É verdade, algum dia haveria de chegar este momento. Quatro anos e meio depois de ter surgido, mais mês menos mês, este blogue vai entrar em modo stand by. Mas vamos ter calma. Não é ainda um fim, mas uma pausa para respirar. Não é a maturação de um epílogo, mas uma retirada para reabastecimento. O que significa que, por tempo indeterminado, as actualizações virão a espaços, assegurando os serviços mínimos. Ou seja, sempre que algum assunto público justifique uma tomada de posição. Ou um gesto de solidariedade não possa esperar. Ou a necessidade de um desabafo seja incontornável. Não é por acaso que a mudança ocorre no dia do equinócio de Outono. Ocasião onde os acenos da renovação e do recolhimento são impossíveis de ignorar. Por outro lado, circunstâncias pessoais particularmente difíceis foram a pedra de toque no falso final. Que, não obstante, é sobretudo uma migração, como irão ver. E porquê? A surpresa chama-se "a meia da maratona". Trata-se de um blogue iniciado em Abril, mas que tenho mantido clandestino, ou em fase de testes, digamos assim. Concebido para se tornar um espaço intimista, (de)ambulatório, declaradamente subjectivo. Que recolhe a poesia do quotidiano sem ser poético. E fá-lo-á, assim espero, quer com palavras quer com imagens. Será então lá, doravante, a esquina da blogosfera onde este vosso criado será mais facilmente encontrado. E pronto, até sempre!...
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
terça-feira, 21 de setembro de 2010
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
domingo, 12 de setembro de 2010
A choldra não passará
Alguns esquerdalhos enfezaditos, pseudo-cosmopolitas de primeira água, mas que não descortinam para além da vidinha viscosa e das palavras de ordem de encomenda, andam a despejar comentários pretensamente relevantes neste blogue. Para que conste. A rapaziada esforça-se, é justo lembrar. Chega a esguichar um repuxo opinativo inodoro e incolor, por instâncias mais apropriadamente manu militari. Sem a meia ejaculatória do regulamento. Dá pena esta escumalha, arregimentada ao serviço da situação xuxalista-magalhónica. Mamíferos com as orelhinhas baixas para o dono e arrebitadas para o que mexe. Gente que, por um prato de lentilhas, despeja a escolaridade obrigatória em quem realmente pensa e age sem tutelas. Quem brilha. Quem conhece outras realidades. Quem é livre. Quem preza a pluralidade. Quem está apto para comparar. Esta carneirada mansa e arrogante, à imagem do chefe da licenciatura ao domingo, é a coisa mais destrutiva, ignorante e perigosa que a Nação já teve nas últimas décadas. Que não olha a meios para assegurar os lugares, manter as influências e policiar a dissonância. São os homens do fraque do regime. Claro que aqui não passam. Dói-lhes saber que o seu pretenso progressismo por aqui aparece como um boneco de palha. Dói-lhes perceber que a sua rebeldia de marca nada mais é do que um sinal de submissão. Porque o rebelde que não sabe rir de si próprio facilmente se transforma num autocrata, como bem avisou Lawrence Durrel. Seja como for, esses cidadãos nunca tiveram nem terão aqui lugar. A não ser como bobos da festa. Para isso, voltem sempre!!!
O lirismo
"Que bom senso o do lirismo bucólico! O trágico é um lírico enlouquecido, como o animal é uma árvore a galope."
In "Aforismos",Teixeira de Pascoaes - selecção de M.Cesariny
sábado, 11 de setembro de 2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Mãe
Uma mãe não é só a árvore de onde brota a seiva. Não é só a luz que teima em brilhar no fundo da escuridão. Não é só o amor/combate, o amor que nunca chega tarde, o amor tantas vezes desperdiçado, tantas vezes deste reino e, por isso, de outro mundo, tantas vezes vagueando pelas áleas pejadas de folhas outonais e sorrindo pelos prados primaveris, tantas vezes estendido como um lençol tão grande que a nossa alma nunca irá abarcar, tantas vezes uma rendição incondicional sem vencedores nem vencidos. Uma mãe é a única lição conhecida, o discreto esplendor da delicadeza, o farol que guia e mesmo apagado não descansa, o poema que uma vida não basta para escrever. E todas as lágrimas não chegam para lembrar.
Nota: caros amigos e leitores, devido ao falecimento da minha mãe, este blogue ficará suspenso por algum tempo. Obrigado pela compreensão.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Solidão
A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã,
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã,
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...
