Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Omo lava mais branco

A nova grelha de programação da Rádio Altitude acaba de ser dada a conhecer. No seu todo, afigura-se-me bastante interessante, ao conseguir chegar a vários públicos. Mas enferma de alguns problemas. É precisamente da opção mais controversa que aqui vou falar. Está previsto ir para o ar, todas as segundas-feiras, o programa "Politicamente Incorrecto", onde Abílio Curto e Marília Raimundo alternam naquilo que é anunciado como uma "leitura muito própria da actualidade" e "sem cerimónias". Nem queria acreditar! Mas o que terá ainda Abílio Curto que dizer aos seus conterrâneos, ao auditório da rádio? Será que se perfila para uma espécie de nobilitação senatorial? Um novo senhor comendador? Mais um "comentador" que utiliza informação privilegiada para ajustar contas antigas, ou recorre a boatos para criar cortinas de fumo? Um prof. Marcelo em versão pimba, sem brilho, sem mundo, sem livros, sem dimensão cívica. Chega! Chega de Curto! O maior (mas não o único) responsável pelo terceiro-mundismo urbanístico que vigorou na Guarda durante duas décadas, pelo trágico atraso que se abateu sobre a cidade, pela perda de oportunidades, pela deslocalização de investimentos, pelo clima de caciquismo, pelo empobrecimento humano, cultural, paisagístico, pela desqualificação, pela criação de clientelas eleitorais e outras, que ainda hoje sobrevivem, como tentáculos. As contas com a Justiça fazem parte de uma outra história, de que não me ocuparei aqui. O que me interessa a mim e o que interessa aos cidadãos em geral e da Guarda em particular, é a responsabilização política de Abilio Curto e da rede de interesses partidários e económicos que o apoiaram e graças a ele floresceram. Para que determinados erros nunca mais se repitam. Mas essa operação de saneamento básico, inexplicavelmente, nunca foi feita. Talvez à espera que a memória não cobre juros. Ou que a magnimidade seja confundida com fraqueza.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Soneto da Batalha

Da noite que tudo leva, num sorvo
Do peito que estala e se destroça
Sai o vazio transformado em corvo
Voa para longe e olha-nos com troça.

Os aldeões, do orvalho estremunhado
Desenterram os escudos ferrugentos.
Juntam-se, por instinto, em quadrado,
De frente para os quatro ventos.

O Homem não nasceu p’ra guerrear
Pois a Morte vem mansinho, não avisa,
E o menino chora e chama pela mãe.

Sangrando o aldeão, filho do Mar
Espera a tempestade numa brisa
Mas não olha para trás. Não há ninguém.

André

Camellia sinensis (2)

Eis a parte nobre, o crème de la crème, digamos assim, do cardápio de chás deste vosso criado. O qual gostaria de apresentar aos leitores. Através de uma espécie de visita guiada, tão breve e sugestiva quanto possível. A acompanhar, nada melhor do que a degustação de uma chávena de Houjicha japonês, um tradicional chá verde torrado, muito suave. E enquanto a água vai aquecendo e, depois, arrefecendo até aos 85º, vou apresentando algumas das jóias da coroa: um sensacional Lapsang Souchong chinês, chá preto fumado com sabor a madeira perfumada; um Chá dos Beduínos egípcio, bebida aromatizada com menta e que bem podia ser o tal do deserto; um chá vermelho Pu-Ehr, muito utilizado na medicina chinesa como "comedor" de gorduras, antioxidante e anti infeccioso; um Oolong da Formosa, a partir de folhas semi-fermentadas, i.e., com um teor de teína entre o verde e o preto, não muito conhecido no Ocidente mas muito popular na China e extremo oriente; uma infusão de erva mate brasileira, conhecida pelas suas propriedades energéticas; um Black Chai e uma infusão de alcaçuz egípcia, que combinam várias especiarias como o gengibre, a canela, o cravinho, a pimenta e o cardomomo, no primeiro caso com chá preto do Ceilão e rooibos (vermelho) da Africa do Sul; o Gunpowder Zhu Cha, em folhas de chá verde enroladas em pequenas bolas, utilizado na preparação do chá de menta; por último, o inconfundível Matcha Uji, uma bebida tradicional japonesa preparada a partir de pó solúvel de chá verde Gyokuro, que lhe confere um característico tom esverdeado, a "espuma do jade líquido", como era cantado pelos poetas. Existe um ritual específico na sua preparação, de que fala Kakuzo Okakura, em "O Livro do Chá". Brevemente aqui desenvolverei o tema. E já está pronto. Sirvam-se!

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quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O entalanço

Num jardim situado ao longo da principal artéria da cidade da Guarda, existe uma singular edificação decorativa. Trata-se de uma espécie de réplica das conhecidas lápides evocativas, exudando nostalgia a pataco, erguidas no Penedo da Saudade, em Coimbra. O motivo principal é um verso gravado num pedaço de granito, colado a um informe e rasteiro barroco. A quadra é retirada da "Canção da Guarda", de Júlio Ribeiro. Para além da polémica havida na altura, por causa das gralhas do texto, ressalta a fealdade do monumento. A certa altura, no meio do lirismo ornamental e esclerosado do verso, (ainda) muito cultivado no nosso país pelos pequenos e médios vates, ressalta a expressão "entalada na monstra". Entalada onde? Ups! Embora tenha passado pelo local milhares de vezes, só recentemente, noite dentro, reparei na grotesca frase. Que podia dar o mote para um filme pornográfico, no segmento "bizarrias e fetiches".

