Reflexões, notas, impressões, apontamentos, comentários, indicações, desabafos, interrogações, controvérsias, flatulências, curiosidades, citações, viagens, memórias, notícias, perdições, esboços, experimentações, pesquisas, excitações, silêncios.

sábado, 18 de outubro de 2008

Zincos

A convite do Galo, creio que mentor do blogue "Zincos", a partir de hoje sou mais um editor deste espaço aberto e promissor. Um ciberzincos herdeiro do outro, o que fez história, a escola da noite de três gerações, a caverna onde as sombras só apareciam à saída, enquanto a luz se ia cozinhando lá dentro, sim, o balastro ignidor, o tapume da inquietação, uma capela em honra da névoa que se quer antes mas não depois, uma capela escavada e não erguida, o lado B da cidade, a fábrica de aranhas, com um eco fantasmagórico de Tom Waits nas entrelinhas, o fumo embutido na BD do "Torpedo", lá atrás, o último copo que nunca era o último, o anúncio da festa, os maus hábitos e as falsas surpresas, esse mesmo, o tal. Ainda. "Olha, por cá? Quem diria?" Aqui.

Paperbacks - 3

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Lido

Pedro Rolo Duarte, "A série Magalhães":

"se não tivesse nascido uma plataforma chamada “blog”, a nossa imprensa, rádio e televisão seriam hoje bem mais pobres, com os nomes e as caras do costume, enquanto um generoso numero de talentos andaria pelos cafés, pelas universidades e lá por fora a tentar rentabilizar o seu conhecimento e sabedoria. A oportunidade que o meio blog constituiu para a nova geração de jornalistas, comentadores, opinion makers, é algo de extraordinário..."

A água benta

As proclamações contra o neo-liberalismo (ninguém sabe ao certo o que isso seja) são um tanto perigosas. Quase tanto como o entusiasmo acrítico com a hegemonia dos fluxos financeiros globalizados pelo mundo inteiro. As convulsões do sistema assinalam o ponto onde ele deve ser melhorado e não posto em causa no seu todo. Transformar os "neoliberais" nos novos sacos de boxe revela uma grande imprudência. Uma vez que a promiscuidade e a condescendência da maior parte das autoridades nacionais e internacionais para com o o mundo financeiro e especulativo não permite indignações de encomenda, nem falsas surpresas. Se a célebre taxa Tobin já tivesse sido implementada, o comportamento dos agentes financeiros teria sido muito mais prudente. Por outro lado, é bom lembrar o case study chinês: um sistema onde coexiste uma economia de mercado atípica, porque sem regras de espécie alguma e oligárquica, com uma ditadura de partido único. A irracionalidade do sistema pode fazer aumentar vertiginosamente o PIB, mas causa desigualdades enormes e legiões de trabalhadores em regime de quase escravidão. Os que sofregamente agora descobriram os "judeus mais a jeito para bode expiatório", isto é, os neoliberais, deveriam pensar em qual o sistema económico que mais riqueza, bem estar e desenvolvimento, apesar de tudo, criou na história da humanidade. Ah, já sei, foram os planos quinquenais estalinistas!

Vanitas


Via "Cibertopicos", um blogue que já aqui apresentei, chegou-me esta pérola. Trata-se de um simples e eficaz sketch, em registo clownesco. Produzido pelo Circo Ripopolo para ser visionado num ecrã de computador. Cada um pode lá ver o que muito bem entender. Por norma, nestes números, divirto-me como uma criança. Aceder aqui.

Nota: quando clicar no link, não maximize nunca o ecrã. Deixe-o ficar no tamanho inicial.

Stalker

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Notícias sem importância

Esta manhã morri. Não passei ao outro instante. O mendigo Jean não aceitou que eu lhe pagasse a Coca-cola, porque um mendigo também tem rendimentos. E vou lembrar-me da sua voz, misto de mel e choro de criança, misto de revolta e de S. João Baptista protestando num Deserto cheio de gente e de automóveis. Afinal a crise não arrastou os frágeis e os desprotegidos. Ficámos os mesmos. Tirou-nos apenas uma batida ao coração, e agrupamo-nos de novo, com a língua de fora, em frente ao Multibanco mais próximo. Tenho pena da Madonna e do Guy Ritchie que se vão divorciar, com queixas como as de toda a gente. São tão pobres como nós e a vida neles não dura mais que ao comum dos mortais. Guy Ritchie teve o gesto nobre de não reivindicar os milhões da mulher, nem esta de clamar os milhões dele. Nós, menos nobres, precisamos do dinheiro para viver. Precisamos de viver dignamente, de não viver da Tirania da Wall Street, de se o Governo corta mais ou menos as taxas, se os preços são mais ou menos controlados. Precisávamos sim de um pouco de verdade, de sinceridade em que cada um “desopilasse” e ao desopilar – coisa maravilhosa – descobriria que tinha aterrado numa praça onde todos os outros desopilavam. Não seríamos mais que os flamingos cor-de-rosa, ou os pardais numa árvore, tímido gorjeio de uma gota de água antes de vir a maré. Sim, tens razão, preto velho: nascer é duro, morrer é ainda mais duro. Serás capaz de amar entretanto?

