Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Mãe

Uma mãe não é só a árvore de onde brota a seiva. Não é só a luz que teima em brilhar no fundo da escuridão. Não é só o amor/combate, o amor que nunca chega tarde, o amor tantas vezes desperdiçado, tantas vezes deste reino e, por isso, de outro mundo, tantas vezes vagueando pelas áleas pejadas de folhas outonais e sorrindo pelos prados primaveris, tantas vezes estendido como um lençol tão grande que a nossa alma nunca irá abarcar, tantas vezes uma rendição incondicional sem vencedores nem vencidos. Uma mãe é a única lição conhecida, o discreto esplendor da delicadeza,  o farol que guia e mesmo apagado não descansa, o poema que uma vida não basta para escrever. E todas as lágrimas não chegam para lembrar.


Nota: caros amigos e leitores, devido ao falecimento da minha mãe, este blogue ficará suspenso por algum tempo. Obrigado pela compreensão.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Fructidor

 (de 18 de Agosto a 20 de Setembro)

Solidão

A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.


Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã,
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...


Rainer Maria Rilke

Sonhar é preciso (22)

Nota: termina aqui a edição das capas da colecção completa das aventuras dos gloriosos "Cinco"... Olha! Que luz estranha é aquela?

O fogo

O ofício do poeta não inclui a prova sazonal, em letra de forma, mas a desmesura do resultado, o vigor da errância. É essa a sua prova de vida, "ou o que isso seja", dirão os que não desconhecem a maturação recatada do poema. Mas há ainda outra razão. Que se poderia nomear, à falta de melhor o "amparo do fogo". Porquê o fogo? Mais um recurso de estilo? Mais um ingrediente de um composto inócuo? A razão é simples: deve-se lidar com ele usando de toda a parcimónia. O verdadeiro perigo está em julgar que o dominamos, que lhe adivinhamos os movimentos, as percepções, as serventias, a inteligência móvel e imprevisível. Perigo de morte, portanto. Há momentos em que ele nos convida a arder consigo, participar numa langorosa erupção do ardor. Outras, envolve-nos na vertigem da aniquilação. Todavia, fixemo-nos no que ele desvela. E então, rente à corola do silêncio, à sabedoria do mel, à dor que no caminho revela, às mãos que se acendem, escavando, é aí que saem as palavras furtivas, as palavras que buscam a obscura transparência, as palavras que estão a mais. As que queimam.

Sonhar é preciso (21)

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Antes toupeira do que rato

Muitos jornais e revistas já adoptaram a nova grafia decorrente do acordo ortográfico. Essa calamidade neo colonial que alguns têm como progresso. E essa "adaptação" foi efectuada sem qualquer estudo de opinião ou inquérito prévios. Indagando justamente qual a posição dos leitores face às modificações a introduzir. E repare-se, antes mesmo de ter sido fixada uma norma padrão de carácter oficial, optando por uma das várias possibilidades que o "acordo" concede em certos casos. Para mim, tudo isto tem um efeito devastador. Origina logo uma reacção pavloviana. Ou seja, a sensação de estar a ler uma publicação com grafia do Brasil provoca um indizível mal estar, tonturas, vómitos e convulsões. Que só param graças a um reforço positivo. Ou seja, deixar imediatamente de ler o artigo.

O Estado social

Lido

Ano sim, ano não, o país arde. Nos anos não, o Ministro da Administração Interna vem dar-nos as boas estatísticas acompanhado pela massa de dirigentes da protecção civil, em ambiente controlado e asséptico, mostrando determinação e gabando-se de que nada ardeu porque o governo fez o que devia. Em ano sim é o caos, umas vezes o Ministro também aparece, mas nem sequer uma parecença de ordem operacional se consegue manter. Nada é mais poderoso do que as imagens dos fogos, do desespero das pessoas, dos bombeiros esgotados, dos comandantes a pedir meios que não vem, dos jornalistas que acham que fazer um relato de um incêndio é aumentar o histerismo colectivo.

Pacheco Pereira, no "Abrupto"

Sonhar é preciso (20)

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos

Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.


Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.


Herberto Helder, "Cobra", in "Poesia Toda", Assírio & Alvim, 1979

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Stalker

Sonhar é preciso (19)

O sétimo dos pecados

Longe vão os tempos das esconsas casa de passe, dos prostíbulos manhosos e até mesmo dos coloridos e aveludados bares de alterne. Assim, quem pretenda andar ao fanico, andar em manobras, andar às gatas, ir ao fado, ir a manos, ou ir para leste, o melhor é recorrer às novas tecnologias. Até aqui, nada de novo, presumo. Mas se for esta a via escolhida, já chateia andar a navegar pelos sites porno e aparecerem  invariavelmente umas janelinhas de adware faiscantes. Ornadas com umas beldades ansiosas por um "bate papo com você" no chat online, enquanto meneiam algumas partes suculentas, ou falam mesmo ao telefone na Sala Oval com um desconhecido. Claro que se encontram inevitavelmente nas redondezas da área geográfica do IP utilizado. O engraçado é quando o servidor em causa está localizado numa aldeia recôndita. Ocasião em que 20 ou 30 ninfas locais suspiram pelo incauto na Merdaleja de Baixo! Nunca a máxima dos ecologistas "Pensar globalmente e actuar localmente" soou tão a propósito! 
Todavia, para os saudosos da mancebia de antanho, existe uma alternativa de tirar o chapéu. Sendo que até é essa precisamente a peça de vestuário mais usada no assunto em questão. Trata-se da utilização da blogosfera como local de oferta de serviços sexuais. Com efeito, abundam blogues que nada mais são do que agregadores de anúncios até agora só encontrados nos jornais. Como exemplo, até porque diz respeito à cidade onde vivo, apresento-vos o blogue Guarda Erótica. Como subtítulo, aparece "montanhas de prazer". Bem caçado, diga-se de passagem. Nos entrefolhos dessa particular orografia, há de tudo um pouco: quem tenha acabado de chegar com um corpinho de arrasar, uma viúva carente em chama, a carla bumbum guloso, o natural convívio sem pressa, uma colombiana irrestível peluda que adora tudo, a Sandra trintona meiga sensual e tarada, uma espanholada que não se sabe ao certo o que é, presumindo-se que nada tenha a ver com carapaus, alguém com amiga atrás tudinho... Tudo isto com umas fotografias pelo meio, para aguçar o apetite. O site dispõe ainda de uma zona gay e outra para casais. Na primeira, aparece um simples anúncio referente a... um travesti. Na segunda, não prolifera o swing mas outro tipo de práticas, mais do tipo voyerista. Como se nota, nas serranias, mesmo que do prazer, ainda imperam a circunspecção eclesial e as públicas virtudes.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sonhar é preciso (18)

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder

sábado, 7 de agosto de 2010

O pântano existe mesmo

Em qualquer país do hemisfério ocidental, em circunstâncias idênticas, já o actual Procurador Geral da República se teria demitido. A sucessão de trapalhadas desde que o inquérito do caso "Face Oculta" lhe caiu em cima da secretária, proveniente de Aveiro, em Junho, vão desde a simples incompetência à ignomínia.  Passando pela mentira descarada. Como é possível que os principais visados nas escutas então em curso tenham, logo no dia seguinte à recepção dos autos, trocado de cartão telefónico - mencionando expressamente o facto de terem tido conhecimento nessa data que estavam a ser escutados, segundo as conversas divulgadas pelo "Sol" - sem que nenhuma responsabilidade pela fuga de informação tenha sido imputada a Pinto Monteiro? Como se explica que tenha negado sempre que tenha havido pressões do procurador Lopes da Mota para com os investigadores - uma estrela de primeira água da constelação rosa que cintila nas instituições judiciais, onde os favores de ocasião e a produção legislativa encomendada ad personae são a regra (vejam-se algumas alterações constantes da última reforma do Código de Processo Penal, que vieram mesmo a calhar à "Fatinha" de Felgueiras) - mesmo depois de o magistrado ter sido afastado da Direcção do Eurojust, devido à comprovação de essas pressões terem mesmo sido feitas? Como aceitar, por fim, que Pinto Monteiro tenha afirmado por várias vezes aos jornais que Sócrates seria absolvido no caso Freeport? E numa altura em que ainda decorria o inquérito!!! Pressões sobre os magistrados que dirigiam a investigação? Que ideia!  O facto de Sócrates não ter sido inquirido no caso, devido à magistrada Cândida Almeida, directora do DCIAP, não ter  emitido despacho em tempo útil, é o cúmulo do servilismo. Confesso que, no inicio, a figura me era simpática. Não só por ser originária do distrito da Guarda, mas sobretudo pelo corte que, acreditava eu, representaria com o passado. Mas depois, foi o que se viu. Portanto, só há que dizer: "Demita-se, senhor procurador! Não tem outra saída!"