Rainer Maria Rilke
Sonhar é preciso (22)
Nota: termina aqui a edição das capas da colecção completa das aventuras dos gloriosos "Cinco"... Olha! Que luz estranha é aquela?
O fogo
O ofício do poeta não inclui a prova sazonal, em letra de forma, mas a desmesura do resultado, o vigor da errância. É essa a sua prova de vida, "ou o que isso seja", dirão os que não desconhecem a maturação recatada do poema. Mas há ainda outra razão. Que se poderia nomear, à falta de melhor o "amparo do fogo". Porquê o fogo? Mais um recurso de estilo? Mais um ingrediente de um composto inócuo? A razão é simples: deve-se lidar com ele usando de toda a parcimónia. O verdadeiro perigo está em julgar que o dominamos, que lhe adivinhamos os movimentos, as percepções, as serventias, a inteligência móvel e imprevisível. Perigo de morte, portanto. Há momentos em que ele nos convida a arder consigo, participar numa langorosa erupção do ardor. Outras, envolve-nos na vertigem da aniquilação. Todavia, fixemo-nos no que ele desvela. E então, rente à corola do silêncio, à sabedoria do mel, à dor que no caminho revela, às mãos que se acendem, escavando, é aí que saem as palavras furtivas, as palavras que buscam a obscura transparência, as palavras que estão a mais. As que queimam.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Antes toupeira do que rato
Muitos jornais e revistas já adoptaram a nova grafia decorrente do acordo ortográfico. Essa calamidade neo colonial que alguns têm como progresso. E essa "adaptação" foi efectuada sem qualquer estudo de opinião ou inquérito prévios. Indagando justamente qual a posição dos leitores face às modificações a introduzir. E repare-se, antes mesmo de ter sido fixada uma norma padrão de carácter oficial, optando por uma das várias possibilidades que o "acordo" concede em certos casos. Para mim, tudo isto tem um efeito devastador. Origina logo uma reacção pavloviana. Ou seja, a sensação de estar a ler uma publicação com grafia do Brasil provoca um indizível mal estar, tonturas, vómitos e convulsões. Que só param graças a um reforço positivo. Ou seja, deixar imediatamente de ler o artigo.
Lido
Ano sim, ano não, o país arde. Nos anos não, o Ministro da Administração Interna vem dar-nos as boas estatísticas acompanhado pela massa de dirigentes da protecção civil, em ambiente controlado e asséptico, mostrando determinação e gabando-se de que nada ardeu porque o governo fez o que devia. Em ano sim é o caos, umas vezes o Ministro também aparece, mas nem sequer uma parecença de ordem operacional se consegue manter. Nada é mais poderoso do que as imagens dos fogos, do desespero das pessoas, dos bombeiros esgotados, dos comandantes a pedir meios que não vem, dos jornalistas que acham que fazer um relato de um incêndio é aumentar o histerismo colectivo.
Pacheco Pereira, no "Abrupto"
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.
Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.
Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.
Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.
Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.
Herberto Helder, "Cobra", in "Poesia Toda", Assírio & Alvim, 1979
terça-feira, 17 de agosto de 2010
O sétimo dos pecados
Longe vão os tempos das esconsas casa de passe, dos prostíbulos manhosos e até mesmo dos coloridos e aveludados bares de alterne. Assim, quem pretenda andar ao fanico, andar em manobras, andar às gatas, ir ao fado, ir a manos, ou ir para leste, o melhor é recorrer às novas tecnologias. Até aqui, nada de novo, presumo. Mas se for esta a via escolhida, já chateia andar a navegar pelos sites porno e aparecerem invariavelmente umas janelinhas de adware faiscantes. Ornadas com umas beldades ansiosas por um "bate papo com você" no chat online, enquanto meneiam algumas partes suculentas, ou falam mesmo ao telefone na Sala Oval com um desconhecido. Claro que se encontram inevitavelmente nas redondezas da área geográfica do IP utilizado. O engraçado é quando o servidor em causa está localizado numa aldeia recôndita. Ocasião em que 20 ou 30 ninfas locais suspiram pelo incauto na Merdaleja de Baixo! Nunca a máxima dos ecologistas "Pensar globalmente e actuar localmente" soou tão a propósito!