André

Nota: o autor inicia aqui a sua preciosa colaboração neste blogue.

Paperbacks - 2

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Já falta pouco!

O Centro Comercial VIVACI, o maior investimento privado na Guarda das últimas décadas, sempre irá abrir no próximo dia 5 de Novembro, segundo notícia difundida pela Rádio Altitude. Para este novo (e polémico) espaço comercial, contribuiu um investimento na ordem dos 33 milhões de euros. Irá albergar 90 lojas, entre as quais uma livraria, 12 restaurantes, um supermercado e várias salas de cinema.

A feira

O caso vem relatado no "Grémio da Estrela". O inenarrável Carlos Pinto, presidente da autarquia covilhanense, conhecido por querer transformar a Serra num queijo...suíço, pretende arrasar uma mata com 3 000 sobreiros, na zona do Tortosendo. As árvores estão implantadas em terreno integrado na Reserva Ecológica Nacional e na Reserva Agrícola Nacional. E para quê, perguntarão? Pois bem, para construir um recinto para uma feira que se realiza uma vez por ano! Ler aqui a denúncia. A situação mereceu um comentário do edil nos seguintes termos: “de vez em quando vêem umas pessoas de fora, não se sabe de onde, com posições reaccionárias que é o que caracteriza essa associação” ou “a Quercus é um negócio e por isso tem pouca credibilidade na CMC”. (RCB). E porque não corrê-los à pedrada, como aconselhou o colega Ruas, de Viseu? Aliás, estão bem um para o outro. Numa eleição para o autarca flinstone modelo, não sei quem ganharia! Por falar nisso, então não é que Sarmento, presidente da câmara de Trancoso, se perfila para ser candidato à autarquia guardense? Socorro!!! Antes Ana Manso, mil vezes! Com caciques deste calibre, só há uma coisa a fazer: denunciá-los, sistemática e impiedosamente.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Paperbacks - 1

(clicar para aumentar)

Doclisboa 2008

cartaz
"Law and Order", de Frederick Wiseman

Entre 16 e 26 de Outubro, vai decorrer mais um DOCLISBOA - VI Festival Internacional de Cinema Documental. As apresentações serão repartidas, como é hábito, pela Culturgest e cinemas Londres e S. Jorge, a que se junta, este ano, a Fundação Oriente. Segundo a organização, os objectivos do certame são: "Mostrar ao público português filmes importantes e multi-premiados internacionalmente que ainda não chegaram às salas de Lisboa; Permitir uma reflexão mais aprofundada sobre temas contemporâneos e de actualidade; Dar a conhecer de forma mais sistemática a cinematografia de outros países; Organizar debates que mobilizem o público em torno de filmes importantes e de temas transversais, presentes em várias obras." Para além da secção "Competição Internacional", destaque para: as exibições especiais de abertura e encerramento, com os aguardados, "Z 32", de Avi Mograbi (2008) e "Maradona by Kusturica", (2008), respectivamente; uma retrospectiva da obra de Frederick Wiseman, um cineasta de culto, focado em temas políticos e sociais; "Riscos e ensaios", secção não competitiva que privilegia obras experimentais, "na margem", comissariada por A.M. Seabra; "Made in China", uma retrospectiva centrada nos últimos 15 anos de uma enorme produção de cinema documental naquele país, onde se afirmaram realizadores como Zhang Yuang, Jia Zhang-ke e Huang Wenhai. Um olhar fundamental sobre a China contemporânea.
Mais informações na página oficial do evento, onde poderá ser descarregada a programação em formato pdf.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Lido