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Andanças


Durante três dias, andarei por aqui a laurear a pevide... Para mais informações, consultar a página oficial.

domingo, 1 de agosto de 2010

Sonhar é preciso (16)

Auto de notícia

As abluções domingueiras aconselham uma colheita de pensamentos originais, desalinhados, clarividentes. De uma circunspecção à prova de fogo. Por conseguinte, deveria destilar  para vós um brilhante silogismo, um naco de ironia. Uma posta de saber com provas dadas. Que se sustem à beira do abismo do auto convencimento. E porque não um voo poético de fazer inveja, uma carga certeira no bombo da festa do momento? Ou um feixe de luz para um sentido oculto? Ou até um casus belli desencantado onde ninguém esperaria? Sim, mas sem exageros. É preferível o xeque-mate numa polémica à beira da caducidade. Quando todos se preparam para a quietação do adiamento. Tudo isso. O exercício manso em modo de austeridade virtual. O mantra cibernético. A erudição prostituída. O cheirinho a obscuridade. Só porque sim. Ou porque não. A solidão entreaberta, desfeita e refeita. Contudo, por mais que tente, tudo redunda numa alquimia que não sai. Que se tornou improvável. Porque basta estender a mão e respirar.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Reportagem sobre a visita encenada

Borges, claro...

Lo perdido

¿Dónde estará mi vida, la que pudo
haber sido y no fue, la venturosa
o la de triste horror, esa otra cosa
que pudo ser la espada o el escudo

y que no fue? ¿Dónde estará el perdido
antepasado persa o el noruego,
dónde el azar de no quedarme ciego,
dónde el ancla y el mar, dónde el olvido

de ser quien soy? ¿Dónde estará la pura
noche que al rudo labrador confía
el iletrado y laborioso día,

según lo quiere la literatura?
Pienso también en esa compañera 


Jorge Luis Borges

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Stalker

O perigo

Se fomos posos no meio da vida, foi por ser este o elemento ao qual estamos adequados e melhor correspondemos. Além disso, por obra de uma adaptação milenária, tornamo-nos tão semelhantes a esta vida que, quando permanecemos imóveis, e graças a um feliz mimetismo, mal nos podemos distinguir de tudo quanto nos rodeia. Não temos nenhuma razão para recear ou desconfiar do mundo onde vivemos. Se nos inspira terrores, esses são os nossos terrores. Se contém abismos, esses abismos pertencem-nos. E se existem perigos, devemos procurar amá-los. Contanto que procuremos orientar e ajustar a nossa vida à medida deste princípio que nos aconselha a nos atermos sempre ao mais difícil, tudo quanto agora nos pareça ser o mais estranho, acabará por se revelar o mais familiar, o mais fiel.

Rilke, “Cartas a Um Jovem Poeta”, oitava carta, de 12 de Agosto de 1904

quarta-feira, 21 de julho de 2010

As visitas começam amanhã!