Momentos Zen - 48

O objecto é um objecto para o sujeito, o sujeito é um sujeito para o objecto.

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Paperbacks - 6

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Os macacos

O grande naturalista Franz de Waal estudou na segunda metade dos anos setenta uma colónia de macacos no Jardim zoológico de Arnhem. Outros o fizeram antes e outros o farão depois. Do relato ficam os nomes deles, Nikkie, Yeoren, Luit, Mama, Rosjie, Puits. Parece que, depois de Luit ter morrido, quando exibiram um filme antigo à macacada, de novo a “audiência” mostrou sinais de amor e ódio ao “ressuscitado” da tela. Puits gostava muito de Waal porque este lhe ensinara a dar o biberão ao seu macaquito, coisa que foi a primeira vez que tal se conseguiu em cativeiro. Ler aquelas páginas e ver as fotografias de animais tão individualizados faz-me sentir um assassino, quando matei por sadismo, um gatito, em miúdo. Os animais são gente. Todos os animais. E as plantas também. E as pedras que cantaram quando Jesus passou. E nós não somos macacos. Somos apenas outros, ainda surdos para perceber o que os macacos recordam de nós, ou os pássaros, embora a ecologia nos permita muito primitivamente ver o que elas, as pedras, pensam de nós. Mas uma coisa sabemos: é que, num instante, pode sair um leão, cá de dentro, ou morder uma serpente, ou emergir um crocodilo. Um destes dias, o tratador do ursinho Knut morreu de repente na banheira. Que terá o seu coração sentido dessa estranha sinfonia sem som que foi a sua cabeça encostada à do urso, para todos vermos? Que Espírito o levou?
Pelo menos uma coisa sabemos: não acreditemos muito nas imagens que fazemos de nós, porque elas podem turvar-se num instante. A noite pode trazer demónios, como a manhã trouxe anjos e, por isso, não desprezemos o devoto que reza continuamente. Aquilo que podemos dizer a uma sociedade quando a multidão nos ouvir entusiasmada, não pode ser muito diferente daquilo que dizemos à sombra obscura, na solidão, neste caminho tão longo, em que pouco somos mais que uma formiga, com jeitos de cigarra... peço ao céu que o Dalai Lama não revogue a sua política de infinita paciência.

André

Ganda Chrome!


Descobri recentemente o Google Chrome, versão beta. Trata-se do primeiro browser do gigante da web, lançado na primeira semana de Setembro e também disponível em português europeu. Quando o usei pela primeira vez, pensava destiná-lo à estante das segundas escolhas que às vezes dão jeito, na secção dos browsers light. O que significaria que o Firefox continuaria de pedra e cal e o "canastrão" IE lá estaria para aquelas situações incontornáveis. Adivinhava uma chuva de críticas às imperfeições da nova plataforma, às falhas fatais, aos pormenores indesculpáveis. Pois bem, dois dias foi quanto bastou para mudar de ideias! É que o Chrome, contra todas as expectativas, passou com distinção! Por várias razões. A primeira é a dimensão considerável da janela de visualização. Depois, a apresentação gráfica é muito elegante, com animações e botões qb e uma funcional página inicial. O design busca a facilidade de utilização, acesso simplificado aos marcadores e às várias janelas abertas. Mas há duas importantes inovações que, só por si, justificam o uso do Chrome. A primeira é a possibilidade de abrir uma janela de navegação em modo "sem registo". Tal significa que a navegação através dessa janela não deixará quaisquer traços no computador, incluindo cookies. O que não quer dizer o mesmo que navegar anonimamente, pois nesse caso é necessária a ligação a um servidor proxy. A outra novidade é o facto de a caixa onde se digita o endereço da página pretendida funcionar também como motor de busca. O que, na prática, quer dizer que basta digitar uma ou dois termos de busca e o Chrome compõe imediatamente várias opções de endereços no scroll bar. Com a possibilidade de aceder imediatamente ao histórico que contenha a expressão digitada. No entanto, há duas notas negativas: 1º a inexistência de um corrector ortográfico integrado, à semelhança do Firefox. 2º a inexplicável ausência, por defeito, do botão que direcciona para a home page. Para figurar na barra de ferramentas, tem que se seleccionar expressamente essa opção nas configurações. Mesmo assim, uma coisa é certa: nunca navegar foi tão fácil.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Tábua de marés (6)


Quadrar a Roda
Concepção, encenação e interpretação: Jens Altheimer (http://leocartouche.com)
Pequeno Auditório do TMG, 17 de Outubro de 2008, 21h30