Não podia estar mais de acordo com o Manuel, acerca de Herberto Helder:
"(...)sempre me agradou mais a sua prosa: considero
Passos em Volta um livro fundamental na minha vida – e sei o risco que corro ao utilizar o adjectivo. No entanto, não posso ficar indiferente a todo o aparato criado em redor de mais um livro seu. Na verdade não se trata de um novo livro: é uma súmula com alguns inéditos. Quem tiver Poesia Toda e Ou o Poema Contínuo tem os poemas de Herberto Helder quase na sua totalidade (e repetidos!). Mas a ideia que se passa ao leitor desprevenido – caso existam leitores desprevenidos de Herberto Helder – é que está na presença de um novo livro do poeta, quando na realidade isso não acontece."
Ler aqui o texto completo. E, já agora, uma excelente reflexão sobre o tema, de João Camilo.

U qui diz mulelo (3)

Tomei conhecimento, por terceiros, de que um obscuro blogue da Guarda, certamente com problemas de audiências, me "dedicou" um autógrafo e uma caricatura. Ups! E logo sem avisar! O autor teria sido um "fotógrafo" recentemente premiado, que não gosta de ver a sua "arte" criticada e de que já esqueci o nome. Demonstrado ficou agora que é também adepto do engraçadismo e da pulhice. Com o beneplácito dos seus comparsas "egitanos". Para a posteridade, a lembrança da sua credibilidade nula, enquanto cidadão e enquanto blogger.

Tábua de marés (2)

Nunca me Deixes
Kazuo Ishiguro
, Gradiva, 2005
Para além da aparente linearidade, ou do não menos aparente realismo deste escritor britânico de ascendência japonesa, esconde-se um romancista experimental. Não porque entendamos a sua obra como a do típico autor experimentalista, no sentido comum da palavra, mas porque ensaia novos modelos de narração para um dos seus temas fundamentais: a dor. Já em “Os Despojos do Dia” (1989) – obra que originou um filme homónimo de 1993 realizado por James Ivory – o autor colocou no centro da acção um dos cenários mais tipicamente ingleses: o romance de estratos sociais. Em “Os Inconsoláveis” (1995), propunha outra variante: o romance centro-europeu. E em “Quando éramos Órfãos” (2000) Ishiguro reuniu num só volume Poirot, Sherlock Holmes, Greene e Dickens. O resultado foi sempre o mesmo: romances de uma insuperável densidade emotiva, acompanhada de uma invejável sensação de métier, arte e inspiração, no momento da construção de um artefacto de ficção. A fórmula empregue nesta obra é a de um romance de antecipação. E se a tristeza que nos transmite o autor adquire esse contagioso lastro das experiências humanas absolutas, tal se deve a uma áurea de fantasia, de irrealidade, com que envolve os temas mais crus e incómodos. O timbre da ficção mais radical, compaginada com um tema humano de identificação imediata, é uma questão cuja resolução não é fácil. “Nunca me Deixes” emprega seres de carne e osso. Vemo-los muito próximos de nós, apesar da natureza infra-humana, irrealizável, com que estão construídos. A brevidade da existência destes personagens, a fragilidade das suas esperanças, as mentiras piedosas onde se sustentam, tornam as suas vidas ainda mais enfermas, se as compararmos com o esforço que têm que fazer para evitar saber o destino que os espera. Todo o romance decorre sobre uma miragem: há um internato, há pupilos que dão a aparência de aplicados alunos de um colégio convencional, há adolescentes que se enamoram, há instrutores. Mas cedo se tem a sensação que o próprio autor um dia assinalou com uma precisão cirúrgica: “O que mais me interessa no ser humano é a coragem daquele que se atreve a abrir a caixa secreta que todos guardamos no nosso interior, mesmo que saiba que pode aparecer algo deveras inquietante”.

Publicado no jornal "O Interior", em 9.10.2008

Tábua de marés (1)

"Ópera"
Concepção e interpretação: Tiago Guedes e Maria Duarte 
Música: “Dido and Aeneas”, de Henry Purcell, com libreto de Nahum Tate 
Pequeno Auditório do T.M.G., 4 de Outubro de 2008, 21H30