O projecto "Passos à volta da memória" é uma iniciativa da Culturguarda EM e da Câmara Municipal da Guarda. Graças a ele, entre 22 de Julho e 18 de Setembro, haverá uma série de visitas encenadas ao centro histórico. As sessões serão às 10h e ás 17.30h, todas as sextas e sábados e 1º domingo de Agosto e Setembro, com partida da Praça Velha, junto ao posto de Turismo. Como o nome indica, trata-de uma visita guiada, embora com as características de um espectáculo de rua. O guia / guardião da memória / herói local, será Álvaro Gil Cabral, alcaide da cidade nos finais do séc. XIV. Notabilizado graças à sua recusa em entregar as chaves do castelo ao rei D. João de Castela, pretendente ao trono português. A história é aqui contada mais em pormenor. 
No essencial, trata-se de um percurso pelas artérias do centro histórico, num perímetro bem definido. Onde se pretende recriar cenicamente memórias da cidade, dispersas por várias épocas e vários protagonistas.  Não é de todo uma reconstituição histórica, mas não dispensa o rigor da História. É teatro, mas cujo cenário é a própria cidade e a trama a sua memória. E o guia está longe de ser um cicerone convencional, mas antes um personagem cujas virtudes e fraquezas o tornam singular e próximo, como irão ver.
"Passos à volta da memória" é um espectáculo com coordenação de Américo Rodrigues. Criou o texto este vosso criado. A encenação é de Antónia Terrinha, ficando a interpretação a cargo de João Ventura. Assina o design gráfico Jorge dos Reis. Participarão ainda os figurantes Carlos Gil, Carlos Morgado, Elisabete Fernandes, Luís Paulo e Maria Miguel Figueiredo.

O mito do trabalho para toda a vida

É de aplaudir a proposta de alteração do art. 53º da Constituição, inserida no anteprojecto de revisão do PSD. No texto em vigor, sob a epígrafe "Segurança no emprego", pode ler-se " É garantida aos trabalhadores a segurança no emprego, sendo proibidos os despedimentos sem justa causa ou por motivos políticos ou ideológicos." Ora, na versão proposta pelo PSD, a menção "sem justa causa" seria substituída por "sem razão atendível". A questão da flexibilização do despedimento já vem de há muito. Em Portugal,  é assustadoramente mais fácil obter o divórcio do que ser despedido com "justa causa". Para um trabalhador "do quadro" ser despedido, é necessário praticamente destruir o seu local de trabalho,  matar um dois colegas, ou dar uma sova na Administração inteira, mandando-a para o Hospital com ferimentos graves. E mesmo assim., é duvidoso... Ora, isto é incompatível com modelos de desenvolvimento onde se procura a competitividade, a mobilidade do mercado de trabalho, a rendibilidade do investimento sem que o peso dos factores fixos pese em demasia. E não venham dizer que a flexibilização dos despedimentos abre caminho à liberalização e à precariedade. A liberalização significaria total aleatoariedade do vínculo laboral, agora sujeito às incertezas do acaso. Mas não é essa a regra geral nas relações obrigacionais, nem os princípios basilares do direito laboral permitiriam tal orientação. A questão aqui é a razoabilidade da cessação de um vínculo laboral em situações em que uma das partes já demonstrou não pretender cumprir a sua parte. Impondo a lei uma continuidade forçada e socialmente injusta. Ou seja, é  uma legislação rígida como a nossa que incentiva a precariedade, visto que esta nada mais é do que uma reacção defensiva do empregador. Se, por regra, o incumprimento ou a prestação defeituosa de uma obrigação é "justa causa" para a sua resolução, não se vê razão alguma para que, no direito do trabalho, haja exigências inimagináveis para a alegação e vencimento dessa "justa causa", no caso de despedimento por facto imputável ao trabalhador. Nas situações de despedimento por outros motivos, os requisitos e as formalidades exigidas  estão pensadas para uma realidade pouco menos que virtual. Em Portugal, há cerca de um milhão de pessoas que trabalha em regime de recibos verdes. E muitas mais vêm a precariedade ser a regra do seu dia a dia. Manter artificialmente a inamovibilidade, o carácter vitalício e a impunidade aos felizardos que não têm contratos a prazo é um insulto para os outros. Compreende-se o alarido das centrais sindicais. Se a medida for para frente vão ver desertar as suas clientelas. 