O espectáculo veio encerrar a edição deste ano do Festival de Teatro Acto Seguinte, que decorreu no TMG. O seu criador, Jens Altheimer, aliás, Leo Cartouche, começou a sua carreira artística como malabarista, no início dos anos 80. Altura em que também se iniciou no teatro de rua. E não foi impunemente. Mais tarde haveria de reunir estas duas formas de expressão artística num único conceito de espectáculo. Em 1987, fixa-se em Portugal, onde é professor no Chapitô e pioneiro do Novo Circo, de que a criação da “Sem Rede - Rede Nacional de Programação de Novo Circo” é um exemplo. O denominador comum das suas propostas é, como se disse, a busca de uma linguagem onde as técnicas do circo e do teatro se fundam, dando origem a espectáculos estimulantes. Na sua última produção, “Survivor”, fixou-se num único tema: um concurso televisivo. Nesse trabalho carregado de humor negro e irreverente, ao mesmo tempo trágico e cómico, consegue criar uma sátira às relações sociais baseadas nos níveis de rendimento dos indivíduos. Que, por sua vez, encaram os programas televisivos como o que é recriado na peça como referências supremas, relativamente à sua vida quotidiana. Pois bem, em “Quadrar a Roda” o autor reincide no objecto narrativo. Pretende igualmente promover uma crítica bem-humorada à arbitrariedade e ao absurdo, num universo onde as relações humanas estão cada vez mais mediatizadas por máquinas e sistemas telemáticos. Aqui, depois de várias peripécias, o protagonista entra numa área de acesso reservado, mas que também poderia ser a sua casa. E é imediatamente compelido a participar num jogo/concurso com várias fases e onde o grau de dificuldade vai aumentando progressivamente. Todavia, o herói consegue desenvencilhar-se sempre das dificuldades. Recorrendo, inevitavelmente, a uma habilidades operadas com maquinismos singulares, surpreendentes. Construídos a partir de vários materiais reciclados para a sua nova função. E onde o herói nunca deixa de ser uma espécie de Mac Gyver clownesco. Com uma solução pronta e engenhosa para cada novo desafio. Talvez o autor tenha querido ridicularizar o espectáculo na sua dimensão política. Os sinais estavam lá. Mas seria preciso mais. Porém, conseguiu atingir um objectivo artístico: Colocar em evidência a forma como a máquina atirou os indivíduos para fora do espaço natural onde constroem a sua humanidade. Como se deixassem de ser actores do seu próprio destino e de poder ler os objectos e maquinismos à sua volta, dos quais dependem. E assim ficassem diminuídos, padecendo de uma espécie de iliteracia técnica. Mas o autor mostrar que esse processo pode ser reversível. Graças ao seu engenho reciclador, a uma capacidade de improvisação que tem tanto de teatral como os artifícios expressivos têm de circense, Altheimer conseguiu repor o homem no centro. Afim de poder dominar os instrumentos de que se serve para viver. E para se divertir. Até porque tudo o que constitui o espaço cénico, maquinismos fixos e móveis, está lá literalmente para que ele se sirva deles. Num processo de reconstrução mútua. Noutro plano, já mais no que diz respeito à interpretação, pareceu-me que, por vezes, o autor abusou do circo e esqueceu-se do teatro. Nomeadamente, no prolongamento excessivo do malabarismo com as bolas. O que retirou algum ritmo ao espectáculo, mesmo que os danos fossem mínimos. Juntando malabarismo e manipulação de objectos ao movimento e interacção com o público, Altheimer abre a porta a um universo estranho e bizarro, e também muito pessoal, onde reinam o perigo, amor, ambição e riso, grandes falhas e pequenos triunfos. Sobre este trabalho, poderia concluir desta forma: Vamos ao circo? Claro! Vamos ao teatro? Também. E ninguém se enganaria.

Publicado no jornal "O Interior", em 23 de Outubro

Tábua de marés (5)


A 23”, Outubro de 2008
Revista trimestral
Director: Ricardo Paulouro
Edição: Associação Cultural A.23, Fundão




Desde o primeiro número que esta publicação me chamou a atenção. Por várias razões, como é costume dizer-se: o excelente grafismo, a variedade dos temas abordados, uma notável coerência editorial, o enfoque nos temas regionais e nas personalidades oriundas da área, mas sem impedir que o grosso da atenção vá para temas culturais nacionais e internacionais, fotojornalismo e reportagem/ensaio. A escolha sempre foi ampla, como se adivinha. Neste número, vários pontos altos poderei realçar. Começo pela notável série de fotografias de Paulo Nunes dos Santos recolhidas na Geórgia durante o recente conflito militar ocorrido naquele país. Imagens pungentes, onde o autor revela uma apreciável maturidade. Em seguida, chamo a atenção para a crónica de Rita Barata Silvério, autora e
blogger, cujos textos já tinha seguido com atenção na saudosa revista “Atlântico”. Este chama-se “Spain is different” e fala-nos da forma como deveríamos recolher ensinamentos da forma como os espanhóis defendem e promovem os seus produtos autóctones diante de Bruxelas. Assinalo também uma interessante reportagem/ensaio intitulada “O país sanitário visto do balcão da taberna”. Um exemplo das potencialidades do chamado jornalismo literário. Trata-se de uma incursão do autor por tabernas e similares do Fundão e arredores, com uma divertida arremetida por Ciudad Rodrigo. Na secção entrevista, aparece-nos Jorge Palma no seu esplendor. Uma peça onde o músico fala de si, sem rodeios, num plano temporal alargado. E onde tomei conhecimento de que, no seu último álbum, incluiu um tema, “A Velhice”, criado para uma sublime peça teatral a que pudemos assistir recentemente do TMG: “Começar e Acabar”, de João Lagarto, a partir de textos de Beckett. Uma nota final para uma reportagem de fundo sobre a história atribulada do Grémio Lisbonense (Jangada de pedra no naufrágio da baixa”) e, já agora, de uma receita de "Bacalhau com Broa". A qual já está, nesta hora, devidamente arquivada…

Publicado no jornal "O Interior", em 23 de Outubro

Que imagem para a Guarda?

Américo Rodrigues lançou o desafio urbi et orbi, no "Café Mondego": escrever um texto acerca da imagem da (para a) Guarda. Aí aproveita para traçar algumas das questões chave nessa apreciação. Pois bem, acabei ontem de me juntar aos que aceitaram o repto. O texto poderá ser lido aqui.