Trata-se da primeira apresentação no âmbito do festival Y #6, uma co-produção Quarta Parede/TMG. Esta proposta caracteriza-se essencialmente pelo seu ecletismo. No texto de apresentação fala-se mesmo em “espectáculo total”, embora o termo se refira com mais acerto à combinação equilibrada de linguagens – teatro, música operática e dança – do que a uma intensidade especial de uma delas. Mais o efectivo diálogo e conjugação entre diferentes noções de representação num mesmo espaço do que a uma arrumação pré-definida. O espectáculo é a adaptação coreográfica de "Dido e Eneias", de Henry Purcell, uma ópera barroca em três actos, a partir de uma ideia original de Tiago Guedes. Estreou em 24 de Julho de 2007, no espaço Negócio/ZDB, em Lisboa. A história do libreto conta-se em poucas palavras: retirada da Eneida, de Virgílio, relata os amores entre Dido, rainha de Cartago e o troiano Eneias, após este ter naufragado junto aquela cidade. No entanto, Eneias teve de partir, afim de fundar Roma, para grande desgosto de Dido, que se limitou a aguardar a morte. A música é pois um elemento omnipresente. A releitura das convenções barrocas não apagou algumas das suas marcas: os actores olham quase sempre para um plano superior, onde se situaria a corte. Nesses momentos, o seu rosto funciona como uma câmara fotográfica e um espelho: regista a luz e devolve-a, transfigurada. Umas vezes ausente, outras ganhando uma expressividade quase infantil. O acompanhamento mimético do canto é propositadamente exagerado, realçando a artificialidade da situação. No texto de apresentação, fala-se precisamente de “sucessão e sobreposição de artifícios”. Efectivamente assim é. Mas também não podia ser de outra maneira, uma vez que a estética de base – o barroco – se caracteriza precisamente pelo artifício. Basta pensarmos na solução híbrida, mas reconhecível, encontrada para os figurinos. Por outro lado, os actores raramente trocam os olhares entre si, mas quando o fazem é como se houvesse um curto-circuito momentâneo, após o que o interlocutor passa a ser o vazio. Daí ter-me ocorrido, por várias vezes, o desconcerto de algumas coreografias de Pina Bausch, a sua dilaceração irresolúvel. Creio que o ponto alto deste espectáculo é precisamente a sua ambição, bem sucedida, da superação das várias convenções associadas ás várias linguagens que reúne. Um só pormenor de encenação me desagradou: a presença excessiva da vendedora, supostamente sinalizando um intervalo, mas cortando o ritmo do espectáculo. Para o efeito pretendido, bastaria uma passagem pelo fundo do palco, com iluminação adequada.

9.10.2008

Nota: dá-se aqui início à edição de textos publicados na coluna "Tábua de Marés", de que sou autor, semanalmente no jornal "O Interior".

O mobbing dos remediados - 3

Como já tive ocasião de aqui informar detalhadamente, anda nas redondezas um doente mental, cuja prova de vida passa pelo envio compulsivo de comentários para este e outros blogues amigos. Todos eles são invariavelmente insultuosos e ressabiados. O seu destino, como devem calcular, é o caixote do lixo, lidas as três primeiras palavras. Por sinal, logo com um ou dois erros de ortografia. Sempre tive a esperança de que este bravo se identificasse. Ao menos, podia indicar-lhe um bom psiquiatra. Todavia, uma coisa é certa: já identifiquei o seu IP. É o 217 129 60, da zona de Setúbal. Era o que me faltava para rematar definitivamente esta questão. Com a qual nem mais um segundo vou desperdiçar, nem obrigar os leitores a fazê-lo.

domingo, 12 de outubro de 2008

Stalker

A luta continua

Há notícias que sabe bem dar a conhecer. Eis uma delas. Sobre este blogue. Precisamente. 32 meses depois do seu nascimento, o "Boca de Incêndio" continua a crescer. É o que dizem os números: cerca de 60 000 visitas no total, numa média diária de 114; 119 500 páginas visitadas; 80 backlinks noutros blogues e páginas web. Não é muito, mas para um blogue deste tipo, já é alguma coisa. Para além dos números, há muitas razões para partilhar com os leitores o meu contentamento. Agora e no futuro. A luta continua. Ora bem.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Vamos lá conferenciar


Duvido que isto interesse a alguém, mas manhã estarei por aqui.