Todavia, para os saudosos da mancebia de antanho, existe uma alternativa de tirar o chapéu. Sendo que até é essa precisamente a peça de vestuário mais usada no assunto em questão. Trata-se da utilização da blogosfera como local de oferta de serviços sexuais. Com efeito, abundam blogues que nada mais são do que agregadores de anúncios até agora só encontrados nos jornais. Como exemplo, até porque diz respeito à cidade onde vivo, apresento-vos o blogue Guarda Erótica. Como subtítulo, aparece "montanhas de prazer". Bem caçado, diga-se de passagem. Nos entrefolhos dessa particular orografia, há de tudo um pouco: quem tenha acabado de chegar com um corpinho de arrasar, uma viúva carente em chama, a carla bumbum guloso, o natural convívio sem pressa, uma colombiana irrestível peluda que adora tudo, a Sandra trintona meiga sensual e tarada, uma espanholada que não se sabe ao certo o que é, presumindo-se que nada tenha a ver com carapaus, alguém com amiga atrás tudinho... Tudo isto com umas fotografias pelo meio, para aguçar o apetite. O site dispõe ainda de uma zona gay e outra para casais. Na primeira, aparece um simples anúncio referente a... um travesti. Na segunda, não prolifera o swing mas outro tipo de práticas, mais do tipo voyerista. Como se nota, nas serranias, mesmo que do prazer, ainda imperam a circunspecção eclesial e as públicas virtudes.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Sobre um Poema
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
domingo, 15 de agosto de 2010
sábado, 7 de agosto de 2010
O pântano existe mesmo
Em qualquer país do hemisfério ocidental, em circunstâncias idênticas, já o actual Procurador Geral da República se teria demitido. A sucessão de trapalhadas desde que o inquérito do caso "Face Oculta" lhe caiu em cima da secretária, proveniente de Aveiro, em Junho, vão desde a simples incompetência à ignomínia. Passando pela mentira descarada. Como é possível que os principais visados nas escutas então em curso tenham, logo no dia seguinte à recepção dos autos, trocado de cartão telefónico - mencionando expressamente o facto de terem tido conhecimento nessa data que estavam a ser escutados, segundo as conversas divulgadas pelo "Sol" - sem que nenhuma responsabilidade pela fuga de informação tenha sido imputada a Pinto Monteiro? Como se explica que tenha negado sempre que tenha havido pressões do procurador Lopes da Mota para com os investigadores - uma estrela de primeira água da constelação rosa que cintila nas instituições judiciais, onde os favores de ocasião e a produção legislativa encomendada ad personae são a regra (vejam-se algumas alterações constantes da última reforma do Código de Processo Penal, que vieram mesmo a calhar à "Fatinha" de Felgueiras) - mesmo depois de o magistrado ter sido afastado da Direcção do Eurojust, devido à comprovação de essas pressões terem mesmo sido feitas? Como aceitar, por fim, que Pinto Monteiro tenha afirmado por várias vezes aos jornais que Sócrates seria absolvido no caso Freeport? E numa altura em que ainda decorria o inquérito!!! Pressões sobre os magistrados que dirigiam a investigação? Que ideia! O facto de Sócrates não ter sido inquirido no caso, devido à magistrada Cândida Almeida, directora do DCIAP, não ter emitido despacho em tempo útil, é o cúmulo do servilismo. Confesso que, no inicio, a figura me era simpática. Não só por ser originária do distrito da Guarda, mas sobretudo pelo corte que, acreditava eu, representaria com o passado. Mas depois, foi o que se viu. Portanto, só há que dizer: "Demita-se, senhor procurador! Não tem outra saída!"
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
domingo, 1 de agosto de 2010
Auto de notícia
As abluções domingueiras aconselham uma colheita de pensamentos originais, desalinhados, clarividentes. De uma circunspecção à prova de fogo. Por conseguinte, deveria destilar para vós um brilhante silogismo, um naco de ironia. Uma posta de saber com provas dadas. Que se sustem à beira do abismo do auto convencimento. E porque não um voo poético de fazer inveja, uma carga certeira no bombo da festa do momento? Ou um feixe de luz para um sentido oculto? Ou até um casus belli desencantado onde ninguém esperaria? Sim, mas sem exageros. É preferível o xeque-mate numa polémica à beira da caducidade. Quando todos se preparam para a quietação do adiamento. Tudo isso. O exercício manso em modo de austeridade virtual. O mantra cibernético. A erudição prostituída. O cheirinho a obscuridade. Só porque sim. Ou porque não. A solidão entreaberta, desfeita e refeita. Contudo, por mais que tente, tudo redunda numa alquimia que não sai. Que se tornou improvável. Porque basta estender a mão e respirar.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Borges, claro...