Ferida de Outono

Haider morreu e dizem que era homossexual. Também dizem de Hitler mas não dizem de Mussolini, nem de Estaline. Dizem de César. O delfim de Haider no Partido, disse que Haider era o “homem da sua vida” (Lebensmensch) e disse que mantinha uma relação com ele, “para além da amizade”. Antes de sair para morrer, Haider bebeu uns copos num bar “gay” depois morreu com dores horríveis no peito e no tórax, quando o carro capotou.
Pois bem...o mal de eu estar a falar nisto é que estava para começar por dizer aquilo que o bispo de Cantuária disse quando saiu a defender um padre acusado de ser “gay”: “eu próprio nunca soube bem a minha sexualidade, embora, quer os senhores telespectadores acreditem ou não, sempre levei uma vida casta”. Pois bem...o corpo, a alma e a afectividade de um ser humano são moldáveis. Até há quem ache que é normal meter-se sexualmente com meninos e meninas (pode ser na Tailândia), ou até com bébés, quem ache que matar e arrancar órgãos palpitantes ou até beber o sangue dos inimigos, é...não direi normal, mas é “natural”. Há quem diga que a situação faz o comportamento e conclua, que, no fundo, podemos ficar nos braços dum tal Fado, que “é assim”. Enfim, com Haider ou sem Haider, com Hitler ou sem ele, de repente estamos todos a falar daquilo que os mercadores de obscenidades dizem ser um direito do mercado. A confiança é a de que tudo é admissível porque o que é, “é assim”, é Lei. Nisto tudo se perdeu o Amor, o Amor do Coração, que é humilde e tudo suporta, o amor que ficará no fim dos tempos, quando a Fé e a Esperança morrerem. Agora percebo porque é que o baixito e ridículo fascista, Starace, que insistia em fazer crosses pelas ruas de Roma, tomada pelos guerrilheiros comunistas, quando foi preso, lhe perguntaram o que andava a fazer e disse tranquilamente: “Ia tomar um café”. E quando o levaram a reconhecer o corpo espancado do seu camarada Mussolini disse apenas: “ É o meu Duce” (vê-se agora porque é que alguns desesperados escreveram na parede contra a qual foram metralhados: “Dux, mea Lux”). Aos que se entretêm a assassinar Haider, em vez de o vencerem, também digo, de punho bem cerrado: “Vou tomar um café”. E quando o punho cerrado se estender ao sol de mão aberta vejam como um águia, atacada no ninho, levanta as asas.
André

NOTA: Sobre o assunto, ler também aqui.

domingo, 26 de outubro de 2008

Stalker

MEC de novo

Não queria deixar de partilhar com os meus leitores a audição da entrevista de Miguel Esteves Cardoso a Carlos Vaz Marques, no "Pessoal e Intransmissível", em 6 do corrente. A propósito do lançamento do seu mais recente livro "Em Portugal não se come mal", MEC fala de tremoços, de peixe e dos prazeres da mesa. Confessa-se um bom garfo, gosta de blogues, tem um baú com romances inéditos e revela que a sua única ambição é ser aprendiz de sábio. Imprescindível. Está aqui em podcast.

sábado, 25 de outubro de 2008

O grande equívoco

O mundo vai ficar muito mais incerto e perigoso se este homem for eleito como próximo presidente dos EUA. Sem qualquer experiência governativa, com um discurso vago, mas exaltante, este homem irá certamente ignorar a Europa. Um tele evangelista com a tenda montada tem conseguido ludibriar parte da América e quase toda a Europa bem pensante. Um escândalo. Eu bem sei que as pessoas precisam de ídolos. Mas que diabo, podiam fingir um bocado, ou começar a ler Arno Gruen. Os sinais de favoritismo já começaram: ao que parece, se Obama for eleito, ao que tudo indica, pretende nomear como embaixadora em Londres Oprah Winfrey, sua apoiante da primeira hora e uma espécie de Teresa Guilherme americana. Futuro? Esperança? Depois não digam que não avisei.

PS: à medida que a campanha avança, os alinhamentos dos opinion makers da casa nesta eleição vão confirmando a minha aversão em relação a Obama. Agora foi a vez de Júdice, - esse tarefeiro multiusos do regime, exemplo de coerência e honestidade intelectual, para quem Portugal "é um país de merdosos" (sic) - vir tecer loas ao candidato democrata. Há momentos em que as escolhas se tornam escandalosamente simples: se Júdice gosta, então eu não gosto. Ponto.