A promessa

Promete-me que as tuas palavras chegarão em silêncio
Que serão da matéria da noite
Promete-me palavras de ar, de saliva ou de sangue
Inteiras e nuas como a alma
Derramadas na pele como luz ou música
Palavras que possa guardar em mim
Como uma memória ou um filho

A.M. em "A Imitação dos Dias"

Playlist da casa (14)

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Ainda a massa ou a falta dela

Neste autêntico manifesto, Américo Rodrigues aponta um dos grandes males da Guarda: a ausência de massa crítica. Evidentemente, com outros nomes se poderia qualificar a mesma realidade: défice de cosmopolitismo, falta de visão projectiva, falta de ambição intelectual (sim, é preciso não ter medo dos nomes), paroquialismo, excesso de auto-complacência, provincianismo, ausência de debate de ideias e projectos, receio daqueles que sabem e sonham serem ignorados por aqueles que nem uma coisa nem outra, mas aparecem demasiado. Não é só uma questão de know how. Nem educacional. Nem social. É a cultura, meus amigos, sempre a cultura. Ela tem aqui um peso esmagador, sente-se o quanto ela pode ou não tornar-nos mais humanos, mais livres. Mas de pouco vale, se escassearem determinadas qualidades humanas que a façam brilhar, que lhe dêem uma razão de ser: a coragem, a elegância, a leveza, a velocidade, a exigência, o acesso a uma vitalidade que não cede perante a repressão. As cidades fortes são aquelas que acreditam em si próprias. Não de uma forma provinciana, ou apropriando-se de um passado e de símbolos que não são os seus, como já vi aqui bem perto. Depois há a questão das elites. Um termo que assusta muita gente, mas sem qualquer razão. Veja-se a História. A existência de uma élite sempre foi determinante para a sobrevivência e o desenvolvimento de comunidades, países, civilizações. A diferença entre uma oligarquia e uma élite é que a primeira exerce o poder em benefício próprio. As segundas encaram o poder como uma realidade inconspícua e pretendem criar valor de que todos possam usufruir. Embora não seja um fenómeno local, vejo algumas pessoas na Guarda manifestarem-se publicamente contra as elites. Como se pressentissem na sua existência uma ameaça, uma afronta, um rebaixamento. Sem nunca perceberem que é graças precisamente à acção cívica dessas elites que um dia todos poderão distinguir, premiar, incentivar os melhores, só porque são os melhores. Sem azedume, sem mais ou menos, porque todos lucrarão com isso. Nas sociedades onde a meritocracia está enraizada enquanto valor inquestionável, não há elites auto-proclamadas, mas reconhecidas enquanto tal pela comunidade. Pelo contrário, onde existe com abundância a falta de humildade e uma erudição de lapela, é quase certo que aí a tirania há-de prosperar.

A viagem

O corpo discente

Recebi hoje um email promocional que assim rezava:

O primeiro site pornográfico legal em Portugal com enorme volume de vídeo pornográfico e com raparigas patrióticas. Alunas portuguesas únicas no género. Diferentes tipos de pornografia. http://sexygirlschool.com *
Uma panóplia de interrogações e comentários, uns pertinentes, outros mais brejeiros, se poderiam já avançar. Vou-me ficar pela extraordinária visão de raparigas patrióticas, expondo as cristianíssimas carnes, usando uma tatuagem com as cores nacionais e trauteando o hino nacional a espaços. São alunas portuguesas, com certeza. E únicas. Já agora, por falar em temas escolares, imaginei logo a seguinte situação: duas "alunas" disputam um telemóvel numa sala de aula. Às tantas, a luta pelo bem escasso adquire contornos, digamos, mais envolventes. E o telemóvel ganha uma inesperada função, a juntar às 2771 que já possuía de origem. Para acalmar os ânimos, junta-se uma professora, fazendo valer os seus predicados patrióticos. Lá mais para a frente, entra em cena um contínuo, que não se faz rogado e tenta desempenhar, com a equidade possível, uma espécie de saudável função moderadora. Por sinal, o poder com o mesmo nome desapareceu, com o advento da República, na Constituição de 1911. Segundo muitos, um texto mesmo nada patriótico. Pois.

*calma, rapaziada, o link é fictício.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Ambrosivs


Onde pára o Ambrósio da publicidade aos bombons Ferrero Rocher??? Lembram-se? Eis uma questão que me tem atormentado ultimamente. Alguém sabe alguma coisa do paradeiro deste mestre da dissimulação? Se souberem, façam favor de avisar. No meio dos circunlóquios a que esta magna interrogação me obriga, várias hipóteses se materializaram entretanto no meu espírito:
1º foi finalmente viver com a patroa (nunca este termo se aplicou com tanta propriedade);
2º foi comprar tabaco, sendo depois visto a rondar uma escola secundária com uma caixa de bombons;
3º dedicou-se à pesca e usa meias brancas;
4º casou com a criada e corta as unhas à janela, enquanto olha para o decote da vizinha de baixo;
5º tornou-se assessor artístico da patroa e é frequentador de leilões;
6º explora um salão de jogos e tem umas "gaijas" a render.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Magalhães contado às criancinhas e lembrado ao povo