Lo perdido
¿Dónde estará mi vida, la que pudo
haber sido y no fue, la venturosa
o la de triste horror, esa otra cosa
que pudo ser la espada o el escudo
y que no fue? ¿Dónde estará el perdido
antepasado persa o el noruego,
dónde el azar de no quedarme ciego,
dónde el ancla y el mar, dónde el olvido
de ser quien soy? ¿Dónde estará la pura
noche que al rudo labrador confía
el iletrado y laborioso día,
según lo quiere la literatura?
Pienso también en esa compañera
¿Dónde estará mi vida, la que pudo
haber sido y no fue, la venturosa
o la de triste horror, esa otra cosa
que pudo ser la espada o el escudo
y que no fue? ¿Dónde estará el perdido
antepasado persa o el noruego,
dónde el azar de no quedarme ciego,
dónde el ancla y el mar, dónde el olvido
de ser quien soy? ¿Dónde estará la pura
noche que al rudo labrador confía
el iletrado y laborioso día,
según lo quiere la literatura?
Pienso también en esa compañera
Jorge Luis Borges
segunda-feira, 26 de julho de 2010
O perigo
Se fomos posos no meio da vida, foi por ser este o elemento ao qual estamos adequados e melhor correspondemos. Além disso, por obra de uma adaptação milenária, tornamo-nos tão semelhantes a esta vida que, quando permanecemos imóveis, e graças a um feliz mimetismo, mal nos podemos distinguir de tudo quanto nos rodeia. Não temos nenhuma razão para recear ou desconfiar do mundo onde vivemos. Se nos inspira terrores, esses são os nossos terrores. Se contém abismos, esses abismos pertencem-nos. E se existem perigos, devemos procurar amá-los. Contanto que procuremos orientar e ajustar a nossa vida à medida deste princípio que nos aconselha a nos atermos sempre ao mais difícil, tudo quanto agora nos pareça ser o mais estranho, acabará por se revelar o mais familiar, o mais fiel.
Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, oitava carta, de 12 de Agosto de 1904
quarta-feira, 21 de julho de 2010
As visitas começam amanhã!
O projecto "Passos à volta da memória" é uma iniciativa da Culturguarda EM e da Câmara Municipal da Guarda. Graças a ele, entre 22 de Julho e 18 de Setembro, haverá uma série de visitas encenadas ao centro histórico. As sessões serão às 10h e ás 17.30h, todas as sextas e sábados e 1º domingo de Agosto e Setembro, com partida da Praça Velha, junto ao posto de Turismo. Como o nome indica, trata-de uma visita guiada, embora com as características de um espectáculo de rua. O guia / guardião da memória / herói local, será Álvaro Gil Cabral, alcaide da cidade nos finais do séc. XIV. Notabilizado graças à sua recusa em entregar as chaves do castelo ao rei D. João de Castela, pretendente ao trono português. A história é aqui contada mais em pormenor.
No essencial, trata-se de um percurso pelas artérias do centro histórico, num perímetro bem definido. Onde se pretende recriar cenicamente memórias da cidade, dispersas por várias épocas e vários protagonistas. Não é de todo uma reconstituição histórica, mas não dispensa o rigor da História. É teatro, mas cujo cenário é a própria cidade e a trama a sua memória. E o guia está longe de ser um cicerone convencional, mas antes um personagem cujas virtudes e fraquezas o tornam singular e próximo, como irão ver.
"Passos à volta da memória" é um espectáculo com coordenação de Américo Rodrigues. Criou o texto este vosso criado. A encenação é de Antónia Terrinha, ficando a interpretação a cargo de João Ventura. Assina o design gráfico Jorge dos Reis. Participarão ainda os figurantes Carlos Gil, Carlos Morgado, Elisabete Fernandes, Luís Paulo e Maria Miguel Figueiredo.