Ana

Ana, de 14 anos, matou-se outro dia, caindo da ponte do Freixo, no Porto. Dizem que a encontraram ao fim de dois dias, entre duas pedras e que a reconheceram pela roupa e pela”roupa interior”. Isto depois de dizerem que o seu corpo já estava em adiantado estado de decomposição. Ana tinha 14 anos e deixou uma carta ao ex-namorado e outra aos amigos em que agradecia a amizade que tinham tido por ela.
Eu sei que o Porto é vertical como um penhasco e que anjos lutam todas as noites e caiem do topo da Torre dos Clérigos. Sei que, como os cães continuam a percorrer o mesmo caminho nocturno onde agora passam auto-estradas, assim, quantas mais pontes, mais as ilusões de voo e a vertigem quando o crepúsculo se suja. É curioso que a Torre em Lisboa, que alguém mandou vedar, não se chame “Torre de Santa Injusta” e penso que o bondoso oficial da Câmara que deu a ordem de a segurar tinha, certamente, um coração que chora.O meu coração sangra. Ana, morreste em vão? Quem se preocupou com o teu coração de adolescente, a tua “roupa interior” de adolescente? Agora vejo o teu cabelo, penteado pela corrente negra do Douro e lembro-me da frase do Evangelho: “não há uma pedra onde o filho do Homem possa descansar a cabeça”. Ana, não estarás cá para mais esse dia de Esperança, quando rebentarem os foguetes por elegerem um jovem frágil para Presidente do país mais poderoso da Terra. Haverá outros dias de esperança e outras esperanças goradas, mas tu já não estarás cá. O meu coração continuará a sangrar, talvez tenha um dia de alívio da dor, imaginando que as pessoazinhas descartáveis como tu, Aninhas, bombardeadas por filmes, por ritmos como comboios de alta velocidade sobre a cabeça, com jogos de computador, drogas e navalhas, tenham um dia, em vez de um universal caixote do lixo, um bocado de amor. Um bocado de atenção que se faça sentir como um prado verde iluminado pelo sol, como a erva do chão – humilde pois toda a gente a pisa, e orvalhada de lágrimas – se faz sentir sob os pés nus, os pés de Jesus, roto e nu, ressuscitado dos mortos...

André

Paperbacks - 5

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A tarde de um escritor

«Os meus romances são muito meus. Não conheço nenhum autor que escreva os romances como eu os escrevo. (...) Sinto-me à vontade com qualquer género, o que importa é que eu e o leitor tenhamos prazer.(...) Desconheço o que seja o famoso bloqueio de escritor. Não estou a duvidar que exista, mas realmente nunca passei por tal experiência. Construo o livro na minha cabeça e o problema é os meus dedos serem suficientemente rápidos para acompanhar as ideias que fluem da minha mente.»

José Rodrigues dos Santos, em leite derramado numa entrevista ao DN online, conduzida por João Céu e Silva. Onde parará JRS?

Poesia às quintas


Prossegue a poesia, aos fins de tarde, no café-concerto da Comuna. Todas as quintas-feiras, o espaço acolhe um pequeno espectáculo (duração, 1h) com textos recolhidos e postos em cena por Carlos Paulo. Interpretados pelo próprio, Jorge Andrade, Mia Farr e Tânia Alves. Neste mês, o poeta escolhido é Guerra Junqueiro. Seguir-se-ão Raul de Carvalho e Camilo Pessanha. A música é de Diogo Branco. Às 19h00. 

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Paperbacks - 4

Os Capitalistas

Eles comem tudo…chamam-lhes os „takers“, os que „levam“, tudo, nos mares do Sul. E não são os ricos, pois ricos e pobres haverá até ao fim dos tempos. São aqueles que vivem do consumir, do ter mais, do competir, dum novo poder a seguir a outro poder. Até os ditos anti-capitalistas, os de Esquerda, que gostam também de consumir e de Poder, gostam sobretudo de consumir a vingança e, quando põem em prática as suas teorias, à custa de muito fuzilamento e massacre, electrificam o céu, queimam os lagos e matam as florestas, põem todos a marchar, escravizam-nos até morrerem de exaustão. Ah, deixem a pobre macaca, gritar desolada com o seu filhinho morto no regaço, deixem o pobre infeliz com a sua grandeza à beira do penhasco.Por isso tenho tanta esperança em Obama. Levará um tiro como o doente Kennedy? É mais justo interromper uma campanha para ver a avó doente que por causa da crise das bolsas. Fossem todos os especuladores ver a avó e não estaríamos assim! Eu sei que não haverá Justiça no Mundo para os desafortunados, mas de vez em quando há Esperança que é o Domingo dos pobres. E gosto deste homem, frágil e bonito, que abre as mãos grandes como quem vai lançar uma bola de basquetebol, que vem dum meio pobre de vãos de escadas e pretas gordas, de soldados rasos do Iraque, de gente sem raiz, nem origem, de gente descartável, gosto da sua magreza frágil e do seu rigor emocional. Como um iluminado de Alá na África pelada, dos griots e dos sadus, com o seu nome de Hussein que morreu a proteger o filhinho, com a sua legitimidade de Príncipe, na batalha de Kerbala contra islâmicos mais espertos que ele. E gosto do seu nome Barack, que quer dizer “abençoado” em hebreu. Ôba!, Ôba!, Abba, Abba (Pai!Pai!), como cantam os filhos dos escravos na suas procissões de Sol, do outro lado do mar, onde foram naufragar. Preto e índio sou eu, preto do Mundo, índio do Mar, agora que vem o general vodu, disfarçado de preto, para apontar o cano dos senhores das armas ao crânio gentil e frágil de Obama. Esperança, sim, do povo “Jah” de chegar à Sião de ouro onde as forças do mal não têm força porque até Maomé disse que Deus deu à gente do Preste João 9 décimos da coragem do Mundo. Talvez tu, Malcom X, tenhas agora paz, que bem a merecias e nunca a tiveste. Oxalá!