Stalker

terça-feira, 20 de julho de 2010

De meio artista a artista completo

A história é exemplar e  vem oportunamente contada aqui. Há poucos dias, organizado pelo centro Regional de Segurança Social da Guarda, decorreu um passeio de barco pelo Douro, entre Barca d'Alva e o Pocinho. Os passageiros eram crianças do distrito oriundas de famílias carenciadas. O evento teve inclusive honras de reportagem na SIC. Para que conste, devo dizer que nada tenho contra estas iniciativas. Bem pelo contrário, sou apologista de que, com as crianças, a generosidade nunca é demais.
Mas o passeio teve um protagonista: o inefável José Albano. Para quem não sabe, trata-se de um verdadeiro artista. Depois de andar aos caídos em Celorico da Beira, resolveu "entrar para o política", como se diz em bom vernáculo. E em boa hora o fez. Pois apadrinhado nos locais certos da nomenclatura socratina, e graças a algumas manobras, chegou à presidência da Federação Distrital do PS. E daí até aparecer como número dois da lista concorrente às legislativas foi um passo. E eis como alguém sem competências profissionais, cientificas ou cívicas de vulto chega a deputado da Nação.!... Se lerem alguns capítulos de "Uma Campanha Alegre" de Eça de Queirós, depois incluída nas "Farpas", saberão o que é preciso fazer para se chegar ao cargo. Naquela época tanto como agora. Mas eis que, passado um ano, Albano deserta do hemiciclo e dos calores da capital. Para regressar então ao torrão natal. Para explicar o sucedido, várias hipóteses se colocaram: um epígono de Jacinto regressado a Tormes? Um arroubo de consciência pô-lo a dar assistência gratuita ao seu eleitorado? Um caso exemplar de renúncia aos bens terrenos, antes da austeridade do voto de pobreza? Tudo possibilidades comoventes, não haja dúvida!... Porém, desenganem-se desde já, caros leitores! O Albano não dorme em serviço! Regressou, sim! Mas com os olhos postos na sinecurazinha da ordem que lhe acenava, fremente, à sua espera. Sabem qual?  A Direcção Regional da Segurança Social da Guarda!... Neste ponto, confesso que estou quase a chorar... Mas a história, pelos vistos, só agora começou. Para o nosso herói, o momento é propício a que a política não política seja a continuação da política. Ou seja, que o exercício de um cargo não político na Administração seja a continuação da política por outros meios. E o Clausewitz que me perdoe estes abusos de exegese.
Mas voltemos ao tema que aqui me traz. Qual o significado da exposição mediática de Albano no passeio? Decerto o ex deputado não se chegou à frente para dar uma Ted Conference, numa paisagem de luxo, sobre um tema a propósito. Até porque tenho dúvidas que a criatura saiba o que isso seja. Não tenhamos ilusões. O novo Director resolveu fazer política pura e da forma mais demagógica e rasteira que é possível. Como já dei a entender, a iniciativa poderia ter decorrido sem os holofotes da comunicação social por perto. Para isso, bastaria que o Director Regional não estivesse lá. Logo isso demoveria a comunicação social de aparecer. Havendo declarações do responsável regional, fá-las-ia fora do contexto físico da actividade. Mas o nosso Albano não resistiu aos holofotes. Nem sequer lhe passando pela cabeça que as crianças, assim expostas numa acção que deveria ser tão somente de sensibilização, podem ser objecto de estigmatização no futuro. E que ele não está a dar nada a ninguém que lhe saia do bolso, mas tão só a gerir recursos públicos para fins assistenciais. E que a primeira qualidade do benemérito (que ele não é nem nunca será) é a humildade.

Outra vez a mochila do gajo...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Escrevo-te com o fogo e a água

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

António Ramos Rosa, Volante Verde, 1986

Sonhar é preciso (15)

Da penumbra

Um murmúrio imperceptível durante o dia, enche toda a penumbra nocturna.