O mito do trabalho para toda a vida
É de aplaudir a proposta de alteração do art. 53º da Constituição, inserida no anteprojecto de revisão do PSD. No texto em vigor, sob a epígrafe "Segurança no emprego", pode ler-se " É garantida aos trabalhadores a segurança no emprego, sendo proibidos os despedimentos sem justa causa ou por motivos políticos ou ideológicos." Ora, na versão proposta pelo PSD, a menção "sem justa causa" seria substituída por "sem razão atendível". A questão da flexibilização do despedimento já vem de há muito. Em Portugal, é assustadoramente mais fácil obter o divórcio do que ser despedido com "justa causa". Para um trabalhador "do quadro" ser despedido, é necessário praticamente destruir o seu local de trabalho, matar um dois colegas, ou dar uma sova na Administração inteira, mandando-a para o Hospital com ferimentos graves. E mesmo assim., é duvidoso... Ora, isto é incompatível com modelos de desenvolvimento onde se procura a competitividade, a mobilidade do mercado de trabalho, a rendibilidade do investimento sem que o peso dos factores fixos pese em demasia. E não venham dizer que a flexibilização dos despedimentos abre caminho à liberalização e à precariedade. A liberalização significaria total aleatoariedade do vínculo laboral, agora sujeito às incertezas do acaso. Mas não é essa a regra geral nas relações obrigacionais, nem os princípios basilares do direito laboral permitiriam tal orientação. A questão aqui é a razoabilidade da cessação de um vínculo laboral em situações em que uma das partes já demonstrou não pretender cumprir a sua parte. Impondo a lei uma continuidade forçada e socialmente injusta. Ou seja, é uma legislação rígida como a nossa que incentiva a precariedade, visto que esta nada mais é do que uma reacção defensiva do empregador. Se, por regra, o incumprimento ou a prestação defeituosa de uma obrigação é "justa causa" para a sua resolução, não se vê razão alguma para que, no direito do trabalho, haja exigências inimagináveis para a alegação e vencimento dessa "justa causa", no caso de despedimento por facto imputável ao trabalhador. Nas situações de despedimento por outros motivos, os requisitos e as formalidades exigidas estão pensadas para uma realidade pouco menos que virtual. Em Portugal, há cerca de um milhão de pessoas que trabalha em regime de recibos verdes. E muitas mais vêm a precariedade ser a regra do seu dia a dia. Manter artificialmente a inamovibilidade, o carácter vitalício e a impunidade aos felizardos que não têm contratos a prazo é um insulto para os outros. Compreende-se o alarido das centrais sindicais. Se a medida for para frente vão ver desertar as suas clientelas.
terça-feira, 20 de julho de 2010
De meio artista a artista completo
A história é exemplar e vem oportunamente contada aqui. Há poucos dias, organizado pelo centro Regional de Segurança Social da Guarda, decorreu um passeio de barco pelo Douro, entre Barca d'Alva e o Pocinho. Os passageiros eram crianças do distrito oriundas de famílias carenciadas. O evento teve inclusive honras de reportagem na SIC. Para que conste, devo dizer que nada tenho contra estas iniciativas. Bem pelo contrário, sou apologista de que, com as crianças, a generosidade nunca é demais.
Mas o passeio teve um protagonista: o inefável José Albano. Para quem não sabe, trata-se de um verdadeiro artista. Depois de andar aos caídos em Celorico da Beira, resolveu "entrar para o política", como se diz em bom vernáculo. E em boa hora o fez. Pois apadrinhado nos locais certos da nomenclatura socratina, e graças a algumas manobras, chegou à presidência da Federação Distrital do PS. E daí até aparecer como número dois da lista concorrente às legislativas foi um passo. E eis como alguém sem competências profissionais, cientificas ou cívicas de vulto chega a deputado da Nação.!... Se lerem alguns capítulos de "Uma Campanha Alegre" de Eça de Queirós, depois incluída nas "Farpas", saberão o que é preciso fazer para se chegar ao cargo. Naquela época tanto como agora. Mas eis que, passado um ano, Albano deserta do hemiciclo e dos calores da capital. Para regressar então ao torrão natal. Para explicar o sucedido, várias hipóteses se colocaram: um epígono de Jacinto regressado a Tormes? Um arroubo de consciência pô-lo a dar assistência gratuita ao seu eleitorado? Um caso exemplar de renúncia aos bens terrenos, antes da austeridade do voto de pobreza? Tudo possibilidades comoventes, não haja dúvida!... Porém, desenganem-se desde já, caros leitores! O Albano não dorme em serviço! Regressou, sim! Mas com os olhos postos na sinecurazinha da ordem que lhe acenava, fremente, à sua espera. Sabem qual? A Direcção Regional da Segurança Social da Guarda!... Neste ponto, confesso que estou quase a chorar... Mas a história, pelos vistos, só agora começou. Para o nosso herói, o momento é propício a que a política não política seja a continuação da política. Ou seja, que o exercício de um cargo não político na Administração seja a continuação da política por outros meios. E o Clausewitz que me perdoe estes abusos de exegese.