André

Tábua de marés (4)

“A Festa”
Criação colectiva, a partir de texto de Filipe H. Fonseca, Nelson Guerreiro e Tiago Rodrigues. Interpretação: Cátia Pinheiro, Cláudia Gaiolas, Joaquim Horta, Marcello Urgeghe, Rita Blanco, Tiago Rodrigues e Tónan Quito
Produção: Mundo Perfeito e Teatro Maria Matos
Grande Auditório do TMG, 20 de Setembro de 2008, às 21h30

O espectáculo faz parte do “Festival de Teatro Acto Seguinte”, que decorre nos meses de Setembro e Outubro, no TMG. É a primeira produção – em regime de work in progress – originada a partir do projecto “Estúdios”. Neste caso, um conjunto de três workshops orientados por vários criadores, entre os quais João Canijo e o coreógrafo zairense Faustin Linyekula, a cuja notável criação “The dialog series: iii. dinozard" pude assistir no último “Alkantara Festival”. O projecto resulta de uma colaboração entre a estrutura teatral “Mundo Perfeito” e o Teatro Maria Matos, com a participação do “Nature Theatre of Oklahoma”. A propósito da metodologia usada nas sessões, diz-se na apresentação que “a equipa artística deste espectáculo explorou diversos processos de trabalho e desenvolveu vários fragmentos de uma obra teatral dedicada ao tema da festa”. Precisamente, a festa é um conceito essencial, um cenário utilizado pela dramaturgia ao longo dos tempos. Será que actualmente poderá ainda o teatro celebrar a festa? E que tipo de festa? Tudo depende da quantidade e da razão de ser da areia nos mexilhões. Passo a explicar. Em cena estão sete convivas no que se supõe ser um réveillon. Após um jantar que se crê pacífico, uma observação acerca da existência de areia nas amêijoas despoleta uma espiral de agressão e meias verdades, cujo desfecho se torna imprevisível. Progressivamente, os vários personagens vão-se desconstruindo, revelando traços de personalidade desconcertantes. Em vez da aguardada festa, instala-se o sarcasmo, o abandono das convenções, a perturbação por aquilo que não se diz e por aquilo que se diz mas não se julgava importante. Nem o álcool consegue amenizar o autismo que se instala. Tudo termina numa espécie de coreografia, onde cada um já só consegue repetir-se a si próprio. Um encontro verdadeiro como este passa por várias metamorfoses. Algumas de uma crueldade suprema. Recorde-se o notável filme homónimo de Thomas Vintenberg.

Publicado no jornal "O Interior", em 16.10.2008

Tábua de marés (3)


Esta exposição temática fecha um ciclo de 16, com início há precisamente 10 anos. Desde a primeira mostra do conjunto, o conceito original manteve-se: recolher e apresentar objectos, imagens, textos evocativos, materiais, testemunhos, reconstituições, instalações, evocativos do património, das tradições, das instituições, das personalidades, dos acontecimentos e das actividades com maior significado na vida da cidade e do concelho. Não esquecendo, evidentemente, o tratamento autónomo dado às diferentes freguesias. Tratou-se, em síntese, da recriação de universos representativos da memória local mais recente e determinante. Nesta mostra, destaco a variedade e a multiplicidade de objectos expostos, ao longo de quatro salas. Em algumas das 25 freguesias, a escolha recaiu sobre uma actividade económica com algum impacto (Meios, Maçainhas, Porto da Carne, Trinta). Noutras privilegiou-se o património (Valhelhas, Codeceiro, Sobral da Serra), noutras uma personalidade com significado local (Rochoso), noutras os utensílios de produção artesanal (João Antão, Pêra do Moço, Santana d’Azinha, Videmonte e Pêro Soares), ou de tradições diversas (casos da Ramela e Vale de Estrela), noutras a actividade agrícola (Marmeleiro, Rocamondo, Monte Margarida, noutras as obras de arte sacra ou popular (Codeceiro, Mizarela), noutras os objectos ligados ao culto (Panoias, Pega, Ribeira dos Carinhos, Rochoso, Seixo Amarelo, Vela), noutras ainda as tradições culturais (Pousade e Ramela). Os meus destaques vão para o fole, a bigorna e a tesoura de tosquia de João Antão, o conjunto de utensílios de tratamento e fiação manual da lã dos Meios, as vassouras de bracejo de Monte Margarida, os figurinos utilizados no Drama da Paixão, em Pousade, o moinho de pedra de São Miguel, a máquina das hóstias do Seixo, o prato medieval de Nuremburga (Valhelhas), os utensílios para o fabrico do queijo, de Videmonte, as facas do Verdugal e, claro está, os quadros da Maria Barraca.

Publicado no jornal "O Interior", em 16.10.2008

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segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Na morte de Jörg Haider

Vi-o de longe, uma vez, e uma outra, ao lado de Riess-Passer, a mulher que governou a Áustria, por vez dele, quando a União Europeia rechaçou o país. Parecia uma ave das montanhas que contempla o caçador antes de ser abatida, ou seja, de cabeça erguida. Tinha o nariz comprido de quem respira longe as mensagens odoríferas de ódio e amor que circulam no vento da estepe, de onde todos europeus, vimos. Era um populista, com orgulho. Era também um liberal, mesmo quando elogiou a política do trabalho de Hitler (certamente que não se referia ao trabalho escravo que a Imprensa se encarregou de extrapolar) ou quando foi a algumas cerimónias de veteranos da Guerra, que, na Áustria, incluíam ex-SS. Começou a sua carreira graças ao amigo/inimigo do socialista Bruno Kreisky, que era o liberal Ferrari-Brunnenfeld, graças a um Professor de Direito muito reaccionário e graças à fortuna do seu pai, que adquiriu muitos bens por um xelim, a um Judeu expulso. Mas nada disto determinou Haider. A verdadeira Democracia não é o argumento da maioria, mas o espaço para a diferença, a individualidade e a incerteza. Ao contrário de Kurt Waldheim, que escondeu o Passado, Haider só tinha futuro. Sempre “Peter Pan”, sempre criança, muito mais humilde e acessível do que se pensa, mas também macaco, fugidio e tenaz como um duende das montanhas. Os austríacos gostavam dele e, ser populista no país de Schubert, Mozart e Maria Theresa, é estar ao nível de um catedrático. Como há muitos mais heróis do que suspeitamos, Haider foi perseguido por toda a gente sem outro refúgio que uns copos numa cervejaria de Outono. Nem todos os heróis se contam entre os vencedores. Um dos mais belos poemas que li foi encontrado no bolso do peito de um pára-quedista alemão caído em combate, certamente com a “Edelweiss” na lapela, e que tem a cor dos regatos puros da montanha. No poema diz-se: “Dá-me Deus tudo o que resta depois de teres dado as certezas. Dá-me o nevoeiro”.