(via "Atlântico")

O golpe do baú


A cadeia identificada com o logotipo da imagem decidiu suprimir o desconto de 10% sobre o preço de capa dos livros que comercializa. A partir de agora, tal privilégio só é concedido aos detentores do cartão FNAC. A empresa justifica a medida, dizendo que a concorrência já adoptou esta oferta promocional, ainda que temporariamente, perdendo-se assim a vantagem competitiva do "benefício". O que está em causa, efectivamente, é uma decisão que, do ponto de vista da gestão comercial, era mais do que previsível: 1º arrasar o mercado, 2º depois de instalada e com uma quota confortável, acabar com as "prendas" e adoptar tiques de posição dominante. Agora, só os "do clube" terão acesso a esta e outras promoções que, não tarda, vão aparecer. Para fidelizar clientelas, consolidar parcerias com a instituição de crédito que gere o cartão e, eventualmente com agentes produtores de espectáculos e outras livrarias aderentes. Pela minha parte, já há algum tempo que o entusiasmo com a FNAC arrefeceu. Falando só dos livros, reparei que a reposição de stocks deixa muito a desejar, a diversidade de títulos é cada vez menor, a aposta nos blockbusters esmaga tudo o resto. Basta dizer que, há uns meses atrás, dirigi-me à loja do Chiado, afim de adquirir várias obras de Tchekov. Qual não é o meu espanto quando o funcionário me respondeu não haver nada de momento do genial dramaturgo russo. Só o adjectivo é meu, infelizmente. Mas a gravidade do caso é por demais evidente. De modo que prefiro ir à Byblos ou à Bulhosa. A primeira pode ser um bocado pirosa. Mas sei que há uma fortíssima probabilidade de lá encontrar o que procuro. Todavia, esta medida pode provocar ainda um efeito dominó no PVP dos livros. É sabido que o desconto antes praticado pela FNAC se deve às condições "impostas" pela sua posição negocial às editoras. Tal como acontece como as cadeias distribuidoras nas grandes superfícies. A maior parte das livrarias não se podia dar a esse luxo, pois as suas margens de comercialização não o permitiam. A não ser em promoções especiais de lançamento e em feiras. Porém, se o cliente insistisse, lá aparecia o descontozinho comercial. O que vai acontecer agora é de escola: aproveitando-se da confusão, as editoras vão ser tentadas a subir os preços de capa, de modo a reflectir-se no preço final. Portanto, vão todos ganhar, menos o consumidor.

A diferença


«O olhar cosmopolita de [Eduardo] Lourenço fez, desde o princípio, toda a diferença. Não se trata do cosmopolitismo “de aeroporto” hoje tão em voga, mas de uma perspectiva sobre o mundo que combina uma fina atenção à actualidade com uma sólida informação histórica, que já lia o local a partir do global muito antes de se generalizar a globalização. E que, recusando todos os reducionismos, permanentemente valoriza a diversidade, as contradições do mundo e a contingência dos acontecimentos. Foi este olhar cosmopolita que libertou Lourenço do “comentarismo ruminante” que ele tão lucidamente diagnosticou no Portugal de meados do século passado, e que, infelizmente, persiste ainda nalgumas dimensões da vida portuguesa, talvez hoje mais provinciana do que nunca, no seu serôdio deslumbramento de tantas e tão ilusórias “modernidades”!...»

Manuel Maria Carrilho, no "Contingências"