Mas voltemos ao tema que aqui me traz. Qual o significado da exposição mediática de Albano no passeio? Decerto o ex deputado não se chegou à frente para dar uma Ted Conference, numa paisagem de luxo, sobre um tema a propósito. Até porque tenho dúvidas que a criatura saiba o que isso seja. Não tenhamos ilusões. O novo Director resolveu fazer política pura e da forma mais demagógica e rasteira que é possível. Como já dei a entender, a iniciativa poderia ter decorrido sem os holofotes da comunicação social por perto. Para isso, bastaria que o Director Regional não estivesse lá. Logo isso demoveria a comunicação social de aparecer. Havendo declarações do responsável regional, fá-las-ia fora do contexto físico da actividade. Mas o nosso Albano não resistiu aos holofotes. Nem sequer lhe passando pela cabeça que as crianças, assim expostas numa acção que deveria ser tão somente de sensibilização, podem ser objecto de estigmatização no futuro. E que ele não está a dar nada a ninguém que lhe saia do bolso, mas tão só a gerir recursos públicos para fins assistenciais. E que a primeira qualidade do benemérito (que ele não é nem nunca será) é a humildade.
Mas o passeio teve um protagonista: o inefável José Albano. Para quem não sabe, trata-se de um verdadeiro artista. Depois de andar aos caídos em Celorico da Beira, resolveu "entrar para o política", como se diz em bom vernáculo. E em boa hora o fez. Pois apadrinhado nos locais certos da nomenclatura socratina, e graças a algumas manobras, chegou à presidência da Federação Distrital do PS. E daí até aparecer como número dois da lista concorrente às legislativas foi um passo. E eis como alguém sem competências profissionais, cientificas ou cívicas de vulto chega a deputado da Nação.!... Se lerem alguns capítulos de "Uma Campanha Alegre" de Eça de Queirós, depois incluída nas "Farpas", saberão o que é preciso fazer para se chegar ao cargo. Naquela época tanto como agora. Mas eis que, passado um ano, Albano deserta do hemiciclo e dos calores da capital. Para regressar então ao torrão natal. Para explicar o sucedido, várias hipóteses se colocaram: um epígono de Jacinto regressado a Tormes? Um arroubo de consciência pô-lo a dar assistência gratuita ao seu eleitorado? Um caso exemplar de renúncia aos bens terrenos, antes da austeridade do voto de pobreza? Tudo possibilidades comoventes, não haja dúvida!... Porém, desenganem-se desde já, caros leitores! O Albano não dorme em serviço! Regressou, sim! Mas com os olhos postos na sinecurazinha da ordem que lhe acenava, fremente, à sua espera. Sabem qual? A Direcção Regional da Segurança Social da Guarda!... Neste ponto, confesso que estou quase a chorar... Mas a história, pelos vistos, só agora começou. Para o nosso herói, o momento é propício a que a política não política seja a continuação da política. Ou seja, que o exercício de um cargo não político na Administração seja a continuação da política por outros meios. E o Clausewitz que me perdoe estes abusos de exegese.
Mas voltemos ao tema que aqui me traz. Qual o significado da exposição mediática de Albano no passeio? Decerto o ex deputado não se chegou à frente para dar uma Ted Conference, numa paisagem de luxo, sobre um tema a propósito. Até porque tenho dúvidas que a criatura saiba o que isso seja. Não tenhamos ilusões. O novo Director resolveu fazer política pura e da forma mais demagógica e rasteira que é possível. Como já dei a entender, a iniciativa poderia ter decorrido sem os holofotes da comunicação social por perto. Para isso, bastaria que o Director Regional não estivesse lá. Logo isso demoveria a comunicação social de aparecer. Havendo declarações do responsável regional, fá-las-ia fora do contexto físico da actividade. Mas o nosso Albano não resistiu aos holofotes. Nem sequer lhe passando pela cabeça que as crianças, assim expostas numa acção que deveria ser tão somente de sensibilização, podem ser objecto de estigmatização no futuro. E que ele não está a dar nada a ninguém que lhe saia do bolso, mas tão só a gerir recursos públicos para fins assistenciais. E que a primeira qualidade do benemérito (que ele não é nem nunca será) é a humildade.
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Escrevo-te com o fogo e a água
Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.
O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
António Ramos Rosa, Volante Verde, 1986
Da penumbra
Um murmúrio imperceptível durante o dia, enche toda a penumbra nocturna.
"Aforismos", Teixeira de Pascoaes
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