André

sábado, 18 de outubro de 2008

Zincos

A convite do Galo, creio que mentor do blogue "Zincos", a partir de hoje sou mais um editor deste espaço aberto e promissor. Um ciberzincos herdeiro do outro, o que fez história, a escola da noite de três gerações, a caverna onde as sombras só apareciam à saída, enquanto a luz se ia cozinhando lá dentro, sim, o balastro ignidor, o tapume da inquietação, uma capela em honra da névoa que se quer antes mas não depois, uma capela escavada e não erguida, o lado B da cidade, a fábrica de aranhas, com um eco fantasmagórico de Tom Waits nas entrelinhas, o fumo embutido na BD do "Torpedo", lá atrás, o último copo que nunca era o último, o anúncio da festa, os maus hábitos e as falsas surpresas, esse mesmo, o tal. Ainda. "Olha, por cá? Quem diria?" Aqui.

Paperbacks - 3

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Lido

Pedro Rolo Duarte, "A série Magalhães":

"se não tivesse nascido uma plataforma chamada “blog”, a nossa imprensa, rádio e televisão seriam hoje bem mais pobres, com os nomes e as caras do costume, enquanto um generoso numero de talentos andaria pelos cafés, pelas universidades e lá por fora a tentar rentabilizar o seu conhecimento e sabedoria. A oportunidade que o meio blog constituiu para a nova geração de jornalistas, comentadores, opinion makers, é algo de extraordinário..."

A água benta

As proclamações contra o neo-liberalismo (ninguém sabe ao certo o que isso seja) são um tanto perigosas. Quase tanto como o entusiasmo acrítico com a hegemonia dos fluxos financeiros globalizados pelo mundo inteiro. As convulsões do sistema assinalam o ponto onde ele deve ser melhorado e não posto em causa no seu todo. Transformar os "neoliberais" nos novos sacos de boxe revela uma grande imprudência. Uma vez que a promiscuidade e a condescendência da maior parte das autoridades nacionais e internacionais para com o o mundo financeiro e especulativo não permite indignações de encomenda, nem falsas surpresas. Se a célebre taxa Tobin já tivesse sido implementada, o comportamento dos agentes financeiros teria sido muito mais prudente. Por outro lado, é bom lembrar o case study chinês: um sistema onde coexiste uma economia de mercado atípica, porque sem regras de espécie alguma e oligárquica, com uma ditadura de partido único. A irracionalidade do sistema pode fazer aumentar vertiginosamente o PIB, mas causa desigualdades enormes e legiões de trabalhadores em regime de quase escravidão. Os que sofregamente agora descobriram os "judeus mais a jeito para bode expiatório", isto é, os neoliberais, deveriam pensar em qual o sistema económico que mais riqueza, bem estar e desenvolvimento, apesar de tudo, criou na história da humanidade. Ah, já sei, foram os planos quinquenais estalinistas!

Vanitas


Via "Cibertopicos", um blogue que já aqui apresentei, chegou-me esta pérola. Trata-se de um simples e eficaz sketch, em registo clownesco. Produzido pelo Circo Ripopolo para ser visionado num ecrã de computador. Cada um pode lá ver o que muito bem entender. Por norma, nestes números, divirto-me como uma criança. Aceder aqui.

Nota: quando clicar no link, não maximize nunca o ecrã. Deixe-o ficar no tamanho inicial.

Stalker

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Notícias sem importância

Esta manhã morri. Não passei ao outro instante. O mendigo Jean não aceitou que eu lhe pagasse a Coca-cola, porque um mendigo também tem rendimentos. E vou lembrar-me da sua voz, misto de mel e choro de criança, misto de revolta e de S. João Baptista protestando num Deserto cheio de gente e de automóveis. Afinal a crise não arrastou os frágeis e os desprotegidos. Ficámos os mesmos. Tirou-nos apenas uma batida ao coração, e agrupamo-nos de novo, com a língua de fora, em frente ao Multibanco mais próximo. Tenho pena da Madonna e do Guy Ritchie que se vão divorciar, com queixas como as de toda a gente. São tão pobres como nós e a vida neles não dura mais que ao comum dos mortais. Guy Ritchie teve o gesto nobre de não reivindicar os milhões da mulher, nem esta de clamar os milhões dele. Nós, menos nobres, precisamos do dinheiro para viver. Precisamos de viver dignamente, de não viver da Tirania da Wall Street, de se o Governo corta mais ou menos as taxas, se os preços são mais ou menos controlados. Precisávamos sim de um pouco de verdade, de sinceridade em que cada um “desopilasse” e ao desopilar – coisa maravilhosa – descobriria que tinha aterrado numa praça onde todos os outros desopilavam. Não seríamos mais que os flamingos cor-de-rosa, ou os pardais numa árvore, tímido gorjeio de uma gota de água antes de vir a maré. Sim, tens razão, preto velho: nascer é duro, morrer é ainda mais duro. Serás capaz de amar entretanto?