"Aforismos", Teixeira de Pascoaes

domingo, 18 de julho de 2010

Filmes para uma vida (3)



"Breakfast at Tiffany's"  ("Boneca de Luxo", 1961), de Blake Edwards

Com: Audrey Hepburn, George Peppard, Buddy Ebsen, Patricia Neal;
Produção: Paramount Pictures

Esta comédia melodramática constitui um dos maiores sucessos da história do cinema. Embora intemporal, soube ser  também o retrato de uma época e vê-se hoje com a mesma frescura de há 50 anos.  O filme recebeu dois Oscares: Melhor Banda Sonora e Melhor Canção (Moon River). Hepburn foi nomeada para melhor actriz principal.
A película baseia-se no livro homónimo de Truman Capote, de 1958, que se veio a tornar um verdadeiro clássico da literatura americana contemporânea. A obra foi reeditada entre nós em 2009, sob a chancela da D. Quixote, com o título "Boneca de Luxo".  A versão cinematográfica alterou bastante o argumento do livro. Algo que desagradou muito a Capote, especialmente a solução encontrada para o final.
Blake Edwards é um prolixo realizador, conhecido sobretudo por ter sido o criador da série Pantera Côr de Rosa. Mas para lá da comédia, de que o genial "The Party", com um inesquecível Peter Sellers, é exemplo maior - um filme cujo humor absurdo e obsessivo evoca Jacques Tati - experimentou o drama e mesmo filme de terror ("Experiment in Terror", 1962). Depois do seu casamento com Julie Andrews, é opinião corrente entre os críticos que a sua produção decaiu de qualidade.
Holly Golighly é a personagem principal de "Breakfast at Tiffany's". Protagonizada  por Audrey Hepburn, numa interpretação inesquecível. Deslumbrante, espirituosa e ternamente vulnerável, imprevisível, inquieta as vidas dos que com ela se cruzam. Mesmo usando uma voluptuosidade bastante esbatida em relação à personagem original, aqui substituída pela ingenuidade e pelo humor, não recua diante de expedientes para sobreviver e de planos para triunfar. Para uma história que é um autêntico libelo à sedução e, porque não, à amizade.A primeira escolha do realizador recaiu sobre Marilyn Monroe, a instâncias de Capote, que terá pensado nela como a actriz perfeita para reencarnar Holly. A que não terá sido estranho a partilha de uma vida de dissipação entre ambos.O primitivo realizador pensado pela Paramount para ao filme foi John Frankenheimer. Todavia, acabou por valer a escolha de Edwards, ao que parece imposta pela actriz.
A extraorinária banda sonora de Henry Mancini foi determinante para o sucesso da película. O tema principal, "Moon River" (composto em co-autoria com Johnny Mercer), passou imedatamente a clássico, mal o filme estreou. Moon River foi gravado em 500 versões diferentes e vendeu um milhão de cópias logo na edição original.
Há sequências no filme verdadeiramente emblemáticas. Pondo de parte a icónica serenata à janela de Holly, ressalta o plano-sequência da festa em sua casa. Os encontros mundanos eram tema corrente em certo cinema produzido nesta época. Basta lembrar o "Oito e Meio" e o "La Dolce Vita" de Fellini, o "La Notte", de Antonioni, mas sobretudo os primeiros filmes de Cassavetes, de que "Shadows" e "Too Late Blues" são exemplos maiores. Eram sobretudo uma oportunidade para a inovação estética, para mostrar o desembaraço nos costumes, para o humor, para os encontros inesperados e as declarações intempestivas.


Termidor

(de 19 de Julho a 17 de Agosto)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Rota dos Galhardos (1)

Tipo: P.R.1
Extensão: - 11 Km
Partida e  Chegada: Folgosinho, Gouveia
Grau de dificuldade: Moderado 
Desnível:  450 m
Duração apróx.: 3,5 H