domingo, 5 de outubro de 2008

Palin strikes again

As eleições americanas deixaram de me interessar a partir do momento em que Hillary ficou de fora na corrida. O que significa que nenhum dos dois candidatos me entusiasma particularmente. Mc Cain, do mal o menos, mas o estilo não satisfaz. Obama porque desconfio de tele evangelistas e porque o Daniel Oliveira gosta dele. Todavia, não deixarei nunca de estar atento àquilo que se debate e de que forma. O cenário estava assim montado, até que apareceu Sarah Palin. O desassombro com que esta mulher desempenha as suas funções de mestre-escola anti-aborto, contra os "homenssexuais e coijas axim", saída da América profunda, dos valores restauracionistas, é matéria de um filme de David Lynch. Por outro lado, o seu estilo faz lembrar aquelas donas de casa da publicidade dos anos 50, sempre perto de um frigorífico ou de uma televisão, e com um rancho de criancinhas rechonchudas à volta. Mais cedo ou mais tarde vai-se despedir do marido à porta, também sorridente. Que traz consigo uma pasta, entra no carro, e ala que sa faz tarde, rumo à downtown. O conservadorismo de Palin tem uma matriz novecentista, puritana. O meu, paradoxalmente, tem uma génese anarquista. Mas deixemo-nos de efabulações. Palin acaba de se estender ao comprido. Ao acusar Obama de "manter relações amistosas com terroristas", durante uma acção de campanha no Colorado. Estas declarações têm invariavelmente um efeito de ricochete. Os republicanos deveriam antes tentar demonstrar que Obama não tem soluções políticas credíveis para lidar com o terrorismo. Este tipo de soundbites é que não ajuda nada. A campanha está ao rubro.

Saída de emergência

sábado, 4 de outubro de 2008

Alojamento de artistas

A Pensão Ulisses é a última e afortunada descoberta deste blogue. É grátis para quem não tem medo de atirar fora as certezas. Os alojamentos são do melhor. O bom gosto e a sobriedade predominam. Os muitos temas em circulação são quase sempre perigosos, polémicos, controversos, mas sempre apresentados com elegância, retocados com uma pincelada crítica, luminosa e doce.
Todos os quartos têm uma ampla vista para o mar, comme il faut, e estão de costas viradas para os horizontes remotos do socialite literato, a pequenez das cidades pequenas, dos espíritos pequenos, de muitas revistas culturais. Para lá chegar, basta bater aqui ao lado, nos favoritos. Entre e deixe-se ficar, só ou acompanhado. Boa estadia.

Sarebbe bello vivere una favola - 3


Ver anterior

O mobbing dos remediados - 2

Ainda a propósito do episódio que aqui relatei, o qual originou um fenómeno localizado de "troll", fui buscar as palavras sumamente apropriadas de Pacheco Pereira, num texto de 2006, que aqui poderá ser lido na íntegra. E sobre o tema em concreto, I rest my case, remetendo para o disclaimer ao lado, na caixa informação/contacto.

"No caso português, os comentadores não parecem ser muitos, embora a profusão de pseudónimos e nick names, dê uma imagem de multiplicidade. São, na sua esmagadora maioria, anónimos, mas o sistema de nick names permite o reconhecimento mútuo de blogue para blogue. Estão a meio caminho entre um nome que não desejam revelar e uma identidade pela qual desejam ser identificados. Querem e não querem ser reconhecidos. (...)
Imaginam-se como uma espécie de proletariado da Rede, garantes da total liberdade de expressão, igualitários absolutos, que consideram que as suas opiniões representam o “povo”, os “que não tem voz” os deserdados da opinião, oprimidos pelos conhecidos, pelos célebres, pelos “sempre os mesmos”. São eles que dizem as “verdades”. Mas não há só o reflexo do populismo e da sua visão invejosa e mesquinha da sociedade e do poder, há também uma procura de atenção, uma pulsão psicológica para existir que se revela na parasitação dos blogues alheios. Muitos destes comentadores têm blogues próprios completamente desconhecidos, que tentam publicitar, e encontram nas caixas de comentários dos blogues mais conhecidos uma plataforma que lhes dá uma audiência que não conseguem ter.
Não são bem “Trolls”, sabotadores intencionais, mas tem muitas das suas formas perturbadoras de comportamento. A sua chegada significa quase sempre uma profusão de comentários insultuosos e ofensivos que afastam da discussão todos os que ingenuamente pensam que a podem ter numa caixa de comentários aberta e sem moderação. Quando há um embrião de discussão, rapidamente morto pela chegada dos comentadores compulsivos, ela é quase sempre rudimentar, a preto e branco, fortemente personalizada e moralista: de um lado, os bons, os honestos, os dignos, do outra a ralé moral, os ladrões, os preguiçosos que vivem do trabalho alheio, e dos impostos dos comentadores compulsivos presume-se. O que lá se passa é o Far West da Rede: insultos, ataques pessoais, insinuações, injúrias, boatos, citações falsas e truncadas, denúncias, tudo constitui um caldo cultural que, em si , não é novo, porque assenta na tradição nacional de maledicência, tinha e tem assento nas mesas de café, mas a que a Rede dá a impunidade do anonimato e uma dimensão e amplificação universal.
O que é que gera esta gente, em que mundo perverso, ácido, infeliz, ressentido, vivem? O mesmo que alimenta a enorme inveja social em que assentam as nossas sociedades desiguais (por todo o lado existe este tipo de comentadores), agravada pela escassez particular da nossa. Essa escassez não é principalmente material, embora também seja o resultado de muitas expectativas frustradas de vida, mas é acima de tudo simbólica. Numa sociedade que produz uma pulsão para a mediatização de tudo, para a espectacularização da identidade, para os “quinze minutos de fama” e depois deixa no anonimato e na sombra os proletários da fama e da influência, os génios incompreendidos, os justiceiros anónimos, o “povo” das caixas de comentários, não é de admirar que se esteja em plena luta de classes."