André

Nota: o autor inicia aqui a sua preciosa colaboração neste blogue.

Paperbacks - 2

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Já falta pouco!

O Centro Comercial VIVACI, o maior investimento privado na Guarda das últimas décadas, sempre irá abrir no próximo dia 5 de Novembro, segundo notícia difundida pela Rádio Altitude. Para este novo (e polémico) espaço comercial, contribuiu um investimento na ordem dos 33 milhões de euros. Irá albergar 90 lojas, entre as quais uma livraria, 12 restaurantes, um supermercado e várias salas de cinema.

A feira

O caso vem relatado no "Grémio da Estrela". O inenarrável Carlos Pinto, presidente da autarquia covilhanense, conhecido por querer transformar a Serra num queijo...suíço, pretende arrasar uma mata com 3 000 sobreiros, na zona do Tortosendo. As árvores estão implantadas em terreno integrado na Reserva Ecológica Nacional e na Reserva Agrícola Nacional. E para quê, perguntarão? Pois bem, para construir um recinto para uma feira que se realiza uma vez por ano! Ler aqui a denúncia. A situação mereceu um comentário do edil nos seguintes termos: “de vez em quando vêem umas pessoas de fora, não se sabe de onde, com posições reaccionárias que é o que caracteriza essa associação” ou “a Quercus é um negócio e por isso tem pouca credibilidade na CMC”. (RCB). E porque não corrê-los à pedrada, como aconselhou o colega Ruas, de Viseu? Aliás, estão bem um para o outro. Numa eleição para o autarca flinstone modelo, não sei quem ganharia! Por falar nisso, então não é que Sarmento, presidente da câmara de Trancoso, se perfila para ser candidato à autarquia guardense? Socorro!!! Antes Ana Manso, mil vezes! Com caciques deste calibre, só há uma coisa a fazer: denunciá-los, sistemática e impiedosamente.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Paperbacks - 1

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Doclisboa 2008

cartaz
"Law and Order", de Frederick Wiseman

Entre 16 e 26 de Outubro, vai decorrer mais um DOCLISBOA - VI Festival Internacional de Cinema Documental. As apresentações serão repartidas, como é hábito, pela Culturgest e cinemas Londres e S. Jorge, a que se junta, este ano, a Fundação Oriente. Segundo a organização, os objectivos do certame são: "Mostrar ao público português filmes importantes e multi-premiados internacionalmente que ainda não chegaram às salas de Lisboa; Permitir uma reflexão mais aprofundada sobre temas contemporâneos e de actualidade; Dar a conhecer de forma mais sistemática a cinematografia de outros países; Organizar debates que mobilizem o público em torno de filmes importantes e de temas transversais, presentes em várias obras." Para além da secção "Competição Internacional", destaque para: as exibições especiais de abertura e encerramento, com os aguardados, "Z 32", de Avi Mograbi (2008) e "Maradona by Kusturica", (2008), respectivamente; uma retrospectiva da obra de Frederick Wiseman, um cineasta de culto, focado em temas políticos e sociais; "Riscos e ensaios", secção não competitiva que privilegia obras experimentais, "na margem", comissariada por A.M. Seabra; "Made in China", uma retrospectiva centrada nos últimos 15 anos de uma enorme produção de cinema documental naquele país, onde se afirmaram realizadores como Zhang Yuang, Jia Zhang-ke e Huang Wenhai. Um olhar fundamental sobre a China contemporânea.
Mais informações na página oficial do evento, onde poderá ser descarregada a programação em formato pdf.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Lido

Não podia estar mais de acordo com o Manuel, acerca de Herberto Helder:
"(...)sempre me agradou mais a sua prosa: considero
Passos em Volta um livro fundamental na minha vida – e sei o risco que corro ao utilizar o adjectivo. No entanto, não posso ficar indiferente a todo o aparato criado em redor de mais um livro seu. Na verdade não se trata de um novo livro: é uma súmula com alguns inéditos. Quem tiver Poesia Toda e Ou o Poema Contínuo tem os poemas de Herberto Helder quase na sua totalidade (e repetidos!). Mas a ideia que se passa ao leitor desprevenido – caso existam leitores desprevenidos de Herberto Helder – é que está na presença de um novo livro do poeta, quando na realidade isso não acontece."
Ler aqui o texto completo. E, já agora, uma excelente reflexão sobre o tema, de João Camilo.

U qui diz mulelo (3)

Tomei conhecimento, por terceiros, de que um obscuro blogue da Guarda, certamente com problemas de audiências, me "dedicou" um autógrafo e uma caricatura. Ups! E logo sem avisar! O autor teria sido um "fotógrafo" recentemente premiado, que não gosta de ver a sua "arte" criticada e de que já esqueci o nome. Demonstrado ficou agora que é também adepto do engraçadismo e da pulhice. Com o beneplácito dos seus comparsas "egitanos". Para a posteridade, a lembrança da sua credibilidade nula, enquanto cidadão e enquanto blogger.