar. Por outro lado, circunstâncias pessoais particularmente difíceis foram a pedra de toque no falso final. Que, não obstante, é sobretudo uma migração, como irão ver. E porquê? A surpresa chama-se "a meia da maratona". Trata-se de um blogue iniciado em Abril, mas que tenho mantido clandestino, ou em fase de testes, digamos assim. Concebido para se tornar um espaço intimista, (de)ambulatório, declaradamente subjectivo. Que recolhe a poesia do quotidiano sem ser poético. E fá-lo-á, assim espero, quer com palavras quer com imagens. Será  então lá, doravante, a esquina da blogosfera onde este vosso criado será mais facilmente encontrado. E pronto, até sempre!...

terça-feira, 21 de setembro de 2010

domingo, 12 de setembro de 2010

A choldra não passará

Alguns esquerdalhos enfezaditos, pseudo-cosmopolitas de primeira água, mas que não descortinam para além da vidinha viscosa e das palavras de ordem de encomenda, andam a despejar comentários pretensamente relevantes neste blogue. Para que conste. A rapaziada esforça-se, é justo lembrar. Chega a esguichar um repuxo opinativo inodoro e incolor, por instâncias mais apropriadamente manu militari. Sem a meia ejaculatória do regulamento. Dá pena esta escumalha, arregimentada ao serviço da situação xuxalista-magalhónica. Mamíferos com as orelhinhas baixas para o dono e arrebitadas para o que mexe. Gente que, por um prato de lentilhas, despeja a  escolaridade obrigatória em quem realmente pensa e age sem tutelas. Quem brilha. Quem conhece outras realidades. Quem é livre. Quem preza a pluralidade. Quem está apto para comparar. Esta carneirada mansa e arrogante, à imagem do chefe da licenciatura ao domingo, é a coisa mais destrutiva, ignorante e perigosa que a Nação já teve nas últimas décadas. Que não olha a meios para assegurar os lugares, manter as influências e policiar a dissonância. São os homens do fraque do regime. Claro que aqui não passam. Dói-lhes saber que o seu pretenso progressismo por aqui aparece como um boneco de palha. Dói-lhes perceber que a sua rebeldia de marca nada mais é do que um sinal de submissão. Porque o rebelde que não sabe rir de si próprio facilmente se transforma num autocrata, como bem avisou Lawrence Durrel. Seja como for, esses cidadãos nunca tiveram nem terão aqui lugar. A não ser como bobos da festa. Para isso, voltem sempre!!!

O lirismo

"Que bom senso o do lirismo bucólico! O trágico é um lírico enlouquecido, como o animal é uma árvore a galope."


In "Aforismos",Teixeira de Pascoaes - selecção de M.Cesariny

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Mãe

Uma mãe não é só a árvore de onde brota a seiva. Não é só a luz que teima em brilhar no fundo da escuridão. Não é só o amor/combate, o amor que nunca chega tarde, o amor tantas vezes desperdiçado, tantas vezes deste reino e, por isso, de outro mundo, tantas vezes vagueando pelas áleas pejadas de folhas outonais e sorrindo pelos prados primaveris, tantas vezes estendido como um lençol tão grande que a nossa alma nunca irá abarcar, tantas vezes uma rendição incondicional sem vencedores nem vencidos. Uma mãe é a única lição conhecida, o discreto esplendor da delicadeza,  o farol que guia e mesmo apagado não descansa, o poema que uma vida não basta para escrever. E todas as lágrimas não chegam para lembrar.


Nota: caros amigos e leitores, devido ao falecimento da minha mãe, este blogue ficará suspenso por algum tempo. Obrigado pela compreensão.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Fructidor

 (de 18 de Agosto a 20 de Setembro)

Solidão

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.


Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã,
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...


Rainer Maria Rilke

Sonhar é preciso (22)

Nota: termina aqui a edição das capas da colecção completa das aventuras dos gloriosos "Cinco"... Olha! Que luz estranha é aquela?

O fogo

O ofício do poeta não inclui a prova sazonal, em letra de forma, mas a desmesura do resultado, o vigor da errância. É essa a sua prova de vida, "ou o que isso seja", dirão os que não desconhecem a maturação recatada do poema. Mas há ainda outra razão. Que se poderia nomear, à falta de melhor o "amparo do fogo". Porquê o fogo? Mais um recurso de estilo? Mais um ingrediente de um composto inócuo? A razão é simples: deve-se lidar com ele usando de toda a parcimónia. O verdadeiro perigo está em julgar que o dominamos, que lhe adivinhamos os movimentos, as percepções, as serventias, a inteligência móvel e imprevisível. Perigo de morte, portanto. Há momentos em que ele nos convida a arder consigo, participar numa langorosa erupção do ardor. Outras, envolve-nos na vertigem da aniquilação. Todavia, fixemo-nos no que ele desvela. E então, rente à corola do silêncio, à sabedoria do mel, à dor que no caminho revela, às mãos que se acendem, escavando, é aí que saem as palavras furtivas, as palavras que buscam a obscura transparência, as palavras que estão a mais. As que queimam.

Sonhar é preciso (21)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Antes toupeira do que rato

Muitos jornais e revistas já adoptaram a nova grafia decorrente do acordo ortográfico. Essa calamidade neo colonial que alguns têm como progresso. E essa "adaptação" foi efectuada sem qualquer estudo de opinião ou inquérito prévios. Indagando justamente qual a posição dos leitores face às modificações a introduzir. E repare-se, antes mesmo de ter sido fixada uma norma padrão de carácter oficial, optando por uma das várias possibilidades que o "acordo" concede em certos casos. Para mim, tudo isto tem um efeito devastador. Origina logo uma reacção pavloviana. Ou seja, a sensação de estar a ler uma publicação com grafia do Brasil provoca um indizível mal estar, tonturas, vómitos e convulsões. Que só param graças a um reforço positivo. Ou seja, deixar imediatamente de ler o artigo.

O Estado social

Lido

Ano sim, ano não, o país arde. Nos anos não, o Ministro da Administração Interna vem dar-nos as boas estatísticas acompanhado pela massa de dirigentes da protecção civil, em ambiente controlado e asséptico, mostrando determinação e gabando-se de que nada ardeu porque o governo fez o que devia. Em ano sim é o caos, umas vezes o Ministro também aparece, mas nem sequer uma parecença de ordem operacional se consegue manter. Nada é mais poderoso do que as imagens dos fogos, do desespero das pessoas, dos bombeiros esgotados, dos comandantes a pedir meios que não vem, dos jornalistas que acham que fazer um relato de um incêndio é aumentar o histerismo colectivo.

Pacheco Pereira, no "Abrupto"

Sonhar é preciso (20)

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.


Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.


Herberto Helder, "Cobra", in "Poesia Toda", Assírio & Alvim, 1979