Stalker

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

A ponte

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
– Mas qual é a pedra que sustém a ponte? – pergunta Kublai Kan.
– A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra – responde Marco – mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta:
– Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde:
– Sem pedras não há arco.


Italo Calvino, "As Cidades Invisíveis"

O mobbing dos remediados

Tenho dado conta, pelos comentários que tem deixado nestas páginas, da presença assídua de um aficionado da prática do blog hopping. O termo refere-se precisamente à navegação compulsiva de uns blogues para outros, com o único propósito de ler e/ou deixar comentários. Neste caso, o/a autor/a utiliza uma linguagem do tipo demencial, apresentando notórias deficiências ao nível da sintaxe e da ortografia. Além disso, assina sempre com nomes diferentes. Porém, o tipo de linguagem denuncia uma origem unipessoal e esquizóide. Trata-se de uma espécie de mobbing muito comum nas caixas de comentários. Promovido por pessoas a necessitarem urgentemente de cuidados ao nível da saúde mental. Ou então, podiam usar um dístico na testa, como o que uma vez observei numa t shirt: "estivemos um bocado mal, mas agora já estamos todos curados, obrigado." Seja como for, neste blogue ficarão à porta.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Sem mãos

É mais fácil escrever sem as mãos. Escrever sem as mãos acontece-me quando sei que sou mais, porque sinto que posso ser. A carne frágil das minhas mãos alucinadas, cheia de febre, é só uma morte espantosa. Aquilo que sobra do tempo que admira o texto mais calado. Olho as fotografias dos meus antepassados e nelas vejo apenas o silêncio que foi retratado. Uma luz que surpreende os meus olhos, como se esta decorresse sempre do princípio da noite. Não há um único texto nestes retratos. Agora o meu corpo aparece feito de estilhaços de pétalas e bátegas de vidro. Um fuso que desenrola a melancolia. Talvez não importe mais nada a não ser isto. Uma noite longa. Que me venha visitar de vez em quando, com as suas mãos de tecedeira. Que me recolha dentro do berço futuro do meu passado. Que me faça desaparecer das minhas mãos para as suas.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Kit para o Jarmelo


Imagem do Kit, gentilmente enviada pela J.F. do Jarmelo. Uma boa ideia, cuja autoria é fácil desvendar. Ler aqui, bem a propósito, a moção apresentada na A.M. da Guarda.

O Poder e a Glória

A cultura oficial tem pouco ou nada a ver com a verdadeira actividade do espírito. Aquela que não busca o aplauso imediato, nem a entronização senatorial, nem a troca de favores, nem os ofícios de comissários da cultura, ocupados em promover abencerragens de museu e satisfazer quem lhes paga. A amplitude e a generosidade da autêntica criação artística não se compadecem com expedientes veniais. O que não significa que prescindam deles. Bem pelo contrário. Existe uma confluência formal que serve uns e outros. Rodas que se tocam na mesma engrenagem, que empurram um labor comum, mas que não se relacionam para além da necessidade imediata. A verdadeira arte existe para corromper. Neste domínio, tornar-se corruptível é uma contradição nos termos. Todavia, os agentes corruptores, chamemos-lhe assim, raramente aparecem com a notinha na mão, o subsidiozinho aprovado, a referenciazinha à obrazinha no pasquinzinho, a promessazinha do lugarzinho xisbicodabota. A coisa faz-se pela visibilidade de empréstimo, o pequeno poder provinciano, o círculo territorial que ignora, entre dois arrotos e três palmadinhas nas costas, o que está à volta e realmente mexe. Note-se que, quando falo em círculo, refiro-me a reunião de interesses convergentes. Não a movimentos artísticos com forte cumplicidade pessoal e estética. Onde o silêncio é a norma e o compromisso a excepção útil.