A Rota dos Galhardos (vd. Mapa do percurso) é um trilho com tudo o que é preciso para uma manhã ou uma tarde bem preenchida. Paisagens deslumbrantes, património histórico (calçadas romanas, necrotério de Pias, moinhos da Fórnea), bosques misteriosos, exóticas figuras de pedra esculpidas pelos elementos (Pedra do Faraó, Pedra Furada, etc.) ribeiros sussurrantes, fontes retemperadoras. E no final, ainda haverá tempo para um mergulho num poço da Ribeira do Freixo, de águas cristalinas. 
O trilho é feito, durante uma parte significativa, pela calçada romana dos galhardos, (classificada como IIP desde 1992), que inicia no termo da aldeia e termina na Portela de Folgosinho, em plena Serra da Estrela. O troço fazia parte do itinerário que ia de Braga (Bracara) a Mérida (Emerita), passando por Freixo, Marco de Canavezes (Tongobriga) e Idanha-a-Velha (Igaeditania). Neste ponto, ligava Viseu a Famalicão da Serra. Depois de passar por Melo e Freixo da Serra, cruzava Folgosinho, antes de ganhar fôlego e atravessar a Serra. Depois da Portela, seguia para Cantarinhos, Casa das Pias, Reigoso, atravessando o Mondego na Qta. da Taberna e daí pela Tapada/Quinta da Eira, onde existe novamente calçada, Quinta. do Cadouço, até atingir Famalicão. Pontuam várias casas-abrigo ao longo do percurso, a maioria em ruínas, o que é pena. Vencida a Portela, segue-se o entroncamento de ligações para o Covão da Ponte, Curral do Negro, Vale do Rossim e Videmonte, para onde segue o trilho, por estrada de terra, durante uns 5 Km. Junto ao marco geodésico dos Galhardos (1323 m) avista-se o magnífico planalto de Videmonte, com seus vastos campos de centeio, lameiras e terras lavradas de pousio, as torres eólicas de Salgueirais, a Penha de Prados, a Guarda, imponente, no cimo do seu horst. Do lado oposto, o Vale do Zêzere, a encosta sul do Vale Glaciário e os cumes da maciço central. Para poente, a Portela e o alto da Santinha. Este troço percorre uma das áreas menos conhecidas da Serra. Depois de cortar pela esquerda e passar pela Pedra Furada - curiosa formação que faz lembrar um animal mitológico que nos observa à passagem da fraga - o percurso descendente continua por via romana até à ponte que atravessa o Ribeiro do Freixo, passando por Pias e a pedra do Faraó. É chamada "Calçada dos Cantarinhos", mas pouco se sabe acerca do seu traçado e função. Várias possibilidades se colocam: a) Folgosinho foi um cruzamento de vias romanas (a já referida e uma outra, que ligava Marialva (Aravorum) a Bobadela, Ol. do Hospital (Veladis), pela vertente oeste do PNSE) e desde sempre ponto obrigatório de penetração na Serra. Ora, sabe-se da existência, já naquela época, de exploração de estanho nas Minas dos Azibrais, ali perto. É então possível que tenha servido como via de acesso à mina (algo que os romanos nunca descuravam) e assim se tenha mantido durante longo período; b) A sua (re)construção pode ser medieval e tenha sido utilizada como ligação, pela Serra, entre Folgosinho a Linhares;  c)  É possível que tenha funcionado como nó de ligação entre Folgosinho e a via que partia de Lamego até Famalicão, pelo Mondego, na qual entroncaria perto da aldeia dos Trinta.
Segue-se o registo fotográfico do percurso, que em boa hora calcorreei  esta semana. Para ampliar, basta clicar na imagem.

Rota dos Galhardos (2)





Rota dos Galhardos (3)



Sempre a Amante Ultrapassa o Amado

O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A sua dificuldade reside no que é complicado. A própria vida, porém, tem a dificuldade da simplicidade. Só tem algumas coisas de uma dimensão que nos excede. O santo, declinando o destino, escolhe estas coisas por amor a Deus. Mas que a mulher, segundo a sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, isso evoca a fatalidade de todos os laços de amor: decidida e sem destino, como um ser eterno, fica ao lado dele, que se transformará. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. A sua entrega quer ser sem medida: esta é a sua felicidade. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: exigirem-lhe que limitasse essa entrega.

Rilke, in "As Anotações de Malte Laurids Brigge"